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Dunga precisa parar de procurar a si próprio no elenco da Seleção

Ele está triste, e triste ele não ajuda à Seleção. Melhor voltar para casa. Assim terminou a participação de Neymar na Copa América, com o capitão dispensado da concentração por estar macambúzio com a suspensão de quatro jogos que recebeu. O jogador aceitou e talvez até tenha pedido por esse desfecho, mas o técnico Dunga não fez nada para mudar. Aliás, ele próprio disse após a vitória sobre a Venezuela que considerava essa decisão a melhor.

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Ficou uma sensação de que o treinador não se satisfez com o estilo de liderança de Neymar. Uma liderança muito mais pelo desempenho em campo do que pelas atitudes de comando, diga-se. Do mesmo jeito que Dunga também deu sinais de que não vê Thiago Silva como dono da tarja de capitão. Desde o Mundial, um ano atrás, o zagueiro não teve esse posto, e o capitão do Paris Saint-Germain mostrou que está chateado com a situação (ainda mais depois que seu parceiro de zaga, Miranda, assumiu o papel).

O técnico não está desprovido de razão ao ficar contrariado com Neymar e Thiago Silva. O atacante não teve frieza para lidar com as particularidades do jogo contra a Colômbia e murchou com a suspensão. Deveria ter tomado a iniciativa de se oferecer para ficar, de mostrar que tinha importância também fora do campo. Do mesmo jeito que o zagueiro do PSG mereceu as críticas recebidas por se isolar dos companheiros na disputa de pênaltis contra o Chile na Copa do Mundo.

Obs.: Se fôssemos fazer um caça às bruxas por 2014, David Luiz merecia muito mais uma reprimenda, pois teve péssimo desempenho como zagueiro e como capitão nos 7 a 1 da Alemanha. E quem perdeu a posição de titular com Dunga foi Thiago Silva.

A questão é que Dunga, em seu jeito impulsivo, deu declarações expondo os dois jogadores, a ponto de vários jornalistas colocarem em dúvida até o espírito de liderança de Thiago Silva e o comprometimento de Neymar. E o Brasil não pode se dar ao luxo de ter dois de seus principais jogadores (se é que não são os dois principais) sem moral diante do público e do elenco em si.

Uma das coisas que mais chamam a atenção da seleção brasileira pós-Copa do Mundo é a dificuldade de se impor diante dos adversários. Não é questão de vencer ou não, mas de ter uma atitude dominadora, de fazer o oponente entender que, do outro lado, está a equipe mais vitoriosa do futebol mundial. Muitos parecem aceitar com facilidade a ideia de o Brasil ser uma seleção “comum”.

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Neymar e Thiago Silva, com todos os seus problemas, entendem isso. O primeiro mostra isso ao chamar a responsabilidade para definir os jogos quando os companheiros se abstêm. Talvez sua falha como “líder técnico” seja atrair demais as atenções ao invés de usar seu talento para elevar o nível do resto do time (o que explica essa reportagem do UOL). O segundo pecou justamente por não conseguir lidar com o peso da responsabilidade de capitanear a Seleção em uma Copa casa, mas ele tinha plena noção de qual o tamanho da camisa que vestia.

Por isso, Dunga não deve enfraquecer suas duas lideranças mais claras. Precisa é ajudá-los a canalizar esse espírito de liderança para reerguer a Seleção como um todo. E ninguém é mais indicado para esse papel do que o atual técnico, que teve na liderança sua grande virtude como jogador. O volante soube redirecionar sua frustração por 1990 para motivar seus colegas em 1994. Só que ele não pode achar que todo capitão precisa ser como ele, e que o ressentimento é o único caminho para um grande líder. Pois, se procurar um no atual grupo, não achará nenhum.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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