A seleção brasileira e o desejo de sonhar
Dizem que futebol é um esporte, mas eu nunca acreditei. Sempre achei que fosse algo tão inexplicável e envolvente que dizer que era uma disputa entre dois times me pareceu muito raso. Como explicar o encanto por times que nunca tinha ouvido falar, só por um passe de letra, ou um golaço de fora da área, ou mesmo um carrinho que corta o atacante no último segundo? Mais do que isso: como explicar que pessoas deixem as suas casas para assistir um time que elas sabem que não é grande coisa e, mesmo assim, apoiar, gritar, mostrar toda a paixão por cores que estão sendo envergadas por jogadores que são no máximo esforçados?
Esporte pra mim é outra coisa. Futebol é uma vida inteira. Uma vida de sonhos. Sonhamos com lances, com gols, com defesas, com momentos. Conquistas. Não importa se a conquista foi evitar o rebaixamento para a terceira divisão na última rodada, uma vitória magnífica sobre o maior rival, mesmo com o time não brigando por nada na tabela, ou conquistar o título mundial. Futebol é maior do que uma disputa de quem faz mais gols. É alma, sentimento. Inclusive sonho. E todo apaixonado por futebol se permite sonhar em algum momento.
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Quando a seleção brasileira entra em campo, entra também uma história imensa. A seleção não é um time. Não há torcida organizada para a seleção (a brasileira, ao menos, já que muitas pelo mundo têm, sim, como a Argentina). Não é pela seleção que você torce toda semana, pela TV ou no estádio. Não há uma relação tão íntima, cotidiana, diária, mas, ao mesmo tempo, é o que une você e aquele seu amigo que nunca torcem juntos, porque são rivais no dia a dia. Carrega uma bandeira, uma bandeira que tem uma representatividade grande. O conceito de país, mesmo o de nação, é muito discutido em tempos atuais. Muito questionado, até. Mas ainda representa algo muito grande. Como não abrir um sorriso ao ver, do outro lado do mundo, em um país estranho que você nem sabe falar a língua, uma bandeira brasileira ou uma camisa da seleção?
No seu clube, há uma certa tolerância com o futebol menos bem jogado. Ganhar é muito importante, mesmo que sem jogar bem, ou bonito, ou mesmo sem ter um craque para chamar de seu. A seleção, bem, a seleção não é arroz com feijão. Não é a marmita que você leva ao trabalho todos os dias. Não é o pão com ovo que salva uma noite de preguiça de fazer janta. Seleção brasileira é uma lasanha caprichada, um churrasco daqueles com amigos e cerveja, é ir ao seu restaurante favorito. Você quer mais do que o dia a dia, o cotidiano, o acordar cedo para trabalhar. Você se permite sonhar. Ainda mais quando já fomos servidos de banquetes incríveis em uma história tão cheia de sonhos que se tornaram reais.
Pense mesmo na Copa de 1994, aquela que às vezes é criticada pelo pragmatismo. Mesmo naquela seleção havia um gênio, Romário, capaz de nos fazer sonhar com golaços como aquele nas quartas de final contra a Holanda ou um gol de cabeça contra os gigantes da Suécia na semifinal. E olha que não estou falando de nostalgia de seleções como a de 1958, cheia de inovações táticas e craques, ou a de 1970, a do tri, que encantou o mundo todo. Nem mesmo da de 1982, que suscitou tantos sonhos. Podemos falar do time da Copa América de 1997, com Romário e Ronaldo no ataque, ou mesmo a da Copa do Mundo de 2002, que mesmo sem ser brilhante, trazia o sonho em lances de Rivaldo e Ronaldo e nas defesas santas de Marcos. Ou mesmo da Copa das Confederações de 2005, com Ronaldinho, Kaká, Robinho e Adriano.
Futebol é sonho também. Seleção brasileira é mais ainda. Ganhar é bom e faz bem, mas ganhar de qualquer jeito, quando é o futebol da seleção, não é suficiente. Porque é como ir ao seu restaurante favorito comer um pão com ovo, mesmo adorando pão com ovo. Você espera um pouco mais que isso. Espera que deixe uma boa memória, que te faça lembrar com um sorriso no rosto. Pão com ovo tem o seu valor e pode ser inesquecível e incrível também. A seleção só não pode se conformar em ser só isso, quando tem jogadores, recursos, enfim, potencial para ser muito mais. Ao menos, pra ser o melhor pão com ovo do mundo.
A seleção brasileira de Dunga não permite o sonho. É um time que busca o pragmatismo, com jogadores que parecem amarrados em suas posições. É um time pouco imaginativo. É difícil atribuir isso só aos jogadores. Estes mesmos jogadores conseguem brilhar em seus clubes, como Philippe Coutinho e Willian, talvez os dois principais jogadores do time. Atribuir isso a uma pecha de “jogadores de clubes” parece uma explicação… Pragmática. Como o time. Não parece tentar ir além dos clichês, do pensamento pronto. É exatamente o que CBF, Dunga e todos esperam: que a culpa seja da ausência de Neymar, da geração ruim, dos jogadores que são de clubes.
É preciso sonhar. É preciso que o time queira jogar melhor. É preciso ser menos pragmático. A seleção sub-20, comandada por Rogério Micale, perdeu a final do Mundial da categoria para a Sérvia. Perdeu, mas jogou muito bem, com um futebol atraente, interessante e ofensivo. Ser ofensivo, para um país que tem tradição de jogadores habilidosos. Mesmo com a derrota, o time mostrou uma postura diferente do time de Dunga.
Não que Dunga não seja bom técnico e não saiba montar times vencedores. A trajetória para a Copa de 2010 mostra que sim, ele sabe montar bons times que podem competir por títulos. Em 2010, a seleção foi eliminada por todos os problemas que se apontava nela antes, falta de banco de reservas, falta de alternativa de jogo, falta de postura em campo, destempero de alguns jogadores. A seleção de Dunga não era imaginativa, criativa ou sonhadora, mas era capaz de vencer a Espanha, que acabou campeã. A derrota do Brasil sub-20 deixou triste porque o time mostrou merecer um resultado melhor, jogou melhor que o adversário, assumiu uma postura ofensiva e ousada diante de um adversário forte.

Talvez o técnico da seleção principal criticasse o time sub-20 porque tomou um gol de contra-ataque aos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação. Mas perder como o Brasil perdeu para a Sérvia, propondo o jogo, tentando, até o último minuto, o gol da vitória ao invés de se contentar com o burocrático empate que levaria aos pênaltis, é melhor ou pior do que perder como o Brasil perdeu da Colômbia, sem criar nada, sem mostrar nada que se salvasse?
Pior ainda é criar uma falsa dicotomia entre ganhar feio ou perder jogando bem, algo que não existe. Já vimos muitos times ganharem jogando bem e outros tantos perderem jogando feio. Não há essa dicotomia e não há garantia de sucesso com fórmula nenhuma. Times ofensivos que encantaram o mundo já caíram diante de times pragmáticos. Como times pragmáticos já caíram diante de esquadrões ofensivos. Há de se escolher um caminho. Esta é uma questão.
Mais ainda: é melhor perder como o time sub-20 perdeu a final ou ganhar como o Brasil ganhou da Venezuela, tomando um sufoco danado no final porque o técnico colocou todos os zagueiros do elenco em campo contra uma das piores seleções sul-americanas? Eu prefiro sonhar. A seleção sub-20 fez sonhar, mesmo com uma campanha que passou por maus bocados, como os duros jogos contra o Uruguai, quando dominou, mas só venceu nos pênaltis, ou contra Portugal, quando foi dominado, mas também venceu nas penalidades. O sub-20 jogou um futebol para sonhar mais alto. A seleção principal no máximo nos faz querer acordar de um pesadelo.



