Como a Copa do Mundo pode ensinar lição importante ao Brasileirão para coibir a cera
Medidas adotadas no Mundial surtiram efeito para acelerar reposições, mas não foram suficientes para aumentar o tempo efetivo de jogo
O futebol brasileiro ganhou nesta segunda-feira (10) um novo capítulo na tentativa de reduzir a cera e aumentar o tempo de bola rolando. A CBF aprovou mudanças que passam a valer já na próxima rodada do Brasileirão, com punições mais duras para atrasos em tiros de meta, laterais e reposições do goleiro, além de medidas para acelerar substituições e atendimentos médicos.
A ideia não é nova, mas ganhou um laboratório particularmente interessante poucos meses antes: a Copa do Mundo 2026.
O Mundial mostrou que atacar diretamente os segundos desperdiçados nas reposições funciona. Em situações de jogo apertado, especialmente quando uma equipe estava em vantagem, os reinícios ficaram significativamente mais rápidos.
Tiros de meta, por exemplo, passaram de cerca de 22 segundos na Copa de 2022 para 12 segundos em 2026. Nos laterais, a queda foi de 11 para seis segundos; nas faltas, de dez para sete; e na reposição do goleiro após uma defesa com as mãos, de dez para quatro.
O problema é que a redução da cera não se transformou, na mesma proporção, em mais futebol para o torcedor. Um levantamento da “Folha de S.Paulo” com dados da “Opta” mostrou que a Copa teve, em média, 33,4 minutos de bola parada por partida — sem considerar a pausa para hidratação —, contra 37,7 minutos em 2022.
Foram 4,3 minutos de economia. Ainda assim, o tempo de bola rolando praticamente não mudou: 63,2 minutos no Mundial deste ano, contra 63,7 quatro anos atrás. É justamente aí que o Brasileirão pode encontrar uma oportunidade.
A Copa reduziu a cera — mas não conseguiu transformar tudo em jogo
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O resultado da Copa não deve ser lido como um fracasso das medidas anticera. Pelo contrário. Os números indicam que os jogadores passaram a acelerar determinadas ações quando perceberam que o árbitro estava disposto a controlar o relógio com mais rigor. O que não funcionou integralmente foi a segunda parte da equação: devolver ao jogo todo o tempo que havia sido perdido.
A análise da “Folha” encontrou uma diferença importante nesse aspecto. Em uma partida em que 11 minutos foram consumidos com cera no segundo tempo, por exemplo, o tempo efetivamente desaparecido era de apenas 2,2 minutos na Copa de 2022. Em 2026, essa perda subiu para 4,7 minutos. Ou seja, mesmo com as reposições mais rápidas, a arbitragem não recompôs integralmente o tempo que deixou de ser jogado.
Houve ainda um fator específico do Mundial: as pausas obrigatórias para hidratação. Elas representaram, em média, 6,2 minutos por partida. A conta, portanto, ficou desfavorável: a Copa economizou cerca de quatro minutos com a redução da cera, mas acrescentou pouco mais de seis minutos de bola parada com as hidratações.
Essa é uma diferença relevante quando a experiência é transportada para o futebol brasileiro. O Brasileirão não reproduz a estrutura de paralisações obrigatórias do Mundial. As pausas para hidratação, que chegaram a ser obrigatórias no campeonato nacional no início de 2026, passaram a ser opcionais — dependendo de critérios térmicos locais e/ou bom senso da arbitragem — depois de março. No Mundial, por outro lado, a Fifa determinou duas pausas obrigatórias por jogo.
É nesse ponto que a experiência internacional deixa de ser somente uma curiosidade e passa a oferecer uma pista para a competição nacional: se a redução da cera vier acompanhada de uma reposição mais rigorosa do tempo perdido, sem acrescentar novas interrupções ao jogo, o Brasileirão tem condições de capturar uma parcela maior do ganho obtido pelas novas regras.
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Brasileirão tem um problema maior para atacar
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O tamanho do desafio aparece quando se compara o ponto de partida. Segundo estudo da “Opta”, os jogos da Série A do Campeonato Brasileiro em 2026 tinham média de 52 minutos e 54 segundos de bola rolando. O número ficava abaixo das cinco principais ligas europeias citadas no levantamento.
Não é possível simplesmente comparar esse número com os 63,2 minutos registrados na Copa e concluir que o Brasileirão precisa “buscar” exatamente essa marca. São torneios com contextos, formatos, arbitragem e acréscimos diferentes. Mas a distância é grande o suficiente para indicar que existe espaço para atacar desperdícios sem precisar alterar a essência do jogo.
E as medidas aprovadas pela CBF miram justamente comportamentos que se repetem durante uma partida. O goleiro terá oito segundos para permanecer com a bola nas mãos; ultrapassado o limite, a punição passa a ser escanteio para o adversário. No lateral, o árbitro poderá iniciar uma contagem de cinco segundos quando identificar uma tentativa deliberada de retardar a cobrança. O mesmo limite será utilizado nos tiros de meta, com escanteio como punição.
A escolha das punições também é importante. Trocar um tiro livre indireto por um escanteio torna a consequência mais concreta e potencialmente mais incômoda para quem tenta ganhar segundos. O mesmo vale para a reversão de um lateral.
Não se trata apenas de estabelecer um relógio: é necessário criar um custo esportivo para quem decidir ignorá-lo.
A CBF também mexeu em outros pontos que podem reduzir pequenas interrupções acumuladas ao longo do jogo. Um jogador substituído terá dez segundos para deixar o campo pelo ponto mais próximo da linha lateral, enquanto um atleta que precisar de atendimento médico em determinadas situações terá de permanecer fora por um minuto após o reinício. No caso de atendimento ao goleiro, um jogador de linha da equipe também deverá cumprir um minuto fora.
O verdadeiro teste será a aplicação, não o texto da regra
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É aqui que a experiência da Copa oferece talvez sua principal lição ao Brasileirão. A existência da regra, por si só, não resolve o problema.
O Mundial mostrou que os jogadores respondem quando percebem que o árbitro efetivamente controla o tempo das reposições. A queda nos segundos gastos em tiros de meta e laterais é evidência disso. Mas também mostrou que a fiscalização precisa ser acompanhada de uma reposição coerente do tempo perdido.
No Brasil, portanto, o impacto das novas medidas dependerá menos da novidade dos números — cinco, oito ou dez segundos — e mais da consistência com que eles serão aplicados. Se o árbitro fizer a contagem apenas de maneira esporádica, a regra rapidamente pode virar mais uma orientação assimilada pelos jogadores sem alterar seus hábitos. Se houver padrão entre as equipes e entre as diferentes arbitragens, o comportamento tende a mudar.
O cenário brasileiro ainda tem uma vantagem em relação ao Mundial: não há a necessidade de compensar a redução da cera com os minutos consumidos pelas pausas obrigatórias de hidratação. A CBF, portanto, não precisa esperar que todo segundo economizado vire automaticamente bola rolando. Precisa, primeiro, impedir que ele desapareça novamente.
A Copa de 2026 deixou uma conclusão curiosa: é possível diminuir a cera sem aumentar o tempo efetivo de jogo na mesma proporção. O Brasileirão agora tem a chance de testar a etapa seguinte. Se a arbitragem conseguir combinar punição real aos atrasos com reposição mais fiel do tempo perdido, a experiência do Mundial pode ganhar uma versão mais eficiente no futebol brasileiro. A conferir se dará certo.