Futebol brasileiro

Cinco anos depois: Como Brasil não capitalizou geração de ouro olímpico em cima da Espanha campeã mundial

Aquela final contra a Espanha ganhou outra dimensão: enquanto os espanhóis preservaram boa parte daquela geração, o Brasil viu vários talentos tomarem caminhos muito diferentes e poucos chegaram ao auge esperado

Cinco anos podem parecer pouco no futebol. Para uma geração de jogadores, porém, é tempo suficiente para transformar promessas em estrelas e uma seleção de jovens em uma equipe capaz de disputar e ganhar os maiores títulos do mundo. Há cinco anos, o Brasil venceu o ouro olímpico contra a Espanha e inverteu essa história.

Em 7 de agosto de 2021, Brasil e Espanha fizeram uma decisão em que a Seleção venceu por 2 a 1 na prorrogação, com gols de Matheus Cunha e Malcom, depois de Mikel Oyarzabal abrir o placar para os espanhóis.

Naquela tarde em Yokohama, estavam em campo ou no banco jogadores como Pedri, Dani Olmo, Mikel Oyarzabal, Unai Simón, Eric Garcia, Marc Cucurella, Martín Zubimendi e Mikel Merino pelo lado espanhol. Todos viriam a ser campeões da Copa do Mundo em 2026, assim como o técnico Luis de la Fuente. O time de André Jardine, no entanto, pouco foi aproveitado.

Brasil e Espanha em uma final que antecipou o futuro do futebol

Do lado brasileiro, apenas três jogadores do elenco campeão olímpico estiveram na Copa de 2026: Bruno Guimarães, Matheus Cunha e Martinelli. A própria CBF mostra como aquele projeto tinha produzido uma quantidade impressionante de jogadores de alto nível: 22 atletas do ciclo olímpico chegaram a ser convocados para a seleção principal durante o processo. 

É aí que a medalha de ouro de Tóquio deixa de ser apenas uma lembrança esportiva e passa a ser uma oportunidade perdida. Jardine havia acompanhado aquela geração desde 2019, começando pelo Torneio de Toulon e passando por diferentes etapas de preparação. Ao todo, 71 jogadores foram observados durante o processo até a definição do grupo olímpico. O Brasil terminou o ciclo com 20 vitórias em 29 partidas, 67 gols marcados e apenas 25 sofridos. 

Jardine comandou o Brasil no ouro olímpico
Jardine comandou o Brasil no ouro olímpico (Foto: IMAGO / Aleksandar Djorovic)

Bruno Guimarães e Douglas Luiz ofereciam força e qualidade na construção pelo meio. Claudinho funcionava como articulador entre as linhas. Antony e Martinelli davam velocidade pelos lados. Matheus Cunha podia atuar como referência ou recuar para participar da construção. Richarlison acrescentava agressividade, pressão e presença na área.

A Espanha, por sua vez, tinha um grupo que ainda estava começando a construir sua identidade. Pedri era o fenômeno de 18 anos que já havia disputado a Eurocopa. Olmo começava a se estabelecer como uma referência ofensiva. Oyarzabal já tinha experiência pela seleção principal. Zubimendi, Merino, Cucurella e Unai Simón completavam uma estrutura que seria preservada nos anos seguintes.

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Espanha consolidou o projeto que o Brasil não conseguiu

O dado mais impressionante está justamente na continuidade. Dos jogadores espanhóis presentes em Tóquio, oito chegaram à Copa do Mundo de 2026. E não chegaram como meros sobreviventes de uma geração antiga.

Pedri virou um dos principais meio-campistas do mundo e Dani Olmo tornou-se protagonista ofensivo. Cucurella ganhou espaço até ser titular na campanha do título europeu de 2024. Oyarzabal, autor do gol do título da Euro, continuou como peça importante. Unai Simón foi titular na Copa do Mundo.

O caminho brasileiro foi muito mais irregular. Antony, por exemplo, parecia destinado a ser uma das grandes estrelas brasileiras quando deixou o Ajax para o Manchester United. A trajetória inglesa, porém, não correspondeu às expectativas e ele acabou buscando reconstrução da carreira longe de Old Trafford.

De la Fuente comandou a Espanha no vice olímpico e no título da Copa do Mundo de 2026 (Foto: IMAGO / Nicolo Campo)

Claudinho, um dos jogadores mais talentosos tecnicamente daquela geração, deixou o futebol brasileiro para atuar no Zenit e sumiu do mapa da Seleção. Reinier, contratado pelo Real Madrid depois de se destacar no Flamengo, enfrentou uma sequência de empréstimos e dificuldades para encontrar estabilidade no futebol europeu.

Malcom construiu uma carreira internacional relevante, mas acabou deixando o futebol europeu relativamente cedo para atuar no Al-Hilal. Matheus Henrique sequer se consolidou na Europa. Não significa que esses jogadores tenham fracassado, uma vez que alguns tiveram carreiras muito boas.  A questão é que poucos chegaram perto do teto que aquela geração parecia possuir.

O Brasil ganhou a final, a Espanha garantiu o futuro

Quando Luis de la Fuente assumiu a seleção principal, havia uma ponte natural entre as categorias de base e a equipe adulta. O treinador já conhecia vários daqueles jogadores desde os níveis inferiores e manteve uma estrutura que atravessou diferentes gerações. Na final da Euro 2024 contra a Inglaterra, a Espanha começou com Unai Simón, Cucurella, Rodri, Dani Olmo e Lamine Yamal, enquanto Oyarzabal entrou no segundo tempo e marcou o gol do título. Zubimendi também participou da partida. 

Dois anos depois, essa espinha dorsal continuava na Copa do Mundo. A seleção espanhola não precisou começar do zero a cada ciclo, ela simplesmente adicionou jogadores. E por isso o problema brasileiro não foi apenas a falta de talento, mas de estabilidade.

Entre Tite, Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti, o ciclo entre Tóquio e 2026 teve diferentes ideias, treinadores e prioridades. O Brasil não conseguiu estabelecer uma linha suficientemente clara de desenvolvimento entre a seleção olímpica e a principal.

Uma seleção tem pouco tempo para trabalhar. Por isso, quanto mais jogadores chegam à equipe adulta já familiarizados com determinadas ideias, mais fácil é construir uma equipe competitiva. A Espanha teve justamente isso.

Bruno Guimarães em Brasil x Noruega
Bruno Guimarães em Brasil x Noruega (Foto: IMAGO / APL)

Pedri, Olmo e Cucurella não precisaram aprender a ser jogadores da seleção espanhola aos 25 anos, foram incorporados progressivamente ao projeto. O Brasil tinha uma quantidade similar de jogadores que poderiam ter formado uma base, mas eles foram entrando e saindo.

Em 2021, o Brasil estava acima. Jardine, inclusive, acredita que aquela partida demonstrou a capacidade brasileira de competir de igual para igual com uma geração que posteriormente dominaria o futebol internacional.

“A Espanha cuida muito bem da bola e é muito difícil de pressionar. Naquela final, acho que conseguimos submeter a Espanha muitas vezes a fazer aquilo que eles não gostam, que é se defender“, disse o treinador.

Cinco anos depois, porém, a Espanha parece ter vencido outra disputa. Não existe uma fórmula que garanta que uma geração olímpica chegará inteira à seleção principal — jogadores evoluem em velocidades diferentes, sofrem lesões, fazem escolhas de carreira. Mas é possível construir um ambiente que aumente as chances de isso acontecer.

A geração de Bruno Guimarães, Martinelli, Matheus Cunha e companhia não recebeu a mesma oportunidade de amadurecer coletivamente na seleção principal. Alguns deles chegaram, mas poucos permaneceram.

Jardine, por sua vez, não trata a diferença como uma questão de talento. Pelo contrário: acredita que o Brasil continua produzindo jogadores capazes de competir no mais alto nível. O problema está no processo.

“O Brasil precisa de um ciclo muito mais seguro e estável. Essa geração é muito boa e tem condição de enfrentar as grandes seleções de igual para igual.”

E então vem a comparação incômoda, em tom de alerta para o futuro:

“Quando olho para essa Espanha, que é muito talentosa, sinceramente acho que o Brasil tem condições de montar uma seleção do mesmo nível para competir com ela ou com a Argentina. Os processos realmente precisam ser muito bem feitos.”

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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