Futebol brasileiro

Pós-Copa do Mundo expõe problemas que impedem crescimento interno do futebol brasileiro

Nível ruim dos jogos nem é o pior dos transtornos que afastam o público mais casual do futebol de clubes no Brasil

Toda Copa do Mundo é sucedida por uma espécie de “depressão” quando recomeçam os jogos do futebol brasileiro, isso é perfeitamente normal e faz parte da injeção na vida de acontecimentos que marcam a maior competição futebolística do planeta. Lembro que já lia sobre isso quando era criança nas edições de julho e agosto da Placar pós-Copa. 

Mas, em 2026, o futebol brasileiro caprichou em deixar amplamente expostos os motivos pelos quais ainda é muito difícil pensar em furar a bolha mais vezes, não a um ponto parecido com o que a Copa faz, mas pelo menos aumentar o interesse da população brasileira. 

O dia a dia do nosso futebol, como já pontuamos certa vez no “Futebol em Contexto”, aqui na Trivela, com Tim Vickery, é totalmente feito para quem é fanático. Nós expulsamos frequentemente o público mais casual. Nunca aproveitamos o hype criado pela Copa do Mundo, pois assim que ela termina, são despejados os velhos problemas de sempre.

O nível do futebol brasileiro, que foi o ponto mais discutido após um fim de semana bem ruim de Copa do Brasil, que teve quatro empates sem gols em sete jogos disputados, é um dos fatores que contribuem para isso, mas não é o único e talvez sequer o principal. Seria assumir que o público se interessa porque a Copa do Mundo só teve grandes exibições de técnica e categoria em todas as suas 104 partidas, o que não é verdade. 

O futebol de clubes do Brasil tem várias questões que parecem bobas aos olhos de quem não é tão fanatizado. São papos que se resumem basicamente a reclamar de arbitragem a cada rodada do Brasileirão, o questionamento e a gritaria de que o time de todo mundo está sempre sendo prejudicado, desde as marcações de impedimento “no olho” ao sistema semiautomático, passando pelas linhas manuais já ultrapassadas do VAR, e com menção honrosa ao dia pré-VAR em que até o sistema tira-teima da televisão rendeu discussões acaloradas porque cada canal viu um lance de gol de um jeito diferente. 

Polêmicas de arbitragem fazem parte do futebol no mundo todo, que o diga a Copa do Mundo de 1966, que a gente discute até hoje se a Inglaterra ganhou com ajuda ou não no famoso gol marcado na prorrogação contra a Alemanha Ocidental, que para muitos não deveria ter sido validado porque a bola não teria entrado claramente na meta adversária.

Clubes do futebol brasileiro gritam, mas alguém quer ouvir?

Mas o que se vê no Brasil de hoje é uma gritaria surda. Só se quer falar, ninguém quer ouvir. Dirigentes, treinadores, jogadores, imprensa e influenciadores se aproveitam muito desse clima para faturar de alguma forma, seja com desvio de atenção de outros problemas, seja com audiência e engajamento. 

Alguém brincou que os últimos dias no futebol brasileiro tiveram mais notas oficiais de clubes reclamando de arbitragem do que bolas nas redes durante os jogos. No sábado, isso de fato aconteceu. Foram três jogos e nenhum gol na Copa do Brasil. E uma nota do Flamengo reclamando de decisões da arbitragem a favor do Palmeiras, outra nota do Vitória parabenizando o STJD por denunciar o jogador Maurício por uma cotovelada no jogo entre o clube baiano e o time alviverde na semana passada. 

Palmeiras e Vitória ficou marcado por questões sobre a arbitragem (Foto: IMAGO / Pera Photo Press)
Palmeiras e Vitória ficou marcado por questões sobre a arbitragem (Foto: IMAGO / Pera Photo Press)

Nem entro no mérito deste caso específico, afinal, o Palmeiras também se especializou em reclamar de arbitragem, o técnico Abel Ferreira coleciona cartões por reclamações, e tudo isso contribui muito para esse clima. 

É só conversar com qualquer pessoa que não seja fanatizada pelo futebol do dia a dia. Ela provavelmente acha tudo isso bobo. Além de ter dificuldades para acompanhar um pouco mais no dia a dia por causa da pulverização de plataformas e horários das competições em um calendário tomado pela modalidade como se fosse um polvo, dos ingressos cada vez mais caros e dos estádios elitizados. 

Quase chegamos ao ponto de oficializar jogos de segunda a segunda no futebol de elite neste país — e olhe que em algumas semanas do ano isso acontece. Além de espalhar os jogos em diversos horários, deixando a sensação no ar de que nunca ficamos sem futebol. Os fanáticos, repito, adoram. E estão no seu papel. Mas como crescer? 

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Pesquisa levanta outra questão importante sobre o futebol brasileiro

No fim de semana, além de poucos gols e muita reclamação, tivemos também a divulgação de uma nova pesquisa Datafolha sobre torcidas de futebol. É claro que o público mais fanático transformou isso em mais uma discussão sobre metodologia, brigas sobre quem tem realmente mais torcida entre rivais estaduais, e por aí vai. 

Mas o dado mais interessante foi pouco discutido e nada tem a ver com Flamengo, Corinthians, Palmeiras, times do Sul, de Minas, etc. A pesquisa mostrou que quase 64% dos brasileiros se interessam por futebol. Uma fatia relevante da população, 36%, declarou não ter qualquer interesse pela modalidade. 

Os que se interessam se dividem em dois grupos: apenas 28% se dizem muito interessados, enquanto 35% da população afirma ter “um pouco de interesse”. Ou seja, menos de um terço do país é realmente fanático por futebol. E é apenas para este público que estamos fazendo futebol. 

Temos jogos repletos de paralisações, ceras, simulações, reclamações, montinhos de jogadores em cima da arbitragem a cada lance polêmico, árbitros com critérios pouco definidos, discussões sem a menor profundidade nas redes sociais, materiais caça-cliques na imprensa, alguns jornalistas agindo como influenciadores e alguns influenciadores agindo como generais de guerra digital em nome da defesa de seus clubes contra os rivais — e muitas vezes contra os fatos. E quem se atreve a criticar isso é logo atacado pelos mesmos que sustentam e se beneficiam desse ecossistema. 

Não se critica o que não se busca melhorar. Em 1998, logo após a Copa daquele ano, que teve o Brasil vice-campeão, a revista Placar trouxe uma série de problemas que o futebol brasileiro precisava resolver. 

Alguns deles eram a venda de ingressos de forma arcaica em bilheterias com filas imensas e debaixo de sol, a entrada sem critério, sem credenciamento prévio e sem limite de imprensa nos estádios ocupando espaços dos torcedores, a ausência de lugares numerados nas arquibancadas, as entradas e saídas estreitas que atrapalhavam o fluxo das torcidas. É inegável que isso tudo melhorou. Por que não começar a melhorar agora as questões que enfrentamos em 2026?

Antes de o próximo engravatado levantar a mão para falar em internacionalizar a marca, os clubes e o Brasileirão, seria bom fazer um trabalho para entender o que podemos corrigir, tanto no ponto de vista do negócio (ingressos, transmissões, etc), quanto do ponto de vista do produto (imagem, clima amistoso ou não para atrair novos públicos), para ampliar o interesse dentro do nosso próprio mercado. 

Em um país de mais de 210 milhões de habitantes, parece pouco se contentar com apenas 28% de “muito interessados” e não fazer nada para entender os 35% que poderiam se interessar mais, ou a fatia que sequer se interessa. Consegue imaginar qualquer empresa ou marca que pretenda ser popular e de massa se contentando em ter apenas um terço da população? O futebol brasileiro claramente não tem mais essa intenção de ser de massa. Mas deveria.

Foto de Allan Simon

Allan SimonColaborador

Jornalista e criador de conteúdo. Canal de mídia esportiva no YouTube com +164 mil inscritos, e de história do futebol com +25 mil

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