Brasil

Cobrança sobre jogador de 17 anos mostra importância da psicologia no futebol

Promessa do Vasco, o atacante Rayan foi duramente -- e injustamente -- cobrado por torcedores durante um protesto nesta semana

Em meio aos protestos da torcida do Vasco pelo mau momento do time no Campeonato Brasileiro, na última quarta-feira (5), no CT Moacyr Barbosa, uma cena chamou a atenção. Acuado no banco de passageiro do carro — afinal, ele nem tem idade para dirigir –, o atacante Rayan, de 17 anos, foi duramente criticado e cobrado por um grupo de torcedores.

— Você é o mais frouxo desse elenco. Tem 17 anos, joga desde a base e entra com preguiça. Você não marca ninguém, fica lá na frente parado. Você não correu. É uma vergonha. Tem 17 anos — disse um dos torcedores ao garoto Rayan.

Como bem frisou o próprio torcedor, Rayan tem 17 anos e está no seu segundo ano no futebol profissional — o primeiro começando desde a pré-temporada. Ainda assim, ele já chegou a atuar pelo time sub-20 em 2024.

Neste Campeonato Brasileiro, o garoto tem cinco jogos, sendo apenas dois como titular — um deles, a goleada histórica para o Flamengo, no último domingo.

Considerado a primeira promessa da base do Vasco neste momento, Rayan tem uma multa rescisória avaliada em € 80 milhões (R$ 456 milhões, na cotação atual) e gera expectativa a torcida desde o sub-15.

Essa esperança, é claro, também leva a cobrança. Mas seria justo este tipo de cobrança a um garoto de 17 anos? A Trivela conversou com especialistas para entender como isso pode afetar o desenvolvimento de um jovem jogador.

— Um jogador de 17 anos ainda está passando pelo período da adolescência, que é um período, dentro da área do desenvolvimento, muito importante em termos de adaptação ao mundo, as suas demandas, tanto na parte social, afetiva, psicológica e física também, ainda em desenvolvimento. O que me preocupa em casos como esse é que normalmente jogadores da base abdicaram da vivência de períodos do desenvolvimento que são muito importantes, que são a infância e a pré-adolescência — afirmou João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte.

— Eles ficam muito frágeis diante das exposições naturais do mundo. Essa eu não coloco como uma exposição natural. Na minha visão, é uma super exposição profissional. E, com 17 anos, os mecanismos internos de defesa são muito frágeis. Não raro a gente vê atletas que saem da base, chegam no profissional, e param. Têm uma dificuldade enorme no processo de adaptação. A torcida cobra como se fosse um jogador já com consistência da categoria profissional. E ele está recém chegando – completou Cozac.

Cobrança pode atrapalhar desempenho do jogador

Além da Rayan, outros jogadores como Puma Rodríguez, Adson, Paulo Henrique, Maicon, Léo e Galdames também foram alvos do último protesto dos torcedores do Vasco no CT Moacyr Barbosa. Mas, se o objetivo da manifestação é tentar fazer o time sair da crise, o resultado pode ser bem diferente.

Para Ana Paula Pinho, especialista em psicologia esportiva, este tipo de cobrança pode ter um efeito contrário nos atletas.

— Infelizmente, nos deparamos com jogadores sofrendo ataques em relação ao seu desempenho ou de seu time por torcedores. Atitudes como esta muitas vezes podem impactar de forma negativa a atuação profissional do atleta, influenciando na sua autoestima, na sua percepção e motivação – disse Ana Paula Pinho.

— É fundamental que estejam preparados e fortalecidos também emocionalmente para lidarem com as críticas (muitas vezes desrespeitosas) e até mesmo com os elogios vindos de torcedores, que também estão imersos em suas emoções — completou a especialista.

Clube deve dar apoio aos jogadores

Para os especialistas, os clubes devem estar atentos à questão da saúde mental dos jogadores. Como a Trivela mostrou, na última temporada apenas metade dos times do Campeonato Brasileiro tinham psicólogos nos respectivos departamentos de futebol.

— É importante haver um trabalho sério e comprometido, por parte dos clubes, visando a manutenção da saúde mental de seus atletas, a qualidade de vida e o seu desenvolvimento, visto que são seres humanos em ação esportiva. Também é extremamente importante que este trabalho comece na base, dando o suporte nas fases de formação destes atletas — afirmou Ana Paula Pinho.

Para João Ricardo Cozac, o Vasco deve pensar em maneiras de blindar o elenco em momentos de crise com a que o clube passa no Campeonato Brasileiro, ainda mais se tratando dos jovens jogadores do grupo.

— Acredito que o Vasco vai precisar pensar em como blindar os jogadores nessa situação e como trabalhar a parte psicológica da forma como se deve trabalhar. Vejo com extrema preocupação essa exposição de um adolescente de 17 anos que anda está estruturando a sua própria identidade para uma boa e saudável adaptação diante das demandas do mundo e do futebol – afirmou Cozac.

Vasco tem núcleo especializado

Pensando na saúde mental dos seus jogadores, o Vasco possui o Núcleo de Psicoterapia Integrada. O grupo, que faz parte do Departamento de Saúde e Performance (DEPS), visa olhar o atleta de forma integral, com abordagens psicoterapeutas, psicoterápicas e comportamentais.

O Cruz-Maltino foi o primeiro clube a ter um núcleo do tipo no Brasil. O Núcleo de Psicoterapia Integrada atende jogadores do sub-6 até os profissionais do Vasco.

Foto de Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues

Jornalista formado pela UFF e com passagens, como repórter e editor, pelo LANCE!, Esporte News Mundo e Jogada10. Já trabalhou na cobertura de duas finais de Libertadores in loco. Na Trivela, é setorista do Vasco e do Botafogo.
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