No centenário da Resposta Histórica, Vasco reforça luta contra o preconceito
Há 100 anos, Vasco defendeu seus jogadores negros e operários em carta que virou um marco da história do clube e do futebol brasileiro
Em meio a taças, troféus, medalhas, chuteiras e camisas, um documento se destaca entre os itens históricos que fazem parte do Centro de Memória do Vasco. Neste 7 de abril, a carta, que ficou conhecida como “Resposta Histórica”, fez do clube o protagonista da “história mais bonita do futebol” e revolucionou o esporte carioca e brasileiro, completa 100 anos. E o Cruz-Maltino aproveitou o centenário deste importante episódio para reforçar a sua história de lutas por causas sociais, principalmente contra o racismo.
Em 1924, um ano após ter conquistado o seu primeiro Campeonato Carioca, com o time que ficou conhecido como “Camisas Negras”, o Vasco se levantou contra exigências elitistas e racistas da Associação Metropolitana dos Esportes Athleticos (AMEA), que pretendia manter o poder de seus clubes fundadores: América, Bangu, Botafogo, Flamengo e Fluminense. A organização convidou o Cruz-Maltino, mas impôs uma exigência que excluiria 12 jogadores do clube por estarem “em desacordo com os padrões morais necessários para a prática do futebol”. A AMEA, por exemplo, proibia que analfabetos, homens que faziam trabalhos braçais ou que tinham “emprego subalterno”, e desempregados fossem inscritos como jogadores.
Trecho importantíssimo do estatuto da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos, a 𝗔𝗠𝗘𝗔.
Nele, os dirigentes à época proibiam de serem inscritos aqueles não sabiam ler e escrever, trabalhadores braçais, os sem empregos certos e quem tinha, por eles, consideradas… pic.twitter.com/1wAc35yc1d
— NewsColina (@newscolina) April 7, 2024
O Vasco recusou o convite e, em ofício assinado pelo então presidente José Augusto Prestes, disse que não abandonaria os seus jogadores. Com a carta, além de defender os seus jogadores, ainda que também por interesses esportivos, Vasco se colocou como oposição aos clubes fundadores da AMEA. A “Respostas Histórica”, então, virou um marco da luta do clube contra a discriminação social e racial. 100 anos depois, com o slogan “Coragem para lutar”, o Vasco reforça a sua luta por respeito, igualdade e inclusão. E valoriza ainda mais, com razão, a sua importância na história do futebol brasileiro.
Vasco reforça lutas por causas sociais
Em meio a muitas ações realizadas pelo Vasco nesta semana, como a coleção de camisas lançadas pela associação em parceria com a Chico Rei e a abertura de uma exposição sobre os Camisas Negras e a Resposta Histórica, o Vasco lançou, neste domingo (7), uma importante e bonita nota sobre o centenário deste documento histórico.
CORAGEM PRA LUTAR. ✊🏿💢#CoragemPraLutar#CentenárioRespostaHistórica#VascoDaGama pic.twitter.com/3KNS3ToWJr
— Vasco da Gama (@VascodaGama) April 7, 2024
Confira a nota do Vasco sobre a Resposta Histórica
7 de abril de 1924. Esta data não só revolucionou a história do Vasco da Gama, como também a história do futebol mundial e da sociedade. Neste dia em questão, o Cruzmaltino reforçou toda a natureza do seu gigantismo e optou por seguir o caminho mais difícil: lutar pelo que sempre acreditou. Prontamente contra às exigências da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA) de exclusão dos atletas em desacordo com os “padrões morais” do futebol da época, por serem negros; pardos e de origens populares, o Vasco enviou a Resposta Histórica para a associação. No documento, o Clube se recusou a excluir seus atletas e comunicou que desistiria de fazer parte da nova liga, que tinha estabelecido tais condições após o título invicto conquistado pelos Camisas Negras em 1923.
100 anos depois, o preconceito ainda continua entre nós. E o Vasco da Gama reafirma a sua identidade, assumindo o compromisso contínuo de lutar contra e combater de frente todas as mazelas sociais. Buscando incessantemente Respeito, Igualdade e Inclusão. Para que, aonde quer que a Cruz de Malta esteja representada, esteja ali o símbolo de quem tem CORAGEM PRA LUTAR. Este registro celebra a memória daqueles que lutaram bravamente para que negros e operários pudessem jogar futebol, e perpetua o legado de glórias; lutas e vitórias do Vasco da Gama.
7 de abril de 1924. Esta data não só revolucionou a história do Vasco da Gama, como também a história do futebol mundial e da sociedade. Neste dia em questão, o Cruzmaltino reforçou toda a natureza do seu gigantismo e optou por seguir o caminho mais difícil: lutar pelo que sempre… pic.twitter.com/Wod4zUje24
— Vasco da Gama (@VascodaGama) April 7, 2024
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CBF fala em ‘marco para o futebol’
Neste domingo, a CBF também valorizou a história do Vasco e a luta do clube contra a discriminação no futebol. Em nota divulgada nas redes sociais, o presidente Ednaldo Rodrigues chamou a “Resposta Histórica” de “ato sem precedente de coragem”.
– Parabenizo o Vasco pelo centenário da “Resposta Histórica”, data que está na história do futebol brasileiro e do nosso país. Essa carta foi um ato sem precedente de coragem do Vasco. Além de um marco na luta contra o racismo, o documento foi um passo decisivo pela inclusão de todos os brasileiros ao futebol – disse Ednaldo.
100 ANOS DE UM MARCO PARA O FUTEBOL! ✊🏾💢
A CBF parabeniza neste domingo (7) o @VascodaGama pelo centenário da "Resposta Histórica", documento assinado por José Augusto Prestes, então presidente do clube, que abria mão de participar do Campeonato Carioca de 1924.
Na carta, o… pic.twitter.com/Jtl306PDFH
— brasil (@CBF_Futebol) April 7, 2024
O que foi a Resposta Histórica do Vasco?
Em 1922, o Vasco foi campeão da Série B da Primeira Divisão, garantindo o acesso para Primeira Divisão da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT). No entanto, o time do Cruz-Maltino era formado por negros e operários. Assim, os clubes já tradicionais na época e da elite carioca, como Flamengo, Fluminense, Botafogo e America, tentaram barrar a entrada do Vasco na liga – e não conseguiram. Com este time formado por negros e operários, que ficou conhecido como “Camisas Negras”, o Vasco foi campeão do Carioca de 1923 com 14 vitórias, um empate e apenas uma derrota.
Em meio as disputas entre amadorismo e profissionalismo, os clubes da elite carioca fundaram a Associação Metropolitana dos Esportes Athleticos (AMEA). Mesmo sendo o atual campeão, o Vasco foi excluído da AMEA em um primeiro momento. Depois, a organização convidou o Cruz-Maltino, mas impôs uma exigência que excluiria 12 jogadores do clube por estarem “em desacordo com os padrões morais necessários para a prática do futebol”.
O Vasco recusou o convite e, em ofício assinado pelo então presidente José Augusto Prestes, disse que não abandonaria os seus jogadores. O documento foi assinado em 7 de abril de 1924 e ficou conhecido como “Resposta Histórica”.
Dessa forma, o Vasco permaneceu na Liga Metropolitana, com clubes de menor expressão naquele período do século passado. Naquele ano, o Vasco foi conquistou novamente o Carioca – dessa vez, de forma invicta, com 14 vitórias em 14 jogos. Com o Vasco ficando cada vez mais popular e lotando seus jogos, em 1925 a AMEA aceitou a entrada do clube de negros e operários. Para além dos interesses econômicos e esportivos, o posicionamento do Vasco na época, em apoio aos jogadores negros, foi essencial para mudar a estrutura do futebol carioca.
Leia a Resposta Histórica do Vasco
“Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.
Officio No 261
Exmo. Snr. Dr. Arnaldo Guinle,
D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos.
As resoluções divulgadas hoje pela Imprensa, tomadas em reunião de hontem pelos altos poderes da Associação a que V. Exa. tão dignamente preside, collocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada, nem pelas defficiencias do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa séde, nem pela condição modesta de grande numero dos nossos associados.
Os previlegios concedidos aos cinco clubs fundadores da A.M.E.A., e a forma porque será exercido o direito de discussão a voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.
Quanto á condição de eliminarmos doze dos nossos jogadores das nossas equipes, resolveu por unanimidade a Directoria do C.R. Vasco da Gama não a dever acceitar, por não se conformar com o processo porque foi feita a investigação das posições sociaes desses nossos consocios, investigação levada a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.
São esses doze jogadores, jovens, quasi todos brasileiros, no começo de sua carreira, e o acto publico que os pode macular, nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que elles com tanta galhardia cobriram de glorias.
Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V. Exa. que desistimos de fazer parte da A.M.E.A.
Queira V. Exa. acceitar os protestos da maior consideração estima de quem tem a honra de subscrever.
De V. Exa. Atto Vnr., Obrigado.
(a) José Augusto Prestes
Presidente”




