Brasil

Carta de amor aos Estaduais: 15 campeões para dar conta do Brasil

Apesar dos pesares, competição regional ainda parece ser o melhor formato para dar conta de um território das dimensões do Brasil

O futebol brasileiro ainda carece de ajustar seu debate diante da diferença entre uma notável perda de importância dos campeonatos locais e a grandeza que eles continuam tendo para quem é apaixonado por seu clube. É verdade que o calendário precisa de novos arranjos, que as particularidades regionais devem ser melhor consideradas e que o dinheiro pode ser melhor distribuído num país que poderia ser um continente, mas não há assim tantas coisas maiores que ganhar um título no fim de semana das finais estaduais, de preferência sobre um rival, aos olhos de todos, num fim de semana de quinze títulos distribuídos pelo Brasil.

Ainda me parece o melhor formato para dar conta de um território deste tamanho, cujo futebol foi forjado nos domingos de volta olímpica. Óbvio que os times de elite precisam jogar menos (poderia haver uma limitação de datas para quem disputa as principais competições internacionais), que as finais não deveriam competir com o início da Copa Libertadores, que às vezes as primeiras fases têm jogos demais e os confrontos decisivos se repetem muito em idas e voltas. É claro também que o grande gargalo da bola é garantir uma agenda anual para todas as camisas, organizar a escala e clarear a pirâmide, mas ainda falta um senso mais amplo e coletivo que não permita esvaziamentos como clubes centenários soltos à própria sorte por aí – o Santa Cruz não tem mais o que jogar este ano. O modelo é insuficiente.

Mas considerar os campeonatos estaduais como grande estorvo da temporada ou, mais ainda, como símbolo de um suposto atraso do futebol brasileiro numa projetada competitividade internacional tampouco me fazem sentido. Não acho que o futebol brasileiro precisa apagar suas excepcionalidades a caminho de uma padronização, pelo contrário, é na diferença que se faz atrativo e especial. É o país onde se conta cada clássico Grenal, que se encanta com um Ba-Vi, que sorri com um Castelão ou um Mangueirão lotados, independentemente da tabela da Série A. Uma dimensão nacional até poderia suportar esse tamanho todo, mas não é o caso. Minas Gerais é maior que a Espanha, São Paulo é maior que o Reino Unido, e o jogo se arranjou assim. Pequenas melhorias poderiam só melhorar o tamanho e a representatividade dessa festa que abre o ano esportivo.

O Vitória é a principal história dentre os campeões. Não bastassem os clássicos de Salvador terem entregado ótimos jogos e uma expansiva transmissão, com calor e qualidade, pela TV Brasil, o rubro-negro precisou ainda desafiar um contraponto histórico no duelo com o rival. Enquanto iniciava uma Série B, vindo da C, tentando dar num time com pinta de acesso à elite, o Bahia fechava um negócio de mudar seu rumo, virando parte do Grupo City.

Mas o campo é soberano, o chavão é inesgotável, “lá dentro são onze contra onze”, e o time de Léo Condé bateu campeão sobre o adversário das altas contratações. Uma senhora dupla de decisões que valeu cada minuto, e pouco importa se não nos diz muito sobre o que virá nos pontos corridos, com uma tendência, pelo elenco, do Tricolor ainda evoluir bem sua competição.

No Castelão, quem diria, o país do futebol morre de inveja de um estádio dividido em duas torcidas, na preguiçosa, triste e simbólica onda dos clássicos de uma cor só espalhados por aí – deu Ceará, nos pênaltis, para igualar as mesmas 46 taças do Fortaleza. De Goiânia vem a curiosidade: as quinze vitórias seguidas do Atlético-GO, dando em taça contra o Vila Nova e seguindo sua escalada para buscar o Goiás no ranking de títulos, dão em time capaz de bater de frente no Brasileirão? Domingo é o começo da resposta, recebendo o Flamengo.

No Maracanã, Tite voltou a ser campeão cinco anos depois da Copa América que levantou com a seleção, e se a final contra o Nova Iguaçu já parecia morta com a vitória larga na ida, ao menos consolida algumas boas notícias ao seguro e econômico Flamengo. A zaga vive ótima fase, com certeza melhor que à época do início das negociações por Leo Ortiz, e se Fabrício Bruno foi à seleção, Léo Pereira jogou muito nesse Carioca. No meio, não que alguém pudesse ter grandes dúvidas, mas De La Cruz se confirmou. E o uruguaio Arrascaeta, alçado a capitão e última faísca mais acesa do time para sempre de 2019, melhora a cada dia, à vontade para tocar o novo quadro. Difícil imaginar que não ganhará nada em novembro.

O Atlético-MG alcançou uma virada enorme no Mineirão. Não entendi o porquê de não descansar seus principais jogadores na quinta-feira, na Venezuela, visto a fragilidade do Caracas e a evidente previsão de jogo no limite no domingo. Matheus Pereira, do Cruzeiro, joga muita bola e faz valer a liberdade em circular num time bem armado, mas que se desmontou quando Larcamón enfiou mais um zagueiro na vaga de um atacante. O Galo brigou, Saravia achou um golaço, houve certa sorte em encontrar um pênalti, e aí a força do time mais inteiro garantiu o título. No segundo tempo entraram Scarpa, Igor Gomes e Vargas, e nem precisaram entrar Pedrinho e os garotos. É muita gente boa de bola no vestiário de Milito.

O Grêmio tem na final contra o Juventude o atestado de que a contratação de Diego Costa fez todo sentido. No cenário disponível e possível, difícil imaginar um nome mais adequado para substituir Suárez. O sergipano-espanhol guarda em jogo grande e tem lá sua vaidade em ser o cara do time, elemento trivial para um domador de ruídos como Renato Portaluppi. É impressionante um heptacampeonato, e mais impressionante ainda é o impacto de Renato na história gremista. Desde que ele voltou ao clube para viver seu auge, em setembro de 2016, o Internacional não ganhou mais.

Em São Paulo, uma grande decisão, acima da média num panorama de clássicos paulistas, aberta, brigada, mas jogada, cheia de chances. O Santos sai grande para reforçar que time com essa história pode, sim, encontrar forças numa queda para a Segunda Divisão, poderia ter vencido dentro do estádio alviverde,mas os vacilos individuais cobraram seu preço. O Palmeiras não vive seu melhor momento coletivo, inclusive Zé Rafael e Veiga fizeram um torneio abaixo do que costumam, mas os dois laterais-esquerdos santistas vacilaram na frente de um furacão. Felipe Jonathan protegeu mal, Hayner tentou sair costurando por dentro, e os jogadores que tinham a missão de segurar Endrick acabaram permitindo as duas roubadas que deram nos dois gols palmeirenses. O moleque é um inferno para quem tenta postergar à sua frente. Flaco López fez um Paulistão de soberania pelo alto, garantindo a bola do título. Agora, o melhor jogador está a caminho do Real Madrid, e essa pode ser a reinvenção mais difícil de Abel Ferreira, com Dudu, mais veterano, retornando de lesão grave. A ver.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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