Estaduais: eles são culpados ou vítimas do calendário brasileiro?
Afinal, este tipo de torneio é vítima ou culpado dos problemas de calendário do futebol brasileiro?
Ter ou não ter? Eis a questão em torno dos campeonatos estaduais no Brasil. Eles que recolocam a bola em movimento e estão sempre no centro da discussão em torno do calendário nacional. Atualmente podem parecer anacrônicos e mal colocados na agenda esportiva do ano. Mas será preciso exterminá-los, como pregam algumas vozes? Ou é possível racionalizar seu modelo?
Os estaduais são como a palavra saudade: só existem no Brasil. Em alguns casos são a única conexão entre torcedor e futebol. Em outros são considerados um estorvo para a preparação dos times que têm calendário nacional e internacional. Os mais jovens podem não acreditar, mas houve um tempo em que os estaduais eram prioridade sobre os torneios nacionais e até mesmo sobre a Libertadores. O Santos de Pelé abriu mão de jogar a Libertadores algumas vezes, mas nunca deixou de disputar o Campeonato Paulista. Outros tempos, outro mundo.
Fato é que os estaduais estão aí. Alguns servem somente aos interesses políticos das federações estaduais. Outros são fundamentais para o equilíbrio financeiro dos clubes, inclusive dos grandes.
Campeonato Paulista: esse é o estadual mais importante do país
O estadual mais importante do País é o Campeonato Paulista. Dele participarão em 2024 quatro times da Série A (Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Red Bull Bragantino) e sete times da Série B (Santos, Ituano, Guarani, Ponte Preta, Botafogo de Ribeirão Preto, Novorizontino e Mirassol) do Campeonato Brasileiro. Poderosa econômica e politicamente, a Federação Paulista paga R$ 40 milhões para cada um de seus quatro grandes jogarem o torneio. Os clubes denominados pequenos levam R$ 8 milhões (o Bragantino leva cerca de R$ 10 milhões).
Além dessa bolada, o estadual paulista paga premiação para campeão e vice. O Palmeiras, atual bicampeão, faturou R$ 5 milhões extras em 2023. Some-se a isso o valor de bilheteria e o Campeonato Paulista tem premiação equivalente a alcançar uma semifinal de Copa do Brasil ou Libertadores. É a força dessa grana que enfraquece as propostas de redução de 16 para 12 datas reservadas aos estaduais no calendário da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
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Mesmo próximo, Carioca tem diferença financeira abissal para o Paulista
Até mesmo em relação ao seu equivalente mais próximo em termos econômicos, o estadual do Rio, a diferença para o Paulista é abissal. O Botafogo receberá R$ 14 milhões pelos direitos de exibição de seus jogos, praticamente um terço do valor dos grandes paulistas. O Flamengo, que recebeu R$ 21 milhões em 2023, tem direito a uma fatia maior, ainda em aberto por causa das mudanças no sistema de transmissão do torneio. O Vasco, por exemplo, dividiu os direitos de transmissão de seus jogos como mandante entre plataformas como SporTV, BAND e SBT. Essa situação torna difícil chegar a um número exato que cada clube receberá pelos jogos.
A maioria dos estaduais não se sustenta economicamente, mas garante a oferta de futebol aos torcedores. Até mesmo no Nordeste, que hoje conta com uma grande Copa regional, há times que sem os estaduais simplesmente deixariam de atuar. O caso mais conhecido é o do tradicionalíssimo Santa Cruz.
Mudanças no calendário podem esbarrar na elitização
Há um grande perigo de elitização nas propostas de alteração de calendário. Um exemplo foi a Copa União de 1987, tentativa de estabelecer um tipo de sistema fechado de disputa, como acontece nos EUA (o sistema fechado não tem acesso e rebaixamento). Para chegar a isso, os idealizadores do torneio simplesmente limaram Guarani e América, que tinham direito a estar na primeira divisão nacional pelo desempenho de 1986. Essa medida criou o impasse do torneio de 1987, que perdura até hoje sobre a legitimidade do título. A exclusão de Guarani e América foi tratada por alguns como “efeito colateral”. Um absurdo do ponto de vista esportivo.
Para a parcela das novas gerações que desenvolveu o amor pelo futebol vendo a Premier League, La Liga, Serie A da Itália, os estaduais são uma velharia dispensável. Para a minha geração, além da memória afetiva, há uma abordagem da importância social e econômica do futebol em estados sem clubes na Série A e na Série B ou calendário nacional.
O enigma é de difícil solução. As federações querem os estaduais para seu interesse ou em benefício dos clubes? Os clubes poderosos jogam os estaduais por motivo econômico ou político? As propostas de colocar os times grandes apenas nas fases decisivas esbarram no interesse econômico dos clubes pequenos (que querem enfrentar os grandes como mandantes para ganhar dinheiro) e das federações que têm o poder de negociar direitos de transmissão (como a paulista), que perderiam valor agregado.
Quantos clubes podem abrir mão de receber 15, 20, 40 milhões por um torneio de quatro meses e fechar suas contas no azul?
A impressão que fica é que a equação política prevalece. Por isso que os votos das federações têm peso três contra peso dois dos clubes da Série A e peso um dos clubes da Série B na eleição da CBF. Mais do que a questão técnica e econômica, é essa a chave para a discussão racional do calendário. É possível encaixar os estaduais no calendário sem prejuízo aos torneios mais importantes, desde que a principal motivação seja esportiva e economicamente racional, acima dos desejos políticos e do interesse eleitoral nas federações e na CBF. Além de priorizar as necessidades esportivas sobre as de exibição em qualquer plataforma. Isso passa por horários racionais e que sejam adequados ao melhor para os jogadores e clubes, e não para os exibidores.



