Brasileirão Série A

Quanto o torcedor precisaria pagar no ingresso do Brasileirão para quitar dívida do seu clube?

Santos e Corinthians precisariam cobrar mais de R$ 2 mil em cada ingresso para pagar compromissos; Red Bull Bragantino lidera

As torcidas do futebol brasileiro demonstram grande paixão e amor por seus clubes. Muitos torcedores abrem mão de conviver com as famílias, sair com os amigos ou qualquer tipo lazer para seguir seu time do coração seja onde for.

Mas o quão longe iria essa relação? Será que, para salvar sua equipe das temidas dívidas, o torcedor aceitaria que o valor fosse repassado integralmente nos ingressos?

Esse foi um exercício feito pelo Relatório Convocados, produzido pela Convocados Consultoria ao lado da Galapagos Capital e da Outfield.

Com base na média de público dos 20 clubes do Campeonato Brasileiro em 2023, o estudo calculou quanto custaria cada entrada caso o passivo dos clubes fosse passado em sua totalidade aos torcedores que comparecem aos estádios.

O resultado é surpreendente e mostra como as dívidas assolam as principais instituições do futebol brasileiro.

Santos, Corinthians e Botafogo lideram, e cobrariam mais de R$ 2 mil

Para salvar time das dívidas, torcida do Santos precisaria pagar mais de R$ 3 mil (Foto: Icon Sport)

Um dos rebaixados em 2023, o Santos seria aquele que cobraria o maior preço em seu ingresso para o fã se quisesse quitar seu passivo a partir do amor da torcida dentre os considerados 12 grandes do país.

Com média de público de 12.147 torcedores em 31 jogos em casa no ano passado, cada entrada do fã do Peixe teria que custar incríveis R$ 3.009. A dívida do clube praiano até o fim de 2023 era de R$ 548 milhões.

Aqui entra o contexto de um estádio menor em comparação aos outros rivais, o que deixa o preço ainda maior. O mesmo cenário do RB Bragantino, líder no quesito, precisando cobrar R$ 6.061 – passivo de R$ 696 milhões.

A quantia do Santos, com público de pouco mais de 12 mil, mostra também o buraco que o Corinthians está.

Mesmo com 38.393 torcedores na Neo Química Arena, em média, o Alvinegro precisaria cobrar R$ 2.740 para cada fã para quitar o passivo por inteiro, ao fim da última temporada avaliado em R$ 1,8 bilhão – contando o estádio.

O Botafogo também tem valores que assustam. O torcedor alvinegro carioca teria que pagar R$ 2.556 por cada entrada para ajudar a SAF e a associação a quitarem o R$ 1,3 bilhão em dívidas.

Inclusive, o passivo do clube aumentou 50% de 2022 para 2023, potencializado por empréstimos feitos nas contas do Glorioso para Eagle Football, empresa de John Textor que administra clubes ao redor do mundo.

O Atlético-MG fecha o top-5, precisando cobrar R$ 1.887, seguido por Vasco (R$ 1.761), Cruzeiro (R$ 1.591) e Fluminense (R$ 1.301).

Vale citar também os bons exemplos. O Fortaleza, clube que menor preço cobraria, precisaria que o torcedor desembolsasse apenas R$ 93, enquanto o Flamengo, segundo menor, R$ 378.

  1. Red Bull Bragantino: R$ 6.061
  2. Santos: R$ 3.009
  3. Corinthians: R$ 2.740
  4. Botafogo: R$ 2.556
  5. Atlético-MG: R$ 1.887
  6. Vasco: R$ 1.761
  7. Cruzeiro: R$ 1.591
  8. Fluminense: R$ 1.301
  9. Internacional: R$ 1.251
  10. América-MG: R$ 1.166
  11. Athletico-PR: R$ 1.161
  12. São Paulo: R$ 1.029
  13. Coritiba: R$ 744
  14. Grêmio: R$ 740
  15. Palmeiras: R$ 739
  16. Bahia: R$ 527
  17. Flamengo: R$ 378
  18. Fortaleza: R$ 93

*O levantamento não incluiu Cuiabá e Goiás porque as equipes não tinham dívidas até o fim de 2023.

Quanto tempo cada clube do Brasileirão levaria para pagar sua dívida?

Com Textor, dívida do Botafogo aumentou e precisaria de 32,3 anos para ser paga, considerando utilizar 20% da média das receitas totais nos últimos cinco anos (Foto: Icon Sport)

Outra conta feita pelo Relatório Convocados seria a de quantos anos cada time levaria para quitar a dívida se utilizasse 20% da média de receita total nos cinco anos anteriores.

Novamente, o Botafogo surpreende, com necessidade de mais de 32 anos para quitá-la.

Neste exercício, o Cruzeiro aparece em segundo, em 23,4 anos, seguido por Vasco, 15,1, Corinthians, 13,8, e Atlético-MG, 12,3.

– Este exercício mostra o grau de dificuldade de cada clube no esforço de reduzir o endividamento. Obviamente é hipotético, porque sempre haverá alguma dívida. Mas serve de referência e estímulo: há clubes que, mesmo endividados, podem se ajustar com alguma disciplina. – ressalta parte do relatório.

  1. Botafogo: 32,4 anos
  2. Cruzeiro: 23,4 anos
  3. Vasco: 15,1 anos
  4. Corinthians: 13,8 anos
  5. Atlético-MG: 12,3 anos
  6. Bahia: 10,9 anos
  7. Fluminense: 10,5 anos
  8. RB Bragantino: 10,3 anos
  9. Coritiba: 9,6 anos
  10. Internacional: 8,1 anos
  11. Santos: 8,0 anos
  12. São Paulo: 7,4 anos
  13. Athletico-PR: 7,1 anos
  14. Grêmio: 5,1 anos
  15. Palmeiras: 2,8 anos
  16. América-MG: 4,2 anos
  17. Flamengo: 1,8 ano
  18. Fortaleza: 1,6 ano

Há solução para clubes tão endividados?

Corinthians presidido por Augusto Melo sofra com dívidas (Foto: Icon Sport)

Décadas para quitar as dívidas de valores astronômicos, é um cenário bem preocupante quando vemos os números e a perspectiva de futuro para esses clubes.

Os passivos causam vários problemas aos times do Brasil. Podem ficar impedidos de contratar pela Fifa, sofrer com a penhora de patrimônios e ter sua imagem pública comprometida, fato que pode afastar atletas e patrocinadores.

Mas, mesmo nesse contexto complexo, há esperança e um caminho para se seguir – com muito profissionalismo e conhecimento envolvido, é claro.

À Trivela, o economista Cesar Grafietti, sócio da Convocados, detalhou o que os times do Brasileirão poderiam fazer.

A primeira ideia é reestruturar as dívidas de hoje e alongá-las, evitando buscar os famosos adiantamentos das cotas televisivas, que, apesar do efeito de curto prazo, afeta as contas no futuro.

Os clubes precisam reestruturar seus passivos, buscando alongamentos estruturados com instituições que entendem disso. Precisam deixar para trás as velhas estratégias de adiantar TV com parceiros que só querem o curto prazo.

O especialista ainda detalhou outra questão: parar de aumentar o passivo. A equipe pode aumentar muito as receitas, como tem acontecido recendente no futebol brasileiro, mas nada mudará se continuar se endividando.

– Precisam parar de aumentá-las [as dívidas]. Parte do problema está justamente no fato de que elas continuam aumentando, então vira um eterno enxugamento de gelo. – concluiu Grafietti.

As maiores dívidas do futebol brasileiro ao fim de 2023

  1. Corinthians – R$ 1,8 bilhão*
  2. Botafogo – R$ 1,3 bilhão**
  3. Atlético-MG – R$ 998 milhões
  4. São Paulo – R$ 859 milhões
  5. Cruzeiro – R$ 811 milhões
  6. Fluminense – R$ 736 milhões
  7. Red Bull Bragantino – R$ 696 milhões
  8. Vasco – R$ 696 milhões
  9. Internacional – R$ 650 milhões
  10. Santos – R$ 548 milhões
  11. Athletico-PR – R$ 492 milhões
  12. Palmeiras – R$ 466 milhões
  13. Grêmio – R$ 441 milhões
  14. Flamengo – R$ 391 milhões
  15. Bahia – R$ 366 milhões
  16. Coritiba – R$ 272 milhões
  17. América-MG – R$ 109 milhões
  18. Fortaleza – R$ 67 milhões
  19. Cuiabá – R$ 0
  20. Goiás – R$ 0

*Incluso a dívida da Neo Química Arena
**Incluso o passivo da SAF + clube associativo

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.
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