Por que, mesmo com receitas recordes, times do Brasileirão só aumentam as dívidas?
Aumento da arrecadação dos 20 clubes da Série A em 2023 vem junto do aumento dos gastos e das dívidas
Nunca a elite do futebol brasileiro ganhou tanto dinheiro. Em 2023, os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro somaram receita bruta total de R$ 8,83 bilhões, 16% a mais do que em 2022 (R$ 6,2 bilhões), segundo dados do Relatório Convocados.
O recorde anterior pertencia a 2019, ano pré-pandemia, quando registrou R$ 8,73 bilhões.
– Sinais muito positivos como o crescimento da receitas na Série A, especialmente aquelas que nascem do relacionamento com torcedores e parceiros comerciais. Números importantes que ajudaram os clubes a darem mais um passo em direção à quebra da dependência das receitas com direitos de transmissão. Que seguem importantes, mas para quem os clubes precisam olhar como meio de acesso às fontes primárias, e não como salvação para todos os males. – aponta parte do relatório.
Ver mais dinheiro entrando no cofre, porém, não significa que os times do Brasileirão têm ajeitados suas contas. E a causa está nos gastos, cada vez mais altos e também em recorde.
No ano passado, as despesas saltaram 33,5% em comparação a temporada anterior (acima do aumento em receita), e bateram os R$ 7,04 bilhões.
Até por isso, no saldo do final das equipes, lá está: dívida total de R$ 11,7 bilhões ao fim de 2023, somando todos os clubes que jogaram a primeira divisão.
– Os clubes seguem gastando, e alguns acima do que deveriam. As dívidas permanecem altas, e o cenário macroeconômico penaliza com custos financeiros elevados quem se endivida. Ainda mais os que se endividam acima de suas possibilidades. – ressalta outro ponto do documento.
Para entender esse cenário de recordes em receitas e gastos, a Trivela ouviu o economista Cesar Grafietti, sócio da Convocados, consultoria responsável pelo relatório em parceria com a Galapagos Capital e a Outfield.
Por que as receitas bateram recordes?
O salto em receitas em 2023, além de um mérito dos clubes em buscar novas fontes, também tem uma causa especial. Foi o ano do retorno de Bahia, Cruzeiro, Grêmio e Vasco para Série A, somando R$ 769 milhões no bolo total.
– Vamos reforçar que estamos falando da Série A, e no ano passado tivemos o retorno de Bahia, Cruzeiro, Grêmio e Vasco, que são clubes com receitas maiores que a dos clubes que caíram. Isto também traz um tema importante: clubes de maior receita fortalecem a competição. O que não significa que devam ter lugar cativo, porque a essência do futebol é dar espaço para quem performa melhor. Mas é inegável que mais dinheiro na divisão possibilita equipes de melhor qualidade – aponta o economista.

Mas tirando a volta do quarteto pesado no ano passado, as equipes também buscaram novas fontes receitas, destacadas em comercial (inclui contratos publicitários) e bilheteria/sócio torcedor, além da venda de atletas.
Nunca o Brasileirão recebeu tanto público como na última temporada. A média nos 380 jogos da elite do futebol brasileiro foi de 26.538 torcedores, um recorde segundo a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
A questão comercial também teve salto significativo. Se em 2019, a receita bruta total da Série A tinha representativa de apenas 11% nesta área, saltou para 20% em 2023.
– O aumento de receitas com negociação de atletas, comerciais e bilheteria mostra que os clubes estão se movimentando para aumentar sua competitividade. […] O futebol está se beneficiando de maior interesse de parceiros comerciais e do público, e conseguindo mais receitas nessas fontes. Não dá para ter certeza se é algo pensado ou foi um acaso, como muitas coisas que acontecem no futebol, mas é um fato. – detalhou Grafietti.
Nesse recorte de cinco anos, também vimos os direitos televisivos não serem tão essenciais como antes. Em 2019, representavam 42%, diminuindo para 35% em 2023.
Para o economista, esse movimento de leve independência das cotas de TV, tão conhecidas por serem a salvação de alguns clubes na história do futebol brasileiro, acontece pela divisão em dois blocos (Liga Forte União e Libra) para negociação dos direitos do Brasileirão, que não deve atingir os valores esperados inicialmente.
– Um tema que pode indicar que tenha sido mais por força de parceiros e torcedores é o fato dos clubes terem criado a situação inusitada e desnecessária de formarem dois grupos de negociações de direitos de TV, porque no lugar de debater uma liga, pensaram apenas no dinheiro da TV, que não vai crescer como muitos sonham – completa.
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A receita total dos 20 clubes da Série A do Brasileirão em 2023*
- Flamengo – R$ 1,34 bilhão
- Corinthians – R$ 932 milhões
- Palmeiras – R$ 829 milhões
- São Paulo – R$ 681 milhões
- Red Bull Bragantino – R$ 488 milhões
- Fluminense – R$ 481 milhões
- Atlético-MG – R$ 446 milhões
- Grêmio – R$ 431 milhões
- Athletico-PR – R$ 417 milhões
- Santos – R$ 407 milhões
- Internacional – R$ 405 milhões
- Botafogo – R$ 305 milhões
- Vasco – R$ 336 milhões
- Fortaleza – R$ 259 milhões
- Cruzeiro – R$ 243 milhões
- América-MG – R$ 196 milhões
- Bahia – R$ 177 milhões
- Coritiba – R$ 170 milhões
- Cuiabá – R$ 140 milhões
- Goiás – R$ 98 milhões
*Dados do Relatório Convocados, que não considerou a venda dos direitos televisivos da Liga Forte União (LFU), apenas os valores operacionais e não recorrentes.
Por que os gastos acompanharam as receitas?
Não há muito segredo para entender o porquê dos times gastarem quase o mesmo que arrecadam. Buscam, na maioria, fortalecer seus elencos, sonhar com títulos, ou, em muitos casos, apenas permanecer na elite.
Segundo Grafietti, esse deveria ser o foco apenas de clubes que estão com as contas em dia, mas não é bem assim.
– Não estão errados os que fazem isso, afinal, jogar futebol e buscar o melhor desempenho possível é o negócio dos clubes. Claro que isso deveria ser uma realidade apenas para os clubes financeiramente equilibrados, o que não é a realidade.
Ele alerta, no entanto, que ainda há pontos obscuros nos balanços anuais divulgados pelos clubes, com gastos fora do futebol que não são esclarecidos devidamente.
Ainda vemos alguns clubes gastando muito fora da atividade, e seria importante ter mais clareza sobre esses gastos, de forma a permitir que os clubes possam estruturar reduções.

E aí entra a questão do passivo dessas equipes. Faturamento recorde seria motivo para gastar menos, segurar as pontas na temporada para amenizar as dívidas, certo? Errado.
Claro que há bons exemplos, como o Flamengo, bem tanto no faturamento anual quanto na gestão dos gastos, ou Palmeiras, sempre controlado no mercado.
Mas, a média, não vê na dívida um problema, aponta Cesar Grafietti, em busca de uma glória limitada a poucos times.
Os clubes não enxergam nas dívidas um problema. Só não percebem que são elas que travam a engrenagem, porque o custo das dívidas no Brasil é altíssimo. Gastam mais em elenco, salário, e depois têm a gestão dificultada por conta de penhores e obrigações financeiras. E, claro, todos querem a glória dos títulos, mesmo que ela seja quase impossível para a maioria.
Os gastos dos times no Campeonato Brasileiro em 2023
- Flamengo – R$ 804 milhões
- Corinthians – R$ 624 milhões
- Palmeiras – R$ 612 milhões
- São Paulo – R$ 576 milhões
- Fluminense – R$ 458 milhões
- Botafogo – R$ 444 milhões
- Atlético-MG – R$ 430 milhões
- Santos – R$ 365 milhões
- Internacional – R$ 333 milhões
- Grêmio – R$ 330 milhões
- Red Bull Bragantino – R$ 304 milhões
- Vasco – R$ 290 milhões
- Athletico-PR – R$ 259 milhões
- Fortaleza – R$ 248 milhões
- Coritiba – R$ 209 milhões
- Cruzeiro – R$ 205 milhões
- América-MG – R$ 180 milhões
- Bahia – R$ 178 milhões
- Cuiabá – R$ 106 milhões
- Goiás – R$ 89 milhões
Há caminho para melhora?
Claro que imaginar mais receitas no futebol do Brasil seria um cenário provável para mais gastos. Mas, em uma visão otimista, poderia ser também um caminho para encontrar dinheiro para que as dívidas fossem sanadas.
E há margem para lucrar mais. O economista aponta que transformar os programas de sócio-torcedor em um sistema de relacionamento, ao invés de apenas garantir ingressos, seria uma ótima forma. O investimento publicitário também é um caminho.
Os clubes ainda precisam trabalhar melhor sua relação com os torcedores. Os modelos de sócio-torcedor precisam ir além da simples troca de ingressos, e se transformarem em sistemas de relacionamento. E o futebol precisa buscar uma parcela maior do investimento publicitário. Ainda fazemos metade do que fazem os europeus, o que mostra que o futebol é melhor compreendido como boa fonte de relacionamento no velho continente. – finalizou Cesar.
As maiores dívidas do futebol brasileiro ao fim de 2023
- Corinthians – R$ 1,8 bilhão*
- Botafogo – R$ 1,3 bilhão**
- Atlético-MG – R$ 998 milhões
- São Paulo – R$ 859 milhões
- Cruzeiro – R$ 811 milhões
- Fluminense – R$ 736 milhões
- Red Bull Bragantino – R$ 696 milhões
- Vasco – R$ 696 milhões
- Internacional – R$ 650 milhões
- Santos – R$ 548 milhões
- Athletico-PR – R$ 492 milhões
- Palmeiras – R$ 466 milhões
- Grêmio – R$ 441 milhões
- Flamengo – R$ 391 milhões
- Bahia – R$ 366 milhões
- Coritiba – R$ 272 milhões
- América-MG – R$ 109 milhões
- Fortaleza – R$ 67 milhões
- Cuiabá – R$ 0
- Goiás – R$ 0
*Incluso a dívida da Neo Química Arena
**Incluso o passivo da SAF + clube associativo



