Brasileirão Série A

Paulo Junior: De repente líderes, Palmeiras e Flamengo testam casca que faltou ao Botafogo

Palmeiras, com melhor jogo mental do país, e Flamengo, que tem clássico gigante contra Atlético-MG, protagonizam reta final quase inacreditável

O normal nesse campeonato era chegarmos à semana final da tabela com o Botafogo campeão antecipado com seus pelo menos 70 e poucos pontos, resultado de uma campanha suficiente no returno para superar os 60 e tantos de quem viesse com um rendimento ali de G4, e poderia ser o Palmeiras de Abel, o Flamengo de Tite, o Atlético-MG de Felipão ou o Grêmio de Renato, todos contextos que assinariam em outubro um vice-campeonato alto-astral, uma reta final de vaga na Libertadores, missão cumprida e até ano que vem.

Acontece que houve o grande derretimento da história desta liga, e o Botafogo, com suas viradas inacreditáveis e uma coleção de gols sofridos nos finais dos jogos, conseguiu a façanha de jogar feito rebaixado no returno. Seus oito jogos sem vitória, uma competição à parte para ver qual resultado escapou de forma mais inacreditável, deram a ponta para Palmeiras e Flamengo: empatados, com a ótima vantagem do saldo de gols para os paulistas, e estranhamente líderes inesperados, ainda que ocupando o lugar que se acostumaram.

O Palmeiras caiu para o Boca Juniors na Libertadores e o clima era de fim de feira. Abel mexeu no time e perdeu na sequência do Santos e do Atlético-MG, ambas como mandante ­– depois admitiria que demorou a trocar Artur e Rony. Eram 14 pontos para o líder. A diretoria foi fechar a contratação de Aníbal Moreno, reforço do Racing, e o assunto passou a ser a permanência do treinador e das referências do elenco, com um espaço maior para os jovens nessa reta final de ano. Aí veio um atropelamento inesperado no São Paulo e o jogo para sempre contra o próprio Botafogo.

O palmeirense vai dizer que o alvinegro desabou ali, quando o pênalti perdido por Tiquinho Soares que daria em goleada no Nilton Santos virou remontada alviverde no desabrochar de Endrick. Seis vitórias em oito jogos e o melhor de tudo: nenhum abalo ao tomar 3 a 0 do Flamengo correndo errado atrás da bola no Maracanã. Aquele time de sempre, de gols pontuais e resultados que custam muito a escapar. Líder. O melhor jogo mental do país vai levando o campeonato sempre em alerta, e agora, a três vitórias por 1-0 do título, põe à prova a fama e o histórico de quase sempre dar um jeito de alcançar o que precisa. Incrível pensar que aquele time em ritmo de férias que perdeu do Galo esteja tão perto da taça.

O Flamengo queria Tite, mas o técnico da seleção brasileira tinha preferência por trabalhar só em 2024. Foi convencido pela diretoria do clube a iniciar o trabalho agora, com onze jogos que ainda precisavam ser atravessados para garantir uma vaga nos grupos da Libertadores. O papo na apresentação foi esse: “ajuste de datas”. Quando ganhou do Cruzeiro na estreia, eram 11 pontos até a liderança e, ainda que a fase não fosse das melhores ali na derrota na final do Copa do Brasil, havia um trunfo ao ter vencido no Nilton Santos o mais que provável futuro campeão.

O flamenguista vai dizer que o Botafogo desabou ali, quando Bruno Henrique comemorou com chororô sem nem se importar que a distância para o primeiro colocado era de quilométricos 12 pontos. Mudou o treinador e vieram seis vitórias em nove partidas, com muita gente, como Cebolinha, retomando o melhor nível e encaminhando resultados diretos importantes contra Palmeiras e Red Bull. Vice-líder. Sem o futebol projetado desde que 2019 passou, mas novamente firme o bastante para os brilhos de Arrascaeta, os gols de Pedro, a presença na parte de cima da tabela e, agora, a confirmação final no contraponto à Estrela Solitária: na hora da tensão, responder à altura, logo num clássico diante do Atlético-MG em noite de Maracanã cheio. Incrível pensar que aquele time que já planejava janeiro sem Sampaoli ainda possa bater campeão.

O Botafogo ainda pode levar, claro, assim como o Atlético-MG, o Grêmio, o Red Bull, se bobear até o time da sua pelada, e se houvesse um terceiro turno era capaz de vermos Botafogo rebaixado e um Cruzeiro, um Vasco, um Santos, lá pelo G4, porque esse Brasileirão é mais de assistir que de procurar tendências ou padrões. Um barato para quem é de arquibancada, um estorvo para quem comenta a analisa futebol, com todo o equilíbrio e também as intempéries dos pontos corridos à brasileira – debate sobre poupar por conta de Copa, inversão de mando de campo, jogo dos líderes em horário diferente pela TV, portão fechado ou veto a visitantes, dossiê privado de arbitragem, insinuação de compensação financeira a time sem propósito… O clichê acordou e era demasiadamente de verdade, quando o tal campeonato mais disputado e imprevisível do mundo se fez realidade avassaladora.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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