Os 7 gols que o Brasil insiste em sofrer da Alemanha
O 7 a 1 é eterno. O placar tornou-se um ícone. Nem é preciso dizer a qual jogo se refere: o 7 a 1 é o maior vexame da história do futebol brasileiro. Embora a seleção não represente completamente o futebol brasileiro, ela é o seu maior símbolo. As explicações para o 7 a 1, levando em conta só o futebol dentro das quatro linhas, têm muitos fatores. Fora de campo, há muitos gols da Alemanha acontecendo no futebol brasileiro muito antes da Copa do Mundo. Muitas vezes negligenciados justamente porque, em campo, o Brasil estrelava a sua camisa com títulos. O vexame expõe e tira o escudo da CBF para a sua própria incompetência na gestão. No aniversário do 7 a 1, mostramos sete gols da Alemanha fora de campo, que contribuem para esse quadro de crise.
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Falta de intercâmbio com o exterior
Quando um jogador brasileiro fala da sua experiência no exterior, um dos aspectos abordados é o intercâmbio cultural. Em entrevista no dia 30 de junho à ESPN, o volante brasileiro Lucas Leiva contou que ao chegar ao Liverpool viveu um ano muito difícil de adaptação e teve que aperfeiçoar o seu jogo. Contou que jogava quase como um meia no Brasil e não estava preparado para o ritmo forte da Premier League, nem para fazer um papel de marcador como era exigido. Ele diz que uma das coisas que ajudou foi o intercâmbio: ele trabalhou com o técnico Rafa Benítez e com jogadores de várias nacionalidades, além de treinadores também diferentes.
Lucas Leiva chegou ao Liverpool em 2007 e foi companheiro de time de Xabi Alonso e Mascherano, jogadores de estilos bem diferentes, além de Gerrard, com quem jogou até a temporada passada, última do capitão na equipe. Foi dirigido por Rafa Benítez até 2010 e depois por Roy Hodgson, inglês, Kenny Dalglish, escocês, e desde 2012 atua sob o comando de Brendan Rodgers, que é norte-irlandês. A convivência com jogadores e técnicos de outras nacionalidades, segundo o brasileiro, o ajudou a crescer como jogador.
O Brasil vive em uma bolha em seu próprio território. Por aqui, os jogadores têm pouco contato não só com jogadores, mas com treinadores estrangeiros. É raro trocar experiências com outras culturas. Em grandes times europeus, é muito comum ter muitas nacionalidades diferentes, em uma realidade que é muito diferente da brasileira.
A questão aqui não é dizer que técnicos estrangeiros são melhores, mas é uma simples questão de troca de ideias. Formas diferentes de pensar fazem os jogadores ter que se preparar de formas diferentes. Em várias áreas do conhecimento ouvimos que experiência no exterior são valorizadas. No futebol, são rechaçadas. Treinadores estrangeiros são muito menos comuns aqui do que em outros países sul-americanos. E, não por acaso, os brasileiros são raros na Europa, especialmente nos grandes centros – embora estejam presentes no Oriente Médio, no Japão e mesmo na China. Mas lá a língua não é um empecilho.
Uma das justificativas para que os técnicos brasileiros não tenham sucesso na Europa é justamente a língua. Uma desculpa que não fica de pé quando vamos um pouco mais fundo na questão. Em setembro de 2014, entrevistamos o técnico português José Couceiro, que contou que falar só o português não é um problema para os treinadores do país – que fazem muito sucesso por lá. Quando perguntamos a Couceiro sobre a questão da língua, ele foi bem claro:
“A língua é importante, é claro que é, mas a língua não condiciona tudo. A maior parte da nossa comunicação não é verbal, é corporal. É evidente que só a comunicação corporal não resolve, mas também ajuda muito a criar um clima muito mais próximo e a passar uma mensagem positiva. Obviamente que o ideal é falar a língua local, mas não falo turco, lituano e russo e consegui trabalhar. Bastava saber algumas palavras. Não acho que isso seja impeditivo de se fazer um bom trabalho.”
De fato, o idioma não tem sido para treinadores portugueses. Na última temporada, Portugal teve os técnicos campeões em Inglaterra (José Mourinho pelo Chelsea), Suíça (Paulo Sousa pelo Basel), Grécia (Vítor Pereira pelo Olympiacos), Rússia (André Villas-Boas pelo Zenit) e México (Pedro Caixinha pelo Santos Laguna). Além disso, também fizeram bons trabalhos Nuno Espírito Santo (classificou o Valencia para a Champions League), Leonardo Jardim (levou o Monaco às quartas de final da Champions) e Fernando Souza (conduziu a Grécia às oitavas de final da Copa do Mundo, só caindo nos pênaltis).

O ideal seria ver mais técnicos brasileiros no exterior (sobretudo Europa) e estrangeiros no Brasil. A primeira parte depende de treinadores ganharem projeção e de clubes se dispuserem a contratá-los. Mas a segunda parte depende apenas da vontade da CBF e de clubes brasileiros. Já houve alguns passos desde a Copa, com Diego Aguirre no Internacional, Juan Carlos Osorio no São Paulo e Ricardo Gareca no Palmeiras, mas ainda é pouco.
Má gestão financeira
A receita dos clubes brasileiros tem aumentado desde 2011 com novos contratos de TV, mas o que poderia ser um alento na verdade se tornou mais um motivo de preocupação. Com o aumento das receitas, veio também o aumento do endividamento dos clubes. Segundo dados levantados por Amir Somoggi, a arrecadação dos 20 maiores clubes brasileiros em 2011 era de R$ 2,24 bilhões. Em 2014, esse número chegou a R$ 3,112 bilhões. Mas as dívidas, ao invés de diminuir, aumentaram substancialmente. De R$ 3,9 bilhões em 2011 para R$ 6,3 bilhões em 2014.
O que isso quer dizer? Paulinho da Viola definiria como “Dinheiro na mão é vendaval”. Os clubes brasileiros não são exatamente um exemplo de gestão. Ter mais dinheiro não ajudou os clubes a gastarem melhor e diminuírem suas dívidas. Pense em um trabalhador comum, endividado, que consegue um emprego que pague um salário maior e, ao invés de diminuir o endividamento, ele o aumenta. É o que acontece no futebol brasileiro.
O Flamengo, o único dos grandes clubes brasileiros que conseguiu efetivamente diminuir a sua dívida de 2013 para 2014, também viu a sua dívida aumentar se compararmos 2011 (R$ 355,5 milhões) a 2014 (R$ 697,9 milhões). Isso porque inclui a desastrosa gestão de Patricia Amorim à frente do clube, que causou um imenso rombo.
O Botafogo, que está atualmente na segunda divisão, foi outro que viu a sua dívida aumentar. Já era o líder neste ranking indesejado em 2011, com R$ 563,9 milhões. Em 2014, o clube da estrela solitária aumentou seu endividamento em 49% e chegou a R$ 845,5 milhões. O Vasco foi outro que viu a sua dívida aumentar de R$ 422,6 milhões em 2011 para R$ 596,4 milhões em 2014; o Fluminense subiu seu endividamento de R$ 404,9 milhões em 2011 para R$ 439,6 milhões em 2014; o Atlético Mineiro subiu de R$ 367,6 milhões em 2011 para R$ 486,6 milhões em 2014. A escolha destes clubes para o exemplo não foi aleatória: são os cinco mais endividados do futebol brasileiro, segundo os balanços divulgados este ano, relativos à 2014.
Tudo isso mostra que os clubes são mal geridos e isso implica diretamente no futebol. Vemos isso com clareza nos clubes atualmente, como Corinthians e São Paulo, que vendem qualquer jogador que recebe proposta e rezam para aparecer proposta – como o presidente Roberto de Andrade chegou a dizer sobre Alexandre Pato em entrevista à ESPN Brasil. Os clubes estão vendendo o almoço para comprar a janta. Vendendo jogadores para pagar salários.
O que a má gestão dos clubes tem a ver com a goleada do Brasil? Bem, um dos fatores que motivaram a recuperação do futebol alemão no início da década passada era a situação dos clubes. Com equipes praticamente quebradas, criou-se uma política de recuperação econômica e institucional, erguendo o nível técnico da Bundesliga.
É mais um gol da Alemanha.
Transição base-profissional
Muito se fala de um problema de formação no futebol brasileiro. É algo a se pensar e trabalhar, sem dúvida. Mas pensando no que existe hoje, talvez haja um outro problema que tem atrapalhado sistematicamente os clubes a revelarem mais jogadores: a transição das categorias de base para o profissional, algo que a Alemanha tem conseguido fazer com muito mais eficiência.
Uma das discussões sobre a crise do futebol brasileiro é que a geração não é tão boa. No dia do 7 a 1, logo depois do jogo, escrevemos aqui na Trivela que o Brasil tem uma base para 2018. De lá para cá, dá para acrescentar ainda mais nomes na lista dos jogadores que citamos na época. E não estamos sozinhos nesta. O jornalista Pedro Venancio, ex-repórter aqui da Trivela e atualmente no GloboEsporte.com, disse no Sportv que a geração de Neymar na Seleção é a melhor do mundo.
O que vemos nos clubes é a falta de aproveitar os nossos talentos. Os clubes usam pouco e mal as suas categorias de base. Muitos técnicos preferem contratar jogadores medianos, mas experientes, do que apostar em um jogador das categorias de base. Jogadores promissores na base não ganham tempo de jogo no profissional, acabam não ganhando chances de se desenvolver. Claro que há jogadores promissores que não vingam no profissional, que não chegam ao patamar que se esperava deles, e os exemplos não faltam. Mesmo assim, o que vemos nos trabalhos de base é uma transição feita nas coxas, sem planejamento e quase sempre por necessidade.

A seleção brasileira é só a ponta do iceberg. A transição dos times de base para o profissional é um processo feito sem qualquer cuidado. Oscar, por exemplo, ficou com um papel secundário no São Paulo durante muito tempo, mesmo sendo uma das grandes promessas do clube. Foi explodir como jogador no Inter, onde ganhou chances de jogar. Seria titular do Chelsea e da Seleção alguns anos depois. Só mesmo casos excepcionais sobrevivem ao corte dos clubes, como Lucas e Neymar. Eis aí mais um gol da Alemanha.
Calendário
Quantas vezes falamos de calendário do futebol brasileiro? São tantas que já perdemos as contas. Mas este é um gol que tomamos e estamos vendo o replay todos os anos. Que tal um calendário que não faça os times jogarem 80 vezes no ano? Seria razoável, não? Pois seria um começo. Discutir os estaduais é algo que já passou da hora. Falarmos sobre respeitar as datas Fifa também.
Nós já fizemos a nossa proposta de calendário baseada no que propõe o Bom Senso FC. É inútil repetir aqui o que já falamos, vá lá ao post e veja que é possível fazer um calendário muito melhor do que o atual sem nem precisar adaptar ao europeu, ou algo assim. É muito mais simples. E é, antes de tudo, possível.
Campeonatos racionais e bem organizados também ajudariam no desenvolvimento técnico e econômico do futebol brasileiro. O que talvez impedisse um dos golzinhos alemães.
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TV que manda demais
A televisão é um ator sempre muito poderoso no esporte mundial, para muito além do futebol. Mesmo nos lugares onde há mais organização, onde há condições melhores, o poder das emissoras é enorme. Mas por aqui, o problema é ainda mais sério. Mais do que influenciar as federações estaduais e a CBF, ela efetivamente organiza os campeonatos. É o que vemos na TV por aqui.
A televisão não compra horários para os jogos, ela os cria. Os jogos às 22h não existiram desde sempre. Depois de ter jogos às 21h, passamos a ter jogos às 21h30, 21h40, 21h45… A cada vez, a TV ia empurrando o jogo para mais tarde para ter mais novela. Interesse puramente da emissora, não dos clubes, dos torcedores ou da CBF. Esta última, por sinal, não parece mesmo preocupada e acaba terceirizando o serviço, deixando tudo a cargo da Globo, detentora dos direitos de transmissão na TV aberta, fechada, pay per view, internet e todas as mídias que vierem a existir (sim, isto está no contrato assinado pelos clubes).
Mais do que o horário dos jogos, o poder da TV faz com que o futebol seja jogado de janeiro a dezembro. É também responsável por modificar a tabela o tempo todo, puxando jogos do fim de semana para o meio da semana só para ter programação na TV. É responsável por manter os jogos em data Fifa, porque isso permite continuar tendo futebol na TV no seu horário tradicional, além da seleção em horário europeu – onde o Brasil tem mandado seus jogos amistosos.
A televisão também foi responsável por ajudar a manter os times desunidos quando havia a semente de uma liga surgindo no Clube dos 13, como revelou o ex-presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo, em entrevista à Monica Bergamo, na Folha. Para a Globo, implodir a negociação que o Clube dos 13 pretendia fazer, licitando separadamente TV aberta, TV por assinatura, pay per view, internet e celular, foi excelente.
A emissora corria um sério risco de perder algumas dessas licitações, especialmente internet e celular, e a ter que pagar mais por outras, como a TV por assinatura. Com o rompimento, a Globo passou a negociar direto com os clubes, o que dá a ela um poder muito maior e tira o poder dos clubes menores. Quando se negocia individualmente, a tendência é que os clubes recebam apenas baseado na audiência que geram, e não pensando no campeonato como um todo.

Em um mundo ideal, a TV compra os horários que forem definidos pela liga. Sabemos que o mundo ideal não existe e em todos os lugares onde o futebol é forte – e, portanto, um negócio lucrativo – há uma negociação com as emissoras de televisão quando se fala em horários dos jogos e até os dias. Na Inglaterra, a TV pressionou por um jogo às segundas-feiras, o que não acontece em todas as rodadas, mas é usado eventualmente durante a temporada. Na Espanha, já aconteceu jogo às 22h em um sábado.
É inevitável que a televisão, que é quem paga quantias enormes, queira participar da conversa. E não há problema que isso aconteça, desde que os interesses dos clubes e dos torcedores continue sendo a prioridade. Não são, e seguimos vendo estádios vazios e clubes deficitários.
Falta de uma liga
Todos os grandes campeonatos do mundo são comandados por uma liga, independente da federação de futebol do país. Algo que o Brasil pensou em fazer com o Clube dos 13 em 1987, mas que nunca ganhou vida.
A criação de uma liga é importante porque ela faria uma gestão centralizadas dos direitos de transmissão, seria importante para definir patrocinadores, regras e para agilizar a tomada de decisões. A venda dos direitos de transmissão seria feita diretamente com a liga, não com os clubes, e a distribuição do dinheiro teria que passar por uma discussão interna.
A liga também pode estabelecer dias e horários de jogos, o que implicaria diretamente em outros problemas, como o calendário. Afinal, a liga defenderia os interesses dos clubes, não da Seleção, e portanto iria querer contar com os jogadores em todas as rodadas e, assim, não faria jogos nestas datas.
Parece claro, mas ao criar uma liga, ela irá pensar em valorizar o máximo possível o próprio campeonato, algo que a CBF claramente não se preocupa. Pensar em melhorar a qualidade do jogo seria algo muito mais viável com uma liga. Ainda que os clubes, que deveriam brigar por isso mais do que a CBF, se preocupem apenas com politicagens e ganhos próprios.
A liga, basicamente, obrigaria os clubes a pensar coletivamente, algo que hoje parece muito distante. Bem diferente do que acontece na Alemanha, onde a Bundesliga cresce cada vez mais, se torna cada vez mais atraente para o mercado externo, tem times fortes e forma jogadores. Solta a vinheta do gol da Alemanha.
Estrutura de poder
Parece óbvio, mas não é. A estrutura de poder no futebol brasileiro é um problema sério que compromete a sua melhora. Quem vota para presidente da CBF são os clubes da Serie A e os presidentes das federações. Nesta terça-feira, foi votação a Medida Provisória 671, que incluiu os 20 clubes da Série B no processo. Ainda longe do ideal, mas já é alguma coisa. Os clubes passam a ser maioria, com 40 votos (20 da Série A + 20 da Série B) contra 27 das federações estaduais.
Só que é preciso também mexer no modo como se elegem os presidentes da s federações estaduais, algo que a MP não conseguiu incluir no texto aprovado desta terça. O deputado Otávio Leite (PSDB-RJ) ainda quer mexer nisso, mesmo com esta parte do texto da MP 671, de sua autoria, tendo sido retirada na negociação que levou à aprovação.
Atualmente, todos os clubes profissionais do estado votam para eleger o presidente da federação do estado. Há uma diferença de proporção, mas há um limite para essa proporcionalidade. Um clube só pode ter seis votos além do outro, independente do tamanho da sua torcida ou de títulos conquistados. Um problema, porque os clubes realmente relevantes acabam tendo menos peso do que deveriam diante de outros que são quase amadores.
A ideia de Otávio Leite, em nova proposta apresentada à Câmara, altera a lei 9.615, que fala sobre as nomes gerais do desporto. A medida estabelece que os votos nas federações serão valorados de acordo com a proporção do número de títulos e vice-campeonatos; posição na tabela final nos últimos três anos; e média de público pagante nas partidas oficiais nos últimos três anos. Uma medida interessante, que poderia ajudar a mudar essa estrutura que mantém presidentes de federações que puxam cada vez mais por seus próprios interesses, longe dos interesses dos clubes que disputam divisões nacionais do Campeonato Brasileiro.
Os clubes, por pior que sejam seus comandantes, ainda são as únicas instituições que sentem na própria pele os problemas de gestão do futebol brasileiro. Futebol pior e mal organizado baixa interesse de patrocinadores e de público, o que estoura no caixa das equipes. As federações continuam vivendo das taxas que recebem a cada partida que é realizada.
Vira um círculo vicioso. O comando das federações é definido por clientelismo, e elas pedem esse tratamento para eleger a presidência da CBF. A estrutura política fica estagnada, sem mobilidade alguma para responder a crises e tomar atitudes ágeis. São as mesmas ideias de sempre, envolvendo os mesmos personagens de sempre, chegando às mesmas conclusões erradas de sempre.
Se não mexer nessa estrutura de poder, os gols da Alemanha continuarão vindo, em doses como o daquele 8 de julho de 2014.



