Brasileirão Série A

Cruzeiro: Pepa cometeu erros, mas pedir sua demissão é exagerado e perigoso

O português Pepa vive seu pior momento desde que chegou ao Cruzeiro, no último mês de março. Mesmo com o time celeste fazendo boas partidas, os resultados não têm aparecido e a “gordura” feita com o desempenho surpreendentemente positivo no início do Brasileirão já foi queimada. Hoje, somente quatro pontos acima da zona de rebaixamento e com duas vitórias nos últimos 15 jogos, o treinador começa a receber críticas mais sonoras a seu trabalho.

Ainda que seja aparentemente uma minoria, parte da torcida celeste já perdeu a paciência com o treinador e após o frustrante empate contra o Corinthians, o segundo jogo seguido em que o Cruzeiro perdeu pontos após sofrer um gol nos minutos finais, os pedidos de “fora Pepa” reverberaram mais alto nas redes sociais.

Mesmo que o treinador celeste tenha suas falhas no comando do time celeste, pensar em sua demissão hoje é precipitado e perigoso por uma série de fatores. É importante ressaltar que a diretoria do Cruzeiro não parece nada disposta a trocar o técnico da equipe e, em mais de uma oportunidades, os gestores do clube deixaram claro que a metodologia pensada para a Raposa é de dar continuidade aos trabalhos, evitando a “guilhotina de treinadores”, tão comum o futebol brasileiro.

O Cruzeiro joga bem

Talvez o principal ponto a ser apontado quando se discute uma eventual demissão de Pepa é que o Cruzeiro joga bem. Claro, há partidas em que oscila, mas isso é comum, principalmente se levar em conta que o elenco celeste está longe de estar entre os mais badalados da competição. E mesmo com essa situação, muitos times fortes tiveram vida difícil contra a Raposa.

Dos seis primeiros colocados do Brasileirão, somente Palmeiras e Fluminense venceram o Cruzeiro. O primeiro citado com um gol no último lance e o Tricolor Carioca numa partida em que o time de Pepa criou o suficiente para ter tido melhor sorte — foram 27 finalizações da Raposa, contra onze do Flu no jogo. E Bruno Rodrigues perdeu dois pênaltis, já que na primeira cobrança Fábio se adiantou e o camisa 9 teve a oportunidade de repetir, mas mandou na trave.

Em alguns jogos, incluindo a última partida contra o Corinthians, Pepa teve sua parcela de culpa nos resultados, seja na insistência em alguns atletas, como o atacante Gilberto, ou no conservadorismo nas mudanças, e também em algumas falhas na leitura de jogo. Ainda assim, quando o Cruzeiro perde pontos e partidas por falhas individuais, fica inviável culpar apenas o treinador.

Bem, quem vê jogos do Cruzeiro de forma não frequente pode até apontar que às vezes falta sorte ao time mineiro. Isso não deixa de ser verdade, mas quando esse “azar” alcança uma sequência tão grande de partidas, algo tem de ser feito pela comissão técnica.

Dificuldades de mercado

Agora, façamos um exercício simples: se Pepa deixar o Cruzeiro, quem poderia assumir? O mercado de treinadores hoje é limitado e ainda mais dentro do recorte do que a gestão celeste espera dos comandantes escolhidos. Além disso, faltando pouco mais de três meses para o fim da temporada, um possível substituto para o português teria de se dar bem em “tiro curto” e conseguir extrair de um elenco modesto o que o atual técnico tira, somando a isso um aproveitamento melhor nos pontos conquistados. Imaginar que tudo isso vá dar certo pode soar otimista demais.

O Cruzeiro está a poucos passos de melhores dias

O turbilhão de emoções causado pelo momento ruim e pelas frustrações consecutivas passadas pelo torcedor cruzeirense: os empates conquistados no fim dos jogos por Athletico-PR e Corinthians, a vitória palmeirense no apagar das luzes e Lucas Perri fechando o gol do líder Botafogo levam o Cruzeiro do céu ao inferno em instantes e essa percepção acaba gerando um desconforto que hora ou outra chegaria num patamar mais extremo.

Mas é preciso pensar que da mesma forma que o time celeste poderia ter segurado esses resultados e ter conquistado no mínimo sete pontos a mais, e que há culpados pelos tropeços, o Cruzeiro esteve próximo dos resultados e isso se deve muito ao sólido trabalho do treinador português.

Pepa pode melhorar. Pode deixar de insistir em alguns atletas, pensar em soluções diferentes durante os jogos e reforçar os trabalhos de concentração, visando uma maior efetividade do seu grupo. O português também pode se comunicar melhor. Não que ele seja um turrão ou uma figura antipática, muito pelo contrário, o treinador é educado e paciente, até mesmo bastante carismático. Mas a partir do momento em que a pressão começou a aumentar, ele não tem sido exatamente claro ao explicar algumas de suas escolhas. E para confiar, é preciso entender.

Os processos são importantes no futebol e os resultados também. Quanto mais o Cruzeiro demorar para alcançá-los, pior será para o treinador. E a necessidade de mudança, de alguma coisa no clube, parecerá mais correta. Ainda assim, uma campanha para a demissão do treinador ainda parece algo exagerado e perigoso. Um tiro no escuro numa sala muito pequena onde as chances do clube celeste sair ainda mais ferido são reais.

Foto de Maic Costa

Maic Costa

Maic Costa nasceu em Ipatinga, mas se radicou na Região dos Inconfidentes mineiros. Formado em Jornalismo na UFOP, em 2019, passou por Estado de Minas, Superesportes, Esporte News Mundo, Food Service News e Mais Minas. Atualmente, é setorista do Cruzeiro na Trivela.
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