Brasileirão Série A

Após último erro, Gilberto não tem mais clima no Cruzeiro

Dificuldades técnicas e emocionais ditam passagem de Gilberto pelo Cruzeiro e erro contra o Corinthians parece ser gota d’água; Pepa também tem parcela de culpa

O Cruzeiro passou o domingo juntando os cacos após o frustrante empate contra o Corinthians, no sábado (19), no Mineirão, em partida válida pela 10ª rodada do Campeonato Brasileiro. O time celeste, que iniciou o jogo acumulando cinco partidas sem vitórias, vencia o confronto até os 53 minutos do segundo tempo, quando sofreu contra-ataque depois de Gilberto entregar uma bola já dominada em seu campo ofensivo. Após transição rápida, Ángel Romero passou por Palacios com facilidade e cruzou para Gustavo Mosquito, que ganhou de Marlon pelo alto e marcou.

Após o gol sofrido, o Mineirão passou alguns segundos atônito. Os mais de 35 mil torcedores presentes pareciam não acreditar no que estavam vendo. Passado o choque, o estádio desabou sobre Gilberto, com um dos maiores protestos destinados a um só jogador que já vi no futebol. Não só os cruzeirenses, mas até mesmo Filipe Machado, volante do Cruzeiro, descontou sua fúria no agora camisa 99 celeste.

— Segura a p… da bola, c… — Filipe Machado, volante do Cruzeiro, ao passar pela zona mista do Mineirão logo após Cruzeiro 1 x 1 Corinthians.

Gilberto, que chegou ao Cruzeiro no início do ano para ser o homem-gol da Raposa, jamais conseguiu entregar o que se esperava dele. Até o momento, em 2020, foram 30 jogos, com seis gols marcados e uma assistência dada. Todas as bolas na rede do jogador foram divididas em apenas três partidas:

  • Um hat-trick em Villa Nova (MG) 0 x 4 Cruzeiro, no dia 18 de fevereiro de 2023, pelo Campeonato Mineiro
  • Um gol em Bragantino 0 x 3 Cruzeiro, no dia 24 de abril de 2023, pela terceira rodada do Campeonato Brasileiro
  • Dois gols em América-MG 0 x 4 Cruzeiro, no dia 14 de maio de 2023, pela sexta rodada do Campeonato Brasileiro

O baixo número de gols, somado a partidas ruins no geral, com pouca entrega técnica e, com o passar do tempo, cada vez menos anímica, o centroavante perdeu o status de titular absoluto com Pepa, sendo preterido, em algumas oportunidades, por jogadores de outras características e, mais recentemente, pelo recém contratado Rafael Elias, o Papagaio, autor do gol do Cruzeiro contra o Corinthians.

Mesmo com seu status em declínio no elenco celeste, Gilberto seguiu sendo muito acionado por Pepa. O jogador atuou em nada menos que 18 dos 20 jogos do Cruzeiro no Brasileirão, tendo perdido um deles por suspensão. Em doze partidas, o centroavante começou como titular. Só o goleiro Rafael Cabral, com 19 presenças, entrou em campo mais vezes que o camisa 99 no Campeonato Brasileiro.

Gilberto e Cruzeiro: uma relação estremecida

As más atuações e a falta de gols de Gilberto logo passaram a render mais e mais críticas dos cruzeirenses. O jogador chegou a ser vaiado em alguns jogos e era um dos principais alvos da torcida celeste nas redes sociais. Ainda assim, nada pareceu tão forte quanto os xingamentos proferidos, em uníssono, por todo o Mineirão no sábado.

Em outras ocasiões, o centroavante, que se notabilizou pelos gols perdidos com a camisa azul, chegou a reclamar que “a bola não chegava”. Dessa vez, abatido, Gilberto não se manifestou.

— Eu me cobro, mas hoje a cobrança tem que ser geral, para todo mundo, desde o goleiro até o centroavante. Claro, a torcida está chateada comigo, mas tem que ver o contexto. O contexto não está bom. A bola tem que chegar mais redonda para o centroavante finalizar, é isso — Gilberto, ao fim de Cruzeiro 0 x 1 Goiás, no último dia 23 de julho, pela 16ª rodada do Brasileirão.

Durante a entrevista coletiva após o empate entre Cruzeiro e Corinthians, o treinador Pepa não quis individualizar suas críticas, mas garantiu que cobranças são feitas internamente.

— São momentos. Temos que estar todos aqui para levantarmos uns aos outros. Lembro no início do campeonato, o Giba não fazia gols, mas entregava, trabalhava. A cobrança é grande em todo lado e aqui tem que ser assim. Somos nós os primeiros a cobrar uns aos outros — argumentou o treinador.

Perguntado sobre a insistência em não individualizar críticas sobre Gilberto, Pepa deixou claro que por seu papel como treinador, não é correto expor seus atletas.

— Essas questões individuais, como deve compreender, são analisadas internamente — Pepa, em coletiva após Cruzeiro 1 x 1 Corinthians

O que fica claro é que já parece ser consenso geral que Gilberto e Cruzeiro foi um “casamento” que deu errado. O jogador não parece capaz de ajudar e sair de uma má fase que perdura por meses. Além disso, não tem lidado bem com a pressão por melhores atuações. Ele chegou a chorar e se desculpar pela falta de gols, após empate contra o Bahia, em junho passado.

Recebendo toda a frustração da torcida do Cruzeiro, Gilberto precisa ser preservado, tanto para seu próprio bem, quanto pelo melhor do time, visto que realmente parece não conseguir ajudar seus companheiros em nenhuma área do campo. Apesar de não falar abertamente, Pepa pareceu já entender isso. É provável, então, que o treinador venha dar um refresco ao seu atleta e, porque não, aos torcedores celestes.

Pepa também tem sua parcela de culpa

Apesar do treinador não ter poder na decisão que seu jogador toma em campo, é inegável que Pepa tem sua parcela de culpa na situação de Gilberto. Há muito mal no Cruzeiro, o jogador seguiu tendo oportunidades infindáveis com o comandante português. E essas chances constantes pareciam, no mínimo, incoerentes.

Quando se analisa o Cruzeiro por completo, percebe-se que diversos jogadores perderam espaço com Pepa após más partidas. Stênio e Wallisson deixaram de receber oportunidades constantes. Neto Moura, Igor Formiga, Reynaldo e Henrique Dourado até mesmo deixaram o clube. Outros praticamente não entram em campo, como é o caso de Fernando Henrique e Daniel Jr.

Pepa durante Cruzeiro 1 x 1 Corinthians
Pepa durante Cruzeiro 1 x 1 Corinthians – Foto: Gilson Lobo/Icon Sport

Bem, o treinador pode ter seus motivos para não contar com esses atletas. Algumas das razões são claras, como é o caso de Wallisson, que deseja deixar o clube e já foi punido em duas oportunidades por indisciplina. Mas há, no mínimo, uma falta de critério quando o assunto é Gilberto, que mesmo mal, segue jogando. E quando ele insiste numa peça que não funciona, ele expõe seu atleta.

Outro ponto é a obviedade das substituições de Pepa. Quando Rafael Papagaio pediu para sair, o técnico logo chamou Gilberto. “Seis por meia dúzia”, ou “nove por nove”. Isso tem sido uma constante em suas alterações na passagem pelo Cruzeiro. O camisa 99 da Raposa já mostrou em diversas oportunidades que não tem, no momento, condições técnicas e emocionais de entregar um futebol de alto nível no clube celeste. Além disso, tem dificuldades de executar bons papéis físicos e táticos.

Então o que explica a entrada de Gilberto ontem? O conservadorismo do treinador. Quando o jogador se colocou na beira do gramado, a torcida chiou. Parecia prever. Pepa não.

Nota de pesar

A Trivela presta solidariedade e pêsames às vítimas do acidente que matou sete corintianos que voltavam para a casa após assistir Cruzeiro 1 x 1 Corinthians no Mineirão, nesse sábado (19), e aos seus familiares. De acordo com o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, 27 pessoas ficaram feridas. O veículo teria perdido os freios quando passava pelo Km 520 da rodovia Fernão Dias, na Grande Belo Horizonte, durante a madrugada desse domingo (20). O mundo do futebol está de luto.

Foto de Maic Costa

Maic Costa

Maic Costa nasceu em Ipatinga, mas se radicou na Região dos Inconfidentes mineiros. Formado em Jornalismo na UFOP, em 2019, passou por Estado de Minas, Superesportes, Esporte News Mundo, Food Service News e Mais Minas. Atualmente, é setorista do Cruzeiro na Trivela.
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