Brasileirão Série A

Cruzeiro: Pedro Martins deu entrevista protocolar, mas pontos importantes surgiram

Diretor de Futebol do Cruzeiro falou após apresentação de Zé Ricardo como novo treinador do clube

O Cruzeiro apresentou, nesta quarta-feira (6), Zé Ricardo, o novo treinador que comandará a equipe celeste no restante do Campeonato Brasileiro. O primeiro contato do comandante com a imprensa mineira aconteceu em coletiva realizada na Toca da Raposa 2, onde o diretor de futebol cruzeirense, Pedro Martins, também respondeu perguntas dos jornalistas presentes.

Como era de se esperar, pela má fase do Cruzeiro na temporada, a coletiva de Pedro Martins teve momentos tensos, principalmente durante as falas de Martins, o que foi percebido até mesmo por Zé Ricardo, que fez referência a isso num vídeo institucional publicado pelo departamento de comunicação do clube nesta tarde.

— A gente sabe que, pelo momento que passamos, não ia ser uma coletiva que não teria alguns momentos mais, vamos dizer assim, tensos —, Zé Ricardo, em vídeo publicado pelo Cruzeiro. Veja:

Pedro Martins e Victor Rios diretor de comunicação do clube, que acompanhou Pedro durante a coletiva tiveram semblantes sérios durante todo o tempo e deixaram a bela sala de imprensa inaugurada hoje pelo Cruzeiro com caras de poucos amigos.

Durante a coletiva, Pedro Martins respondeu, principalmente, questionamentos sobre o planejamento do clube, a demissão de Pepa, a escolha de Zé Ricardo e a relação conturbada com a torcida nos últimos meses.

Demissão de Pepa

Sobre a demissão de Pepa, Pedro Martins deu declarações fortes, dizendo que se alguém no Cruzeiro ficou feliz com a saída do português, essa pessoa tem que deixar o clube. Segundo ele, o desligamento do treinador foi uma derrota da gestão.

Não tem ninguém feliz com a troca. Inclusive, tem que ser avaliada como uma derrota , disse Pedro Martins.

O diretor de futebol do Cruzeiro disse que a demissão de Pepa se deu por um conjunto de fatores, que foram avaliados e discutidos, inclusive com o treinador, em mais de uma oportunidade. Pedro Martins ainda destacou que o desligamento do treinador, que considera promissor, não significa que o trabalho não tivesse seus pontos positivos. Martins disse ainda que todos do clube entendem que mesmo com a comissão técnica sendo mudada, a responsabilidade pelo momento do clube é coletiva.

Avaliamos o trabalho do Pepa, mas existiam dúvidas sobre a projeção do próximo ciclo, no restante da competição. A nossa convicção no dia-a-dia do trabalho fez com que nós alterássemos o comando técnico da equipe. É assim que a gente conduz as coisas no Cruzeiro. A convicção fez com que a gente trocasse, mas a avaliação é de que todo mundo é parte disso disse Pedro Martins.

Não tem ninguém feliz com a saída do Pepa aqui no Cruzeiro. Mas isso é diferente de avaliação de trabalho e projeção de resultado. Dentro desse exercício, tomamos a decisão de tira-lo. Toda decisão tem um risco, tanto a de tirar quanto a de ficar. É por isso que precisamos ter convicção e clareza de onde queremos chegar, e nesse aspecto o clube está bem definido e decidido – afirmou Pedro.

Escolha por Zé Ricardo

Pedro Martins falou, ainda, sobre os motivos que levaram a diretoria do Cruzeiro a escolher Zé Ricardo para comandar time em 2023. O diretor contou que há uma lista com nomes de profissionais para diversas funções, sendo esta consultada quando necessário contratar para algum departamento do clube.

O Zé Ricardo sempre foi um treinador que a gente monitorou, a gente sempre acompanhou a carreira dele. Conversamos com ele em outros momentos e isso vai ajudando você a tomar decisão e diminuindo margem de erro revelou Pedro Martins.

A gente tem uma equipe de monitoramento de mercado que faz monitoramento de atletas em potencial, jogadores com (potencial) futuro de aquisição, staff e técnicos. É uma lista grande que a gente, como inteligência no Cruzeiro, precisa estar alimentando e atualizando a todo momento — explicou o diretor de futebol da Raposa.

Momento x projeto

Pedro Martins também tratou de afastar a ideia de que, por ter demitido um treinador com menos de seis meses de trabalho e ter escolhido outro que fugia do perfil definido pela diretoria no projeto celeste, havia uma mudança de rota na forma a direção de pensar a gestão do clube. O diretor de futebol, afirmou que é preciso saber diferenciar “projeto de momento” e que o momento pedia certas decisões, dando a entender que em condições “normais”, elas poderiam não ser tomadas.

Não confundam momento com os rumos do projeto. Com relação ao caminho que o Cruzeiro está tomando, nós não temos dúvida nenhuma da força do nosso projeto com o clube. E se há alguma pessoa (na Toca) que tem dúvidas sobre os rumos que esse clube vai tomar, essa pessoa tem que sair — declarou.

— A diferença do Cruzeiro é que é um clube que tem um norte. Se alguém está esperando um clube que não vai errar, que não vai ter turbulência e dificuldades, isso não acontecerá num clube de futebol. Nós (diretoria) vamos errar e ninguém disse que isso não ia acontecer. Vamos passar por isso, mas a diferença é ter convicção e clareza de onde queremos chegar continuou o diretor de futebol do Cruzeiro.

Pedro Martins ainda voltou a reforçar que no Cruzeiro não se trabalha com um “salvador da pátria”, mas com um conjunto de profissionais que buscar um mesmo objetivo.

Não estamos trazendo salvador da pátria, pois os jogadores são os mesmos, o staff é o mesmo e a diretoria é a mesma. Somente falando e deixando isso bem claro, a gente vai conseguir, com a liderança do Zé Ricardo, obter melhores resultados afirmou Martins.

Zé Ricardo, em seu primeiro contato com os jogadores do Cruzeiro
Zé Ricardo durante seu primeiro contato com os jogadores do Cruzeiro – Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Relação com a torcida

Pedro Martins não nega que a relação da torcida celeste, noutro momento tão boa, com a administração do Cruzeiro, não vem sendo das melhores. Ainda assim, ele alega que, em alguns momentos, a decisão de aguardar para falar com a torcida foi acertada. Pedro contou que a diretoria definiu de forma conjunta se manifestar sobre a demissão de Pepa somente quando outro treinador tivesse acertado.

A torcida não é cliente, ela é parte do projeto. A gente tomou o tempo necessário para avaliar, entender e estudar se o treinador era viável ao projeto. Por isso que tomou o tempo que tinha que tomar. É carinho e cuidado com o futuro do clube. Estamos tomando a melhor decisão pensando no futuro do Cruzeiro explicou Pedro Martins.

Perguntado sobre as críticas que a gestão vem sofrendo da torcida recentemente houve protestos, nota repúdio das torcidas organizadas em relação à contratação de Zé Ricardo, além das críticas ao programa de sócio-torcedor do clube , Pedro Martins assumiu que a busca pela conexão com o torcedor é um objetivo, mas que as decisões do clube são técnicas e não baseadas nas vontades dos torcedores.

A gente precisa avaliar o dia-a-dia, o trabalho, e as decisões técnicas que precisam ser tomadas para que a gente consiga os resultados e a torcida se agrade. Não como aconteceu outras vezes, quando a decisão foi tomada pelo que vinha sendo dito. Isso é injusto com a própria instituição. Sempre vamos buscar, por diversos meios, a conexão com o torcedor. Mas a decisão técnica tem que ser avaliada com o que está sendo feito aqui dentro falou Pedro Martins.

Eu acredito que a aproximação tem que acontecer, deve acontecer. A gente sentiu essa conexão no ano passado. Sem a torcida, o clube não é ninguém. Aqui, a gente trabalha para conseguir criar essa conexão finalizou.

Entrevista não foi das melhores, mas teve bons pontos

A entrevista de Pedro Martins soou protocolar demais, quase um post de LinkedIn. Mas entre as respostas arredias e concentradas no universo extenso de um projeto de longo prazo, coisas interessantes foram ditas. O diretor de futebol do Cruzeiro demonstra entender a insatisfação dos torcedores e, apesar de seguir defendendo firmemente o projeto do clube, já admite que o momento da equipe pode influenciar em decisões que fujam do organograma celeste. Ele ainda garantiu, enfaticamente, que o clube celeste jamais deixará de honrar seus compromissos financeiros, como o pagamento de salários.

Entre os pontos negativos, ressalto as dificuldade em assumir, diretamente, os erros da gestão, mesmo que em certos momentos Pedro tenha feito mea culpa, assumindo (o óbvio) que a gestão não é perfeita e que vai errar. Martins ainda adotou uma postura que, particularmente, desaprovo e que não foi tomada por Zé Ricardo. Foi solicitado ao diretor de futebol uma avaliação do seu departamento em 2023 e ele começou a falar dos anos difíceis do Cruzeiro na Série B, assunto que sempre surge ao mínimo sinal de problemas no time celeste.

As explicações sobre a saída de Pepa esclarecem pouca coisa de fato e dificilmente algum torcedor terminou a coletiva entendendo melhor os motivos, na visão da diretoria, da saída do treinador português, do que entendia quando começou a assisti-la.

O discurso excessivamente robotizado ainda reforça a impressão do cruzeirense de distanciamento do time e, apesar de Pedro dizer o contrário, o cruzeirense não parece ser, de fato, parte do projeto. Mas, se a direção celeste entende que a relação precisa melhorar, esse é um bom ponto de partida para começar a se trabalhar nisso.

Foto de Maic Costa

Maic Costa

Maic Costa nasceu em Ipatinga, mas se radicou na Região dos Inconfidentes mineiros. Formado em Jornalismo na UFOP, em 2019, passou por Estado de Minas, Superesportes, Esporte News Mundo, Food Service News e Mais Minas. Atualmente, é setorista do Cruzeiro na Trivela.
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