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Calendário da CBF em 2015 avança tão pouco que nem dá para comemorar

A CBF divulgou o calendário do futebol brasileiro para 2015 com melhoras em relação ao de 2014, mas são tão tímidas que nem dá para comemorar. A inserção de pré-temporada é o único ganho real, e na verdade é uma questão de direitos dos jogadores que não deveria nem ser questão de discussão As mudanças são sutis perto do que é de fato necessário. E aí que a gente até tenta comemorar, mas a verdade é que não há mesmo muito com o que se animar.

A pré-temporada foi definida com 25 dias, do dia 7 até o dia 31 de janeiro. Essa talvez seja a melhor notícia que o calendário traz. Os campeonatos têm começado cada vez mais cedo e, em 2013 e 2014, ainda mais, porque foram anos que tiveram Copa das Confederações e Copa do Mundo no Brasil. Em 2014, alguns estaduais começaram no dia 12 de janeiro, um crime se pensar que o Brasileirão acabou no dia 8 de dezembro. Significa que o espaço entre o fim da principal competição do país e o início das atividades do futebol teve pouco mais de um mês e é pouco. Claro, foi um ano excepcional, mas o Brasil teve sete anos – desde que foi definido como sede da Copa – para pensar em um calendário, então não tem desculpa.

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Desta vez, com os campeonatos começando a partir do dia 1º de fevereiro, ao menos os times tem algum tempo de descanso. O Brasileiro de 2014 acabará dia 7 de dezembro, o que significa que os jogadores ganharão um mês de férias, como deve ser, e depois uma pré-temporada de 25 dias, no mínimo. Ainda não é o ideal, mas já é um avanço significativo em relação aos últimos anos.

Só que as melhoras acabam por aí. Um dos itens mais alardeados pela própria CBF é que não serão disputadas rodadas do Campeonato Brasileiro quando houver Eliminatórias. Seria um enorme avanço, mas não é verdade. Ou, sendo mais preciso, é uma meia verdade. Não teremos jogos nos mesmos dias das partidas das Eliminatórias, que serão sempre às sextas e terças. E no fim de semana entre esses dois jogos não haverá rodada. Só que haverá rodada na quarta-feira. Ou seja: se o time tem um jogador na seleção – brasileira, chilena, argentina ou qualquer outra –, continuará não tendo o jogador, porque é impossível que o jogador atue na terça à noite pela seleção e 24 horas depois pelo Brasileirão seria absurdo. Então, na prática, o que aconteceu é que agora o jogador deixa de perder dois jogos por causa de uma rodada de Eliminatórias e perderá só uma.

Se nas Eliminatórias o problema até diminuiu, mas continua existindo, quando se trata de datas Fifa o Brasileirão continua não respeitando nada. A primeira delas será nos dias 27 e 31 de março. Haverá rodada dos estaduais no dia 29 e no dia 1º de abril. Ou seja: entre um jogo e outro e depois do segundo jogo. Os times continuarão a ser prejudicados.

Por fim, os estaduais terão 19 datas, de forma a aliviar, um pouco o calendário. Diminuir os estaduais é ótimo, mas esse número ainda é muito alto. Já falamos muitas vezes sobre os estaduais e o problema de calendário. Já comentamos que o dinheiro pago pela TV faz os clubes levarem o estadual a sério em São Paulo, já falamos que precisamos saber o que queremos dos estaduais e até criamos uma fórmula para adequar os estaduais.

Seleção olímpica com calendário paralelo à principal

A CBF anunciou também na quarta-feira que terá um calendário específico para o time olímpico. O time olímpico jogará nas mesmas datas, ou ao menos no mesmo período, das datas Fifa usadas pelo time principal. “Pode não ser exatamente nas mesmas datas, e sim um ou dois dias ates ou depois. Mas está definido que a Seleção Olímpica disputará o mesmo número de amistosos marcados para a Seleção Principal. Estamos já em busca de adversários”, disse Gilmar Rinaldi, o novo coordenador de seleções.

O problema, como dissemos acima, é que as datas Fifa não são respeitadas aqui no Brasil. Ou seja: é possível que um time perca jogadores não só para o time principal, mas para o time olímpico. Como exemplo, o Cruzeiro poderia perder Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart para a seleção principal e Lucas Silva para a seleção olímpica,que jogarão na mesma data, ou próximo. Um time poderia perder dois, três ou quatro jogadores. Talvez mais em alguns casos.

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A iniciativa de montar um calendário para a seleção olímpica é excelente. A CBF tem mesmo que fazer isso e começar com dois anos de antecedência a pensar no time olímpico é um bom sinal nesse sentido, que é algo que sempre se pede. A questão não é bem a seleção, é a CBF e o calendário do futebol. Os clubes não deveriam aceitar, como principais partes interessadas. São eles que se prejudicam mais. E são também os primeiros a se calarem.

Não são só os clubes que fazem parte desse processo. A TV é outra parte interessada e importante, até por ser a principal financiadora. Caio Maia escreveu aqui na Trivela que se a Globo quiser mesmo, pode obrigar nosso futebol a melhorar. Afinal, a TV é uma das grandes responsáveis pelo calendário, além da CBF. Como em qualquer lugar do mundo, a TV tem uma influência importante na elaboração da tabela, horários de jogos e quando o campeonato é jogado.

Aparentemente, nem clubes, nem TV e muito menos a CBF estão dispostos a discutir a questão do calendário. De todo mundo, quem mais parece disposto a discutir tem sido justamente a TV. Isso é bastante preocupante. E aí, as reclamações sobre convocações cairão sobre a seleção olímpica e sobre o técnico Alexandre Gallo, mas será injusto. Afinal, o técnico está lá para fazer o trabalho dele e tem que poder contar com os melhores jogadores.

No atual contexto, a CBF é tão incompetente que ela consegue fazer a Seleção Brasileira prejudicar o campeonato que ela própria organiza, o Brasileiro, e os clubes filiados a ela. É inacreditável. Aí quando se fala em um distanciamento cada vez maior entre Seleção Brasileira e torcida, a CBF se surpreende ou nega. Vive em uma negação óbvia: o calendário é altamente prejudicial aos clubes, que são o coração do futebol.

A Seleção, em última análise, tira os jogadores do seu clube quando ele faz jogos importantes – basta lembrar que o Brasil fará amistosos nos dias 5 e 9 de setembro e possivelmente tirará alguns jogadores de um dos grandes jogos do Campeonato Brasileiro, Fluminense x Cruzeiro, no dia 7 de setembro. Isso para não falar dos outros jogadores. Fica difícil pensar em futuro para o futebol brasileiro quando temos que comemorar porque teremos 25 dias de pré-temporada no calendário 2015. É muito pouco. Não dá para comemorar isso.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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