Brasil

É a economia, estúpido

Começaram os campeonatos estaduais. Alguns times foram a campo com reservas, porque o estadual já começa um mês e meio depois do fim do Brasileiro, não dando tempo para pré-temporada. Para os clubes das Séries A e B – talvez até da C -, o estadual é o torneio menos importante da temporada. Só que os estaduais conseguem se manter atraentes para os clubes com um recurso mais antigo que andar para frente: grana.

Em boa parte dos estados que possuem times na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, os torneios regionais possuem 23 datas. O Mineiro é a exceção entre os grandes, com apenas 15 datas, número próximo do que seria o ideal (e sobre isso, assino embaixo da ideia de Thiago Arantes).

Os estaduais começaram neste dia 19 de janeiro e vão até o dia 19 de maio. Portanto, são exatos quatro meses de disputa. Um terço do ano. Alguns times poderão chegar à casa de 80 jogos na temporada. Se esse é um problema grave no planejamento dos times, por outro lado é uma forma de ganhar um dinheiro fácil, só por participar. Um ganho relativo, mas que vai direto e reto para os clubes e que monta uma cadeia de poder interessante.

O Campeonato Paulista, um dos mais importantes estaduais do Brasil, é um exemplo claro. Três dos seus quatro principais times estão na Libertadores em 2013. Se algum deles repetir o feito do Corinthians em 2012 e for campeão, irá receber um valor aproximado de US$ 5 milhões, que em reais seria atualmente cerca de R$ 10,2 milhões. Valor menor do que os clubes recebem apenas como cotas de TV: R$ 10,8 milhões.

Ou seja: Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos já começam com esse valor de cota garantidos por jogarem o Campeonato Paulista. Se um desses times for campeão, a premiação, claro, é ainda maior e chega a quase R$ 20 milhões. Trocando em miúdos: o Paulista paga mais que a Libertadores. Na prática, bem mais. O que, por si, já mostra o quanto é importante para esses clubes continuarem jogando o torneio. Quem pode dispensar um valor como esse? Pensando a curto prazo, os clubes não querem abrir mão.

Mais do que isso: alguns dos clubes usam a Federação Paulista de Futebol como banco. O Santos teria adiantado cotas até 2015 e o Palmeiras teria recebido, já em 2012, as cotas de 2013. Nenhuma dessas informações foi confirmada pelos clubes, porém.

São Paulo é o exemplo maior de quanto o dinheiro influencia para que o torneio continue existindo com tanta força, mas no Rio de Janeiro a situação não é muito diferente. A cota paga aos quatro grandes cariocas em 2013 é algo em torno de R$ 12 milhões, segundo confirmou um dirigente do Vasco.

Em Minas, outro estadual de peso, Atlético e Cruzeiro receberam, em 2012, R$ 6 milhões para jogar o estadual. O América, atualmente na Série B do Brasileiro, recebeu sozinho R$ 1,8 milhão. Os valores de 2013 não foram confirmados. Valores que, por si, ajudam a bancar uma parte das gordas folhas salariais, comuns aos grandes clubes brasileiros.

No Rio Grande do Sul, a situação é parecida. Os números de 2012 foram algo em torno de R$ 6 milhões para Grêmio e Internacional. É um dinheiro que entra fácil e os dirigentes aceitam sem pensar. Isso sem contar as premiações, que aumentam ainda mais esse valor para quem leva a taça – e proporcionalmente, a quem chega nas fases finais.

No Paraná, os clubes da capital Curitiba acertaram receber um valor de R$ 1,1 milhão. Quer dizer, Coritiba e Paraná, porque o Atlético Paranaense entrou em uma briga que envolve não só esse dinheiro, mas a ideia de receber também das rádios, entre outros problemas que envolvem também a política do futebol paranaense. Alguns clubes, como o Londrina, fizeram jogo duro para aceitar a proposta da TV, de R$ 220 mil.

O Pernambucano pagou R$ 370 mil como cota de TV aos três principais clubes do estado, Santa Cruz, Sport e Náutico. O Campeonato Baiano pagou, em 2012, um valor de cerca de R$ 1 milhão para Bahia e Vitória, os dois que disputarão a Série A em 2013. Em Santa Catarina, o valor pago aos quatro maiores times (Criciúma, Joinville, Figueirense e Avaí) foi de R$ 220 mil em 2012. No Cearense, a TV paga R$ 2 milhões, sendo 550 mil para Fortaleza e Ceará e R$ 160 mil Ferroviário, os principais times do estado. Os valores do Campeonato Goiano não foram revelados.

Um problema para os grandes

O dinheiro atrai os times, mas os próprios clubes sabem que os estaduais, se jogados inteiramente a força inteira, prejudicará toda a temporada. Tanto que, não é de hoje, o Internacional e o Grêmio, os gigantes do Rio Grande do Sul, iniciaram suas campanhas no Gauchão com times inteiramente reservas. Times e até a comissão técnica.

O Inter, diga-se, faz isso há alguns anos. Sabe que, se começar a temporada tão cedo, já em meados de janeiro, não terá um time em condições de brigar pelo título no início de dezembro, quando se decide o Campeonato Brasileiro. O Grêmio levou os reservas porque se concentra para o jogo contra a LDU, no Equador, onde está o time e comissão técnica principais.

O Fluminense, campeão brasileiro, entrou em campo com 11 reservas contra o Nova Iguaçu. O Corinthians, campeão mundial e da Libertadores, também foi a campo com reservas contra o Paulista de Jundiaí. Os times sabem que precisam de uma pré-temporada ao menos razoável, já que é impossível ser ideal com o calendário brasileiro.

O Náutico, que não joga a Copa do Nordeste, fará o mesmo. Sabendo que é o time mais forte da primeira fase do Pernambucano, deixará reservas iniciarem a campanha e poupa seus titulares para fazer uma preparação física melhor. Até porque a fórmula maluca do estadual nesse início de campanha permite a classificação de quase todo mundo mesmo.

O Coritiba também deu de ombros para o início do estadual. Jogou com reservas contra o Operário no estádio Germano Krüger. Os titulares do coxa seguem em pré-temporada. Não é preciso fazer força nesse início. O que vem de mais importante é depois.

O Atlético Paranaense entrou com um time sub-23, não apenas para ter tempo de fazer a pré-temporada, mas principalmente pela guerra que trava com a TV pela sua cota, que não aceitou, e por querer receber das rádios também. Aliás, o Atlético chegou ao ponto de proibir entrevistas aos seus jogadores, o que é absolutamente ridículo. Até porque não pode proibir os jornalistas de falarem com os jogadores na saída de campo. O que pode, e fez, é não ter mais entrevistas coletivas. Fez isso, não parece muito inteligente, diminui a exposição, mas é parte da guerra que o time acha justa.

O caminho é a ruptura do poder

Com o dinheiro que vem da TV e das federações, o laço dos clubes ao estadual tem um nó. E um nó cego. Considerando que o segundo dirigente mais poderoso da CBF é Marco Polo Del Nero, presidente da Federação Paulista de Futebol, as perspectivas de mudanças são próximas a zero. Ou pior: Del Nero acha que 23 datas para estadual é pouco. E com o poder da CBF nas suas mãos, fica mais fácil distribuir mais datas para os amigos das demais federações e ganhar o apoio de todos eles para se manter no poder.

O que fazer, então? Os clubes têm rabo preso. O dinheiro que pegaram adiantado da TV e das federações tem o seu preço. Só que cada vez mais fica claro que esse tipo de competição acaba sendo um problema maior do que um benefício. O calendário fica destruído, os jogos são desinteressantes e o excesso de datas é uma das causas de, por exemplo, os campeonatos locais não pararem em datas Fifa, quando as seleções jogam.

O caminho para mudar passar pela ruptura total e completa com a estrutura atual. E tem gente de olho nele. Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians e ex-diretor de seleções da CBF, tornou-se desafeto do atual presidente, José Maria Marin, assim como já era de Del Nero. Sanchez era o sucessor natural de Ricardo Teixeira, mas a saída do cartola que comandou a CBF por mais de 20 anos acabou por minar suas pretensões. E para voltar, ele sabe que terá que conseguir muito apoio. Ele não tem nada a oferecer às federações. Mas tem a oferecer aos clubes. E sabe disso.

No Mundial de Clubes, após a vitória corintiana no Japão, Andrés Sanchez disse que a CBF “dava pouco aos clubes”. Os clubes também votam. Então, Sánchez precisa encontrar um caminho para agradar aos clubes. Como? Ele foi presidente do Corinthians e sabe o que atrapalha o time. Sabe que, por exemplo, a Libertadores paga pouco. Sabe que o estadual é longo demais. Sabe que a seleção não pode jogar no mesmo dia que tem rodada de Campeonato Paulista ou Brasileiro.

Sabe também que precisa dar aos clubes pequenos atividade constante, o ano todo, que não dependa do estadual. E isso é possível, com algo que as federações jamais farão: um estadual entre os times sem divisão para dar vagas à Série D. Aliás, em um país como o Brasil, é possível ter muitas divisões regionalizadas. Se na Inglaterra há oito divisões mais as ligas amadoras e o seu território cabe 65 vezes dentro do Brasil, é possível ter mais divisões do que as quatro que existem hoje. E manter os times em atividade mais tempo.

Precisamos mudar o estadual. Ou o estadual se autodestruirá em alguns anos. Afinal, se é o dinheiro que faz os estaduais continuarem como estão, é a economia que os obrigará a mudar. Resta saber quando e a que preço.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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