Brasil

30 anos do Tetra: como a Seleção soterrou críticas para encerrar o maior jejum da história

Do jejum ao pacto com Senna, Trivela resgata os traumas curados pelo Brasil com o Tetra

Trinta anos atrás, em 17 de julho de 1994, Dunga erguia a taça da Copa do Mundo sob sol escaldante da Califórnia e soltava aos céus um grito preso na garganta há mais de duas décadas. O Brasil era Tetra. E não havia símbolo maior ou melhor do que este.

Pois ao erguer a taça e gritar a plenos pulmões, Dunga fazia muito mais do que celebrar a conquista da Seleção Brasileira. O capitão e os seus 21 companheiros soterravam o que era um universo inteiro de críticas e tiravam das costas o peso de carregar o maior jejum da Seleção em Copas do Mundo.

No aniversário de 30 anos do Tetra, a Trivela relembra como o Brasil – liderado por Romário – calou os críticos e encerrou a seca de 24 anos sem títulos mundiais — a mesma que viveremos em 2026.

Romário foi o cara do Tetra
Romário foi o cara do Tetra (Foto: IconSport)

O peso do jejum e a “Era Dunga”

— Foram 60 dias. Só falta um dia. Só falta um jogo. Estamos próximos de fazer história e mudar nossas vidas — Carlos Alberto Parreira, horas antes da final contra a Itália.

A frase dita pelo treinador aos jogadores no vestiário dá o tom exato do que era a pressão que minava a Seleção a cada toque na bola em 1994. Mas reduzir todo o ambiente de cobranças aos dois meses que antecederam a final contra Itália é ser (muito) econômico — para não dizer injusto.

Não foram apenas 60 dias. E sim, longos anos de pressão e cobranças desde o trauma na Copa de 1990, personificadas naquele que vestia a braçadeira de capitão e que ergueu a taça sob sol escaldante no Rose Bowl.

Foto: (IconSport) - Dunga pela seleção brasileira
A “Era Dunga” era sinônimo de fracasso antes do Tetra  (Foto: IconSport)

Dunga hoje é o eterno capitão do Tetra. Mas no início dos anos 90, a “Era Dunga” servia de sinônimo de mau futebol e decepções. O volante virou o rosto de uma geração que carregou o peso de fracassos anteriores.

Após viver um período de ouro com três títulos mundiais em 12 anos (de 1958 a 1970), o Brasil amargou decepções com seleções que encantavam — a de 1982 é o maior expoente delas.

Era o momento de abrir mão do “jogo bonito” e fazer uso de um estilo mais eficiente. Funcionou no título da Copa América de 1989, mas tudo desabou com a eliminação para a Argentina na Copa de 1990, sob o comando de Sebastião Lazaroni.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Romário de volta, e a “final” contra o Uruguai

A pressão era tamanha que Paulo Roberto Falcão não resistiu sequer um ano no cargo após o mundial. Carlos Alberto Parreira assumiu e quase foi mandado embora depois de dois jogos. Mas resistiu.

Resistiu mesmo com a campanha pífia nas Eliminatórias. O Brasil corria (sérios) riscos de ficar fora de uma Copa do Mundo pela primeira vez na história.

A comissão técnica se recusava a convocar Romário, então melhor jogador do mundo, desde que o atacante reclamou por ter sido reserva em um amistoso contra a Alemanha. Zagallo falava mais alto na desavença.

No fim, tudo se resumiu a um duelo decisivo com o Uruguai no Maracanã. A Celeste tinha uma geração de ouro e seria campeã da Copa América de 1995. Quem vencesse ficaria com a vaga.

Então Parreira deu o braço a torcer, ouviu a voz do povo que clamava por seu artilheiro e chamou o salvador da pátria: Romário foi convocado para substituir Müller, lesionado.

— Não tenho medo, não. E tampouco sou salvador da pátria. Eu vim convocado e estou tranquilo para jogar mais um jogo — Romário, antes do jogo contra o Uruguai.

Romário fez de “mais um jogo” o jogo de sua vida. O Brasil viveu uma de suas melhores atuações na história, venceu o Uruguai por 2 a 0  — dois gols do Baixinho — e se garantiu na Copa do Mundo.

O misticismo do Tetra com a “cara” daquela Seleção

O mesmo Romário que garantiu o Brasil na Copa seria o responsável por conduzir a Seleção ao tetra. O camisa 11 acostumado a ser “o cara” e a disparar frases fortes sabia bem disso. E aprontou das suas assim que chegou à Granja Comary para iniciar o período de preparação para o Mundial.

— Se realmente acontecer um resultado negativo, o maior culpado sou eu. Vou estar preparado para isso — Romário antes da Copa.

Romário exalou confiança com suas palavras. E correspondeu com atitudes e gols para que elas não o assombrassem para o resto da vida.

Liderada pelo Baixinho, esta Seleção Brasileira que nunca foi brilhante, mas é para sempre (tetra)campeã do mundo e construiu uma campanha vitoriosa à sua feição.

Longe de encantar o planeta com o jogo bonito, o Brasil se sagrou vencedor com momentos que hoje viraram quase mitologia, 30 anos mais tarde.

Logo na estreia, por exemplo, o goleiro Dmitry Kharin, da Rússia, dizia não conhecer o Romário. O atacante deixou o seu na vitória por 2 a 0 e fez com que ele nunca mais esquecesse o seu nome.

A campanha do Brasil no Tetra

  • Fase de grupos:
    Brasil 2 x 0 Rússia (Romário e Raí)
    Brasil 3x 0 Camarões (Romário, Márcio Santos e Bebeto)
    Brasil 1 x 1 Suécia (Romário)
  • Oitavas de final: Brasil 1 x 0 Estados Unidos (Bebeto)
  • Quartas de final: Brasil 3 x 2 Holanda (Romário, Bebeto e Branco)
  • Semifinal: Brasil 1 x 0 Suécia (Romário)
  • Final: Brasil 0 (3) x (2) 0 Itália

Expulsão de Leonardo e o brilho de Branco

Nas oitavas de final, o Brasil teve pela frente os Estados Unidos logo no 4 de Julho, feriado mais importante do país. Em uma atmosfera que transpirava patriotismo, Leonardo foi expulso por acertar Tab Ramos com uma cotovelada. Em um raro dia em que Romário jogou pouco, Bebeto decidiu na vitória por 1 a 0.

As quartas de final reservaram o jogo mais emocionante da Copa, com dois momentos eternos na vitória por 3 a 2 sobre a Holanda. Primeiro, a comemoração de Bebeto embalando o seu filho recém-nascido, Mattheus.

Depois, a cobrança de falta salvadora de Branco e o malabarismo de Romário para desviar da bola. O centroavante também deixaria o seu na vitória por 1 a 0 sobre a Suécia na semifinal.

Leonardo foi expulso após acertar Tab Ramos no rosto
Leonardo foi expulso após acertar Tab Ramos no rosto (Foto: IconSport)

Uma final para a história

Brasil e Itália chegaram à final empatados em títulos (três para cada lado) e em candidatos a melhor do mundo: Romário e Roberto Baggio. O italiano quase ficou fora da decisão por conta de um problema muscular.

A questão física, aliás, pesou contra a Azzurra — Baresi, por exemplo, havia se recuperado de uma artroscopia no joelho feita 20 dias antes, durante o Mundial. O Brasil foi superior e desperdiçou chances.

Parecia mesmo destinado à eternidade. Pela primeira vez, uma Copa do Mundo foi decidida nos pênaltis. Romário, que não costumava bater, converteu sua cobrança. Baggio, por sua vez, isolou a sua. E o resto é história.

Roberto Baggio isola a cobrança na final da Copa de 1994
Roberto Baggio isola a cobrança na final da Copa de 1994 (Foto: IconSport)

Senna… Aceleramos juntos, o Tetra é nosso!

Uns corriam de um lado ao outro de braços abertos. As bandeiras do Brasil em punho. Outros se amontoavam em abraços dentro de campo. Assim que Baggio isolou sua cobrança, cada um dos 22 jogadores desatou a comemorar o tetra a sua maneira particular.

E todos eles se lembraram de homenagear aquele consideravam o 23º jogador da Seleção: Ayrton Senna.

As imagens eternizadas do Tetra têm uma faixa como plano de fundo: Senna… Aceleramos juntos, o Tetra é nosso!

Jogadores da Seleção homenageiam Ayrton Senna no Tetra
Jogadores da Seleção homenageiam Ayrton Senna no Tetra (Foto: IconSport)

A conquista nos Estados Unidos consolou uma nação órfã de seu ídolo, morto dois meses antes em um trágico acidente no autódromo de Ímola, na Itália. A relação do piloto com a Seleção era ainda mais estreita.

Senna virou o 23º jogador do tetra em abril daquele ano. Ele fez uma visita à Seleção e deu o pontapé inicial para um amistoso contra um combinado de jogadores do PSG e do Bordeaux.

Em um jantar dias mais tarde, veio um pacto entre piloto e jogadores: Senna e a Seleção buscariam o tetra na Fórmula 1 e no futebol. E o Tetra, de fato, foi deles.

Os convocados do Tetra

  • Goleiros: Taffarel (Reggiana), Gilmar (Flamengo) e Zetti (São Paulo)
  • Zagueiros: Aldair (Roma), Márcio Santos (Bordeaux), Ricardo Rocha (Vasco) e Ronaldão (Shimizu)
  • Laterais: Branco (Fluminense), Cafu (São Paulo), Leonardo (São Paulo) e Jorginho (Bayern de Munique)
  • Meio-campistas: Mauro Silva (La Coruña), Mazinho (Palmeiras), Dunga (Stuttgart), Zinho (Palmeiras) e Rai (PSG)
  • Atacantes: Bebeto (La Coruña), Romário (Barcelona), Muller (São Paulo), Paulo Sérgio (Bayer Leverkusen), Ronaldo (Cruzeiro) e Viola (Corinthians)

Um presente que repete o passado

De volta para 2024, a Seleção Brasileira pode olhar para 1994 como fonte de inspiração. Não apenas pela conquista em si, mas pelas semelhanças históricas.

Em 2026, o Brasil igualará o seu maior jejum em Copas, de 24 anos. As cobranças agora são direcionadas à “Geração Neymar” e multiplicadas pelos canhões das redes sociais e pela campanha decepcionante na Copa América.

A exemplo do início dos anos 90, o Brasil é um desastre até agora nas Eliminatórias da Copa do Mundo. Só não deve precisar de mais uma decisão no Maracanã lotado, porque são seis vagas destinadas à Conmebol, além de uma para a repescagem.

Que o presente repita o passado — como tantas vezes já ocorreu — em solo norte-americano em 2026.

Foto: (IconSport) - Neymar pela seleção brasileira
Foto: (IconSport) – Neymar ainda busca uma Copa do Mundo com a seleção brasileira

 

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo DecontoSetorista

Jornalista pela PUCRS, é setorista de Seleção e do São Paulo na Trivela desde 2023. Antes disso, trabalhou por uma década no Grupo RBS. Foi repórter do ge.globo por seis anos e do Esporte da RBS TV, por dois. Não acredite no hype.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo