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Brasil precisa rediscutir os pontos corridos, sobretudo o que quer dele

A Globo quer o mata-mata. Isso não é nada novo, é falado desde o dia seguinte ao anúncio de que o Brasileirão mudaria para os pontos corridos, lá em 2003. Mas agora a emissora estaria colocando esse tema na pauta das discussões sobre a situação do futebol brasileiro que terá com os clubes nas próximas semanas. E o tema volta a ganhar força. E, dessa vez, até tem alguma razão de ser.

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Já são 12 anos de pontos corridos, e muitos podem ter esquecido como era antes. Desde a década de 1990, muitos falavam na adoção da fórmula europeia como uma das medidas para o futebol brasileiro se modernizar. Mais ou menos com o mesmo tom que se fala da mudança de calendário, da adoção da temporada europeia (de agosto a junho), da distribuição mais igualitária do dinheiro da TV, da transformação em clube-empresa.

Bem, é só ver o Brasileirão dos tempos para perceber que a mudança de regulamento não era o pote de ouro no final do arco-íris. A média de público está baixa, as últimas edições coincidiram de serem pouco emocionantes, os erros de planejamento e o pensamento de curto prazo continuam dando o tom na direção dos clubes. O que se imaginava do regulamento não veio, e aí dá para entender quem defenda a volta à decisão por jogos eliminatórios.

Já defendi dezenas de vezes os pontos corridos, e continuo a fazê-lo. É a fórmula mais racional por colocar todos os times em atividade até o final da temporada (e por isso está estabelecida pelo Estatuto do Torcedor, aliás), é a mais justa, incentiva o planejamento e já temos a Copa do Brasil para nos brindar com um grande mata-mata. Mas a imagem que muitos tinham desse sistema de disputa, como se fosse a única coisa a separar o Brasil da Europa, não se confirmou. E aí vem a decepção.

A questão é que o futebol brasileiro não pode se apegar a um elemento e achar que ele resolverá tudo. Os pontos corridos podem ter melhorado ou piorado o Brasileirão, mas não o salvaram. E não achem que a mudança para a temporada europeia, ou que o final dos estaduais, ou que a divisão mais igualitária do dinheiro da Globo farão diferente. Não farão, porque o problema é maior e mais profundo. Mas a Trivela já falou de muitos eles, e continuará falando. Agora é para tratar especificamente dos pontos corridos.

O campeonato como está hoje não pode continuar. O problema nem é o regulamento, mas as virtudes da fórmula não são exploradas (por exemplo, os clubes das Séries A e B jogam a temporada até o fim e a primeira rodada vale tanto quanto a última, mas salários continuam atrasando e ainda se coloca muito time reserva em campo nas rodadas iniciais para priorizar outro torneio). Pior, seus defeitos são expostos (torcedores e a imprensa sentem falta da referência de “jogão decisivo” que um mata-mata dá, como no Flamengo 3×2 Atlético Mineiro de 1980 da foto no alto dessa página).

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Nas conversas entre Globo e clubes, esses últimos estariam a favor da manutenção do sistema de disputa atual. Se esse desejo for real, os dirigentes precisam repensar o modo como tratam os pontos corridos. Não adianta simplesmente montar uma tabela e sair jogando.

Como fórmula, o mata-mata tem a vantagem de escancarar para o torcedor quais são as metas. Ficar no G8 mantém o time vivo, ficar no G4 dá vantagem de mando de campo na fase eliminatória. Ficar no Z4 rebaixa. E, na hora de decidir o campeão, é tudo confronto direto, um contra o outro. Ainda que o Brasil tenha adotado sistemas de disputa com fases de classificação mais enroladas que o enredo de Lost, essa parte é bastante simples.

Nos pontos corridos, é preciso reforçar o sentido de cada partida, e transformá-la em um evento diferente dos mata-mata que ocorrem nas demais competições do ano (sobretudo Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil). Espaçar mais os jogos, colocar rodadas apenas em fim de semana, aproveitar a previsibilidade da tabela para antecipar promoções e vendas de ingressos, diminuir a diferença do dinheiro da TV (que causa um desequilíbrio que pode destruir a emoção de um campeonato) e trabalhar o marketing me torno dos eventos.

Se o Brasil quer realmente os pontos corridos, precisa trabalhar para salvá-lo. Deixar seu maior campeonato largado só incentivará a busca por soluções fáceis, como o retorno ao mata-mata. E é justamente o que está acontecendo agora. De forma compreensível.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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