Maracanã volta da Copa, mas não consegue dar 90 minutos de jogo a todos
Italianos, alemães, holandeses, mexicanos, americanos, japoneses, chineses, franceses, uruguaios. A fila da bilheteria do Maracanã tinha centenas de estrangeiros para o Flamengo x Botafogo deste domingo. Turistas curiosos em conhecer um dos templos do futebol mundial em seu primeiro jogo pós-Copa, ainda mais com o atrativo extra de ser um clássico carioca.
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Mas esses turistas sofreram, ainda mais se decidiram integrar a torcida do Botafogo. Não pela vitória rubro-negra, mas por provavelmente não tê-la visto adequadamente. Em seu retorno do Mundial, o Maracanã voltou aos velhos vícios e milhares de torcedores, sobretudo alvinegros, não tiveram os 90 minutos aos quais tinham direito.
Uma hora antes de a partida começar, a fila já assustava. Serpenteava pela pista em torno do estádio, e várias se cruzavam. Uma de botafoguenses convivia lado a lado com a de flamenguistas. Era até uma cena interessante, pois os torcedores pouco se provocavam. Os turistas, muito numerosos, ficavam perdidos naquele cenário. Só não era pior porque os orientadores, dentro do possível, organizavam um pouco aquela bagunça.
As pessoas logo escolheram seu lado. E lá ficaram, na chuva. Curiosamente, a fila rubro-negra andava relativamente rápido. A alvinegra se arrastava. E o tempo passava: 17h40, 17h50, 18h10, 18h15, 18h25… Naquele momento, o botafoguense já se conformou que entrará em campo com o jogo em andamento. E a fila de arrasta.
Um torcedor saca o celular com aplicativo do Premiere FC e começa a ver o jogo. Alguns amigos o cercam para tirar uma casquinha e eles passam a quem está em volta o que tem acontecido em campo. Emerson Sheik perde uma oportunidade, e eles gritam. Alguns, mais distantes, até acham que é gol e comemoram por alguns segundos. E a fila se arrasta.
De repente, um grito de gol. Mas não vem da turma do celular. Vem de longe, de dentro do estádio. Alecsandro abre o marcador para o Flamengo. Os alvinegros lamentam, começam a cantar “Vamos virar, Fogo!”. Mas não reclamam da fila. Que, adivinha, ainda se arrasta.
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Aos poucos, a vista começa a clarear. A bilheteria aparece, iluminada no final daquela fila que tinha sido mais uma anaconda (a daquele filme horroroso) se enrolando para estraçalhar os ossos de sua presa. A torcida segue paciente, incrivelmente pacífica diante do fato de que o primeiro tempo já acabou, o Flamengo está vencendo e o dinheiro do ingresso vai pagar apenas 45 minutos de futebol. Com sorte.
Os orientadores posicionam os torcedores diante da bilheteria. E dá para perceber um dos motivos de tanta demora. Os funcionários da bilheteria faziam seu trabalho, provavelmente seguindo o treinamento que receberam. Mas não pareciam em nada incomodados com o fato de que aquelas pessoas diante deles haviam perdido boa parte de seu domingo para ficar mais tempo numa fila do que vendo futebol. Aí, ele conferindo se a nota de R$ 50 não é falsificada, fica conferindo e reconferindo a carteirinha de estudante, confere e reconfere o documento do torcedor, faz a conta pacientemente do troco (e não precisa criar uma planilha de Excel para perceber que, se o ingresso custa R$ 40 e o sujeito deu uma nota de R$ 50, o troco é de R$ 10).
E aí a paciência termina. De fato, não parece haver uma ânsia do pessoal em apressar o processo para diminuir o prejuízo dos torcedores. Xingamentos começam a surgir: “Fiquei aqui 2h na porra dessa fila quietinho, sem criar confusão. Agora vocês vão ficar de palhaçada aí?” ou “Tem gente com criança pequena tomando chuva, caralho! Que merda de serviço é esse?”
Claro que a fila não se devia apenas aos bilheteiros. A quantidade de bilheterias talvez fosse subdimensionada para o interesse que o jogo despertou. O esquema de venda talvez não facilitasse uma operação rápida pelas informações a serem conferidas. Certamente uma quantidade muito grande de pessoas apareceu para comprar ingresso em cima da hora e subrecarregou o sistema. Mas a soma desses fatores acabou punindo o torcedor, que ficou desinformado durante todo o processo.
No final, a revolta não era apenas com a perda de metade do jogo, mas também um constrangimento de ver que tantos turistas estavam sofrendo com tudo aquilo duas semanas após a final da Copa do Mundo. Na rampa de acesso, um torcedor meio sem graça se direciona a mim.
“Você é de São Paulo, né? Olha, parabéns pela paciência. Eu juro que não é sempre assim.” Nós sabemos, e o torcedor não tem culpa alguma do transtorno. Mas é uma pena que talvez muitos dos demais forasteiros que foram ao Maracanã neste domingo talvez não saibam.
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