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Dez propostas para melhorar as relações dos clubes brasileiros com a torcida

Passamos a semana inteira discutindo a vida do torcedor brasileiro depois da Copa do Mundo, em um país que acabou de construir arenas modernas, reformar alguns estádios caindo aos pedaços e que cada vez mais é pressionado por profissionalização e mudança de hábitos – mais ainda depois do 7 a 1 da Alemanha. Mostramos como esses aspectos podem influenciar a vida do apaixonado cuja única ambição é entrar em uma arquibancada e gritar o nome do clube que aprendeu a amar. Para não dizer que só sabemos criticar, propusemos dez medidas que poderiam ser tomadas sem grandes dificuldades para melhorar a vida da torcida e reforçar a ligação dela com os clubes. Se você pensar em mais alguma, não hesite de colocar na caixa de comentários lá embaixo.

TEMA DA SEMANA: A vida do torcedor brasileiro depois da Copa do Mundo

Parque temático para grandes jogos

A cidade que recebe a final da Liga dos Campeões ganha mais atrações do que o jogo mais importante entre clubes da Europa. A Uefa prepara um “festival”, como chama os eventos que preparou para aquecer a decisão. Este ano, por exemplo, Lisboa recebeu uma galeria com fotos históricas da Champions League, um museu da competição, um cinema a céu aberto e até um concerto musical de uma orquestra portuguesa. Algo parecido não precisaria ser feito em todos os jogos, mas por que não nos grandes clássicos? Domingo, Corinthians e Palmeiras fazem o primeiro dérbi da nova casa alvinegra. As duas diretorias poderiam se unir e montar uma exibição da história do confronto no Parque do Ibirapuera ou no vão do Masp. Se tem uma coisa que a Copa do Mundo deixou claro, é que não é necessário um ingresso para participar de um jogo de futebol. As Fan Fests eram às vezes até mais animadas quanto o estádio. Talvez um telão oficial, público, ainda seja um tanto temerário, por causa da rivalidade e da violência latente que são muito mais acirradas entre clubes, mas envolver o resto da cidade no clima do jogo seria uma boa ideia.

Setor de ingressos populares
A Muralha Amarela do Borussia Dortmund é impressionante (Fonte: AP)
A Muralha Amarela do Borussia Dortmund é impressionante (Fonte: AP)

O país mais profissional na abordagem ao futebol é a Alemanha, e os estádios alemães têm um setor reservado para os preços populares e sem cadeiras. São as arquibancadas que recebem a festa da Muralha Amarela do Borussia Dortmund, por exemplo, que se transforma em uma atração extra nas partidas do clube amarelo e preto. Não é possível, nem lucrativo, alienar o povo dos jogos de futebol. Mesmo que a renda bruta seja um pouco menor, ele valoriza o produto que está sendo vendido. Uma arquibancada fria e sem cor não chama a atenção de ninguém, torcedor ou patrocinador. Clubes como Fluminense, Grêmio e São Paulo entenderam isso e, apesar do encarecimento geral de ingressos no Brasil, mantiveram setores populares. Acertaram em cheio.

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Valorizar a história

O Corinthians não abriu sua arena com um jogo de futebol propriamente dito. Foi mais uma grande pelada, com ídolos do passado do clube. Se do ponto de vista técnico não foi lá grande coisa, a iniciativa valorizou bastante um aspecto muito importante que às vezes é bastante ignorado pelos clubes brasileiros: a história. A criança, acompanhada do pai, apontou para o bigode vistoso de Rivellino e perguntou quem era aquele. Ouviu certamente um bocado de histórias sobre o grande meia que defendeu o Corinthians nos anos 1970. Dar atenção à história do clube é muito importante. O Fluminense em jogos fora de casa faz eventos com ex-jogadores, que conversam e interagem com os sócios. Aproxima o torcedor do clube e reforça a identificação com ele. E, pensando mais financeiramente, ainda cria bases para vender DVDs, livros e documentários sobre os grandes jogos do time, os grandes ídolos, as grandes histórias e assim por diante.

Pacote de ingressos mais específicos

Os programas de sócios-torcedores começam a amadurecer no futebol brasileiro, com um certo atraso, é verdade, mas permitem que o clube recebe uma renda fixa, facilitando o planejamento. Agora, esses programas precisam ser aperfeiçoados. Uma boa ideia seria vender pacotes específicos de ingressos: todas as partidas de meio de semana para quem trabalha de final de semana ou ao contrário. O Santos às vezes usa o Pacaembu em vez da Vila Belmiro e poderia vender desde o início do ano um pacote com os ingressos para todos os jogos realizados em São Paulo. Bastaria programar as partidas com antecedência. O Flamengo teria oportunidade parecida. Como tem direito de mandar até seis partidas longe do Maracanã pelo Campeonato Brasileiro, tme condições de definir uma sub-sede (Brasília, por exemplo) e vender carnês para os jogos na capital federal. Precisa apenas de um pouquinho de planejamento.

Federação Nacional de Torcedores

Foi na tomada de posse que John Kennedy disse uma de suas frases mais famosas: “Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país”. Os torcedores precisam se organizar em uma federação nacional para reivindicar organizadamente as melhorias que querem para o futebol brasileiro, como a britânica Football Supporter’s Federation, que tem três campanhas em andamento na Inglaterra e no País de Gales: por arquibancadas mais seguras, preços menores de ingressos fora de casa e fiscalização do trabalho da polícia em jogos de futebol. Eles citam que conseguiram contribuir contra a ideia de haver uma 39ª rodada da Premier League em solo estrangeiro. O Brasil tem um grupo de torcedores desde 2010. Chama-se Frente Nacional de Torcedores e chegou a aparecer no noticiário durante as manifestações contra Ricardo Teixeira. Mas se você, como eu, também exclamou “ah, é verdade”, ou nem isso, concorda que ainda falta representatividade e mais projeção à entidade. No começo, qualquer organização precisa gritar para ser ouvida.

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Usar melhor o espaço das arenas

Arredores do Itaquerão antes de Argentina e Holanda. Uma loja oficial da Fifa fazia uma liquidação, e os produtos com desconto motivaram uma fila gigantesca antes da semifinal da Copa do Mundo. Nas Fan Fests, havia stands da Coca-Cola ou da Budweiser, com pequenas atrações, como joguinhos para crianças e cenários de fotos para os mais velhos. O espaço continua nos estádios, mas não foram usados para isso nos jogos pós-Mundial. É um desperdício porque a área poderia ser alugada para lojas, por exemplo. Quantos shoppings recebem 50 mil pessoas ao mesmo tempo?

Transformar até apresentação de mascote em evento

O San Antonio Scorpions (time da NASL, liga de segundo nível dos Estados Unidos) realizou toda uma ação de marketing para apresentar o seu mascote. Houve um cartaz com o presidente sentado em cima de um ovo, soldados carregando o tal do ovo para o meio do gramado e o próprio mascote, um escorpião mutante que fica de pé, dançando I Feel Good, do James Brown, e fazendo air guitar de Johnny B. Goode, do Chuck Berry. Foi meio tosco, é verdade, mas o clube americano não perdeu a chance de incrementar a apresentação do seu mascote. Transformou aquele jogo, contra o Minnesota United, em um evento maior. Os clubes brasileiros não podem deixar oportunidades assim passar. Às vezes, fazem as coisas muito no automático, como as apresentações de novas camisas, que poucas vezes saem do tradicional desfile de modelos.

Por que esse jogo é importante?

Falando nisso, vamos combinar que por mais que gostemos de futebol, nem todas as partidas são relevantes. Aquela sexta rodada do modorrento Campeonato Paulista não movimenta multidões. Mas, com um pouco de criatividade, pode se tornar um evento mais interessante. Um bom exemplo foi o Internacional, na Copa Sul-Americana de 2008, que criou a história de ser campeão de todos os torneios sul-americanos que disputasse. Deu bastante certo. O Palmeiras completa 100 anos em 2014 e poderia estar fazendo uma contagem regressiva ou algo parecido. A ideia seria criar fatos novos, sem forçar muito a barra, para deixar as partidas chatas mais atraentes.

Mais produtos licenciados

A loja online do Manchester United oferece uma variedade tão grande de produtos que o torcedor fica meio perdido. Dá para comprar joias, carteiras, canetas, canecas, capas de tablets, relógios, nécessaire e até uma mesa de sinuca com o símbolo do clube inglês. A bem da verdade, não é uma área que os clubes brasileiros estejam particularmente tão defasados assim. Pela internet, o torcedor pode comprar um bom número de itens licenciados pelo clube, mas não tem por que isso parar por aí. As lojas físicas na Europa têm basicamente qualquer produto que você queira comprar. Até cueca.

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Trabalhar as comunidades

O Flamengo tem muita torcida no Norte e no Nordeste, como outros clubes cariocas. Os paulistas, um alto contingente de apaixonados no norte do Paraná. São, porém, grupos espontâneos de torcedores, que não recebem tanta atenção quanto deveriam. Por que não marcar presença em outras cidades, com escolinhas de futebol, eventos com ex-jogadores e grandes ídolos ou eventualmente uma partida ou outra? Ao mesmo tempo, os clubes do interior ou de capitais menos tradicionais poderiam reforçar os seus vínculos com a comunidade deles, uma espécie de relação time-bairro ou time-cidade que acontece como bastante força em países como Inglaterra e Argentina.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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