Futebol brasileiro

Brasil pode mudar jeito de jogar após fala sobre ‘meio-campo defasado’ de Ancelotti? Analisamos

Fala de Ancelotti sobre o meio-campo brasileiro é sincera e indica um time menos controlador

O técnico Carlo Ancelotti anunciou a primeira convocação da seleção brasileira depois da Copa do Mundo nesta quarta-feira (9). Foram 16 novidades e, em comparação com o time que foi ao Mundial, somente dois meio-campistas permaneceram: Bruno Guimarães e Danilo (volante).

Em entrevista coletiva após a convocação, o italiano falou sobre os testes que pretende fazer e o futuro de cada setor do time. Para ele, o Brasil não terá problemas nos próximos anos quando olha para a defesa e para o ataque. O meio, no entanto, precisa de mais atenção, na sua opinião.

E isso, segundo o próprio Ancelotti, pode ser crucial para a forma como o Brasil jogará. Desde que ele assumiu o time, em julho de 2025, a Seleção transitou entre 4-3-3 e 4-2-4, mas com características diversas ao longo do ano que antecedeu a Copa. Com um meio em reformulação e não tão abastado, como o time pode ser montado para o ciclo até 2030?

Brasil até 2030 pode ter menos controle do que se imagina

Dominar jogos é algo que os grandes times almejam na maioria das vezes. E isso pode ser atingido de diferentes maneiras — apesar da principal delas ser dominar através da posse de bola. É possível que o Brasil de Ancelotti não consiga fazer isso de imediato.

A equipe teve grandes momentos construindo desde trás, com movimentações no meio-campo e principalmente com o deslocamento dos pontas e de um falso nove. A era do 4-2-4 com Estêvão e Rodrygo nas pontas e Vinicius Júnior e Matheus Cunha como dupla contrastante no ataque teve sucesso nesse sentido.

Mas Ancelotti admitiu que o modelo de jogo pode mudar por conta da transição e da falta de grandes opções no meio. Durante a coletiva, ele usou a seleção da Espanha, campeã mundial, como exemplo de um time repleto de talentos no meio-campo — e que, por isso, consegue jogar dominando a posse daquela forma.

Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira
Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira (Foto: IMAGO/STEINSIEK.CH)

“O modelo de jogo depende muito das características dos jogadores que você tem e de qualidade nesse momento. Todo mundo fala do modelo de jogo da Espanha, mas a Espanha pode propor esse modelo porque tem muitos meio-campistas. Espanha teve a sorte de ter uma geração de meio-campistas muito forte”, afirmou o italiano.

Para os jogos de setembro e outubro, Ancelotti levou seis meio-campistas: além de Bruno e Danilo, remanescentes da Copa, também chamou Andrey Santos, que vinha sendo convocado durante sua passagem no comando do time, mas surpreendentemente ficou fora da lista final para o Mundial. As novidades ficaram para Douglas Luiz, Breno Bidon e Gabriel Bontempo.

Douglas Luiz é velho conhecido da Seleção. Participou de ciclos olímpicos e chegou a ser constantemente convocado por Tite até perder espaço na Juventus há alguns anos. Não se firmou posteriormente, viu concorrentes ganharem oportunidades e, aos 28 anos, tenta ser uma solução para a saída de Casemiro.

Bidon e Bontempo são novidades literais. Nunca foram convocados e representam novas possibilidades para o meio. Ambos têm 21 anos e características que animam o torcedor brasileiro, principalmente aquelas voltadas à habilidade técnica e criatividade. Fogem do padrão de imposição física e intensidade de outras opções, e isso pode ser positivo e negativo.

“Digo que o modelo de jogo depende das características que você tem. Quando você tem muitos bons defensores, muitos bons atacantes (mas não meias), fazer o jogo de controle de posição é muito mais complicado”, avaliou Ancelotti.

Com as opções convocadas, o que se espera do estilo da seleção brasileira?

Ancelotti também reforçou que os meio-campistas convocados mantém um padrão de características: tirando os volantes evidentes, Andrey e Douglas Luiz, são todos jogadores com capacidade de se movimentar, conduzir, construir com passes e chegar à área.

“Algo mudou na Copa do Mundo. Começamos com três meio-campistas porque acho que as lesões dos jogadores afetaram muito a estrutura da equipe, mas quase todos esses jogadores na convocação são com as mesmas características. Meio box-to-box, menos Douglas Luiz e Andrey, jogadores mais posicionais. Não quero dizer que vamos jogar com dois ou três, mas a qualidade deles nos permite jogar com dois ou com três”.

Vini Jr em aquecimento antes de jogo do Real Madrid
Vini Jr em aquecimento antes de jogo do Real Madrid. Foto: IMAGO / Pressinphoto

Mesmo sem dizer se montará um meio com dois ou três jogadores, o início da fala de Ancelotti dá um caminho. Ao dizer que foi à Copa com três meio-campistas porque o time foi afetado por lesões indica que a ideia inicial era manter o 4-2-4 que vinha fazendo sucesso — e justamente sucumbiu depois dos cortes de Rodrygo e Estêvão, principalmente.

Os nomes convocados também dão essa impressão.

Há a possibilidade de jogar com três, uma vez que foram chamados seis meio-campistas ao todo, mas é possível imaginar um time com um volante “mais posicional” (Andrey ou Douglas) e um meio-campista mais móvel (Bruno, Bontempo, Danilo ou Bidon) atrás de um quarteto de ataque.

O ponto, no entanto, segue sendo nas pontas. Estêvão foi o melhor jogador da era Ancelotti antes de se lesionar e, na prática, é um meia que atua aberto: cai por dentro para se associar, conduzir e criar perigo em um centro de jogo denso. Do outro lado, no entanto, Vini Jr. não é esse jogador.

Vini fez uma excelente Copa do Mundo como esse ponta clássico: aberto, que parte para cima do opositor e tenta entrar na área com duelos individuais. Não é esse meia que se aproxima do meio para trocar passes curtos e chegar na área com tabelas. Na era do 4-2-4, Vini era o centroavante da dupla que atacava a profundidade principalmente sem a bola.

Samuel Lino também é mais ponta do que meia, mas pode ser testado. Raphinha já jogou como ponta-direita, o camisa 10 de um 4-2-3-1 e como falso nove na dupla de atacantes — mas também pode ser esse meia pela esquerda, apesar de menos provável.

Futuro distante é animador, mas futuro próximo pode ser tenso

Enquanto ainda há dúvidas, desfalques e testes, o que se espera do Brasil de Ancelotti é algo próximo ao que foi visto em diferentes oportunidades da sua passagem: um time que busca acelerar o jogo, foca nas pontas e não quer controlar o ritmo com a posse no meio-campo.

Foi assim na estreia, foi assim em jogos de desempenho ruim, como no amistoso contra a França, antes da Copa, e até mesmo na estreia do Mundial, contra Marrocos. Os zagueiros têm qualidade para sair jogando, dar passes de ruptura e fazer o time progredir pelo meio, mas isso depende de movimentos de terceiro homem bem captados pelos meio-campistas.

E com dúvidas sobre as características das pontas, também é difícil imaginar que a Seleção se torne rapidamente esse time dominante e pausado. Não é, inclusive, algo do feitio de Ancelotti como treinador — sempre foi alguém que, por mais que treinasse times superiores aos demais e precisasse dominar, preferia a verticalidade.

A tendência é que Vini siga sendo o ponta-esquerdo tradicional, o que também não impede um 4-2-3-1/4-2-4, mas com características diferentes. Com Estêvão e Rayan na ponta, é possível que Raphinha, por exemplo, seja cogitado como falso nove, como tem feito com muito sucesso no Barcelona — ainda mais com a ausência de Matheus Cunha na lista.

Breno Bidon, por outro lado, pode ser um meia aberto para emular os movimentos feitos por Rodrygo, de fora para dentro, e tentar resgatar essa característica. E então devolver Vini ao ataque com Raphinha.

Ainda assim, as opções são diversas: João Pedro e Pedro podem ser centroavantes mais físicos e tradicionais, mas ainda habilidosos; Raphinha pode fazer ao menos três posições; Bidon é versátil; e a disposição do meio pode gerar um 4-2-3-1, 4-3-3 ou 4-2-4. De qualquer forma, Ancelotti deixa claro verbalmente que controlar o jogo, por outro lado, não deve ser a característica principal do Brasil.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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