Futebol brasileiro

Como primeira convocação da Seleção pós-Copa do Mundo refletiu base do ciclo em cada ano

Ancelotti inicia novo período à frente do Brasil projetando Mundial de 2030, que será disputado na Espanha, Portugal e Marrocos

Carlo Ancelotti dá início nesta quarta-feira (9) ao segundo ciclo à frente da seleção brasileira. Depois da eliminação diante da Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo deste ano, o treinador revela os 26 convocados para amistosos contra Austrália e Índia, entre setembro e outubro. Pela primeira vez, o treinador terá quatro anos para estudar mudanças e reformular o elenco da Seleção.

Contratado em maio de 2025 para assumir a seleção brasileira, Ancelotti teve pouco mais de 12 meses para formular o elenco com 26 nomes para disputar a Copa do Mundo. Em função disso, o treinador, desde sua primeira convocação, fez poucas mudanças em comparação com a lista final. Em comparação com a convocação de maio de 2025, 11 jogadores disputaram o Mundial no Canadá, Estados Unidos e México.

Ancelotti não é o único a adotar esta estratégia. Felipão e Tite, que também assumiram a seleção durante o ciclo para a Copa do Mundo de 2014 e 2018, respectivamente, não tiveram tempo para promover mudanças na base de suas respectivas convocações — tempo este que, ao menos no papel, o italiano terá até 2030.

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Felipão, em janeiro de 2013, convocou 20 jogadores para amistoso com a Inglaterra, dos quais 11 fizeram parte do elenco no Mundial do ano seguinte, no qual o Brasil foi país-sede; já Tite, que assumiu a posição deixada por Dunga em 2016, manteve 14 dos 23 jogadores presentes em sua primeira lista até a Copa do Mundo da Rússia.

Nesta quarta-feira, Ancelotti apostou na renovação, com oito estreantes, dez jogadores que atuam no futebol brasileiro e apenas oito jogadores que disputaram a Copa do Mundo — sem considerar Wesley, cortado antes da estreia e substituído por Éderson.

Convocação da seleção brasileira para amistosos contra Austrália e Índia

  • Goleiros: Hugo Souza (Corinthians), Pedro Morisco (Coritiba), Otávio (Cruzeiro)
  • Defensores: Arthur Dias (Athletico-PR), Douglas Santos (Zenit), Gabriel Magalhães (Arsenal), Jair (Forest), Marquinhos (PSG), Matheuzinho (Corinthians), Mauro Jr (PSV), Vitor Reis (City), Wesley (Roma)
  • Meias: Andrey Santos (United), Breno Bidon (Corinthians), Bruno Guimarães (Arsenal), Danilo Santos (Botafogo), Douglas Luiz (Juventus), Gabriel Bontempo (Santos)
  • Atacantes: Endrick (Real Madrid), Estêvão (Chelsea), João Pedro (Chelsea), Pedro (Flamengo), Raphinha (Barcelona), Rayan (Bournemouth), Samuel lino (Flamengo) e Vini Jr (Real Madrid)

A Trivela comparou as bases das primeiras convocações de cada treinador pós-Copa do Mundo, de 2006 até 2026, e como estas listas se refletiram no elenco da seleção brasileira em cada torneio. E Ancelotti, com base nessa “tendência”, não deve ter certezas desde esta primeira lista para a próxima Super Data Fifa.

Pós-Copa do Mundo com Dunga foi marcado por renovação de elenco na seleção brasileira

Desde 2006, quando o Brasil foi eliminado pela França e escolheu Dunga para suceder Carlos Alberto Parreira, as primeiras convocações da seleção brasileira são marcadas por transições. Jogadores que, até então, nunca haviam sido convocados passam a ganhar oportunidade na primeira lista de cada ciclo.

Naquele ano, Dunga, campeão do tetra em 1994 como capitão, chamou 22 jogadores em sua primeira convocação à frente da Seleção. A defesa, formada por Lúcio, Juan e Luisão, se manteve desde o primeiro dia do ciclo com o novo treinador. Opções no meio-campo, como Gilberto Silva, Elano e Júlio Baptista, também se mantiveram até o Mundial da África do Sul.

Em comparação com a lista final, 43,4% dos jogadores já estavam presentes na relação de Dunga logo em sua estreia à frente da pentacampeã. O treinador preservou na ocasião nomes que disputaram a Copa do Mundo de 2006, mas levar estrelas como Adriano, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká — este que foi o único a ser convocado para a África do Sul.

Depois de conquistas da Copa América e da Copa das Confederações ao longo do ciclo, Dunga deixou o comando da Seleção após eliminação diante dos Países Baixos, nas quartas de final. Ele reassumiu a equipe em 2014, para reestruturar o Brasil que foi derrotado pela Alemanha por 7 a 1 no Mineirão. Como a proposta à época era montar uma nova base, o treinador adotou essa estratégia.

Dunga comandou a seleção brasileira na Copa do Mundo de 2010
Dunga comandou a seleção brasileira na Copa do Mundo de 2010 (Foto: David Klein/Newscom World, via Imago)

— A história mostra que fazer terra arrasada sem dar uma estrutura para jogadores mais novos que estão chegando para a seleção brasileira não dá certo. É preciso ter essa estrutura com jogadores experientes e aos poucos integrar novos jogadores — explicou o treinador à época.

Para amistosos contra Colômbia e Equador, em setembro daquele ano, a novidade foi a chegada de Phillippe Coutinho, que não defendia a seleção brasileira desde 2010. Júlio César, Paulinho, Daniel Alves, Marcelo e Fred, pilares no Mundial disputado em casa, ficaram fora da relação do treinador, que foi demitido em 2016, durante o ciclo.

Em comparação com a equipe que Tite levou à Rússia, em 2018, Dunga chamou apenas oito destes em sua primeira convocação (34,8% em comparação com a lista final). Nomes como Neymar, Coutinho, Willian, Marquinhos e Miranda fizeram parte deste período de renovação com Dunga, que foi interrompido pela demissão do treinador.

Mudanças durante o ciclo para a Copa do Mundo mexeram na base da seleção brasileira

Após a aposta em Dunga, em 2006, a CBF buscou Mano Menezes em 2010, então treinador do Corinthians, para montar uma seleção com os jovens talentos que despontaram no futebol brasileiro nos anos anteriores. Neymar, Alexandre Pato e Paulo Henrique Ganso, por exemplo, figuraram na relação do treinador para amistoso com os Estados Unidos naquela ocasião. Somente o atacante santista, no entanto, se manteve até o final do ciclo para 2014.

Dos 24 jogadores convocados pelo treinador naquela primeira lista, oito estiveram com Felipão na Copa do Mundo de 2014. Este é o caso de Daniel Alves e Marcelo, apostas para as laterais do Brasil, mas no ataque somente Neymar permaneceu na Seleção — até sua aposentadoria com a Amarelinha, em 2026.

Algo semelhante ocorreu com Ramon Menezes, treinador interino da seleção brasileira em 2023, após a saída de Tite. Dos 23 relacionados na ocasião, para amistoso contra Marrocos — semifinalista no Mundial do Catar. Ele apostou em nomes do futebol brasileiro, como Rony e Yuri Alberto, que não permaneceram até a relação final de Ancelotti.

Dorival Júnior, durante convocação da Seleção
Dorival Júnior, durante convocação da Seleção (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Dos 23 convocados por Ramon Menezes, sete foram ao Mundial do Canadá, Estados Unidos e México em 2026. Fernando Diniz, que sucedeu o treinador da seleção sub-20 até Ancelotti, teve uma maior taxa de acerto em sua primeira lista, assim como Dorival Júnior — 12 e 11 atletas, respectivamente.

Não por acaso Ancelotti, por ter um ciclo curto até o Mundial de 2026, utilizou a base montada pelos últimos treinadores em seu período à frente da seleção brasileira. Logo na primeira convocação, que contou com 25 atletas, 11 jogadores (12, se considerar o cortado Wesley) foram relacionados para a disputa da Copa do Mundo.

— Não há tempo para a preparação. Tentei chamar os jogadores preparados para contribuir. É uma temporada exigente. Os jogadores estarão preparados para contribuir e tentar ganhar — afirmou Ancelotti, após sua primeira convocação à frente da seleção.

Ancelotti pode repetir estratégia de Tite em segundo ciclo pela seleção brasileira

Somente dois treinadores permaneceram na seleção brasileira após uma Copa do Mundo em que não se sagraram campeões. Tite, de 2018 para 2022, e, agora, Ancelotti. O comandante italiano teve o contrato renovado com a CBF antes mesmo do Mundial do Canadá, Estados Unidos e México, e permaneceu no comando mesmo após eliminação diante da Noruega, nas oitavas de final.

Ambos têm em comum a confiança da CBF em seus respectivos trabalhos. Tite assumiu o Brasil em 2016 e levou à Seleção à conquista da Copa América, em 2019, assim como à liderança das Eliminatórias. Em seu primeiro ciclo, apostou em jogadores de confiança para levar à Rússia (14 dos 23 convocados na relação final estiveram presentes logo primeira convocação).

Este índice é um recorde dentre os treinadores que assumiram a Seleção desde 2006 (60,9%). Ele convocou nomes como Paulinho, Renato Augusto e Fagner, com quem já havia trabalho no Corinthians, para formar a base para 2018. No segundo ciclo, o treinador promoveu mudanças e apostas em novos nomes — estratégia que deve ser seguida pelo italiano.

Dos 26 nomes que levou ao Catar, apenas dez estavam presentes na primeira lista pós-Copa do Mundo da Rússia. Como aposta à época, destaque para Pedro, então no Fluminense, que conquistou espaço no ataque para o Mundial ao final de 2022.

‘Acertos' de cada treinador da CBF na primeira convocação de cada ciclo

  • Dunga (2006): 10 de 22 — 45,4%
  • Mano Menezes (2010): 8 de 24 — 33,3%
  • Felipão (2013): 11 de 20 — 55%
  • Dunga (2014): 8 de 22 — 36,3%
  • Tite (2016): 14 de 23 — 60,9%
  • Tite (2018): 10 de 23 — 43,4%
  • Ramon Menezes (2023): 7 de 23 — 30,5%
  • Fernando Diniz (2023): 12 de 23 — 52,2%
  • Dorival Júnior (2024): 11 de 26 — 42,3%
  • Carlo Ancelotti (2025): 12 de 25 — 48%
Foto de Murillo César Alves

Murillo César AlvesRedator

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduando pela Cásper Líbero, com passagens por Estadão, UOL, 90min e QuintoQuarto.

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