Brasil

Como Pelé e o futebol brasileiro moldaram campeão mundial com a França em 1998

Bernard Lama revelou influência do Brasil durante a infância e inspiração de Pelé para iniciar no futebol

Campeão mundial em 1998 com a seleção francesa, Bernard Lama viu as suas influências também serem cultivadas justamente no país em que foi rival em campo: o Brasil, especialmente pela magia do futebol nacional, que foi personificada pelo seu ídolo Pelé.

Ao crescer na Guiana Francesa, onde viveu até os 18 anos, Lama teve o seu fascínio pelo esporte despertado pelo Rei do futebol. Em entrevista ao “L’equipe”, o ex-goleiro relembrou as visitas constantes ao Brasil quando ainda era criança.

— Devo muito a este país e ao meu pai. Era ele quem nos levava de férias para o Brasil. A cada dois anos, íamos ao Rio, Belo Horizonte, São Paulo, Salvador… Ele aproveitava essas viagens para estudar medicina e conhecer o Professor Ivo Pitanguy, a principal figura da cirurgia plástica no Brasil. Meu pai se inspirou nos métodos dele para se tornar especialista em cirurgia reconstrutiva na Guiana Francesa. Mas meu pai também era um apaixonado por futebol. Ele era presidente do clube Montjoly, e o futebol teve um papel fundamental em nossas vidas — contou.

Bernard lembra que durante a estadia no país, ele ficava responsável pela programação durante os feriados brasileiros, que incluía saber onde e quando ir a um jogo com os seus pais, hábito que se tornou divisor de águas na sua trajetória.

— Íamos ver os melhores times da época. Lembro-me da final carioca entre Flamengo e Botafogo. Havia 180 mil espectadores no Maracanã com Zico na camisa 10, Carlos Mozer estreando, mas também Nunes, Andrade, Júnior… Foi inesquecível. Também fomos aos estádios do Pacaembu, Fonte Nova e Morumbi. Vi todos os grandes jogadores dos anos 70 e 80: Sócrates, Renato Gaúcho, Júnior, Falcão, Roberto Dinamite… No hotel, assisti à reprise do jogo na TV; fiquei fascinado. Só pensava em futebol. Queria ganhar a Copa do Mundo — relembrou.

Bernard Lama, goleiro da seleção francesa (Foto: IMAGO / WEREK)
Bernard Lama, goleiro da seleção francesa (Foto: IMAGO / WEREK)

Impacto da Copa de 70 e o futebol atual

O tricampeonato do Brasil foi imprescindível para Bernard Lama se aprofundar na cultura do país e estabelecer conexões. Segundo o ex-goleiro, foi após assistir à Copa que o ex-goleiro revelou sonhar em se tornar um jogador de futebol.

—  Cresci com a Copa do Mundo de 1970 do Pelé e mergulhei naquela cultura, naquela magia do futebol brasileiro. Em 1971, na nossa primeira viagem ao Brasil, ficamos cativados por aquele time lendário. E voltamos a cada dois anos por mais de dez anos — explicou.

— Eu tinha 7 anos durante a Copa do Mundo de 1970. Foi o primeiro evento televisionado que realmente me impressionou. E foi lá que o descobri. Quando você vê o Rei pelos olhos de uma criança, só tem um desejo: entrar em campo e imitá-lo. Foi graças a ele que minha paixão se desenvolveu — detalhou.

Bernard Lama, goleiro campeão do mundo com a seleção francesa (Foto: IMAGO / Panoramic by PsnewZ)
Bernard Lama, goleiro campeão do mundo com a seleção francesa (Foto: IMAGO / Panoramic by PsnewZ)

O francês também comparou a era de ouro da canarinha à forma com o futebol atual se comporta, e pontuou que os jogadores brasileiros têm perdido características que foram referência na forma de atuar do país.

—  Era futebol de champanhe. Mesmo sem vencer, era lindo de se ver. Esse é o futebol que eu amava. Futebol para se divertir e dar prazer aos outros. Hoje, o futebol brasileiro se tornou mais europeizado. Não se vê mais dribladores e jogadores espontâneos, com exceção de Neymar, Vinicius Jr. ou Estevão. É muito estruturado — exemplificou.

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Inspiração em Manga, mas idolatria por Pelé

Questionado se encontrava alguma referência de jogador em sua função no Brasil, Lama relembra que ficou impressionado com o goleiro Manga. Considerado um dos maiores da história do futebol brasileiro, o pernambucano iniciou a sua carreira no Sport, tornou-se ídolo do Internacional, além da passagem pelo Botafogo, e ganhou projeção internacional, atuando pelo Nacional, do Uruguai, e pelo Barcelona de Guayaquil. Ele chegou a defender a seleção brasileira na Copa de 1966.

— Não havia muitos goleiros excepcionais naquela época. O único de que me lembro é o Manga.  Eu o vi jogar várias vezes, mas o que realmente me impressionou foi uma foto publicada na “Placar”. Os dedos dele estavam deformados, quebrados. Quando olho para as minhas mãos hoje, elas são quase iguais. Na verdade, eu não me interessava muito por goleiros naquela época. Meu ídolo era o Pelé, eu queria ser como ele — ressalta.

Conquista do Mundial sobre o Brasil e procura do Flamengo

Questionado sobre o sentimento de vencer uma Copa do Mundo sobre o Brasil, país em que tinha uma forte ligação, Lama revelou que foi um momento intenso, apesar de ter sido apenas reserva.

— Não poderia ser mais intenso. Quando você percebe que milhares de pessoas gostariam de estar no seu lugar, você entende que até mesmo estar no banco já era algo. Há momentos em que você precisa saber qual é o seu lugar. Mesmo como reserva, participei, observei, ajudei. Tentei não causar problemas, embora — afirma.

Bernard Lama em atuação pelo PSG (Foto: IMAGO / Panoramic by PsnewZ)
Bernard Lama em atuação pelo PSG (Foto: IMAGO / Panoramic by PsnewZ)

Após a conquista do título, o francês chegou a receber proposta do Flamengo, mas decidiu recusar devido à instabilidade do futebol brasileiro, além de ter aceitado retornar ao Paris Saint-Germain.

— O Bruno (Satin, seu agente) sabia do meu amor pelo Brasil, então talvez tenha facilitado o contato. Era tentador jogar num clube assim, mas na época o PSG estava em má fase. E eu tinha voltado do West Ham para terminar meu ciclo no PSG (depois de um ano na Premier League, ele retornou ao seu antigo clube entre 1998 e 2000). Eu não podia simplesmente ir embora assim. Além disso, o futebol brasileiro não era tão estável quanto é hoje.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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