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‘Jogar bonito sem a bola’: Como fala de Ancelotti escancara principal objetivo na Seleção

Técnico do Brasil ilustra no campo e na sala de imprensa como a Seleção é uma extensão do seu modus operandi em toda a carreira

Durante a maior parte da sua carreira, Carlo Ancelotti travou e venceu uma batalha que derrota muitos treinadores: o equilíbrio entre “dar espetáculo” em campo e conseguir resultados positivos. Isso não tem sido diferente na seleção brasileira.

À frente do Brasil, o italiano mostrou no gramado e nas entrevistas o motivo de ter sido escolhido: consolidou um estilo “brasileiro” para a Seleção jogar, mas sem dar menos importância ao sistema defensivo e, de quebra, montar um time que sabe aproveitar diferentes oportunidades e atacar com variação.

A cobrança pelo “jogo bonito” — que, vale ressaltar, é sempre subjetivo — também caiu no colo de Ancelotti. E também se deve lembrar do privilégio de ser europeu na sua resposta: quando disse que “é preciso jogar bonito também sem a bola”, aproveitou desse privilégio e da fama de equilibrado e sereno que construiu na carreira.

O Brasil de Ancelotti joga bonito com e sem a bola

O jogo bonito sempre cobrado da seleção brasileira quase sempre esteve presente em todos os ciclos de Copa do Mundo. O time de Tite fez história com recordes, dominou e jogou bonito em diversas oportunidades, apesar da indisposição criada pela imagem do treinador.

O mesmo aconteceu com Fernando Diniz: a estreia quase mágica contra a Bolívia foi recheada do estereótipo clássico do jogo bonito brasileiro. E mesmo que não tenha se sustentado em sua passagem, existem traços dessa beleza no Brasil atual.

Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira
Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira (Foto: Imago)

Em entrevista coletiva nesta segunda-feira (13), Ancelotti reforçou que o jogo esteticamente agradável pode e deve seguir acontecendo. Ainda assim, o italiano tenta colocar na cabeça — muitas vezes dura — do brasileiro que isso não vem de uma fórmula para ser seguida e que tão importante quanto é “jogar bonito sem a bola”.

“A seleção brasileira quer jogar um futebol bonito e pode jogar, sim, mas depende do que se entende de jogo bonito. Claro que tem qualidade individual que os jogadores apresentam e também compromisso. É preciso jogar bonito com a bola e também sem a bola, que é um aspecto importante”.  

Ancelotti não vai muito mais longe do que Tite já foi em suas falas sobre priorizar um jogo equilibrado. Mas quando Adenor reforçava a necessidade de “atacar defendendo”, não recebeu respostas positivas — o que é curioso.

Com a bola, o Brasil tem evoluído no que se propõe como padrão mais claro: uma construção vertical, com atração e fixação de marcadores para sair da pressão, buscando passes de ruptura sempre que possível e uma progressão apoiada a partir do meio, com dinâmicas de terceiro homem para os meias habilidosos do time agredirem a área de frente.

Foi assim que surgiu o primeiro gol contra o Chile, por exemplo, em uma triangulação que viu Douglas Santos, o lateral com “menos liberdade”, avançar no espaço livre. Foi, inclusive, o jogo com mais “cara de futebol brasileiro” de Ancelotti até aquele momento.

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Times de Ancelotti foram campeões jogaram bonito, mas nem sempre

Durante a coletiva, o italiano também indicou que o Brasil é um time versátil e, dado o talento que tem principalmente do meio para frente, pode jogar em diferentes sistemas e de diversas maneiras:

“Eu acho que os jogadores que estão aqui, para estar com motivação, têm que pensar que podem jogar. Um pouco de concorrência é bom para essa motivação. Acho que neste momento, rodar para ver como funcionam em diferentes sistemas é uma boa solução. Estou convencido que o time não pode jogar só de uma maneira, tem que jogar em diferentes sistemas. Temos a qualidade individual para fazer isso. 

Carlo Ancelotti se mostrou incomodado com o anúncio de sua sua chegada ao Brasil Foto: (Imago)
Carlo Ancelotti no Real Madrid (Foto: Imago)

Quando fez seu curso de treinadores, em 1997, e teve de apresentar um “TCC”, Ancelotti montou uma dissertação sobre como imaginava o futebol no futuro: dinâmico, com uma defesa organizada e imprevisibilidade no ataque.

Olhando em retrospecto pelos seus mais de 30 anos de carreira, os times do treinador foram majoritariamente dessa forma. E ainda no debate de espetáculo x resultados, o italiano conseguiu ambos, de diferentes formas.

Na Juventus, mudou de esquema mais de uma vez para encaixar Zidane, priorizando seu talento, mas não teve grandes resultados. No Milan, sua “árvore de Natal” dava liberdade a Pirlo e Kaká, dois dos jogadores mais habilidosos do futebol italiano na época — e rendeu grandes resultados, apesar de certa inconstância.

Ancelotti também teve momentos menos memoráveis. Foi um dos pioneiros do novo projeto do PSG, em 2012/13, e foi campeão nacional, mas não é o time mais lembrado dos franceses dessa época. No Bayern de Munique, teve a difícil tarefa de suceder Pep Guardiola — e, mesmo campeão alemão, não chegou perto do domínio e da estética do catalão.

Não sabemos como foi o processo de escolha por Ancelotti na CBF e o que pesou na sua escolha. Se foi um modelo de jogo específico que era buscado, ou como a forma de comandar pessoas supostamente casaria com o que imaginava-se que o Brasil precisava.

Mas o italiano quase sempre foi consistente na carreira em equilibrar uma guerra que é travada há décadas no futebol brasileiro: a de entregar resultados jogando bem — mesmo que nem nós mesmos cheguemos a um consenso do que é, de fato, jogar bonito.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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