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Ancelotti fez ‘TCC’ com defesa de posse de bola, passes ‘automatizados’ e crítica à retranca

Italiano escreveu artigo de 16 páginas que não seria ligada a ele nos dias de hoje vista em retrospecto

Carlo Ancelotti tem 33 anos de carreira como treinador de futebol e, destes, 30 foram como técnico principal de clubes. Seus títulos falam por si, mas poucos cravam uma linha de pensamento e filosofia de jogo do agora técnico da seleção brasileira.

Suas influências podem ser um caminho: foi titular importante e discípulo de Arrigo Sacchi, um dos principais treinadores da história do futebol. Mas, como treinador, não chegou a emular o estilo do lendário comandante do Milan.

Tratado sempre como um camaleão que se adapta ao que tem, Ancelotti também tem suas preferências. E ele mesmo as colocou no papel, em 1997, quando escreveu uma ‘tese’ de 16 páginas sobre o futuro do futebol e como achava que ele deveria ser jogado: ofensivo, com grande foco em posse de bola e passes automatizados.

A ‘tese’ de Ancelotti: ‘O futuro do futebol? Mais dinamismo’

O então jovem treinador italiano, na época em sua segunda temporada como treinador principal da carreira, concluiu seu curso para tirar a licença Pro da Uefa na temporada 1996/97. Para isso, teve que escrever uma tese sobre tática no futebol.

Seu trabalho, intitulado “Il futuro del calcio? Più dinamicità” (“O futuro do futebol? Mais dinamismo”, em tradução livre) foi publicado no Boletim do Setor Técnico número 4 de 1997, junto com outros trabalhos dos alunos de Coverciano, o centro técnico de estudos da Federação Italiana de Futebol (FIGC).

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Página inicial da dissertação de Ancelotti, de 1997 (Foto: Reprodução/FIGC)

Em sua dissertação, o técnico de 37 anos à época criticava a postura dos treinadores italianos que, receosos com a chance de serem demitidos por conta de resultados ruins, focavam demais em não tomar gols — em vez de tentar marcá-los.

Por conta desse fenômeno, Ancelotti percebeu que a grande maioria dos times tinha bons sistemas defensivos. Por isso, para ele, o sucesso no futuro estaria em encontrar soluções ofensivas para quebrar essas defesas.

— É difícil encontrar times que, independente de serem bons em marcação individual ou em zona, não tenham uma defesa boa e organizada — escreveu em sua introdução.

“Acredito que a evolução do jogo no futuro será melhorar as soluções ofensivas, com mais tempo dedicado à tática, mas, ao mesmo tempo mantendo um equilíbrio entre ataque e defesa”.

Por mais que sejam páginas e argumentos com quase 30 anos de idade, a teoria do italiano se provou verdadeira — e segue fazendo sentido atualmente. O futebol, como previu Ancelotti, se tornou mais dinâmico e imprevisível.

— O objetivo para o futuro será jogar futebol que seja o mais dinâmico possível, e eu acredito que esse conceito de dinamismo progrida com o tempo, porque do fluxo rápido do jogo, sua imprevisibilidade e variedade de jogadas são armas importantes para o desenvolvimento do futebol — pontuou o treinador.

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Ancelotti é um treinador sem tática?

A evolução do futebol se deu com a popularização de treinadores com estilos de jogo muito característicos. Um foi influenciando o outro, e as interpretações mais recentes dos diferentes estilos geraram ideias pouco usuais.

Existem escolas táticas muito bem definidas. A do Jogo de Posição, popularizada por Pep Guardiola, mas que teve influências de Rinus Michels e Johan Cruyff, tem sido a mais popular recentemente.

Ancelotti é um dos treinadores mais vitoriosos da história, mas geralmente não se encaixa em uma escola específica. Não é o maior amante da posse de bola entre os treinadores de ponta, mas também não é pragmático demais, nem refém da verticalidade acelerada.

Mas, quando começou, tinha uma ideia clara. Em sua ‘tese’, explicou seu argumento usando como base o 4-4-2 que aprendeu com Sacchi — nele, ilustrou as soluções ofensivas que poderiam ser usadas para furar boas defesas.

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Ancelotti falou sobre posse de bola, triangulação e passes automatizados em sua ‘tese’ (Foto: Reprodução/FIGC)

E seus argumentos principais contavam, curiosamente, com aspectos cruciais para o que Pep Guardiola popularizou: grande importância na posse de bola, o passe como grande arma ofensiva, movimentação sem bola e triangulações.

Em 1997, Ancelotti ilustrava exercícios com triangulações para progredir a bola, enfatizava a importância de ter combinações variadas de passes para jogadores em movimento para conseguir chegar ao último terço do campo em boas condições.

O “camaleão” falava sobre superioridade numérica e pedia movimentações dignas do carrossel holandês dos anos 1970. Essas são ideias muito difíceis de serem associadas à imagem de Ancelotti que se tem hoje em dia.

— Quanto mais movimentos pudermos combinar, quanto mais jogadores pudermos fazer mover em sincronia, mais variado, imprevisível e imaginativo será nosso jogo ofensivo — afirmou o treinador, em um tópico exclusivo da ‘tese’ sobre “movimentos em duplas e movimentos por setores”.

As últimas páginas do seu trabalho têm até um quê professoral. São cinco exercícios explicados para treinamentos, 22 imagens para ilustrar seus argumentos e até mesmo dois tópicos específicos sobre didática — um, inclusive, sobre o aspecto psicológico da didática.

Carlo Ancelotti no Real Madrid (Foto: Imago)
Carlo Ancelotti no Real Madrid (Foto: Imago)

Nela, fala sobre a importância de sempre prestar atenção nos seus jogadores durante os treinos: em como estão fisicamente, seu humor e como respondem ao restante do elenco. Desde cedo na carreira, Ancelotti falava sobre liderança e gestão de grupo.

E a conclusão da sua tese seria digna de Zdenek Zeman ou Fernando Diniz. Fala sobre como a velocidade do jogo está diretamente ligada com a qualidade do espetáculo e que, para que o futebol do futuro agrade os torcedores, deve ser dinâmico e ofensivo.

“Acredito firmemente que, no futebol do futuro, teremos necessariamente que trilhar o caminho do jogo ofensivo para conseguir dar aos espectadores as emoções que se perdem por querer obter o resultado a todo custo”.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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