Brasil

Alisson completa 100 jogos no São Paulo com jornada digna de filme

Com reviravoltas e superações, o hoje volante Alisson chega a marca expressiva no São Paulo e pode alcançar mais até o fim de 2026, data do término do contrato

Quando chegou ao São Paulo para temporada de 2022, a pedido de Rogério Ceni, o então atacante Alisson não inspirou muito otimismo no torcedor, principalmente pelas passagens por Cruzeiro e Grêmio, onde se notabilizou mais pela entrega em campo do que pela técnica. Com a camisa tricolor, seguiu sendo um atleta esforçado com Ceni, sempre à direita do ataque, mas que não agregava tanto quando tinha a bola no pé e precisava passar por algum adversário no mano a mano ou finalizar ao gol. Quem poderia imaginar que, em uma história digna de produções audiovisuais, o hoje segundo volante daria a volta por cima, chegaria aos 100 jogos pelo Tricolor Paulista e seria um dos xodós da torcida que tanto o criticou no passado.

Na última quarta-feira (7), Alisson esteve em campo pela centésima vez com o clube paulista na vitória frente ao Água Santa, adversário que há quase um ano o atleta perdia um dos pênaltis que eliminou o Clube da Fé no Campeonato Paulista de 2023. Foi a 50ª vitória com a camisa tricolor, além de 25 empates e 25 derrotas. No total, o volante marcou quatro gols e distribuiu nove assistências. Titular absoluto ao lado de Pablo Maia no título da Supercopa do Brasil no domingo (4), ele não quis saber de descanso e novamente figurou entre os 11 iniciais em um time todo reserva, o que mostra muito sua entrega e dedicação ao clube.

50 vitórias, 25 empates e 25 derrotas: o retrospecto do São Paulo nos 100 jogos de Alisson (Foto: Divulgação/São Paulo)

Mas antes de dar a virada de chave atual, Alisson passou por muitas provações em sua trajetória no Morumbis. Na primeira temporada, não conseguiu estar sempre saudável e participou apenas de 39 dos 77 jogos do clube em 2022. Para o ano seguinte, nova lesão, que o levou ao fundo do poço. O jogador admitiu à diferentes veículos que pensou em tirar a própria vida pelas derrotas em campo, como na final da Copa Sul-Americana, mas também os problemas físicos que o faziam se cobrar de maneira exagerada. Com a ajuda de profissionais de saúde mental, incluindo a psicóloga do São Paulo, ele conseguiu superar a depressão e voltar aos gramados após ficar afastado no início da temporada.

Já com Dorival Júnior, técnico desde que assumiu em abril de 2023, Alisson ainda não se encontrava nos lados do campo. A gota d'agua foi uma derrota para o Palmeiras, em casa, pelo Campeonato Brasileiro, que o fez abordar Lucas Silvestre, filho e auxiliar do treinador, para mudá-lo de função, conforme revelou ao programa Bola da Vez, da ESPN.

– Depois do jogo contra o Palmeiras que a gente perde, aquele do Brasileirão de 2 a 0, eu chego no Lucas [Silvestre] e falo que eu não me sentia confortável de jogar onde estava jogando. Claro, que para a equipe eu contribuía muito, mas não tenho a característica do um para um. Não é minha função. Acho que temos pessoas no elenco mais qualificadas que podem cumprir melhor essa função. Só não esperava que [a nova posição] seria de volante. No treino do dia seguinte, o Dorival monta os dois times e eu, no alternativo, estou de volante. ‘Cara, de volante? Tá, vamos embora [jogar], né’. E acabou que eu fui muito bem no treino. E continuou eu treinando de volante – revelou o jogador.

O resto é história para o antigo ponta que virou um volante inteligente, intenso e dedicado, ótimo para pressionar no campo de ataque e também um motorzinho no meio por seu vigor físico. O grande primeiro teste para nova função foi, apenas, um Choque-Rei na volta das quartas de final da última Copa do Brasil. Ele não apenas entrou de volante ao lado de Gabriel Neves, como foi o responsável por marcar individualmente Raphael Veiga, que pouco fez no jogo. No fim, o placar de 2 a 1 para o Tricolor foi muito mais do que justo, com Alisson brilhando como titular, seguindo entre os 11 iniciais até levantar a inédita taça no Morumbis lotado, em 24 de setembro.

As redes sociais, antes o local onde o jogador era hostilizado, virou o ambiente onde era exaltado e recebeu o carinhoso apelido “Alisson Guerreiro” por sua entrega em campo e também pela comemoração idêntica ao ex-atacante Leandro Guerreiro, que costumava subir na trave do gol do Morumbis para celebrar os títulos com os punhos cerrados, marca da principal torcida organizada do clube.

Não apenas a dedicação em campo e repetir a comemoração de um ídolo faz Alisson cair nas graças do torcedor. Quando Lucas Moura chegou, em agosto do ano passado, o jogador cedeu gentilmente a camisa 7 ao atacante e ficou com a 25.

Em outubro, o volante recebeu uma merecida renovação até o fim de 2026. Mesmo com a chegada de novos jogadores para a posição (Luiz Gustavo e Damián Bobadilla), hoje é difícil projetar um São Paulo sem Alisson Guerreiro no meio-campo.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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