Azarões Eternos

O West Ham de 1985/86: maior momento da história dos Hammers na liga inglesa

Com uma dupla de ataque arrasadora e ótimas sequências de resultados, o West Ham terminou em terceiro no Campeonato Inglês

O bom desempenho trazido desde a última temporada vem ajudando a posicionar o West Ham entre as mais promissoras forças intermediárias da Premier League. Entretanto, o clube de Londres – que nunca conquistou o campeonato – teria que subir mais alguns degraus para tentar repetir seu maior feito na liga inglesa: o surpreendente terceiro lugar na temporada 1985/86, algo que nem mesmo sua grande geração dos anos 1960, ponteada por três campeões mundiais com a Inglaterra, conseguiu alcançar. Embalada por uma dupla goleadora, aquela equipe bateu recordes e obteve marcas expressivas.

Fundado em junho de 1895 como Thames Ironworks, vinculado à companhia siderúrgica que lhe emprestava o nome, o West Ham United foi refundado cinco anos depois com a denominação que seria a definitiva. Em 1904, ele passaria a mandar seus jogos no campo de Boleyn Ground, na região de Upton Park, onde permaneceria por mais de um século. A admissão na Football League, porém, ainda demoraria mais algumas décadas: na época, os clubes da região de Londres costumavam disputar ligas locais.

A adesão dos Hammers só se daria após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, num contexto de expansão da Football League, que logo no ano seguinte levaria inclusive à criação de uma terceira divisão para abrigar a enxurrada de equipes que se juntaram naquele momento. O West Ham, no entanto, estrearia na segunda, na temporada 1919/20 – com efeito, ainda hoje pode se gabar de pertencer a um restrito grupo de oito clubes ingleses a nunca terem disputado outra categoria abaixo das duas principais da liga.

A trajetória dentro da Football League

O primeiro acesso à elite veio em 1923, mesmo ano em que o clube chegou pela primeira vez à final da FA Cup, perdendo para o Bolton por 2 a 0 numa decisão histórica, a primeira disputada no recém-construído estádio de Wembley e que ficaria famosa como a “Final do Cavalo Branco” (assim apelidada depois que um único policial montado conseguiu organizar a incalculável massa humana que tomou conta do estádio para assistir ao jogo). Esse primeiro período na categoria principal duraria quase uma década.

Os resultados nesse recorte, porém, não foram muito empolgantes. Um sexto lugar em 1926/27 e um sétimo em 1929/30 foram as únicas colocações dos Hammers na metade de cima da tabela. E o rebaixamento em 1932 representaria o fim de uma era em mais de um sentido: ele também colocaria um ponto final nos longos 31 anos do técnico Syd King à frente do time. Curiosamente, na campanha seguinte o West Ham quase caiu para a terceira divisão e, ao mesmo tempo, chegou às semifinais da FA Cup.

O clube hibernaria na segundona, sendo dela resgatado só em 1958. Naquele momento, sob o comando de Ted Fenton (auxiliado pelo então jogador Malcolm Allison), o West Ham começou a desenvolver um fértil trabalho de base que o levaria a ser chamado de “Academia de Futebol” pela imprensa inglesa. E também se notabilizou por reunir jogadores que gostavam de conversar sobre táticas: mais de uma dezena de atletas que passaram por Upton Park na época se tornariam treinadores importantes nas décadas seguintes.

Fenton, que levaria o West Ham a mais um sexto lugar na temporada de retorno à elite, cederia o posto a Ron Greenwood, que levaria adiante o trabalho da Academia a partir de 1961. Sob seu comando floresceriam os talentos da trinca de atletas do clube que seria peça vital na Inglaterra campeã mundial em 1966: Bobby Moore, Martin Peters e Geoff Hurst. Por incrível que pareça, dada a presença marcante dos três no futebol inglês da época, os Hammers seguiram com campanhas de medianas para fracas na liga.

Hurst, Moore e Peters

Porém, se no campeonato as melhores posições obtidas naquele momento foram dois oitavos lugares (em 1962 e 1969) e um nono (em 1965), nas copas a história foi diferente: o West Ham viveu em meados da década seu período mais bem-sucedido. Voltou à final da FA Cup depois de 41 anos e levantou o título pela primeira vez em 1964, batendo o Preston North End em Wembley por 3 a 2. E no ano seguinte venceu seu único caneco europeu, a Recopa, superando no mesmo estádio o Munique 1860 por 2 a 0.

O clube ainda alcançou a final da Copa da Liga (então ainda em ida e volta) em 1966, perdendo a taça para o West Bromwich, e chegou às semifinais no mesmo torneio em 1964 e 1967 e na Recopa em 1966. Seria, portanto, “copeiro” o legado da Santíssima Trindade do clube. Peters sairia trocado com o Tottenham pouco antes da Copa do México, em 1970; Hurst seguiria para o Stoke em 1972; e o eterno capitão Bobby Moore, após viver bons e maus momentos em seus últimos anos no clube, iria para o Fulham em 1974.

Naquele mesmo ano de 1974, Greenwood ascendeu a um cargo de supervisor – o qual deixaria três anos depois para assumir o comando da seleção inglesa. Com isso, John Lyall também subiu do posto de técnico da base para a equipe principal, bem na hora em que começava a despontar uma nova geração, com o lateral Frank Lampard, o volante (depois zagueiro) Billy Bonds, o ponta Pat Holland e o talentoso e classudo meia-armador Trevor Brooking, o melhor da safra e que logo se tornou titular da seleção inglesa.

Com eles o West Ham quase repetiu o feito de meados da década anterior: voltou a vencer a FA Cup em 1975 batendo o Fulham na decisão (ironicamente, com Bobby Moore do lado adversário) e chegou a mais uma final da Recopa europeia no ano seguinte, perdendo, porém, o título para o Anderlecht. Na liga, porém, os resultados pioraram. O clube até obteve mais um sexto lugar em 1973, mas escapou do rebaixamento por apenas um ponto em 1974 e por dois em 1977. Só não foi possível evitar a queda em 1978.

Os altos e baixos dos anos 1980

O retorno não foi imediato: os Hammers amargaram umas boas três temporadas na segundona. Mas o “espírito copeiro” foi preservado: ainda como um clube de segunda divisão, o West Ham conquistou pela terceira e última vez a FA Cup em 1980, batendo o Arsenal na decisão. E fez jogo duríssimo contra o Liverpool de Graeme Souness e Kenny Dalglish na final da Copa da Liga em 1981, resolvida pelos Reds apenas no replay, e de virada, após um dramático empate em 1 a 1 na prorrogação no primeiro jogo.

O retorno à elite, sacramentado em maio de 1981, foi sucedido por três boas campanhas nas temporadas seguintes, com o West Ham terminando sempre na metade de cima da tabela. Na terceira, uma ótima largada fez o clube passar algumas semanas de setembro e outubro de 1983 na liderança da classificação. Por outro lado, o período vindo desde o fim dos anos 1970 marcou também o auge dos episódios de hooliganismo envolvendo grupos de torcedores do clube, como a notória Inter City Firm.

A péssima campanha na segunda metade da temporada 1984/85, quando o time só escapou do descenso nas últimas rodadas, fazia o West Ham um dos candidatos mais sérios ao rebaixamento segundo a imprensa nas prévias para 1985/86. Afinal, além da queda de rendimento recente, o elenco havia perdido nomes importantes como o veterano Frank Lampard (que se aposentou aos 36 anos), o meia-direita Paul Allen (vendido ao Tottenham) e o centroavante Dave Swindlehurst (negociado com o Sunderland).

Com apenas dois reforços pouco badalados – o ponta Mark Ward (Oldham) e o atacante escocês Frank McAvennie (St. Mirren) – trazidos para repor as perdas, o West Ham parecia confirmar os prognósticos na largada do campeonato. Dos sete primeiros jogos, a equipe venceu só um: 3 a 1 no Queens Park Rangers em casa na segunda rodada, resultado que foi ladeado por derrotas para o Birmingham na estreia (1 a 0) e, em seguida, para o Luton em casa (1 a 0) e para o Manchester United (2 a 0) em Old Trafford.

O time-base da grande campanha

Uma sequência de três empates na virada de agosto para setembro começou a preparar o terreno para a grande guinada da campanha. Foi o momento em que o time aparou as arestas e ganhou consistência. E sobretudo solidificou um time-base, que começava com o experiente goleiro Phil Parkes, 35 anos, trazido pelo West Ham em 1979 pelo valor recorde pago então por um jogador da posição depois de ter brilhado no Queens Park Rangers, com o qual foi vice-campeão inglês em 1976 e chegou a atuar pela seleção.

O lateral-direito era o escocês Ray Stewart, outro que chegou ao clube em 1979, vindo do Dundee United. Apoiador seguro, era exímio cobrador de pênaltis. Já a lateral esquerda foi a única posição em que houve disputa: ex-jogador de Tottenham e Arsenal no início da carreira, Steve Walford aportou em Upton Park vindo do Norwich em 1983 e foi titular em pouco mais da metade da temporada, mas se lesionou e cedeu o posto na reta final ao versátil prata-da-casa George Parris, que também podia atuar no meio.

Na zaga, na ausência do veterano capitão Billy Bonds (que perdeu toda a temporada por lesão), a dupla que se estabeleceu como indiscutível tinha Tony Gale, ex-Fulham, e Alvin Martin, jogador de seleção inglesa que quase disputou o Mundial de 1982 e era nome muito provável no de 1986. Já a dupla de meias centrais – o também prata-da-casa Alan Dickens e o escocês Neil Orr – embora não tivesse nem de longe o brilho e a elegância de um Trevor Brooking, cumpria seu trabalho com muita dedicação e eficiência.

Pelos lados do meio-campo, duas peças muito importantes na construção ofensiva: pela direita havia a velocidade do novo reforço Mark Ward e pela esquerda, o talento e o dinamismo de Alan Devonshire, jogador surgido no clube em meados da década de 1970 e que havia se firmado entre os titulares desde então, mas sofrera ruptura de ligamentos do joelho direito em janeiro de 1984, levando nada menos que 19 meses até sua recuperação completa. Ótimo passador, criava muitas chances em suas infiltrações pelo meio.

O ponto alto daquela equipe, no entanto, era indiscutivelmente sua dupla de ataque, por ironia surgida de uma casualidade: na estreia contra o Birmingham, uma séria lesão tirou Paul Goddard, então titular do setor, da partida e de boa parte da temporada. Para suprir a baixa, John Lyall adiantou o recém-contratado Frank McAvennie – que vinha atuando mais recuado, atrás dos dois homens de frente – para fazer companhia a Tony Cottee, goleador revelado no próprio clube. Os resultados foram espantosos.

Porém, a dupla – assim como o time – não engrenou de imediato. McAvennie, que quase assinou com o Luton, ainda se ambientava, enquanto Cottee se mostrava algo relapso em termos de combatividade. Mas uma lavagem de roupa suja dentro do elenco após o início ruim ajudou a consertar as coisas. Assim, a já citada sequência de três empates – 2 a 2 com o Liverpool em casa, 1 a 1 com o Southampton e 2 a 2 com o Sheffield Wednesday fora – acabaria se tornando um ponto de guinada na campanha.

Da mesma forma com que estendia a má largada dos Hammers no campeonato a sete partidas com apenas uma vitória, aquela sequência de empates também iniciava uma longa e histórica série invicta que marcaria aquela campanha. Além disso, mostrava que seu ataque – McAvennie em especial – poderia render ótimos frutos: nos três jogos, o escocês balançou as redes quatro vezes, já chegando a seis gols em sete partidas. E Cottee também desencantou, marcando contra as Owls em Hillsborough, no último jogo.

As vitórias voltariam no jogo seguinte, um tranquilo 3 a 0 diante do Leicester em Upton Park. Em seguida, um empate na visita ao Manchester City (2 a 2) e um categórico 4 a 2 sobre o Nottingham Forest de Brian Clough em casa já alçaram os Hammers ao sétimo posto no fim de setembro – dez posições acima em relação à ocupada ao encerramento do mês anterior. Outubro começaria com outro grande resultado: 2 a 1 no Newcastle em pleno St. James’ Park. Os gols, para variar, foram de McAvennie e Cottee.

O escocês havia balançado as redes oito vezes nas últimas sete partidas. Já o prata-da-casa havia marcado em cinco jogos seguidos. O Arsenal até conseguiria pará-los no jogo seguinte, ao segurar um 0 a 0 em Upton Park. Mas, saltado esse obstáculo, o West Ham engrenaria uma sequência espetacular de vitórias – começando por um ótimo 4 a 1 sobre o Aston Villa (que declinara muito após se sagrar campeão europeu pouco mais de três anos antes), com a dupla de frente anotando dois cada um, em 19 de outubro.

Famintos, os Hammers fariam novas vítimas: 1 a 0 na visita ao Ipswich, 2 a 1 no atual campeão Everton, 2 a 1 fora no estreante Oxford United, 2 a 1 em casa no Watford, 1 a 0 fora no Coventry, 4 a 0 no West Bromwich com exibição coletiva excepcional, 1 a 0 no Queens Park Rangers na grama sintética de Loftus Road e, por fim, 2 a 0 no Birmingham em Upton Park, resultados que catapultavam o time à vice-liderança do campeonato ao lado do Liverpool – o Manchester United, de início arrasador, ocupava o topo.

O goleador desconhecido

Naquele momento, metade de dezembro, Frank McAvennie liderava a tabela dos artilheiros com 18 gols, enquanto Tony Cottee já havia anotado outros dez. O empate em 0 a 0 diante do Luton em Kenilworth Road encerrou a série de nove vitórias consecutivas, mas estabeleceu a maior sequência invicta da história do clube na primeira divisão: já eram 18 jogos sem perder, desde o fim de agosto. Aquela arrancada sensacional, entretanto, só foi testemunhada pelos torcedores que assistiram presencialmente aos jogos.

Parece incrível aos olhos de hoje, quando não só as partidas da Premier League como até as da Championship são fartamente exibidas pela televisão ou diversos outros meios. Mas a primeira metade daquela temporada 1985/86 transcorreu inteiramente longe das telinhas devido a um imbróglio envolvendo as negociações do novo contrato de transmissão, numa disputa que colocou de um lado o chamado Big Five da época (Arsenal, Everton, Liverpool, Manchester United e Tottenham) e do outro a BBC e a ITV.

Era essa circunstância bizarra que permitia a McAvennie – recém-chegado e já artilheiro da liga – caminhar quase anonimamente pelas regiões mais movimentadas de Londres. O grande público telespectador do país só viu o rosto do goleador do campeonato em novembro, quando ele foi um dos entrevistados do talk show de Terry Wogan, um dos apresentadores mais populares do Reino Unido. Na mesma época da exibição do programa, que o transformou numa celebridade, ele chegou à seleção escocesa.

O Tartan Army disputaria a repescagem intercontinental contra a Austrália, decidindo a 24ª vaga na Copa do Mundo do México. E seu técnico interino, Alex Ferguson, apostou na excelente forma do goleador dos Hammers na liga inglesa. Deu certo: na ida, o estreante McAvennie fez o segundo na vitória por 2 a 0 no Hampden Park. Na volta, em Melbourne, um 0 a 0 bastou. Dali a três dias, o West Ham jogaria em Loftus Road. Mesmo cansado da viagem, o atacante pediu para jogar. E fez o gol da vitória por 1 a 0.

Frank McAvennie e Tony Cottee, a dupla goleadora

A série invicta recordista de 18 partidas acabaria no último jogo de 1985, uma derrota por 1 a 0 para o Tottenham em White Hart Lane na rodada de Boxing Day. O resultado fez a equipe descer para a quinta posição na virada do ano, ainda que seguisse na cola dos ponteiros, quatro pontos atrás do líder Manchester United, que começava um declínio. Entre as duas posições estavam Chelsea, Everton e Liverpool – os dois últimos com uma partida a mais. Era o quinteto que parecia vivo na briga pelo campeonato.

Janeiro e fevereiro costumavam ser os meses que embaralhavam a disputa. Além de significarem o auge do inverno rigoroso, que levava ao adiamento de muitos jogos pelo país, representavam também o momento em que os clubes das divisões principais da Football League entravam na FA Cup, a qual, com sua infinita possibilidade de jogos extras para a definição dos classificados (os chamados “replays”), ajudava a bagunçar ainda mais o calendário levando a novas postergações de partidas da liga para os meses seguintes.

Assim, nesses dois meses somados, o West Ham fez apenas três partidas pelo campeonato. Bateu o Leicester em Filbert Street por 1 a 0, gol de McAvennie, em 11 de janeiro e perdeu por 3 a 1 do Liverpool na visita a Anfield uma semana depois, num jogo que representou um abalo para suas credenciais ao título. A recuperação veio em 2 de fevereiro: ao vencerem o Manchester United por 2 a 1 em Upton Park, os Hammers destronaram os Red Devils de Ron Atkinson da liderança. Mas quem assumiu o posto foi o Everton.

Na mesma época, o time avançava na FA Cup. Em 5 de janeiro, protagonizou a primeira partida transmitida ao vivo após o acordo entre clubes e emissoras sobre o contrato de TV: derrotou o Charlton por 1 a 0 fora de casa, gol de Tony Cottee. O prata-da-casa também seria decisivo na etapa seguinte, no complicado confronto com o Ipswich, que levou 330 minutos para apontar o classificado – a vaga só chegaria com uma vitória por 1 a 0, gol de Cottee, na prorrogação do segundo replay, em Portman Road.

Na próxima fase, o adversário seria o Manchester United, algoz dos Hammers na Copa da Liga. E o troco acabaria vindo também no replay, após o 1 a 1 inicial em Upton Park. Em Old Trafford, um gol do meia Geoff Pike (antigo titular que perdera espaço no time por problemas físicos) e outro do lateral Ray Stewart cobrando pênalti deram uma consagradora vitória por 2 a 0. O sonho da dobradinha, entretanto, viria a ruir nas quartas de final, diante do Sheffield Wednesday, com derrota por 2 a 1 em Hillsborough.

A arrancada final

Os embates das copas haviam feito o West Ham ficar mais de 40 dias sem atuar pela liga. Agora, teria pela frente até o fim da temporada nada menos que 16 partidas num espaço de 52 dias. O cansaço e o elenco curto cobraram o preço no início, com derrotas nas visitas a Arsenal e Aston Villa. Mas logo o time voltou aos trilhos, recusando-se a entregar os pontos. Entre as vitórias em casa sobre Sheffield Wednesday (2 a 1, na vingança da copa) e Tottenham (1 a 0), houve uma exibição de gala em Stamford Bridge.

O Chelsea estava vivo na briga pelo título naquele 29 de março. Estava a apenas quatro pontos de Everton e Liverpool, tendo dois jogos a menos que os Toffees e três em relação aos Reds. Uma boa vitória sobre o West Ham – que então descera ao sétimo posto, mas tinha ainda mais partidas a menos – poderia reforçar as credenciais dos Blues. Mas a trupe de John Lyall tinha outras ideias: Devonshire abriu o placar chutando de fora da área e, na etapa final, Cottee marcou duas vezes e McAvennie completou a goleada de 4 a 0.

Em 2 de abril, o West Ham novamente sentiria o cansaço – era o terceiro jogo em cinco dias – e perderia na visita ao Nottingham Forest por 2 a 1. Mas o time ainda tentaria uma última arrancada com alguns resultados memoráveis. Dos nove jogos disputados naquele mês, a equipe venceu sete. Em casa, os Hammers bateram o Southampton (1 a 0) e o Oxford (3 a 1), cederam a revanche ao Chelsea em Upton Park (2 a 1), mas enfileiraram sua segunda maior sequência de vitórias na temporada, mantendo-se vivos na briga.

Na segunda quinzena de abril, o time venceu Watford, Newcastle, Coventry, Manchester City e Ipswich, fechando o mês (o penúltimo do campeonato) na vice-liderança, quatro pontos atrás do Liverpool, mas com dois jogos por fazer contra apenas um dos Reds – o que mantinha suas chances matemáticas de levantar o título inédito. Nessa sequência, a atuação demolidora contra o Newcastle (décimo colocado) em Upton Park no dia 21 se tornaria um jogo para a história – do clube, da campanha e da temporada: o placar fechou em 8 a 1.

É importante dizer que os Magpies vinham de uma crise de lesões e tiveram uma noite bastante azarada, que os levou a utilizarem três goleiros diferentes – dois deles, jogadores de linha – nos 90 minutos. Mas o placar do jogo também tem a ver com o ímpeto do West Ham, que, buscando se aproximar dos líderes, partiu para cima desde o pontapé inicial. No primeiro tempo, quando o arqueiro titular Martin Thomas estava sob as traves do Newcastle, os Hammers já haviam balançado as redes quatro vezes.

Alan Devonshire encara o Chelsea em Stamford Bridge, com George Parris ao fundo

O primeiro gol saiu logo aos três minutos, com o zagueiro Alvin Martin escorando uma cobrança de falta perto da ponta esquerda. No segundo, o lateral Ray Stewart cruzou fechado e forte da linha de fundo, e Martin Thomas caiu com a bola dentro do gol. Já atuando lesionado, Thomas voltaria a não conseguir deter um chute, desta vez de Neil Orr, de muito longe, ampliando para os Hammers. E o quarto gol foi contra, de calcanhar, do zagueiro Glenn Roeder, após sucessivas rebatidas de cabeça.

Na época, apenas um jogador (de linha) ficava no banco de reservas. De modo que, no caso da saída do goleiro, algum jogador de outra posição inescapavelmente teria de agarrar em seu lugar. Com a saída do lesionado Thomas, o Newcastle fez entrar o meia Ian Stewart e passou o também meio-campista Chris Hedworth para o gol. E ele levaria o quinto, mais uma vez com Alvin Martin, que testou firme uma cobrança de escanteio de Mark Ward que chegou até ele após ser resvalada pelo outro zagueiro, Tony Gale.

Pelo menos foi o único: de clavícula fraturada após colidir com Tony Cottee, Hedworth também desistiu de jogar no gol e voltou ao meio-campo, fazendo número. Foi quando o Newcastle teve de recorrer em caráter mais emergencial ainda aos serviços do atacante Peter Beardsley – o menor jogador em campo – sob as traves até o fim da partida. Curiosamente, logo depois os visitantes descontariam com Billy Whitehurst, após confusão na área no rebote de um escanteio, a 13 minutos do fim da partida.

Mas o West Ham ainda não havia terminado o trabalho: em quatro minutos, marcou outras três vezes. McAvennie, discreto até ali, também deixou sua marca de cabeça. O reserva Paul Goddard, que acabara de entrar, também anotou de cabeça em seu primeiro toque na bola. E na saída de bola, a pressão dos Hammers resultou num pênalti por toque de mão de Roeder. O batedor oficial Ray Stewart deixou Alvin Martin cobrar, e o zagueiro converteu completando seu inusitado hat-trick – contra três goleiros diferentes.

Na última rodada regular do campeonato, em 3 de maio, o West Ham venceu fora de casa o já condenado West Bromwich por 3 a 2. Era a sexta vitória consecutiva naquela reta final. Mas não foi o suficiente para manter o sonho do título vivo: na mesma tarde, o Liverpool viajou a Stamford Bridge e derrotou o Chelsea por 1 a 0, gol de Kenny Dalglish, confirmando matematicamente mais uma conquista. Restava a chance de terminar como vice, num embate direto com o Everton em jogo adiado para dali a dois dias.

Marcas expressivas

Gary Lineker, que se sagraria o goleador do campeonato com 30 gols (quatro à frente dos 26 de Frank McAvennie), anotou duas vezes no jogo de Goodison Park, antes que Cottee descontasse no fim e Trevor Steven, de pênalti, definisse já nos acréscimos o placar em 3 a 1 para o Everton. Mas o West Ham só terminaria mesmo atrás da dupla de Merseyside, e mesmo assim por pouco: havia somado expressivos 84 pontos, dois a menos que os Toffees e quatro atrás dos Reds. Era a melhor campanha da história do clube.

Os Hammers ficaram mais próximos dos ponteiros do que da turma que veio atrás: o Manchester United, quarto colocado, ficou a distantes oito pontos dos londrinos. Suas 26 vitórias em 42 jogos eram igualadas apenas pelo campeão e o vice, sem serem superadas por nenhum outro clube. Um desempenho de tamanha excelência deveria ter sido premiado com uma vaga europeia. Mas aquela era a primeira temporada pós-Heysel, e os clubes ingleses haviam sido banidos das competições continentais pela Uefa.

Mark Ward e Frank McAvennie

Na temporada seguinte, o clube ao menos conseguiu manter praticamente todo o elenco e ainda se reforçou com bons nomes como o meia Stewart Robinson, do Arsenal, e o talentoso armador irlandês Liam Brady, antigo ídolo dos Gunners repatriado após quase sete anos no Calcio. Além deles, a equipe voltou a contar com o veterano capitão Billy Bonds, recuperado de lesão, e foram promovidos novos garotos de destaque nas categorias inferiores – entre eles um jovem volante de 19 anos chamado Paul Ince.

Mesmo com todas essas boas notícias, a equipe esteve longe de cumprir uma campanha como a anterior e terminou num medíocre 15º lugar, agravado por uma coleção de derrotas a partir do fim de novembro de 1986. Embora Tony Cottee anotasse 22 gols pela liga, Frank McAvennie seria a decepção, balançando as redes apenas sete vezes. A badalação em torno de seu nome fizera o atacante se perder numa vida agitada fora de campo com festas, álcool e drogas. Acabaria vendido ao Celtic em outubro de 1987. 

John Lyall, apenas o quinto técnico do West Ham em quase 90 anos de história, acabaria demitido com o rebaixamento ao fim da temporada 1988/89, encerrando seu vínculo de 34 anos com o clube, vindo desde os tempos de jogador. Nos 35 anos que se seguiram a aquela campanha do terceiro lugar – que levou o elenco a ser popularmente eternizado como “The Boys of ‘86” – não foram muitas as vezes em que o West Ham esteve em posições tão altas na tabela ao fim de uma temporada da primeira divisão.

A melhor delas foi o quinto lugar na temporada 1998/99, a segunda melhor colocação da história, com um time dirigido pelo experiente Harry Redknapp e que reunia talentos lapidados na base como o zagueiro Rio Ferdinand, o meia Frank Lampard e um ainda muito jovem Joe Cole, aliados a nomes mais rodados como o artilheiro Ian Wright (ex-Arsenal) e um punhado de estrangeiros. Também foram expressivos os sétimos lugares em 2002 e 2016, além da sexta colocação na mais recente campanha, em 2020/21.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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