Trinidad e Tobago de 1989: quando a Strike Squad ficou a um empate da Copa do Mundo da Itália
Com a presença de um jovem Dwight Yorke, Trinidad e Tobago chegou à última rodada das Eliminatórias com grandes chances de ir ao Mundial, mas acabou frustrada em casa pelos EUA

A seleção de Trinidad e Tobago conta no currículo com uma solitária participação em Copas do Mundo, na Alemanha em 2006. Porém, outra geração – considerada até mais talentosa dentro do país – esteve muito perto de antecipar esse feito em quase duas décadas: a então apelidada Strike Squad (que incluía um novato chamado Dwight Yorke) esteve a um empate em casa contra os Estados Unidos de disputar o Mundial da Itália, em 1990. O resultado não veio e se tornou uma ferida nacional. Mas o carinho por aquela safra de jogadores permanece imutável para o povo que viveu a época nas ilhas caribenhas.
Os antecedentes
O futebol chegou a Trinidad e Tobago da mesma forma que na maioria dos países, em especial as antigas colônias britânicas, como era seu caso na época: por meio de expatriados das nações do Reino Unido, no início do século XX. A federação local foi fundada em 1908, três anos depois de uma seleção nacional trinitina ter entrado em campo pela primeira vez, mas a entidade só se filiou à Fifa no ano seguinte à independência do país, proclamada em 31 de agosto de 1962. E em 1964, seria a vez de se juntar à Concacaf.
Com isso, o primeiro ciclo de eliminatórias de Copa do Mundo disputado pelo país seria o de 1966, para o Mundial da Inglaterra. Na estreia, uma goleada de 4 a 1 sobre o Suriname levantou os ânimos, mas o time perderia os três jogos seguintes e acabaria eliminado ainda na etapa inicial. Nas primeiras seis participações nos torneios de classificação, a seleção de Trinidad e Tobago só chegou realmente perto de ir à Copa uma vez, no ciclo de 1974, quando perdeu a vaga para o Haiti de maneira controversa.
Aquela foi a primeira vez em que o antigo Campeonato da Concacaf (extinto nos anos 1990 para dar lugar à Copa Ouro) valia também pelas eliminatórias mundialistas. Após eliminarem Antígua e Barbuda e o Suriname na fase preliminar, os trinitinos avançaram ao turno final, a ser disputado em Porto Príncipe contra México, Honduras, Guatemala, Antilhas Holandesas e o anfitrião Haiti. Trinidad e Tobago perdeu seus dois primeiros jogos contra hondurenhos e haitianos por 2 a 1. Mas no segundo houve grande polêmica.
Os donos da casa saíram na frente com Emmanuel Sanon aos nove minutos. Mas os trinitinos buscaram o empate aos 14 com Steve David. E daí em diante tiveram nada menos que cinco gols anulados, antes de Roger Saint-Vil definir a vitória haitiana a dois minutos do fim da partida. A atuação da arbitragem no jogo chamou a atenção da imprensa internacional e levou a Fifa a banir o juiz salvadorenho José Henríquez e o auxiliar canadense James Higuet. A controversa derrota diminuía as chances dos trinitinos.
Trinidad e Tobago ganharia seus três últimos jogos, chegando até a aplicar uma goleada de 4 a 0 no México, mas havia se recuperado tarde demais: o Haiti, que venceu suas quatro primeiras partidas, carimbou o passaporte na penúltima rodada e se deu ao luxo de perder para os astecas por 1 a 0 na despedida, terminando dois pontos à frente dos trinitinos, que amargaram o vice-campeonato e a ausência na Copa. Aquela equipe seria eternizada no país como o “Classic Team”. Mas o trauma não cicatrizaria tão cedo.
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O comandante da revolução
Um dos destaques do time era o meia-atacante Everald “Gally” Cummings, que já atuava na NASL norte-americana desde 1967 (havia defendido o Atlanta Chiefs e na época jogava pelo New York Cosmos). Depois daquelas Eliminatórias, ele se transferiu ao futebol mexicano, vestindo a camisa do Veracruz por três temporadas, antes de retornar aos Estados Unidos, encerrando por lá a carreira de jogador. Renomado como atleta em seu país, acabou apontado como o novo técnico da seleção de Trinidad e Tobago em 1987.
A seleção vinha de campanha muito fraca no Campeonato da Concacaf de 1985 (que valeu ainda como classificatório para a Copa do Mundo de 1986). Na etapa preliminar, avançou sem jogar graças à desistência de Granada. E no torneio final, em abril e maio de 1985, caiu na primeira fase somando apenas um ponto no grupo contra Estados Unidos e Costa Rica, com jogos em ida e volta. Do elenco daquele malfadado ciclo, poucos nomes seriam aproveitados, e o novo técnico preferiria fazer um trabalho de renovação.
Um prenúncio da qualidade da nova safra viria das competições de clubes, com a conquista do Defence Force na Copa dos Campeões da Concacaf de 1985. Principal potência do país na época, com 15 títulos da National League entre 1974 e 1995, o clube venceu a zona do Caribe e avançou para enfrentar o Olimpia, de Honduras, ganhador da zona das Américas do Norte e Central, em partidas de ida e volta disputadas já em janeiro de 1986. Venceu por 2 a 0 em casa na ida, perdeu por 1 a 0 fora na volta e ficou com a taça.

No entanto, foi após mais uma campanha bastante ruim da seleção, desta vez nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis em 1987, que o nome de “Gally” Cummings acabou sugerido pelos próprios jogadores ao comando da federação. Sua primeira competição à frente do time seria a Copa do Caribe de 1988, precedida por duas etapas classificatórias – a primeira delas, disputada ainda no fim do ano anterior, na qual os trinitinos passaram por Barbados com facilidade: 4 a 0 na ida fora de casa e 5 a 1 na volta em casa.
A segunda fase eliminatória aconteceu já 1988 adentro, e a seleção outra vez não teve problemas para superar a Guiana, goleando por 4 a 0 em Georgetown e vencendo por um suficiente 1 a 0 em Port of Spain. Em julho viria a fase final do torneio, um quadrangular disputado na Martinica e que reunia, além de trinitinos e dos anfitriões, os times de Antigua e Barbuda e Guadalupe. Na última rodada, Trinidad e Tobago levou a taça ao bater a Martinica por 3 a 0 num jogo encerrado no intervalo por falta de energia elétrica.
O novo treinador começava a colher os frutos de sua reformulação, que não se limitava à escolha dos atletas: “A primeira coisa que fiz foi mudar o uniforme. Se sua aparência é enfadonha, você joga um futebol enfadonho. Sentei com nossos fornecedores e criei uma camisa especial para um time especial”, relembrou o treinador em entrevista ao site Soca Warriors. O uniforme, que agora pela primeira vez exibia as cores nacionais, tornaria-se um símbolo daquela equipe de 1989. Mas houve outras transformações importantes.
“O passo seguinte”, prosseguiu Cummings, “foi mudar nosso estilo de jogo para uma estrutura que sintetizava o ritmo e a formação de nossa cultura. Assisti ao vídeo de uma atuação da equipe e faltava a ela uma base científica de treinamentos. A biomecânica e a individualidade dos atletas não existiam. Ninguém entendia seu papel e sua responsabilidade. Faziam linha de impedimento sem pressionar o oponente com a bola. Implementei um sistema mais compacto, aproximando os jogadores da bola e dos companheiros”.
A “STRIKE SQUAD”
Duas semanas após a primeira conquista, a nova seleção trinitina – que receberia o apelido de “Strike Squad” – enfrentou em Port of Spain um combinado do Caribe num jogo comemorativo e venceu por 2 a 0. O próximo grande desafio seriam as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1990, que pela última vez “dobrariam” contando também para o Campeonato da Concacaf. Aliás, o próprio confronto contra a Guiana classificatório para a Copa do Caribe valeu também pela fase inicial da caminhada rumo ao Mundial.
O adversário naquela segunda fase de mata-mata antes do turno final, porém, tinha nível bem mais elevado que os guianenses, fregueses habituais dos trinitinos desde o início do século: era a seleção de Honduras, que fizera papel muito bom na Copa do Mundo de 1982 e chegara muito perto de disputar também a de 1986. Aquela seleção hondurenha que tentaria ir ao Mundial da Itália mantinha o técnico Chelato Uclés e três jogadores de 1982, entre eles o experiente armador Gilberto Yearwood, destaque na Espanha.
O empate em 0 a 0 no jogo de ida no Queens Park Oval, em Port of Spain, no dia 30 de novembro de 1988 parecia ter aumentado o favoritismo dos Catrachos para levarem a vaga na fase final do torneio classificatório. Duas semanas depois, em Tegucigalpa, o atacante Juan Alberto Flores abriu o placar para os donos da casa aos 20 minutos do primeiro tempo. Mas logo no início da etapa final, veio o surpreendente empate trinitino com o volante Hutson Charles. O 1 a 1 levou os caribenhos adiante pelo gol fora de casa.

O ano de 1989 seria bastante movimentado no calendário da Strike Squad. Além da fase decisiva das Eliminatórias, a ser disputada em turno e returno, a equipe participaria de mais uma edição da Copa do Caribe (com as etapas classificatória e final jogadas naquele ano) e faria uma série de amistosos em Port Of Spain: nela, enfrentou duas vezes o Paraguai, que havia estado no Mundial do México, e arrancou dois animadores empates em 2 a 2 (quando só não venceu por falhas da defesa) e 1 a 1 nos dias 19 e 22 de março.
Os outros jogos foram contra clubes ingleses. Em março enfrentaram duas vezes o Aston Villa. Em abril, receberam o Leicester. E em maio foi a vez do Queens Park Rangers. Os jogos contra os Villans entrariam para a história por outra razão: neles, um atacante de apenas 17 anos e natural de Tobago chamaria a atenção de Graham Taylor, técnico dos ingleses: era Dwight Yorke, que jogava pelo time da escola secundária de Signal Hill. De lá, seguiria para um período de testes no Villa Park, antes de ser contratado em definitivo.
O TIME-BASE
Yorke, que fazia ali uma de suas primeiras partidas pela seleção principal, era uma das novidades da Strike Squad para aquele ano, em que um time-base foi definido para a etapa decisiva do Campeonato da Concacaf – e, por extensão, das Eliminatórias. No gol, porém, houve alteração: o veterano Earl Carter, que disputara a fase de classificação à Copa do Mundo de 1978, foi o titular nos primeiros três jogos da fase final, mas logo o também experiente Michael Maurice, em seu terceiro ciclo de Mundial, retomou a titularidade.
A linha de quatro defensores, por sua parte, manteve-se praticamente imutável: na lateral direita, o apoio era garantido por Brian Williams, outro nome experiente e conhecido por ser adepto do rastafarianismo e pelos fortes arremessos de lateral que chegavam até a área. Na zaga, o capitão Clayton Morris, um dos poucos remanescentes do ciclo de 1986, fazia dupla com o novato Dexter Francis. Outra novidade daquele ciclo era o lateral-esquerdo Marvin Faustin, que se firmou como dono da posição desde as fases preliminares.

A formação 4-3-3 utilizada pelo técnico “Gally” Cummings contava com um meio-campo bastante móvel, com jogadores cujas características se completavam: o volante Hutson Charles gostava de se projetar ao ataque e costumava balançar as redes. Já o meia Kerry Jamerson era dinâmico e aguerrido. E o grande talento do setor era o criativo Russell Latapy, que trocou uma oportunidade de estudar nos Estados Unidos pela carreira no futebol – que logo o levaria à Europa, onde atuaria por muitos anos em Portugal e na Escócia.
O ataque trazia na ponta direita o já citado Dwight Yorke e, pela esquerda, Leonson Lewis, jogador que aliava qualidade técnica à potência física e que faria longa carreira no futebol de Portugal por mais de uma década. De boa estatura (1,80 metro), também marcava muitos gols pelo alto. Já pelo centro, atuava o oportunista Philibert Jones, que ganhou a posição durante a fase final, após aparecer bem entrando durante os jogos, e tomou o lugar do grandalhão Maurice Alibey. Jones era o outro remanescente do ciclo de 1986.
O GRUPO FINAL
A fase decisiva, porém, estaria aberta a surpresas: das cinco seleções ranqueadas pela Fifa como cabeças de chave na segunda fase de mata-mata, apenas duas haviam se classificado: Estados Unidos e El Salvador. Além de Honduras, eliminada por Trinidad e Tobago, caíram antes da hora simplesmente os dois representantes da Concacaf na Copa do Mundo anterior: o Canadá, que perdeu a vaga para a Guatemala, e o México, suspenso pela entidade internacional por adulterar a idade de jogadores nas categorias de base.
A estreia de Trinidad e Tobago veio apenas na quinta partida do grupo, depois que a Costa Rica (que avançara com a punição ao México) já havia atuado quatro vezes, fazendo seus dois jogos contra Guatemala e Estados Unidos, vencendo as duas em casa e perdendo ambas fora. A seleção norte-americana também seria a primeira adversária dos trinitinos, em partida disputada no dia 13 de maio de 1989 no pequeno Murdock Stadium, localizado dentro de um campus universitário na cidade californiana de Torrance.
Os donos da casa perderam grandes oportunidades no primeiro tempo e poderiam ter saído em vantagem antes mesmo do intervalo. Mas só o fizeram logo no início do segundo tempo, aos três minutos. Depois que uma cobrança de falta pela direita foi rebatida pela zaga e alçada novamente para a área, o lateral Steve Trittschuh veio de trás enquanto a defesa saía, dominou bonito no peito e encheu o pé para vencer Earl Carter. A partir daí, porém, as melhores chances foram todas de Trinidad e Tobago, em busca do empate.
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Os visitantes chegaram perto numa bonita bicicleta de Leonson Lewis e num chute de Maurice Alibey à queima-roupa salvo no reflexo com os pés pelo goleiro David Vanole. De tanto insistirem, o empate acabou saindo quase no minuto final: o lateral Brian Williams lançou da direita e, após combinação inteligente no ataque, o volante Hutson Charles novamente apareceu sozinho na área para finalizar, tocando no canto de Vanole e decretando o 1 a 1, que valia um ponto precioso no início daquela caminhada rumo à Copa.
Ainda naquele mês, no dia 28, a Strike Squad voltaria a campo para sua segunda partida no grupo, agora em casa diante da Costa Rica. Os Ticos, que já faziam ali seu quinto jogo e partiam céleres rumo à classificação, começaram pressionando mesmo diante da torcida adversária. Os trinitinos respondiam com jogadas aéreas, explorando a estatura de Alibey. E chegaram perto do gol numa finalização de carrinho do atacante Marlon Morris, num lance em que o goleiro costarriquenho Gabelo Conejo se lesionou e teve de ser substituído.
Porém, novamente os trinitinos sairiam atrás no marcador logo na volta do intervalo, quando o atacante Evaristo Coronado desviou de cabeça um cruzamento de Carlos Hidalgo da esquerda e colocou os Ticos em vantagem. A equipe da casa chegou às redes logo depois numa cabeçada do volante Floyd Lawrence em escanteio, mas o árbitro mexicano Edgardo Codesal (o mesmo que apitaria a final daquele Mundial) invalidou o lance marcando falta de ataque. A Strike Squad, porém, não se abateu e chegou à igualdade.
A jogada começou com um desarme ainda no campo de defesa feito pelo capitão Clayton Morris, que arrancou ao ataque. Após uma troca de passes, a bola chegou na esquerda a Hutson Charles, que alçou para a área. Maurice Alibey escorou pelo alto e Philibert Jones (que acabara de entrar naquele segundo tempo) chutou duas vezes para mandar a bola às redes aos 23 minutos, levando o time da casa a outro 1 a 1. Duas semanas depois, em 11 de junho, as duas equipes voltariam a se encontrar, desta vez em San José.
Os Ticos abriram o placar logo nos minutos iniciais, com o atacante Juan Cayasso finalizando para as redes após confusão na área. Os trinitinos reagiram e acertaram a trave com Dwight Yorke. Em seguida, porém, dois lances controversos marcariam a partida: os costarriquenhos reclamaram de um pênalti não marcado de Kerry Jamerson em Claudio Jara, enquanto os visitantes tiveram um gol de Hutson Charles anulado por um suposto toque de mão do meia, na sequência de outro lance em que Yorke carimbou a trave.
A seleção de Trinidad e Tobago só voltaria a atuar em 30 de julho, recebendo El Salvador. Naquela altura, a Costa Rica já havia feito todas as suas oito partidas e, com 11 pontos, tinha a classificação ao Mundial praticamente assegurada. Já os trinitinos e os salvadorenhos viviam o outro lado da moeda: com apenas dois pontos nos três primeiros jogos, a Strike Squad precisava da primeira vitória. Já La Selecta havia estreado apenas no fim de junho e perdido seus dois primeiros jogos, ambos contra os Ticos, em casa e fora.
No Queen’s Park Oval, os trinitinos venceram por 2 a 0, tendo em Hutson Charles e Leonson Lewis os personagens centrais: os dois gols saíram no segundo tempo, em escanteios cobrados pelo primeiro (um de cada lado) e escorados pelo segundo (um com o pé esquerdo e o outro com a cabeça). Já a partida de volta, disputada dali a duas semanas, acabou transferida de San Salvador para Tegucigalpa, em Honduras, diante do agravamento da tensão política vivida então em El Salvador, que atravessou a década sob guerra civil.
O jogo terminou empatado em 0 a 0, resultado que minou ainda mais as chances de classificação dos salvadorenhos e levou os trinitinos a encostarem nos Estados Unidos na vice-liderança do grupo. O próximo passo seriam os dois confrontos com a Guatemala, cruciais para afirmarem as credenciais o time de “Gally” Cummings na briga por uma vaga na Copa. O primeiro, já na semana seguinte na casa do adversário, foi vencido por 1 a 0, num gol de Kerry Jamerson em chutaço de fora da área, após passe de Russell Latapy.
O segundo foi disputado em Port Of Spain, mas desta vez no Estádio Nacional, de construção mais recente (foi inaugurado em 1982), maior capacidade e melhor adaptado para jogos de futebol – o velho Queen’s Park Oval era mais utilizado para o críquete. Nele, a seleção trinitina começou sendo surpreendida por um gol de Julio Rodas logo aos seis minutos, após uma sucessão de bolas mal afastadas pela defesa. Mas o empate não demorou a sair: aos 10, Leonson Lewis desceu pela esquerda e cruzou para Philibert Jones escorar.
Os trinitinos se mandaram inteiros para o ataque, mas a igualdade parecia persistir até quase o fim do jogo, quando o gramado já se havia se tornado um lamaçal. Aos 43 minutos, porém, uma cobrança de falta um pouco antes da linha divisória foi alçada para a área guatemalteca e sobrou para Russell Latapy na meia-lua. O meia girou e tocou para trás, para Kerry Jamerson, que vinha na corrida e mandou um petardo indefensável no canto do goleiro Edgar Hidalgo. A vitória por 2 a 1 era fundamental para manter vivo o sonho.
Com o resultado, os trinitinos se isolavam na segunda colocação, abrindo quatro pontos de frente para os Estados Unidos, que, no entanto, tinham três partidas a menos. A distância começou a ser diminuída quando os norte-americanos derrotaram El Salvador também no campo neutro de Tegucigalpa por 1 a 0. Com isso, para que a Strike Squad chegasse com a vantagem do empate ao confronto direto da última rodada em Port Of Spain, seria preciso que os rivais não somassem mais que dois pontos em seus dois jogos seguintes.
A torcida contra acabou funcionando: os Estados Unidos pararam em dois empates em 0 a 0 com os já eliminados Guatemala, fora de casa, e El Salvador, em casa. Desta forma, tanto os trinitinos quanto os norte-americanos chegaram à última rodada com nove pontos, porém os caribenhos tinham melhor saldo de gols (três contra dois), tornando-lhes necessário apenas um empate em casa para carimbar o passaporte para a Itália e disputar sua primeira Copa do Mundo. Seria o jogo mais importante da história do país até então.
HORA DA DECISÃO
Naturalmente, naquela altura o país já havia sido tomado pelo clima de euforia. Músicas haviam sido lançadas como o tema da Strike Squad, a população foi convocada a vestir as cores nacionais na data do jogo decisivo e o governo decretou antecipadamente feriado nacional no dia seguinte à partida, para que a comemoração pela classificação se estendesse. Enquanto isso, o técnico e os jogadores treinavam em local afastado, sem contato com a celebração antecipada. Entretanto, a preparação acabaria seriamente prejudicada.
Durante a semana de treinos fora da capital, o time se preparou sob chuva e com campo pesado. No dia do jogo, porém, o sol saiu e deixou o gramado do National Stadium bastante ressecado. “Gally” Cummings pediu então para que o campo fosse irrigado horas antes do jogo, mas o pedido foi surpreendentemente negado por funcionários. Além disso, o trio de arbitragem foi trocado a pedido do então presidente da Fifa, João Havelange, que considerava o jogo de “alto risco”. No fim, foi escalado o argentino Juan Carlos Loustau.

Mas o gesto que ainda hoje causa mais perplexidade partiu do secretário-geral da federação de Trinidad e Tobago, Jack Warner: buscando lucrar com a euforia nacional, ele ordenou a impressão de um número de ingressos que era quase o dobro da capacidade oficial do estádio, além de suspender por conta própria a proibição da venda de bebidas alcoólicas que havia no local. O resultado foi, previsivelmente, o caos: um público de cerca de 35 mil torcedores conseguiu entrar e superlotou o estádio onde cabiam 22 mil.
Enquanto isso, outros milhares ficaram do lado de fora, de ingresso na mão, reclamando do logro. Para piorar, a aglomeração nas imediações do estádio bloqueou o trânsito e impediu a chegada do ônibus com os jogadores da Strike Squad ao seu portão de entrada. Os atletas só conseguiram deixar o veículo carregados por soldados, passando por sobre as cabeças da multidão. A tragédia andou bem perto de acontecer antes mesmo de a bola rolar. Foi nesse clima que a seleção entrou em campo para seu jogo mais importante.
QUANDO O SONHO RUIU
Para a partida decisiva, “Gally” Cummings também tomou uma decisão que mais tarde receberia críticas: mesmo precisando do empate, decidiu alterar a escalação que vinha jogando ao barrar o volante Hutson Charles (um dos destaques da equipe nas Eliminatórias) e escalar em seu lugar um meia ofensivo, Paul Elliott-Allen, deixando Kerry Jamerson como o jogador mais recuado do setor. Talvez no intuito de resolver logo a partida, além de quebrar o tabu histórico dos trinitinos de nunca terem vencido os norte-americanos.
Mas não eram apenas os locais que entravam pressionados: além de buscarem encerrar um jejum de 40 anos sem disputar Mundiais, os Estados Unidos precisavam de resultados que justificassem, aos olhos da comunidade do futebol, sua escolha como sede da Copa seguinte, em 1994. Diante disso, os comandados de Bob Gansler – húngaro naturalizado norte-americano que assumira o comando da equipe em janeiro daquele ano – tinham como objetivo suportar o “abafa” inicial dos locais e tentar surpreender em contragolpes.

E a partida começou nesse tom: os trinitinos criando as melhores chances, enquanto os norte-americanos tentavam “cozinhar” o jogo e aproveitar eventuais erros por afobação do adversário. Mas aos 28 minutos, ocorreria o lance que se tornaria a grande polêmica do jogo: Philibert Jones recebeu passe da meia esquerda e entrou na área ficando cara a cara com o goleiro Tony Meola. Antes que pudesse finalizar, porém, recebeu um desajeitado trança-pé do zagueiro John Doyle, num pênalti claríssimo não marcado por Loustau.
Dois minutos depois, viria o castigo ainda maior: o meia norte-americano Paul Caligiuri recebeu de Tab Ramos na intermediária, passou por um oponente e, aproveitando o quique da bola, de lá mesmo arriscou um chute para o gol. A bola descaiu e entrou no canto esquerdo de um mal posicionado Michael Maurice, que certamente não esperava a finalização dali. Os Estados Unidos saíam em vantagem, silenciando o lotado Estádio Nacional. Após o baque, os trinitinos só levaram perigo num chute de Kerry Jamerson de fora da área.
Na etapa final, “Gally” Cummings enfim fez entrar Hutson Charles e, logo depois, Maurice Alibey, procurando ganhar presença de área, já que a equipe de Trinidad e Tobago falhava justamente ao tentar furar a bem posicionada defesa dos Estados Unidos. Em vão: com os norte-americanos tratando de afastar a bola de qualquer maneira a partir dos cinco minutos finais, o placar de 1 a 0 permaneceu até o apito final, após o qual vários jogadores trinitinos se estiraram no gramado, incrédulos. E alguns choraram copiosamente.
O clima nas arquibancadas também era de desolação. Uma torcedora foi flagrada às lágrimas pela transmissão televisiva da partida. Parte do público tentava reunir forças para aplaudir vencedores e vencidos. Enquanto isso, no placar eletrônico lia-se, entre outras mensagens: “Strike Squad, nós ainda te amamos”. Naquele 19 de novembro de 1989, o país caribenho experimentou seu próprio Maracanazo. A geração ainda hoje lembrada como a melhor tecnicamente da história do futebol local estava fora da Copa do Mundo da Itália.
AS CONSEQUÊNCIAS
Houve, no entanto, quem não lamentasse tanto assim: pouco tempo depois do jogo, Jack Warner deixou a federação local para, com o apoio do cartola norte-americano Chuck Blazer, ser eleito o presidente da Concacaf. Enquanto isso, o governo trinitino instaurava uma comissão de inquérito para apurar as alegações de fraude nos ingressos e risco à segurança dos torcedores. Os trabalhos acabaram não avançando: como um “cala-boca”, a Fifa entregou ao país o prêmio Fair Play pelo comportamento da torcida local no jogo decisivo.
Nos ciclos que se seguiram, a seleção custou a encontrar seu caminho. Na Eliminatória seguinte, mesmo mantendo quase inteiramente a base do time que chegou perto do Mundial da Itália, caiu para a Jamaica ainda numa das fases preliminares. Para 1998, caiu na terceira fase como lanterna do grupo com Estados Unidos, Costa Rica e Guatemala, somando apenas um ponto. E em 2002, chegou a ficar em primeiro no grupo de México e Canadá na fase semifinal. Mas no hexagonal decisivo voltou a amargar a última colocação.

Somente em 2006 o país realizaria o sonho de disputar sua primeira – e ainda hoje única – Copa do Mundo. A seleção chegou ao hexagonal sob o comando de Bertille St. Clair, que após um mau começo na etapa decisiva foi substituído pelo experiente holandês Leo Beenhakker. Com a troca no comando, a equipe engrenou, venceu o México na última rodada por 2 a 1, gols de Stern John, e conseguiu terminar em quarto, avançando à repescagem intercontinental. Nela, derrotou o Bahrein fora de casa e levou a vaga no Mundial.
Naquela equipe mundialista, que receberia o apelido de Soca Warriors, havia dois remanescentes da Strike Squad: Russell Latapy e Dwight Yorke, que então já se tornara um atacante de renome internacional pelos oito anos em que havia atuado no Aston Villa, mas sobretudo por seu período no vitorioso Manchester United de Alex Ferguson. O vínculo entre as duas gerações também se fazia presente no meia Kenwyne Jones, jogador mais jovem do elenco de 2006, que era sobrinho de Philibert Jones, atacante do esquadrão de 1989.
Tendo como base atletas que atuavam em clubes britânicos e incluindo jogadores surgidos nesse meio tempo e que se tornariam nomes emblemáticos do futebol trinitino, como o goleiro Shaka Hislop, os defensores Marvin Andrews e Dennis Lawrence e o atacante Stern John, a seleção estreou no Mundial da Alemanha arrancando um honroso 0 a 0 com a Suécia, antes de ser batida por Inglaterra e Paraguai, ambos por 2 a 0. A participação dos Soca Warriors fechou a ferida, mas não apagou o carinho do país pela Strike Squad.



