O Sparta Praga de 1991/92: brilhando na Europa em meio à transição na Tchecoslováquia
Nos últimos anos de Tchecoslováquia, o Sparta Praga derrotou potências na Champions e ficou a um triz de disputar a final
Clube tradicional da Europa Central, com rico histórico internacional no período entreguerras, o Sparta Praga viveu seu maior momento num torneio da Uefa na Copa dos Campeões de 1991/92. Em meio à nova realidade no antigo bloco socialista que levaria à divisão da Tchecoslováquia, o clube se valeu de uma ótima geração (incluindo nomes que integrariam a seleção tcheca vice-campeã na Euro 1996) para derrubar os favoritos Rangers e Olympique de Marselha nas etapas preliminares e derrotar o Barcelona dirigido por Johan Cruyff na fase de grupos, chegando muito perto de disputar a final da competição mais prestigiosa do continente.
A trajetória do clube
Como país, a antiga Tchecoslováquia existiu entre 1918 (quando foi criada com o desmonte do velho Império Austro-Húngaro) e 1938 (com seu esfacelamento diante do avanço territorial da Alemanha nazista pela Europa Central) e mais tarde entre 1945 e 1992, do fim da Segunda Guerra Mundial à nova cisão, período quase sempre dominado pelo regime socialista. Naquele momento inicial, o Sparta Praga se consolidou como uma das equipes mais poderosas não apenas no âmbito doméstico como também no continental.
Fundado por um grupo de garotos ainda nos tempos do Império, em 16 de novembro de 1893, como Královské Vinohrady (ou “Vinhedos do Rei”), o Sparta foi rebatizado com a nomenclatura pela qual seria conhecido cerca de um ano depois. A cor da camisa mudou de preta para vermelha em 1906, sob inspiração do Arsenal inglês, antes de ganhar tonalidade mais puxada para o grená. O clube levantou um título nacional considerado não-oficial em 1912, mas sua primeira era de ouro começaria de fato a partir de 1919.
Dirigidos pelo escocês John Dick, ex-jogador do Arsenal, o Sparta enfileirou cinco títulos seguidos no Campeonato Central da Tchecoslováquia, entre 1919 e 1923. Dentro deste período, em 1920, o time serviu de base – dez titulares – para a seleção nacional que chegou à decisão do torneio olímpico nos Jogos de Antuérpia contra os anfitriões belgas, mas acabou perdendo a medalha de prata ao deixar o campo em protesto contra a arbitragem. Respeitado em toda a Europa, aquele esquadrão era chamado de “Sparta de Ferro”.

Quando uma liga profissional foi enfim instituída no país, em 1925, o Sparta levantou o primeiro título de uma temporada completa (após uma edição disputada durante o verão daquele ano e vencida pelo rival Slavia). Após bater equipes de ponta da Europa continental, do Reino Unido e até de outras partes do mundo, como o Nacional uruguaio, em prestigiosos amistosos e excursões internacionais, o clube transformaria todo esse renome em taça com a conquista da primeira edição da Copa Mitropa, disputada em 1927.
O torneio – um dos precursores da Liga dos Campeões – reunia times de peso da Europa Central. No caminho até a primeira conquista, o Sparta superou o Admira Viena e o MTK Budapeste, antes de se impor contra o forte Rapid Viena na decisão, chegando a vencer o jogo de ida por 6 a 2. Em 1935 viria a segunda conquista, numa edição que já com a participação de equipes italianas. Após superar o First Viena, o Sparta atropelou a Fiorentina por 7 a 1 e a Juventus por 5 a 1. Na final, a vítima da vez foi o Ferencváros húngaro.
Aquela equipe de meados dos anos 1930 dividia com o rival Slavia a base da seleção nacional que ficaria com o vice-campeonato na Copa do Mundo de 1934, derrotada na final pela anfitriã Itália apenas na prorrogação. Além de um punhado de craques locais, como o meia-esquerda Oldřich Nejedlý, artilheiro do Mundial, o Sparta contava ainda com o talento estrangeiro do atacante belga Raymond Braine, atraído por um contrato lucrativo num tempo em que o futebol de seu país de origem ainda era oficialmente amador.

Após a Segunda Guerra Mundial, com o início do período comunista, o futebol do país passou por transformações, e o clube sofreu diversas mudanças até no nome, passando a ser denominado Sparta Bubeneč, Sokol Bratrství Sparta, Sparta Sokolovo e Spartak Sokolovo, antes de retornar a Sparta Praga em 1965. A divisão de forças também havia mudado, com a fundação do Dukla Praga (ligado às forças armadas) e a ascensão das equipes eslovacas. Nesse novo cenário, as conquistas foram se tornando cada vez mais esporádicas.
O Sparta conquistou o primeiro e o terceiro campeonatos do regime comunista, em 1945/46 e 1947/48. Na década seguinte, em que o país adotou o calendário anual, vieram as taças de 1952 e 1954. Porém, o próximo caneco só seria levantado em 1964/65, em meio a uma sequência de títulos do Dukla. E após vencer o campeonato de 1966/67, o clube começaria a amargar não só o maior jejum de sua história no certame como também alguns anos especialmente ruins, flertando perigosamente com a parte de baixo da tabela.
Esse péssimo momento culminaria no rebaixamento para a segunda divisão ao fim da temporada 1974/75 (dois anos depois de o clube ter alcançado as semifinais da Recopa europeia). Com isso, justamente no momento em que a seleção da Tchecoslováquia levantava o maior título de sua história – o da Eurocopa de 1976 – o Sparta encarava a dura briga pelo retorno à divisão de elite nacional. Eram tempos de domínio dos clubes eslovacos: entre 1968 e 1975, o Spartak Trnava foi campeão cinco vezes e o Slovan Bratislava, três.
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A reestruturação
Enquanto se reerguia, o clube conquistou duas vezes a copa nacional: uma em 1976 como clube da segunda divisão e a outra em 1980. Mas a volta por cima completa só se concretizou a partir de 1983/84, com uma dobradinha nacional que marcou o início de uma nova era de hegemonia. Dali até a temporada 1990/91, o clube conquistaria todos os títulos da liga, exceto o de 1985/86, quando o surpreendente Vitkovice levou a taça. Foram sete conquistas em oito anos – além de outras duas dobradinhas em 1987/88 e 1988/89.
Mesmo com tamanha hegemonia, o Sparta também seria instado a se adaptar à nova realidade do futebol do país após a chamada “Revolução de Veludo”, que levou ao fim do regime socialista na Tchecoslováquia em novembro de 1989. O maior desafio era de onde tirar receita agora que os jogadores não eram mais oficialmente amadores e o clube teria de arcar com seus salários. De saída, o time sofreu uma debandada de talentos: nada menos que sete atletas deixaram o clube rumo ao exterior logo após a Copa do Mundo da Itália.
Entre eles, quatro dos seis jogadores do Sparta que haviam integrado o elenco tchecoslovaco que fizera ótima campanha naquele Mundial, chegando às quartas de final e caindo para a Alemanha Ocidental, futura campeã. O goleiro Jan Stejskal foi para o futebol inglês defender o West Ham. O líbero Ivan Hašek tomou o rumo da França, assinando com o Racing Strasbourg. O meia Michal Bílek seguiu para o Betis, da Espanha. E o goleador grandalhão Tomáš Skuhravý, para o milionário Calcio italiano, onde se juntou ao Genoa.
Houve ainda uma quinta saída um ano depois, quando o lateral Július Bielik migrou para o Japão ao trocar o clube pelo Mazda (atual Sanfreece Hiroshima). Do sexteto da Copa, somente o meia Václav Němeček permaneceu no clube para a temporada 1991/92. De qualquer forma, o Sparta ainda contava com uma boa base e recebeu reforços pontuais, a maioria para compor o elenco, embora trouxesse atletas até do exterior – uma “abertura de fronteiras” antes inimaginável que garantiu atletas até de outros continentes ao clube.

Além disso, a reestruturação também passou por uma ruptura interna na instituição. A exemplo de vários clubes do centro e leste europeu, o Sparta é uma associação poliesportiva. E, naquele contexto de transição para o capitalismo, acabou optando pela separação financeira do futebol – única atividade rentável da agremiação – das outras 14 modalidades praticadas, algo que enfrentou forte resistência dentro do clube, mas foi concretizado pelo presidente recém-eleito Václav Mašek, ex-atacante do clube e da seleção.
Mašek brilhara com a camisa do Sparta entre 1960 e 1975 e defendera a Tchecoslováquia no vice-campeonato mundial no Chile em 1962 (onde inclusive chegou a marcar um gol relâmpago diante do México na primeira fase, o mais rápido da história do torneio até ali). Ao assumir o novo cargo, ele recorreu a um outro antigo craque do país – embora consagrado por um rival – para auxiliá-lo naquela reestruturação: Zdeněk Nehoda, ex-atacante do Dukla, destaque da seleção campeã europeia de maneira surpreendente em 1976.
A dupla de ex-atletas também conseguiu costurar um contrato de patrocínio com a montadora Opel, subsidiária alemã da General Motors, que passou a estampar sua marca na camisa do clube e em troca ajudou a custear até mesmo as viagens de torcedores para as partidas fora de casa pelas copas europeias, num momento em que os valores cobrados pelos ingressos nos principais centros ainda eram considerados inviáveis aos torcedores do outro lado da antiga Cortina de Ferro, vindos de outra realidade socioeconômica.

O Sparta havia completado seu pentacampeonato nacional na temporada 1990/91, a primeira completa após o fim do regime socialista. Apesar de terminar com o melhor ataque do certame (58 gols em 30 jogos) e de ter obtido vitórias expressivas em seu estádio Letná sobre os rivais de Praga (5 a 0 no Bohemians, 5 a 1 no Dukla e 3 a 1 no Slavia), o título não veio de ponta a ponta: a conquista só se confirmou nas rodadas finais com um 3 a 0 em Bratislava no confronto direto com o Slovan, que ficaria em segundo por um ponto.
O líder na primeira metade da competição havia sido o surpreendente Union Cheb – novo nome do antigo Rudá Hvězda Cheb, clube ligado às forças armadas, pelo qual muitos atletas atuavam enquanto cumpriam serviço militar. Exatamente no meio do campeonato, seu treinador Dušan Uhrin seria contratado pelo Sparta, substituindo o veterano Václav Ježek, o técnico da seleção no título da Eurocopa de 1976 e que encerrava ali sua quarta passagem pelo clube, tendo levantado nada menos que cinco títulos nacionais.
O time-base para a nova campanha europeia
A conquista de 1990/91 garantiu mais uma vez ao clube a vaga na Copa dos Campeões, que para 1991/92 apresentava uma novidade: as etapas de quartas de final e semifinal deram lugar a uma fase de grupos, na qual os oito classificados das oitavas de final eram distribuídos em duas chaves de quatro times, que se enfrentavam em turno e returno, e o primeiro colocado seguiria direto à final. Era um ensaio para o que a partir da edição seguinte (e, de início, só desta fase de grupos em diante) seria denominado Liga dos Campeões.
Em seu histórico internacional, além das três conquistas da Copa Mitropa (as já citadas de 1927 e 1935 mais a de 1964, quando o torneio já havia perdido muito de seu prestígio), o Sparta tinha como melhores resultados três quartas de final na Copa dos Campeões (nas temporadas 1965/66, 1967/68 e 1984/85), uma semifinal da Recopa (em 1972/73) e outra quarta de final da Copa da Uefa (em 1983/84). Nessas campanhas, deixou pelo caminho times como Real Madrid, Schalke, Anderlecht, Standard de Liège e Ferencváros.

Ainda assim, o Sparta ficou de fora do pote dos cabeças de chave no sorteio para o primeiro mata-mata da competição, a fase de 16-avos de final, realizado pela Uefa em Genebra em 11 de julho de 1991. Como resultado, a trajetória já começava diante de um oponente respeitável: o escocês Glasgow Rangers. Aquele era apontado como o confronto mais equilibrado da primeira etapa, que contava com 32 equipes – e que, pela última vez, traria um representante da então já extinta Alemanha Oriental, o Hansa Rostock.
Ao longo daquela temporada, o time-base do Sparta sofreria modificações pontuais em virtude das negociações da janela de inverno. No gol, no entanto, o jovem Petr Kouba (22 anos ao início da campanha) se firmava como o dono da posição: contratado do Bohemians em janeiro de 1991, chegou para preencher a lacuna da saída de Jan Stejskal, missão que o antigo reserva Milan Sova não conseguiu cumprir. À frente de Kouba atuava um time muito versátil taticamente, a começar pela defesa, que poderia ter três ou quatro jogadores.
Nela, o líbero Jiří Novotný era nome certo. Revelado no próprio clube e alçado ao elenco principal em 1987, era o responsável por cobrir a defesa, mas também saía para iniciar os contra-ataques. Também intocáveis em sua titularidade eram os defensores laterais, Michal Horňák pela direita e Petr Vrabec pela esquerda. Este último era um dos remanescentes dos títulos dos anos 1980. Com a saída dos principais nomes ao exterior, o ex-coadjuvante virou protagonista, em especial por ser um especialista nas bolas paradas.
Com a variação inicial de sistemas táticos entre o 4-4-2 (ou 1-3-4-2) e o 3-5-2 (ou 1-2-5-2), havia a disputa por um lugar no time entre o zagueiro central Jan Sopko, trazido do Rudá Hvězda Cheb para a temporada, e o experiente Vítězslav Lavička, meia-esquerda, no clube desde 1983. Mas o revezamento acabou quando, perto do fim de 1991, o Sparta acertou a volta de Jozef Chovanec após três anos no PSV. Outro baluarte do time nos anos 1980, podia atuar como meia ou defensor central, posição em que se encaixaria na equipe.
Estava no meio-campo, no entanto, o jogador em torno de quem aquela equipe girava: o armador Václav Němeček. Com apenas 24 anos ao início da campanha, era o capitão e o motor do time, combinando talento e vigor físico para conduzir a transição ofensiva. Quem também empurrava o time à frente, mas pelos flancos, era a veloz dupla de alas formada por Lumír Mistr pela direita e Jiří Němec pela esquerda. O primeiro, recém-chegado do Rudá Hvězda Cheb, e o outro, cria do České Budějovice, veio do rival Dukla em 1990.
Mais à frente, por dentro, como um autêntico ponta-de-lança, jogava Martin Frýdek, talentoso e ágil, responsável por municiar a dupla de ataque. Artilheiro da liga na temporada 1990/91 com 17 gols, Roman Kukleta seria nome certo na frente, mas uma lesão na coxa o afastou do início da campanha. Pouco depois de se recuperar, acabou negociado com o Betis em dezembro de 1991. Mas antes de sair ainda teria tempo de anotar um gol fundamental para a classificação do Sparta à fase de grupos, como veremos mais adiante.
Sem ele, a jovem revelação Horst Siegl ganhou como companheiro de ataque o experiente Pavel Černý, que aportara no Letná em 1989, trazido do Spartak Hradec Králové. A exemplo de Kukleta, Černý era um dos oito jogadores daquele elenco que já haviam defendido a seleção tchecoslovaca principal antes do pontapé inicial daquela campanha – Siegl, a exemplo do líbero Novotný, teria sua vez no desenrolar da temporada. Por fim, em janeiro de 1992, o clube repôs a saída de Kukleta contratando Marek Trval, artilheiro do Vitkovice.

Derrubando favoritos
Para os dois jogos contra o Rangers, a escalação seria a mesma: Kouba no gol; Novotný de líbero; Horňák e Vrabec como laterais marcadores e Sopko no miolo de zaga; Němeček na saída do meio-campo com Mistr e Němec pelos lados; Frýdek na ligação com o ataque; e Siegl e Černý na frente. Do outro lado, os tricampeões escoceses tinham de lidar com uma mudança feita pela Uefa nas regras relativas ao limite de estrangeiros – só de ingleses o clube tinha seis no elenco, e agora só quatro ao todo poderiam ser relacionados.
Para o confronto de ida, em Praga, o técnico Walter Smith recorreu a três dos ingleses: o lateral Gary Stevens, o volante Nigel Spackman e o atacante Mark Hateley, além do ponta Pieter Huistra, da seleção holandesa. Nas demais posições, vários nomes que defendiam regularmente o Tartan Army, como o goleiro Andy Goram, o zagueiro Richard Gough, o meia Stuart McCall e o atacante Ally McCoist. E seria o goleador dos Gers quem criaria a primeira chance clara do jogo ao se livrar de dois adversários, mas seu chute acabou travado.
Logo depois, aos 20 minutos, o Sparta abriu o placar numa jogada em que Němec trocou de lado e, da direita, alçou para a área. Seu cruzamento, porém, saiu muito fechado e acabou encobrindo Goram de maneira inapelável, tomando o caminho das redes no canto oposto. Seria o único tento na vitória tcheca por 1 a 0. Na etapa final, o Rangers teve a chance do empate numa finalização de McCoist que acertou o rosto de Horňák. E Goram fez milagre para impedir que Černý ampliasse para os locais num chute poderoso.
O Rangers fez quatro alterações na equipe e mudou até o esquema para um 3-5-2 na partida de volta em Ibrox. Huistra deixou o time para a entrada do soviético Alexei Mikhailichenko na meia esquerda e Hateley cedeu o posto a Maurice “Mo” Johnston no ataque, liberando uma vaga de estrangeiro para o outro soviético do elenco, o líbero Oleg Kuznetsov. Além destas trocas, John Brown ganhou a vaga de Richard Gough na zaga. Tudo para tentar reverter diante de sua torcida a desvantagem de um gol sofrida no Letná.
E eles chegaram a conseguir. Depois de um primeiro tempo em que o Sparta teve pelo menos três chances claras, incluindo uma finalização de Siegl salva de maneira espetacular por Goram, os anfitriões saíram na frente logo na volta do intervalo com Stuart McCall. Perto do fim do tempo normal, foi a vez de Kouba defender de maneira sensacional uma finalização de McCoist – e o placar de 1 a 0 nos 90 minutos regulamentares levou a decisão da vaga a uma prorrogação que se revelaria dramática e surpreendente.
O Rangers aumentaria a vantagem logo aos três minutos mais uma vez com McCall, que emendou num bonito voleio um cruzamento da direita de John Spencer (que entrara na prorrogação), sem chance para Kouba. A euforia da torcida local, porém, durou seis minutos. Até o momento em que Nemecek acionou Mistr pela direita do ataque do Sparta, e o ala cruzou buscando Siegl, mas o zagueiro Scott Nisbett se antecipou e, de carrinho, mandou a bola para as próprias redes. Era o gol fora de casa no 2 a 1 que classificou o Sparta.

Não satisfeito em derrubar o favoritismo, ainda que ligeiro, do Rangers, o Sparta teria pela frente na segunda fase um oponente ainda mais badalado: o Olympique de Marselha, que passava por uma revolução desde a chegada do presidente Bernard Tapie em 1986. Após um período difícil na segunda divisão francesa na primeira metade daquela década, o clube se tornara uma potência continental na virada para os anos 1990, com vários jogadores de seleção francesa unidos a astros internacionais de primeira prateleira.
Além de já acumular, na época, um tricampeonato nacional, o clube vinha cumprindo respeitáveis campanhas europeias: primeiro chegara às semifinais da Recopa em 1987/88, caindo para o Ajax. Dois anos depois, alcançou outra semifinal, desta vez na Copa dos Campeões, sendo eliminado de maneira controversa pelo Benfica com um gol de mão marcado pelo angolano Vata Garcia. Já na temporada seguinte, após superarem o bicampeão Milan, os marselheses foram à final, mas perderam nos pênaltis para o Estrela Vermelha.
Para a temporada 1991/92, o clube do sul da França se reforçara com talentos locais como o ala Jocelyn Angloma (ex-PSG) e os meias Didier Deschamps (ex-Bordeaux) e Franck Sauzée (ex-Monaco), mais o meia inglês Trevor Steven (ex-Rangers). Estes se juntavam a um elenco que trazia nomes dos Bleus, como os defensores Manuel Amoros, Basile Boli e Bernard Casoni e o atacante Jean-Pierre Papin, além de seus astros estrangeiros: o zagueiro brasileiro Mozer, o meia-armador ganês Abedi Pelé e o ponta inglês Chris Waddle.
Na fase anterior, o Olympique havia simplesmente demolido o fraco Union de Luxemburgo com um duplo 5 a 0 em ambas as partidas do confronto. Mas ao se aproximar dos jogos com o Sparta, embora seguisse na liderança do Campeonato Francês, havia passado por uma troca no comando, com o croata Tomislav Ivić demitido e o belga Raymond Goethals (ex-treinador da equipe e que vinha ocupando um cargo de coordenador técnico) retomando o antigo posto – o que não fazia do OM menos favorito à classificação, no entanto.
Para o Sparta, todavia, desenhava-se a possibilidade de uma revanche do futebol de seu país: em 4 de setembro de 1991, pouco menos de dois meses antes do primeiro confronto das oitavas da Copa dos Campeões, a seleção da França – que incluía seis jogadores do Olympique – derrotara a da Tchecoslováquia – com quatro atletas do Sparta – por 2 a 1 em Bratislava pelas Eliminatórias da Eurocopa de 1992, um resultado que virtualmente encerrou as chances da equipe dirigida por Milan Máčala e classificou os Bleus para o torneio.
De início, porém, parecia que o Olympique venceria com facilidade ainda maior, encaminhando a classificação: Waddle abriu o placar no primeiro tempo e Papin, que já havia perdido um pênalti pouco antes do intervalo, marcou outros dois gols antes dos 15 minutos da etapa final. Logo após o terceiro tento dos franceses, porém, Boli atingiu Frýdek na área com uma entrada grosseira, e o árbitro marcou pênalti para o Sparta. Com frieza, Vrabec cobrou bem a penalidade e descontou para o Sparta, que renasceu no jogo.
Frýdek, porém, deixou o campo lesionado após a patada de Boli. Em seu lugar entrou Kukleta. Em seguida, numa alteração ainda mais ofensiva, Vrabec saiu para a entrada de Lavička. E a pressão do Sparta deu resultado aos 32 minutos, quando Nemecek recebeu na intermediária e entrou em velocidade na área, sendo derrubado pelo goleiro Pascal Olmeta (que até tocou na bola, mas sem dúvida derrubou o meia tcheco). Kukleta, que entrara cerca de dez minutos antes, também bateu bem, reduzindo um pouco mais o placar para 3 a 2.
O resultado tornava a classificação do Sparta mais viável: jogando em casa, uma vitória simples por 1 a 0 ou 2 a 1 colocaria os tchecoslovacos na fase de grupos. E como prêmio pela melhora do time no segundo tempo no Vélodrome, Lavička e Kukleta jogariam de início, saindo Sopko e Černý – uma escalação mais ofensiva. Uma escolha acertada: o time apertou do início ao fim e marcou com Frýdek no primeiro tempo e com Siegl, num petardo com efeito, no segundo. No fim, Abedi Pelé descontou para 2 a 1, mas a vaga era mesmo do Sparta.
Ainda que outros duelos de peso tenham acontecido naquelas oitavas de final (o Benfica eliminou o Arsenal e o Anderlecht deixou pelo caminho o PSV Eindhoven), aquela foi a maior surpresa das etapas preliminares: única equipe do pote mais fraco no sorteio inicial a avançar à fase de grupos, o Sparta derrubara um dos principais candidatos ao título, e novamente pelos gols marcados fora de casa, como fizera diante do Rangers. A definição dos grupos da próxima etapa viria em outro sorteio em Genebra no dia 8 de novembro de 1991.
A fase de grupos
O Grupo A colocou frente a frente o atual campeão Estrela Vermelha, a Sampdoria, o Anderlecht e o Panathinaikos. O Sparta, por sua vez, ficou no B, ao lado de Barcelona, Benfica e Dínamo Kiev. Os catalães, dirigidos por Johan Cruyff, eram os favoritos óbvios, tendo os lusos encarados como os concorrentes mais temidos. Já os (ainda) soviéticos, com um time muito jovem, viviam fase de renovação, mas por terem eliminado fora de casa o bom time do Bröndby (semifinalista da Copa da Uefa na temporada anterior), inspiravam cautela.
E o Sparta? Mesmo com os resultados surpreendentes colhidos até ali, ainda era visto por boa parte da imprensa como o grande azarão do grupo. Cruyff, no entanto, pensava de outra forma: “O Sparta não é um adversário tão fácil quanto pode parecer”, comentou o treinador azulgrana ao ser informado do sorteio, fazendo questão de lembrar ainda que a seleção tchecoslovaca, com vários jogadores do clube, havia derrotado a da Espanha, com outros tantos do Barça, por 3 a 2 em Praga pelas Eliminatórias da Eurocopa.
A fase de grupos começaria três semanas depois dos jogos de volta das oitavas – a tabela marcava as duas primeiras rodadas ainda para o ano de 1991. O Sparta teria logo de cara o confronto mais difícil possível, pegando exatamente o Barcelona no Camp Nou. O técnico Dušan Uhrin, porém, não se apavorou: decidiu preservar a escalação inicial da vitória sobre o Olympique de Marselha, povoando o meio-campo num 3-5-2, mas tendo a saída forte pelos lados, a proteção extra à defesa e a dupla de ataque bem municiada.

O Barça, na temporada anterior, havia interrompido a sequência de títulos do Real Madrid da Quinta del Buitre e se preparava para iniciar sua própria dinastia na liga espanhola, materializada em um tetracampeonato. Mas naquela Copa dos Campeões, sofreu para avançar à fase de grupos: após derrotar o Kaiserslautern, campeão alemão-ocidental, por 2 a 0 no jogo de ida no Camp Nou, chegou a estar atrás por 3 a 0 na partida de volta, antes de José María Bakero marcar o gol milagroso da classificação no último minuto.
O time mesclava, entre tantos nomes, jogadores espanhóis de grande experiência internacional (o goleiro Andoni Zubizarreta, o meia José María Bakero e os atacantes Aitor “Txiki” Beguiristain e Julio Salinas), outros em ascensão (o zagueiro Miguel Ángel Nadal, o ala Jon Andoni Goikoetxea e os meias Guillermo Amor e Josep Guardiola) e seus estrangeiros, sendo dois holandeses (o líbero Ronald Koeman e o meia Richard Witschge), um dinamarquês (o meia Michael Laudrup) e um búlgaro (o atacante Hristo Stoichkov).
O jogo no Camp Nou começou elétrico. O Barcelona saiu na frente aos 15 minutos quando Amor pegou o rebote de uma finalização de Witschge defendida parcialmente por Kouba e tocou para as redes. Mas logo no reinício do jogo Frýdek recebeu lançamento e entraria livre, frente a frente com Zubizarreta, mas foi parado a poucos metros da área pelo mesmo Amor com um carrinho por trás. O autor do gol do Barça foi imediatamente expulso. E na cobrança da falta, um chute magistral de Vrabec deixou tudo igual no placar.
https://www.youtube.com/watch?v=jJ1SC-ODVJs
Aquele primeiro tempo ainda assistiria a duas chances incrivelmente desperdiçadas, uma para cada lado, antes de o Barcelona passar de novo à frente, numa bola que Bakero rolou para trás, Beguiristain fez o corta-luz e Laudrup finalizou. No começo da etapa final, os anfitriões acertaram o travessão numa falta batida por Koeman e, aos 16, ampliaram num contra-ataque, com Bakero tocando ao gol vazio. Mas três minutos depois, foi a vez de Němeček aproveitar a sobra de bola com a meta aberta e descontar para 3 a 2.
Apesar do revés e do fato de que os dois gols marcados fora de casa não terem, na fase de grupos, o mesmo peso que num mata-mata, a atuação agradou a todos no Sparta e recebeu elogios na imprensa catalã. No Mundo Deportivo, o jornalista Santi Nolla destacou no time de Dušan Uhrin “uma concepção de futebol do meio-campo para a frente que pode colocar em apuros a melhor equipe da Europa” devido à “velocidade de suas ações ofensivas e sua escola tipicamente centro-europeia, com um toque vertical e simples”.

Diante disso, a escalação seguiu sem alterações para a partida seguinte, contra o Dínamo Kiev no Letná, na qual o Sparta entrava com a obrigação de vencer para se recuperar – e tentar embolar o grupo, já que o adversário havia estreado vencendo em casa o Benfica por 1 a 0. Uma vantagem aos tchecos dizia respeito ao ritmo de jogo devido ao calendário: a pausa de inverno por lá havia começado só há cerca de dez dias, enquanto o (último) Campeonato Soviético já havia terminado há mais de um mês, deixando o Dínamo quase inativo.
Os ucranianos, dirigidos por Anatoly Puzach (ex-jogador da seleção soviética na Copa de 1970), viviam naquele início dos anos 1990 situação semelhante à do Sparta: antiga base de sua seleção, sofreram com a debandada de talentos (em especial para a Europa Ocidental) com a abertura do regime socialista e agora precisavam reconstruir seu elenco. Remanescentes como os defensores Akhrik Tsveiba, Sergei Shmatovalenko e Oleg Luzhnyi lideravam novatos como Yuri Moroz, Sergei Kovalets e o promissor atacante Oleg Salenko.
https://www.youtube.com/watch?v=MN0opoHG7XE
Disputado sob temperatura de cinco graus negativos, o jogo começou com o Sparta fervendo. Já aos 13 minutos, um bloqueio no meio-campo e uma roubada de bola levaram ao primeiro gol dos donos da casa, com Němeček arrancando e tabelando com Kukleta – que faria ali seu último jogo na campanha – antes de tocar na saída do goleiro Igor Kutepov. E aos 22, a vantagem dobraria com um incrível gol olímpico de Vrabec, um dos lances mais marcantes daquela trajetória do time no torneio. E o Sparta ainda criaria chances para golear.
Na etapa final, o Dínamo reagiu e diminuiu aos dez minutos com Vladimir Sharan, deixando o jogo mais equilibrado e fazendo pairar uma certa dose de suspense sobre seu desfecho. Mas ao fim da partida, a vitória do Sparta por 2 a 1 se mostrava merecida no cômputo geral. No outro jogo do grupo na rodada, Benfica e Barcelona não saíram do 0 a 0 no Estádio da Luz. Se era o suficiente para os catalães se manterem na liderança do grupo, por outro lado era um resultado que não os permitia desgarrar. E o Sparta sairia à sua caça.

O Benfica seria o adversário nas duas próximas rodadas, as primeiras disputadas após a virada do ano: o jogo de ida aconteceria no dia 4 de março na Luz, e o da volta no dia 18 no Letná. As Águias eram treinadas pelo sueco Sven-Göran Eriksson, que retornara ao clube em 1989 após cinco anos na Itália dirigindo Roma e Fiorentina. Vencedor da Copa da Uefa com o IFK Gotemburgo em 1982, ele havia conduzido também os lusos a suas duas últimas finais europeias até ali, na mesma Copa da Uefa em 1983 e na Copa dos Campeões em 1990.
O elenco luso também mesclava atletas locais mais tarimbados (o goleiro Neno, o meia Vítor Paneira e os atacantes Rui Águas e César Brito), outros mais jovens recém-promovidos (o zagueiro Paulo Madeira, o volante Paulo Sousa e o meia Rui Costa) e o contingente de astros estrangeiros, incluindo três suecos (os meias Jonas Thern e Stefan Schwarz e o atacante Mats Magnusson), dois russos (o zagueiro Vasili Kulkov e o atacante Sergei Yuran) e dois brasileiros pouco conhecidos aqui: o zagueiro William e o atacante Isaías.
Pelo Sparta, que retornou ao esquema 4-4-2, a partida de Lisboa marcou a estreia de Chovanec e Trval na campanha. Jogando um futebol muito inteligente e objetivo, a equipe de Dušan Uhrin fez ótima etapa inicial, levou perigo ao gol benfiquista em várias ocasiões, e acabou saindo na frente aos 30 minutos. Uma bola que a defesa lusa não conseguiu afastar após um escanteio foi recuperada pelos visitantes, e Novotný se infiltrou na área, recebendo um passe por elevação e tocando na saída do goleiro Neno.
Na etapa final, porém, o Benfica chegou ao empate logo aos oito minutos num pênalti de Kouba em Yuran num lance em que o goleiro deu rebote de um chute de Thern. O meia Antônio Pacheco bateu e converteu, decretando o placar final de 1 a 1. O marcador seria repetido no Letná dali a duas semanas, mas na ordem inversa: Vitor Paneira balançou as redes pelos lusos aos 30 minutos aproveitando jogada de Isaías, e o empate do Sparta veio pouco antes do intervalo, em mais um belíssimo gol de falta, desta vez de Chovanec.
Os dois empates diante do Benfica acabaram se revelando frustrantes para o Sparta – um por não conseguir manter a vantagem conquistada na casa do adversário e o outro por não conseguir vencer em seus domínios. Para piorar, o Barcelona passou fácil pelo Dínamo Kiev em ambos os confrontos: fez 2 a 0 na Ucrânia e 3 a 0 no Camp Nou, disparando na liderança da chave com sete pontos, contra quatro do Sparta, três do Benfica (que ainda não havia vencido) e dois do lanterna – e já matematicamente eliminado – Dínamo Kiev.
Para quem teria de correr atrás do líder, nada melhor que um confronto direto em casa: no dia 1º de abril, o Sparta receberia o Barcelona num jogo decisivo para chegar à última rodada ainda com chances de classificação. A boa notícia era a volta de Novotný, que cumpriu suspensão por cartões amarelos contra o Benfica no Letná. Černý também retornava ao ataque no lugar de Trval. Porém, Němec era o desfalque importante da vez, e teria seu posto ocupado por Roman Vonášek, trazido do Škoda Plzeň em janeiro de 1992.
Batendo o “Dream Team”
O Barcelona – que assim como no confronto de ida não teria Stoichkov – precisava só do empate para garantir sua passagem à final com antecedência. Mas não necessariamente jogou trancado na defesa no primeiro tempo. Atacou e contra-atacou levando perigo, salvo em momentos perto do intervalo no quais procurou esfriar a partida tocando a bola em seu campo. Fora isso, foi uma etapa bem movimentada e aberta, com grandes chances ao Sparta, puxado pela velocidade e o dinamismo de Mistr, o melhor em campo.
Se por um lado Kouba precisou sair para defender aos pés de Julio Salinas logo no início do jogo e Beguiristain não pôde superar o arqueiro em boa chance já nos minutos finais, na outra meta Zubizarreta viu uma bomba de Vrabec sair zunindo por sobre seu travessão, fez defesa segura numa finalização de Mistr após arrancada e tabela do meia, e ainda salvou com as pontas dos dedos um belo chute cruzado de Černý, mandando para escanteio. Dessa forma, a etapa inicial só poderia terminar com placar em branco.
E embora a primeira grande chance do segundo tempo tenha sido do Barcelona, em bela jogada individual de Laudrup, a etapa final pertenceu quase inteiramente ao Sparta. Dos 15 minutos em diante, os ataques se sucederam. Primeiro com Vrabec tentando surpreender Zubizarreta com um toque por cobertura, que o goleiro espalmou para escanteio. Quatro minutos depois, Černý acertou a trave ao escorar um cruzamento de Mistr da direita. E logo no minuto seguinte sairia o gol que os tchecos já faziam por merecer.
O lance começou com uma falta no bico da grande área, pelo lado esquerdo do ataque do Sparta, em que Vrabec carimbou o travessão. Na sobra, a bola chegou ao outro lado, de onde partiu um novo cruzamento de Mistr, que Siegl desviou de leve na pequena área para abrir o placar. Aos 23, o Sparta acertaria outra vez o travessão quando Siegl recebeu ótimo passe de Vrabec e driblou Zubizarreta, mas perdeu o ângulo e acabou finalizando no poste superior – em menos de dez minutos, a bola tocara três vezes as traves catalãs.
A pressão do time da casa foi intensa durante a maior parte da etapa. No fim, quando o Barcelona saiu para tentar o empate desordenadamente e se abriu, o Sparta ainda desperdiçou inúmeras oportunidades claras em contra-ataques, inclusive com superioridade numérica. Nos acréscimos, no rebote de uma falta, houve ainda um chutaço de Černý que Zubizarreta mandou a escanteio exibindo bons reflexos. Ao apito final, a vitória de 1 a 0 foi muito comemorada por time e torcida do Sparta num jogo inesquecível no Letná.
O resultado impediu que o grupo fosse definido de véspera. Aliás, a goleada do Benfica sobre o Dínamo Kiev por 5 a 0 em Lisboa no outro confronto fez com que três dos quatro times do grupo chegassem à última rodada com chances de ir à final. Naquela situação, o Barcelona ainda era o líder da chave com sete pontos (contra seis do Sparta e cinco do Benfica) e o único a depender só de suas forças: receberia os lusos no Camp Nou, enquanto os tchecoslovacos viajariam a Kiev. Mas outros desfechos não eram impossíveis.
Para não precisar fazer contas quanto ao saldo de gols, o Sparta dependia de duas vitórias simples de visitantes naquela noite de 15 de abril de 1992: a sua, diante do já eliminado Dínamo num estádio Respublykanskyi de Kiev semideserto (apenas 5 mil torcedores presentes), e a do Benfica sobre o Barcelona num Camp Nou lotado com nada menos que 115 mil fanáticos azulgranas. Aos lusos também bastava a vitória simples para superar os catalães pelo saldo, mas esta deveria ser acompanhada por um tropeço do Sparta em Kiev.
O desfecho amargo
Aconteceu, porém, tudo ao contrário. Antes dos 25 minutos, o Barcelona já havia aberto dois gols de vantagem sobre o Benfica, e mesmo com as Águias descontando pouco depois (e terem ainda um possível pênalti não marcado no início da etapa final), fariam o dever de casa vencendo por 2 a 1 e confirmando a classificação. Enquanto isso, em Kiev, o Sparta não aparentava ser um time que precisava golear, ou no mínimo vencer, para tentar a vaga: no primeiro tempo, foi dominado por um Dínamo desfalcado e já eliminado.
Na etapa final, os tchecoslovacos dominaram e criaram mais chances claras. Mas o castigo viria num contra-ataque aos 38 minutos: Oleg Salenko recebeu lançamento e desceu pela direita até a área, onde seu chute da linha de fundo, quase sem ângulo, superou Kouba e decretou a vitória dos anfitriões por 1 a 0, um resultado decepcionante para o Sparta. Embora ainda terminasse em segundo lugar no Grupo B, aquele era um desfecho um tanto amargo para a bela e surpreendente campanha da equipe de Dušan Uhrin no torneio.

A temporada 1991/92 ainda assistiria ao fim da sequência de títulos do Sparta no campeonato nacional, com o Slovan Bratislava impedindo o hexa por uma diferença de três pontos. O consolo viria na copa, com a conquista do caneco ao bater o Tatran Prešov por 2 a 1, o que levaria o Sparta a disputar a Recopa na temporada seguinte. Na competição europeia, o clube eliminaria o Werder Bremen, detentor do título, vencendo ambas as partidas das oitavas de final, antes de cair na fase seguinte para o Parma, futuro campeão.
Com a separação do país em República Tcheca (atualmente Tchéquia) e Eslováquia pelo chamado “Divórcio de Veludo”, em 1º de janeiro de 1993, a temporada 1992/93 seria a última com equipes das duas nações ainda disputando as mesmas competições domésticas. E o Sparta reaveria sua hegemonia, conquistando a edição derradeira do campeonato com cinco pontos de folga sobre o eterno rival Slavia – domínio que permaneceria pelas primeiras décadas após a divisão, com dez títulos da liga nas primeiras 14 temporadas.
O clube também seguiria, por um tempo, como importante fornecedor de talentos à seleção tcheca. Cinco jogadores do time do Sparta na temporada 1991/92, além do técnico Dušan Uhrin, participariam do histórico vice-campeonato da equipe nacional na Euro 1996, deixando para trás Itália, Portugal e França: Kouba, Horňák, Němec (este já no Schalke), Němeček (então no Servette) e Frýdek – além de um talentoso meia que chegaria ao clube ainda em 1992: Pavel Nedvěd. Mais tarde, Jiří Novotný disputaria a Euro 2000.
Após a dobradinha levantada na temporada 2006/07 (a primeira do clube após a divisão do país), porém, o Sparta entrou em declínio e os títulos foram rareando. Nas últimas 15 temporadas, conquistou apenas duas vezes a liga (em 2010 e 2014) e outras três vezes a copa (em 2008, 2014 – numa outra dobradinha – e 2020). E viu o Campeonato Tcheco se transformar, desde 2015, num duopólio entre o Slavia e o ascendente Viktoria Plzeň (novo nome do antigo Škoda Plzeň, outrora revelador de talentos para os grandes).
Na Europa, o Sparta ainda faria campanhas dignas de nota na Liga dos Campeões na virada do século, quando a fase de grupos da competição inchou, passando a ter 32 clubes. Nas temporadas 1999/00 e 2001/02, quando o torneio deve duas etapas nesse formato, o clube avançou até a segunda, mas parou por aí. Já em 2003/04, com as oitavas de final de novo disputadas em sistema de mata-mata, o clube caiu nesta etapa diante do Milan, após ter avançado ao lado do Chelsea e à frente dos eliminados Beşiktaş e Lazio no grupo.
Mais tarde, já em sua fase de declínio, o clube ainda cumpriu boa campanha na Liga Europa em 2015/16, alcançando as quartas de final e caindo diante do Villarreal após ter superado outra vez a Lazio. O Sparta marcou presença em torneios continentais em todas as 30 temporadas após a divisão do país, incluindo a atual. Mas nunca mais chegou tão perto de uma final europeia – ainda mais na principal competição – como naquela campanha memorável de 1991/92.



