Azarões Eternos

O Perugia de 1978/79: a dor e a glória de um surpreendente vice-campeão invicto

O Perugia se tornou o primeiro invicto da história da Serie A, o que mesmo assim não foi suficiente para o título

Num campeonato tradicionalmente muito disputado como a Serie A italiana, com vários clubes fortes em seus domínios, campanhas invictas são raras. E por várias décadas foram um feito inédito. Até a temporada 1978/79, quando um time quebrou o tabu e passou sem nenhuma derrota pelas 30 rodadas dos pontos corridos. A surpresa maior é que não se tratava de um dos gigantes do país, mas de um pequeno: o Perugia, que estreara na elite poucos anos antes. Curiosamente, a campanha imaculada não valeu aos grifoni o scudetto, perdido por três pontos para o Milan. De todo modo, o clube da região da Úmbria já havia inserido seu nome na história do Calcio de maneira brilhante, como contamos aqui.

Situada bem no centro do território italiano, com a Toscana a noroeste, Marcas a leste e o Lácio ao sul, a região da Úmbria demorou muitas décadas para ganhar enfim um representante na Serie A do Calcio. A estreia veio somente na temporada 1972/73, após a Ternana (da província de Terni, ao sul da região) ter conquistado o acesso no ano anterior. Os rubro-verdes cairiam logo em seguida, mas ainda voltariam para outra campanha em 1974/75, naquela que seria sua segunda e última participação na elite italiana.

Curiosamente, no mesmo momento em que a Ternana se despedia da Serie A, outra equipe da Úmbria subia à categoria máxima: o Perugia, clube da capital daquela região. Fundado em 1905, o alvirrubro havia passado toda a sua história até ali nas divisões inferiores. Pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, oscilou entre o equivalente de então para a terceira e a quarta divisões. Até que, no fim dos anos 1960, os grifoni conseguiram subir um degrau com o retorno à Serie B, onde se estabilizariam.

O clube chegou a sonhar com o acesso inédito à Serie A no início da temporada 1971/72, quando liderou a competição por várias rodadas, mas o desempenho decaiu a partir do fim de novembro, e a equipe terminaria apenas na sétima colocação. Nas duas campanhas seguintes, o Perugia se limitou a brigar contra o rebaixamento – na segunda, escapando somente pelo saldo de gols. Os dois resultados ruins levaram a uma completa reformulação na agremiação, do presidente ao treinador, a partir do ano de 1974.

Uma nova era na Úmbria

O novo mandatário era o audacioso empresário Franco D’Attomo, ligado à indústria têxtil. Seu braço-direito era Silvano Ramaccioni, diretor esportivo trazido do Cesena. O comando técnico da equipe, por sua vez, foi entregue a um antigo ídolo e artilheiro dos grifoni no início da década anterior: Ilario Castagner, de apenas 33 anos de idade e vindo de dirigir as categorias de base da Atalanta. Para tentar o acesso, recebia um elenco pouco experiente, a ser reforçado aos poucos com indicações dele próprio e de Rammacioni.

Destes, o nome mais famoso era o atacante Sergio Pellizzaro, que brilhara no Palermo no fim da década anterior, mas fracassara na Internazionale logo em seguida, passando então à Atalanta, de onde viria para Perugia. Também já integravam o elenco alguns nomes que participariam da temporada 1978/79 pelo clube, embora ainda desconhecidos então. Dessa forma, de acordo com os prognósticos da época, os grifoni não figuravam entre os principais candidatos ao acesso. Mas logo despontariam como a sensação da Serie B.

A equipe alcançou a liderança isolada ainda na metade do primeiro turno e não deixaria o posto até o fim da temporada, chegando a se manter invicta por 18 jogos e a abrir cinco pontos sobre o vice-líder Verona a seis rodadas do fim. O acesso seria confirmado exatamente no confronto direto, fora de casa, com vitória por 2 a 0 vinda em dois gols do meia Renato Curi, faltando duas partidas para o fim da campanha. Na última rodada, também seria confirmado o título da Serie B ao derrotar o Novara em casa por 2 a 1.

O técnico Ilario Castagner, ao centro

Chamava a atenção naquela equipe sua formação diferente da consagrada no futebol italiano da época no setor ofensivo. Baseando-se no Carrossel holandês (que também inspirara o Napoli do brasileiro Luís Vinícius, destaque da Serie A naquela mesma temporada), Castagner formulara um ataque que contava com um centroavante recuado – como o velho 9 à moda húngara – fazendo a função de armador e abrindo espaço para os dois ponteiros fecharem por dentro, na diagonal, pisando na área e marcando os gols.

Quem cumpria essa tarefa nas primeiras temporadas era um dos grandes personagens do time naqueles meados da década de 1970: Paolo Sollier, nome que marcou época no Calcio pelo firme posicionamento político de esquerda. Filho de operários, chegou a cursar a faculdade de Ciências Sociais e ter um emprego na Fiat, largando ambos para se dedicar ao futebol. Mesmo assim, não hesitava em se manifestar: participava de reuniões sindicais e entrava em campo sempre com o famoso gesto do punho cerrado e levantado.

A grande tragédia antes do auge

Em sua temporada de estreia na elite, reforçado pela experiência do zagueiro Fabrizio Berni (ex-Fiorentina) e do volante Aldo Agroppi (ex-Torino), o Perugia fez campanha segura e logo se firmou no bloco intermediário, concluindo a competição num bom oitavo lugar. E ainda colaborou com a conquista do scudetto pelo Toro ao derrotar a Juventus em casa na última rodada por 1 a 0, gol de Renato Curi. Aquela também seria a última partida de Sollier pelo clube, transferindo-se em seguida para o Rimini, de volta à Serie B.

O Perugia progrediu em sua estabilização como clube de Serie A na temporada seguinte, quando, embora somasse dois pontos a menos que na campanha anterior, terminou duas posições acima na classificação final. Já em 1977/78, essa curiosidade se repetiu: o time somou um ponto a mais (30 contra 29), mas desceu um posto na tabela (sétimo contra sexto). De toda forma, tendo um elenco bastante coeso e um técnico de competência agora comprovada, os grifoni já pareciam preparados para seu grande salto.

Lamentavelmente, um dos destaques do time naquele início de caminhada na Serie A não estaria presente na temporada em que o Perugia viveria seu auge. Em 30 de outubro de 1977, a equipe recebia a Juventus em seu novíssimo estádio Comunale di Pian di Massiano, o qual construíra em apenas três meses ao longo de 1975 para disputar a Serie A, em substituição ao seu antigo, de Santa Giuliana. A partida bastante renhida, de parte a parte, e disputada sob chuva forte, seguiria com placar em branco até o apito final.

Renato Curi, o ídolo que morreu em campo e foi homenageado no nome do estádio

Mas aos sete minutos da etapa final ocorreria um trágico incidente que deixaria marcas profundas na história do clube. Após uma bola rebatida pela Juventus sair pela lateral, o meia Renato Curi caminhou alguns passos perto do círculo central antes de desabar no gramado. Preocupados, os atletas de ambas as equipes gesticulavam e chamavam pela maca, que dentro de alguns minutos carregaria o jogador para fora do campo. Dali ele seguiria para o hospital, mas seria tarde demais: um infarto o havia matado aos 24 anos.

Sua morte foi anunciada às 16h30, no mesmo exato momento em que o jogo – assistido das tribunas por sua esposa Clelia – se encerrava. O súbito falecimento abalou a todos no Perugia e deixou perplexo o futebol italiano. Mas tão logo a vida seguiu, o jogador seria eternizado: em 27 de novembro, pouco menos de um mês após a tragédia, os grifoni receberam e bateram o Torino por 2 a 0 pela Serie A no primeiro jogo no estádio sob nova nomenclatura: daquele dia em diante (e até hoje) se chamaria Stadio Renato Curi.

O time-base

Na movimentação de mercado para 1978/79, o clube vendeu ao Milan o meia-atacante Walter Novellino (que chegara a ser chamado pela Itália para um amistoso com a Bélgica em novembro de 1977, mas ficou no banco) e negociou o meia Mauro Amenta com a Fiorentina, mas recebeu em troca da Viola o zagueiro Mauro Della Martira e o meia-atacante Granfranco Casarsa. Outra aquisição foi o armador Cesare Butti, habitual 12º jogador do Torino, que chegava para preencher a lacuna na posição deixada pelo falecido Curi.

Para o gol, o Perugia chegou a contratar o experiente Franco Mancini, do Bologna, mas ele sequer chegou a atuar. Marcello Grassi, titular da temporada anterior, começou aquela campanha como dono da posição, mas logo na quarta rodada perdeu a camisa 1 para Nello Malizia, o que representava a vitória da persistência para aquele que, oriundo da pequena Maceratese ainda em outubro de 1974, vinha amargando a reserva no clube desde os tempos da Serie B. E ele se tornaria um dos protagonistas da campanha.

Na defesa, o Perugia mantinha pelo centro o esquema italiano de líbero e “stopper”. A diferença ficava por conta dos laterais: se no modelo mais usual o defensor do lado direito era mais contido, como um zagueiro adicional, no time de Castagner ambos – Michele Nappi pela direita e Antonio Ceccarini pela esquerda – desciam com frequência ao apoio. Além disso, havia em Pierluigi Frosio a figura do líbero construtor de jogadas, que não se limitava a ser um beque de sobra e se juntava ao meio-campo para iniciar os ataques.

O setor era completado pelo nome mais recente no clube, o zagueiro Mauro Della Martira, vindo da Fiorentina de início para a reserva do rodado Luciano Zecchini (ex-Torino, Milan e Sampdoria e com passagem pela seleção italiana). Mas Della Martira acabou ganhando a posição ainda na pré-temporada, relegando Zecchini ao banco de reservas pela maior parte da campanha – este só voltaria a ganhar espaço entre os titulares nas seis rodadas finais, quando foi requisitado para substituir o lesionado Frosio como líbero.

O meio-campo contava com o volante Paolo Dal Fiume, que não se limitava a proteger a defesa e aparecia bem na frente. auxiliado pelo dinâmico Cesare Butti, verdadeiro motor do setor. Mais adiante vinha Franco Vannini, meia ofensivo que contava com uma particularidade: do alto de seu 1,89 metro de estatura, era o “gigante” do elenco, um excelente cabeceador e a grande arma nas jogadas aéreas. Era também um dos três nomes há mais tempo no clube: chegara em 1974, junto com Malizia e Nappi, proveniente do Como.

No ataque, o recém-contratado Gianfranco Casarsa havia chegado da Fiorentina para substituir Walter Novellino (vendido ao Milan) na função que Paolo Sollier já cumpria quando do acesso, a de centroavante recuado (ou arretrato, como dizem os italianos) para puxar a marcação e abrir espaço na defesa adversária para a infiltração dos ponteiros. Casarsa também era, desde os tempos da Viola, o batedor oficial de pênaltis do time e tinha um estilo peculiar de se posicionar para a cobrança quase sem tomar distância.

Os ponteiros eram Salvatore Bagni, pela direita, e Walter Speggiorin, pela esquerda. O primeiro era uma revelação descoberta no pequeno Carpi, da antiga Serie D, onde já vinha demonstrando suas qualidades de artilheiro. O segundo era um nome bem mais rodado. Antes de chegar ao Perugia, em 1977, já havia atuado em 85 partidas e marcado 13 gols pela Serie A vestindo as camisas de Lanerossi Vicenza, Fiorentina e Napoli. De boa estatura (1,82 metro), era quem aparecia com mais frequência na área adversária.

Grandes momentos logo de saída

Curiosamente, a primeira rodada colocaria o Perugia frente a frente com a equipe sensação da temporada anterior, o Lanerossi Vicenza, vice-campeão como recém-promovido sob o comando de Gian Battista Fabbri em 1977/78. Mas os grifoni já de cara demonstrariam que dessa vez o grande feito seria deles: Bagni abre o placar em cabeçada aos 14 minutos e Dal Fiume completa a vitória por 2 a 0 perto do fim do jogo com um bonito gol, ajeitando no peito o cruzamento da direita e batendo entre o goleiro e a trave.

O Perugia seria testado contra um grande fora de casa pela primeira vez na rodada seguinte, em 8 de outubro de 1978, uma semana após a estreia, contra a Internazionale em Milão. Na etapa inicial, os nerazzurri dominam e marcam num gol de falta ensaiado, com Giancarlo Pasinato. Mas na etapa final, a partir dos 27 minutos, quando o lateral Nappi se lesiona e Castagner coloca em seu lugar o atacante Cacciatori, os grifoni passam a sufocar os donos da casa. O empate em 1 a 1 vem com o próprio Cacciatori a três minutos do fim.

Na terceira rodada, a vitória de 1 a 0 em casa diante da Fiorentina é decidida pela chamada “lei do ex”: Casarsa, de pênalti, marca o único gol. Um ótimo resultado para dar moral ao Perugia às vésperas de mais uma prova de fogo: a Juventus no Comunale de Turim. Com a lesão de Marcello Grassi, Malizia ganha sua chance e se firma no time, após grande atuação contra os bicampeões italianos. Só na etapa inicial são três ótimas defesas em chutes de Pietro Paolo Virdis e Franco Causio e numa cabeçada de Gaetano Scirea.

Dino Zoff, do outro lado, após salvar com o pé direito um chute cruzado de Casarsa, falha no gol que abre o placar para o Perugia. Num tiro livre indireto, Casarsa rola para Speggiorin, que se livra de um adversário e chuta para o arqueiro da Juve apenas espalmar para dentro. Depois, Butti é atingido por Causio e tem de deixar o campo, substituído por um improvisado Zecchini. Na etapa final, aos 20 minutos, os bianconeri empatam com o lateral Antonello Cuccureddu finalizando de sem-pulo um centro de Claudio Gentile.

Mas são os visitantes que sorriem por último. Aos 33, em nova cobrança de falta em dois toques, Casarsa alça na área para Vannini, que ajeita bonito no peito e, sem deixar cair, bate cruzado para vencer novamente Zoff. A vitória por 2 a 1 é um resultado especial e raro: a Juventus não perdia em casa para equipes de fora de Turim pela Serie A há nada menos que oito anos (desde outubro de 1970). E em sua partida anterior como mandante, vinha de massacrar o Verona por 6 a 2. Dali em diante, a Itália estaria de olho no Perugia.

Nello Malizia salta para fazer defesa importante na vitória contra a Juventus em Turim

Os grifoni alcançam o topo

Com sete pontos ganhos em oito possíveis nos primeiros quatro jogos, os grifoni dividiam a ponta da tabela com o Milan, mas Ilario Castagner se recusava a falar em scudetto: o objetivo era levar uma das quatro vagas italianas na Copa da Uefa. No jogo seguinte, no entanto, o time ficou preso na retranca do estreante Avellino e amargou um frustrante 0 a 0 em casa, que fez o Milan descolar na liderança. Mas na próxima rodada, em 5 de novembro, seria a vez de dar o troco na visita à Atalanta, que dividia a lanterna com o Verona.

Num início fulminante, o Perugia marcou duas vezes nos primeiros seis minutos com Speggiorin de cabeça. No fim do primeiro tempo, Bagni ainda teve a chance de ampliar ao acertar o travessão num contra-ataque. Mas a vitória por 2 a 0 bastou para destronar momentaneamente o Milan da liderança, com a derrota dos rossoneri para a Juventus em Turim. Uma semana depois, mais uma vitória por 2 a 0, agora em casa sobre a Ascoli, com gols de Speggiorin e Dal Fiume, manteve os comandados de Castagner na ponta.

Casarsa e Bagni abraçam Speggiorin após seu gol contra a Ascoli

Na rodada seguinte, porém, a liderança voltaria a ser dividida. Com o Perugia parando num 0 a 0 com a Roma na capital e o Milan vencendo fora de casa o Lanerossi Vicenza. Os grifoni, porém, deixam o Estádio Olímpico na bronca: um gol de Casarsa, de falta, é anulado sem que fique clara a marcação do árbitro Paolo Casarin. E há ainda três lances de pênaltis reclamados: um em Vannini e outro em Bagni derrubados na área, mais um terceiro por possível toque de mão do líbero Sergio Santarini – todos ignorados por Casarin.

Contra o Torino em casa, no jogo seguinte, outro 0 a 0 e mais protestos dos grifoni com relação à arbitragem, mas com menos intensidade. E se o ataque – pelo segundo jogo seguido desfalcado de Speggiorin – havia mais uma vez passado em branco, por outro lado destacava-se o ótimo desempenho da defesa umbra, sem ser vazada há cinco jogos (naquelas nove primeiras partidas, só havia sofrido dois gols). Era a aposta para conter o Milan, próximo adversário no aguardado duelo entre os líderes da Serie A no San Siro.

Jogando de início no erro dos rossoneri, o Perugia surpreende e abre o placar aos três minutos no rebote de uma cabeçada de Cacciatori na trave que Enrico Albertosi não segurou e Vannini conferiu. Daí em diante, os grifoni se limitam a suportar a intensa pressão da equipe da casa. Quando a neblina do inverno já toma conta do campo, vem o empate aos 17 minutos da etapa final: Roberto Antonelli, que entrara durante o jogo, acerta potente chute cruzado de fora da área e decreta o 1 a 1, bem aceito pelas equipes.

O Perugia volta a atuar fora de casa na rodada seguinte contra o Napoli, adversário sempre difícil no San Paolo. No empate em 1 a 1, os gols só vêm após o intervalo: os partenopei abrem o placar aos dez minutos num rápido contragolpe pela direita concluído por Valerio Majo. Mas Speggiorin, que voltava ao time após se ausentar de três jogos por lesão, deixa tudo igual sete minutos depois. Quem comemora o resultado, porém, é o Milan, que vence o Torino em casa e assume a liderança isolada do campeonato.

Buscando não ficar para trás, os grifoni têm uma ótima chance de somar dois pontos diante do Catanzaro em casa. E partem para cima do retrancado adversário desde a saída de bola. Criam várias chances e chegam a acertar o travessão num cruzamento fechado de Butti da esquerda. O gol da vitória por 1 a 0, porém, só sai na etapa final em outro centro do camisa 8 por aquele lado, que a defesa calabresa não consegue afastar e sobra para Speggiorin marcar seu sexto tento em nove partidas até ali naquela edição da Serie A.

O Milan, porém, vence o Verona fora de casa e mantém a vantagem de um ponto no momento em que o campeonato faz a pausa de inverno, voltando somente dali a três semanas. No retorno, o Perugia parece começar a perder o fôlego, perto do fim do primeiro turno do campeonato. Dois empates em sequência – um decepcionante 1 a 1 com o mesmo Verona, penúltimo colocado, em casa e um 0 a 0 com a Lazio fora – permitem que os rossoneri abram três pontos de folga na liderança num período crucial da temporada.

No mau resultado contra o Verona no Renato Curi, Frosio abre o placar de cabeça num escanteio, mas o time relaxa e cede o empate a dois minutos do fim. Já na partida contra os laziale no Olímpico, ambas as equipes criam chances claras, mas o placar em branco permanece até o fim. A recuperação da equipe de Ilario Castagner é vislumbrada na última rodada do turno, com vitória categórica por 3 a 1 sobre o Bologna, com dois gols de Casarsa e um de Speggiorin, enquanto Antonio Bordon desconta de pênalti para os visitantes.

A surpresa da abertura do returno, em 28 de janeiro, é a derrota do Milan para o Avellino. Mas o Perugia não consegue aproveitar totalmente a chance de voltar a apertar o cerco ao líder e para no empate em 1 a 1 na visita ao Lanerossi Vicenza: Paolo Rossi marca para os donos da casa, Bagni deixa tudo igual para os grifoni ainda no primeiro tempo, e a vantagem milanista acaba reduzida apenas para dois pontos em vez de um. Na partida seguinte, a equipe da Úmbria viveria seus momentos mais dramáticos na temporada.

O intenso Perugia-Inter

Com o Renato Curi lotado, o Perugia recebe em jogo crucial a Internazionale, que não se intimida com atmosfera criada pela torcida da casa e abre vantagem no primeiro tempo com Alessandro Altobelli escorando de cabeça uma falta levantada para a área e amplia com Carlo Muraro, num rápido contra-ataque pela esquerda. Há muito tempo os grifoni não se viam em desvantagem tão grande em tão pouco tempo. Mas, empurrado por seu público, o time da casa volta outro, mais vibrante e consciente, após o intervalo.

Aos sete minutos, o Perugia enfim balança as redes: Dal Fiume desce pela ponta esquerda e cruza alto. Cacciatori (que entrara no intervalo) escora para a chegada de Vannini. Mas tanto antes quanto depois do gol, a arbitragem toma decisões polêmicas: aos cinco, Speggiorin é derrubado ao que parece dentro da área, mas o romano Carlo Longhi apita a falta fora. E aos 27, o juiz marca um pênalti em Cacciatori, mas volta atrás e cancela a marcação atendendo ao bandeirinha, que assinalara um impedimento duvidoso no lance.

O jogo fica quente, com jogadas ríspidas de parte a parte. É quando ocorre o incidente mais triste do encontro: Vannini leva um pontapé do interista Adriano Fedele e deixa o campo de maca: logo se sabe que ele sofreu dupla fratura de tíbia e perônio. O Perugia fica com dez. Fedele não leva nem amarelo e segue em campo. Não é só a partida que termina ali para o camisa 10 dos grifoni, mas também o campeonato, o ano, a carreira. Aos 32 anos, ele nunca mais voltaria a jogar após a lesão sofrida naquela tarde de 4 de fevereiro de 1979.

Mas ao Perugia ainda está reservada alguma alegria ao fim do jogo. Em virtude da longa pausa para o atendimento a Vannini, o árbitro concede mais três minutos de partida além do tempo regulamentar na segunda etapa – uma quantidade grande de acréscimos para a época. E aos 48,  na última volta do ponteiro, a bola é alçada para a área e, após uma linha de passe pelo alto, surge o lateral Ceccarini para testar firme às redes e empatar o placar em 2 a 2. Seria seu único gol na Serie A. E faria o estádio explodir em êxtase.

O gol milagroso salvou a invencibilidade do Perugia no campeonato. Mesmo assim, o time ficou um pouco mais para trás na tabela: o Milan venceu a Roma no San Siro e reabriu três pontos de vantagem na ponta, que virariam quatro na rodada seguinte, em que os rossoneri bateram a Ascoli fora de casa, enquanto os grifoni não puderam fazer mais que empatar com a Fiorentina por 1 a 1 em Florença, com um gol na marra de Speggiorin decretando a igualdade após um belo tento de Ezio Sella ter aberto o placar para a Viola.

Distanciando-se da ponta

Outra grande chance de diminuir a desvantagem seria desperdiçada no empate em 0 a 0 com a Juventus no Renato Curi na 19ª rodada (a quarta do returno), em 18 de fevereiro de 1979. Pouco inspirado ofensivamente, o Perugia teve a seu favor logo aos 16 minutos de partida um pênalti cometido por Francesco Morini em Dal Fiume. Mas Casarsa chutou a cobrança nas mãos de Dino Zoff. O Milan, que havia parado num empate em casa com a antepenúltima colocada Atalanta, agradeceu: afinal, seguia quatro pontos à frente.

Para o Perugia, eram quatro empates seguidos na largada do returno. Ou seis igualdades nos sete últimos jogos, quantidade de tropeços que permitira vantagem confortável ao Milan na ponta e ainda a aproximação de clubes que vinham no bloco seguinte, como o Torino, que chegara a estar quatro pontos atrás na 12ª rodada e agora se encontrava a apenas um. Era preciso reagir e voltar a vencer. Foi o que fez o time diante do Avellino fora de casa no jogo seguinte: Cacciatori, a sete minutos do fim, definiu o triunfo por 1 a 0.

No tumultuado confronto com a Atalanta em casa, o time venceria novamente. O placar de 2 a 0 seria concretizado por um chute de Dal Fiume que desviou no lateral Carlo Osti e por um gol de falta de Bagni. Porém, os nerazzurri chegariam a reclamar os pontos do jogo no tapetão depois que seu goleiro Luciano Bodini e o zagueiro (Claudio) Cesare Prandelli foram atingidos por objetos atirados das arquibancadas. Não lograriam sucesso, porém, ao ser evidenciado que os projéteis partiram do setor onde estava sua própria torcida.

Contra o Torino de Salvatore Vullo

Os empates voltariam, porém, nos três jogos seguintes do Perugia. Entre os dois 0 a 0 obtidos nas visitas à Ascoli e ao Torino, houve um resultado muito lamentado: o 1 a 1 com a Roma em casa. Os grifoni saíram na frente com uma cabeçada de Ceccarini que desviou em Franco Peccenini. Mas, daí em diante cederam o controle do jogo aos visitantes, que marcaram um gol agônico nos acréscimos: Michele De Nadai pegou a sobra de um córner e encheu o pé acertando o travessão. Na volta, a bola bateu em Guido Ugolotti e entrou.

Os comandados de Castagner não podiam reclamar de azar: os romanos haviam desperdiçado inúmeras chances antes e os úmbrios mal conseguiam encaixar os contra-ataques para sair da pressão dos visitantes, numa atuação decididamente ruim. Mas ficava o gosto amargo, o inverso do empate obtido no fim contra a Inter. E o confronto direto com o líder Milan no Renato Curi se aproximava: seria o seguinte ao 0 a 0 com o Torino no Comunale. Para a sorte do Perugia, porém, os rossoneri também vinham oscilantes.

A reta final

Se o Perugia vinha de três empates, o Milan não vencia há quatro partidas – curiosamente, todas elas em Milão: a única como visitante havia sido o derby contra a Inter. No jogo anterior ao duelo da ponta da tabela, os rossoneri haviam perdido pela primeira vez no San Siro naquela campanha, batidos pelo Napoli. Diante disso, ambos pisavam em ovos. Mas os milanistas provavelmente não lamentariam ficar mais um jogo sem vencer se o que viesse ao fim daqueles 90 minutos fosse um bom empate na casa de seu maior perseguidor.

E foi o que aconteceu no fim das contas, com o 1 a 1 prevalecendo no placar, tal qual havia sido no confronto de ida. Ambos os gols saíram da marca da cal, separados por apenas dois minutos, ainda na etapa inicial. Aos 15, falta de Zecchini em Albertino Bigon dentro da área e gol de Stefano Chiodi. E aos 17, Aldo Maldera derrubou Bagni, e Casarsa desta vez não desperdiçou a cobrança. O Milan reclamou de um gol anulado de Roberto Antonelli, enquanto o Perugia, por sua parte, lamentou os desfalques muito sentidos.

Além de Vannini, a equipe de Castagner não teria mais a partir daquele jogo e para o resto da temporada a presença impositiva do líbero Frosio na defesa. Lesionado contra o Torino, teve de ser substituído por Zecchini na reta final. “Perdemos o scudetto porque no returno ficamos sem os lesionados Frosio e Vannini. Com eles, o confronto direto com o Milan no Renato Curi não teria terminado em 1 a 1”, lamentaria Ilario Castagner anos depois. O empate manteve a vantagem de dois pontos em favor dos rossoneri.

Sem ter outra alternativa, o Perugia reagiu vencendo. Contra o Napoli no Renato Curi, Speggiorin abriu o placar num gol contestado pelos partenopei sobre se a bola teria mesmo ultrapassado a linha. Todavia, melhores em campo, os grifoni continuariam ditando o ritmo do jogo e ampliariam no início da etapa final quando Butti encontrou Dal Fiume infiltrando-se na área pelo lado direito e fez o passe para o volante, que tocou cruzado na saída do goleiro Luciano Castellini para fechar a contagem em 2 a 0 para os donos da casa.

Gol de Speggiorin contra a Fiorentina no 1 a 1 de Florença, em fevereiro de 1979

A diferença se mantinha em dois pontos, uma vez que o Milan bateu o Torino com um categórico 3 a 0 dentro do Comunale de Turim. E nas quatro últimas partidas, rossoneri e grifoni teriam pela frente exatamente os mesmos pares de adversários, ainda que na ordem invertida: primeiro Catanzaro e Verona, depois Lazio e Bologna. Desses quatro, no entanto, o Perugia só enfrentaria os laziali em casa, ao passo que o Milan receberia os scaligeri e os felsinei no San Siro – e trataria de resolver a parada antes da última rodada.

O título escapou de vez do Perugia praticamente no primeiro par de jogos. Contra o Catanzaro fora, o time saiu na frente logo aos dois minutos com Butti, mas cedeu o empate aos 15 da etapa final, tendo de se contentar com o 1 a 1. Enquanto isso, no San Siro, o Milan tirava forças para reagir e vencer de virada o Verona por 2 a 1 com o ex-grifone Walter Novellino marcando o gol decisivo a seis minutos do fim. Com essa combinação de resultados, os rossoneri ainda ampliavam em um ponto sua folga na liderança.

Na semana seguinte, a distância aumentaria mais um ponto: o Milan bateu o Catanzaro fora por 3 a 1, enquanto o Perugia outra vez deixou a vitória escapar: um gol contra de Carmine Gentile no início da etapa final havia colocado os grifoni em vantagem, mas o time recuou e acabou se rendendo à pressão do já rebaixado Verona, que empatou com Francesco Guidolin faltando nove minutos para o apito final. Outro 1 a 1 que praticamente encerrava as chances matemáticas de scudetto para a equipe da Úmbria.

Com quatro pontos de diferença a duas rodadas do fim, só um milagre recolocaria o Perugia na briga: teria que vencer seus jogos e o Milan perder os dele para levar a decisão ao jogo extra, ou spareggio. Mas nem os umbros acreditavam: o objetivo era terminar a campanha dignamente, e se possível, mantendo sua incrível invencibilidade que já atravessava toda aquela temporada da Serie A. No mesmo 6 de maio em que o Milan confirmou o título com um 0 a 0 diante do Bologna no San Siro, o Perugia recebeu a Lazio.

Era a última partida da temporada no Renato Curi, e a torcida, num reconhecimento da campanha brilhante, invadiu o campo para festejar com os atletas. A atuação do Perugia também foi digna do desempenho do clube até ali: “Brilhante partida dos donos da casa, que não deixaram espaço algum” à Lazio, escreveu o diário romano L’Unità. E um belíssimo primeiro gol, numa tabelinha de cabeça entre Bagni e Speggiorin, com a conclusão do primeiro, começou a abrilhantar a tarde de celebração pelos umbros de seu grande feito.

O segundo gol também foi de Bagni, ainda no primeiro tempo, cabeceando no canto oposto ao goleiro Massimo Cacciatori um escanteio batido por Casarsa. Pouco antes do intervalo, o mesmo Casarsa poderia ter ampliado o placar de 2 a 0, mas cobrou mal um pênalti, defendido pelo goleiro laziale. Mesmo assim, se o scudetto não tinha vindo, aquela vitória assegurava matematicamente o segundo lugar aos grifoni, uma colocação histórica para um clube com trajetória tão curta na Serie A e que jamais seria repetida pelos umbros.

Depois do grande feito

O Perugia concluía sua campanha com 11 vitórias, 19 empates e nenhuma derrota em 30 jogos. Era a primeira vez na história da Serie A que um clube terminava o certame sem perder nenhum jogo (nos tempos do campeonato regionalizado, o Pro Vercelli e o Genoa chegaram a ser campeões invictos, mas em menos partidas). O feito seria posteriormente repetido pelo Milan em 1991/92 e pela Juventus em 2011/12. A estes dois, porém, coube a glória maior que acabou escapando dos grifoni: a conquista do scudetto.

Para 1979/80, além de Vannini, o Perugia fica sem Speggiorin, que volta ao Napoli, clube que o cedera em copropriedade aos grifoni. Para compensar, chega o jovem e disputado goleador Paolo Rossi, destaque da Itália na Copa de 1978 e pescado no rebaixado Lanerossi Vicenza. Apesar dos 13 gols marcados por Pablito na Serie A, os grifoni terminam numa bem mais modesta décima colocação, com nove derrotas. A série invicta vira pó na sétima rodada, após 37 partidas, com um revés doméstico para o Torino por 2 a 0. 

Naquela temporada, o Perugia também inova (não muito) discretamente, ao se tornar o primeiro clube no Calcio a estampar na camisa a logomarca de um patrocinador: o fabricante de massas Ponte. Naquele momento, entretanto, a federação italiana ainda não permite a publicidade nos uniformes, salvo a de fornecedores de material esportivo exibida em dimensões pequenas na camisa. A solução é criativa: a agremiação e seu financiador fundam uma marca de material esportivo – Ponte Sportswear – para driblar a regra.

O clube também faz sua estreia europeia disputando a Copa da Uefa: bate o Dinamo Zagreb na primeira fase, mas cai feio diante do Aris Salônica na etapa seguinte, com uma derrota por 3 a 0 em casa. Mas o pior vem no desfecho da temporada, ao estourar o caso do Totonero, que implica em longos ganchos a três atletas do Perugia (Mauro Della Martira é sentenciado a cinco anos de suspensão, enquanto Paolo Rossi e Luciano Zecchini pegam três), além de uma punição de cinco pontos ao clube para a Serie A 1980/81.

A punição é de fato um fardo para o Perugia naquela temporada, mas não é a responsável sozinha pela queda do clube para a Serie B após seis temporadas consecutivas na elite. Embora se reforce com seu primeiro jogador estrangeiro, o atacante argentino Sergio Fortunato (ex-Estudiantes e na época nome regular na seleção de seu país), e com o promissor meia Antonio di Gennaro (ex-Fiorentina), a equipe agora dirigida pelo estreante na Serie A Renzo Uliveri passa a campanha inteira dentro da zona de descenso.

O time comemora a vitória sobre a Juventus em Turim, em 1978

O rebaixamento é praticamente confirmado na 27ª rodada, após uma goleada de 5 a 0 sofrida para a Roma no Estádio Olímpico. No domingo seguinte, 10 de maio de 1981, um 0 a 0 em casa com o Brescia (que também cairia) sela a queda – ainda que, ao fim, o Perugia tenha conseguido se livrar da lanterna, que termina nas mãos da estreante Pistoiese. Boa parte do elenco, porém, fica no clube para tentar em 1981/82 o retorno à elite. Que não vem: os grifoni terminam em sexto na Serie B, a cinco pontos do G3 do acesso.

Após essa tentativa frustrada, o desmanche seria inevitável: Bagni – que chegou a ser convocado pela seleção italiana para o Mundialito do Uruguai na virada de 1980 para 1981 – já havia sido um dos primeiros a saírem, logo após o descenso. Seguiria para a Inter, onde seria reinventado como volante. De lá, transferiria-se ao Napoli em 1984, chegando junto com Diego Maradona para se tornar um pilar do primeiro scudetto dos partenopei em 1987, um ano após ser titular do meio-campo da Azzurra na Copa do México.

Outro jogador que sairia do Perugia e levaria o scudetto seria o lateral Michele Nappi, campeão com a Roma ao lado de Falcão em 1982/83. Ele ainda ficaria para a campanha seguinte, quando os gialorrossi decidiram a Copa dos Campeões, perdendo em casa para o Liverpool nos pênaltis. Paolo Dal Fiume também passaria pelo Napoli, mas sem a mesma sorte de Bagni: chegaria em 1982, um pouco antes do antigo colega de Perugia, e só o reencontraria em sua última temporada no San Paolo, após a qual se transferiria à Udinese.

O Perugia demoraria quase duas décadas para retornar à Serie A, o que só aconteceria no fim dos anos 1990. No caminho, chegaria a ser rebaixado por decreto da federação à Serie C2 (quarta divisão) por seu envolvimento no segundo Totonero, em 1986; e teria um acesso à Serie B, em 1993, cancelado por outro caso de suborno, quando ficou comprovado que seu então presidente, Luciano Gaucci, havia doado um cavalo de corrida ao sogro do árbitro de um de seus jogos cruciais da campanha em troca de favorecimentos.

O primeiro retorno, em 1996/97, seria breve e só duraria aquela temporada. Mas logo em seguida os grifoni obteriam novo acesso: começava ali sua segunda grande era na elite do Calcio, que de novo duraria seis temporadas, entre 1998/99 e 2003/04, nas quais brilharam com a camisa do clube nomes de seleção italiana como o zagueiro Marco Materazzi, o lateral Fabio Grosso, o meia Fabio Liverani e o atacante Fabrizio Miccoli, além do brasileiro Zé Maria, do japonês Hidetoshi Nakata e do croata Milan Rapaić, entre outros.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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