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O Napoli de 1974/75: sob comando brasileiro, a ousadia que quase valeu o scudetto inédito

Anos antes do time de Maradona, o Napoli ficou perto do scudetto sob o comando de Luís Vinícius

Celebrada por levantar a última Eurocopa exibindo novos ares táticos em relação ao estilo de jogo tradicional do país, a Itália de Roberto Mancini evoca lembranças de outras experiências — quase sempre curtas e menos bem-sucedidas — em que treinadores tentaram soluções fora do padrão do Calcio ao longo dos tempos. Uma delas ocorreu na temporada 1974/75, quando, ainda sob o impacto recente do Carrossel Holandês, o Napoli dirigido pelo brasileiro Luís Vinícius chegou bem perto de um scudetto então inédito e atiçou um misto de curiosidade e polêmica ao mexer em sacrossantos paradigmas do futebol da Bota.

Por várias décadas do período pós-Segunda Guerra Mundial em diante, uma cultura defensiva se apoderou do futebol italiano, espalhando-se tanto pelos clubes grandes quanto por pequenos. Teve entre seus representantes treinadores como Giuseppe “Gipo” Viani, Nereo Rocco, Alfredo Foni e Helenio Herrera, encontrando expoentes também na imprensa — o cronista Gianni Brera é o mais conhecido exemplo. Sobretudo fez com que se assentassem alguns pilares considerados irremovíveis no panorama tático do país.

Um deles era o líbero, posição da qual o futebol italiano foi um de seus introdutores no jogo. Porém, ao contrário de suas evoluções dentro e fora do Calcio, inicialmente o jogador destacado para aquela função não tinha entre suas atribuições o requinte de organizar a saída de jogo ou iniciar a transição ofensiva. Era tão somente um zagueiro de sobra no sentido mais frugal do termo, um rebatedor puro e simples, e para onde o nariz apontasse caso o atacante adversário ousasse ultrapassar a última linha de defesa.

Outro mandamento era a marcação individual, da qual só o líbero (além do goleiro, é claro) estava eximido. A coisa era levada tão a sério que, já adentrando os anos 1980, era comum observar em publicações como o Guerin Sportivo o detalhamento das “marcature” (ou quem colava em quem) nas fichas dos jogos, logo abaixo das escalações. E até o chamado “gioco all’italiana”, sistema de desenho tático assimétrico sucessor do velho catenaccio, era perfeitamente espelhado, já que todos os times invariavelmente jogavam iguais.

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O “Leão” que rompeu convenções

O Napoli da temporada 1974/75

Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 28 de fevereiro de 1932, Luís Vinícius de Menezes iniciou sua carreira profissional no futebol como atacante no Botafogo, na primeira metade da década de 1950. Centroavante de boa técnica, mas sobretudo muita valentia, marcou época (embora sem levantar títulos) num ataque alvinegro em que atuava ao lado de um iniciante Garrincha e de Dino da Costa, que logo embarcaria com ele para se aventurar no Calcio. Em meados de 1955, Vinícius assinaria com o Napoli e Dino com a Roma.

Começaria ali para Vinicius — cuja grafia do nome logo seria italianizada para “Vinicio” — uma longa relação do atacante com o futebol italiano e com o país. Como jogador, sua carreira se estenderia por 13 temporadas, atuando por quatro clubes. No Napoli, ele logo se tornaria ídolo pelos muitos gols e pela coragem em campo, que lhe valeu o apelido de O Lione (“O leão” em dialeto local). Outro clube em que ele marcaria época seria o Vicenza. Além destes, teria passagens menos destacadas por Bologna e Internazionale.

Aos 35 anos e depois de 348 jogos e 155 gols pela Serie A, Vinícius penduraria as chuteiras ao fim da temporada 1967/68 defendendo o clube vermelho e branco do Vêneto, do qual detém ainda hoje a distinção de ser o maior goleador estrangeiro da história. Porém, ele não se acomodaria e imediatamente iniciaria carreira de treinador na pequena Internapoli, fundada há apenas quatro anos das cinzas do Dopolavoro Cirio, equipe dos funcionários da tradicional indústria alimentícia, então sediada na região de Nápoles.

O bom desempenho na Serie C conduziria o brasileiro ao Brindisi, uma equipe com mais tradição naquela categoria (e também do sul da Itália), a qual Vinícius levaria ao primeiro acesso à Serie B conquistado em campo da história. O feito foi conseguido ao fim da temporada 1971/72, emendando com um excelente sétimo posto na segunda divisão no ano seguinte. Sua rápida ascensão como treinador não seria ignorada pelo Napoli, cujo presidente Corrado Ferlaino o convidaria para o cargo com a saída de Giuseppe Chiappella, antigo defensor da Fiorentina.

Até antes daquele retorno de Vinícius ao Napoli como treinador, os Partenopei haviam disputado 35 das 41 edições da Serie A, terminando 11 vezes entre os cinco primeiros. O scudetto, porém, permanecia como sonho: sua melhor classificação havia sido o vice-campeonato em 1967/68, em que terminou nove pontos atrás do Milan. Consolidado no bloco intermediário do Calcio, o clube vislumbrava o passo à frente: ainda em 1972 recrutara o ex-zagueiro Franco Janich, campeão com o Bologna em 1964, como diretor-geral.

Ao chegar, Janich iniciou a reformulação no elenco que se acelerou com a vinda de Luís Vinícius, de modo que, quando a temporada 1973/74 se iniciou, só três titulares permaneciam em relação à equipe da última boa campanha, o terceiro lugar em 1970/71. Entre os jogadores que haviam deixado o San Paolo desde então estavam o goleiro Dino Zoff, o veterano ponteiro-direito sueco Kurt Hamrin e os também experientes atacantes ítalo-brasileiros Angelo Benedetto Sormani (ex-Santos) e José Altafini (para nós, Mazzola).

O Napoli chegou a liderar a liga por algumas rodadas iniciais, mas acabou ultrapassado por Lazio e Juventus, terminando em terceiro a sete pontos dos biancocelesti, campeões. Deixou, porém, a sensação de que com alguns ajustes poderia brigar mais a sério pelo scudetto. Dos reforços que chegariam em seguida, quatro seriam peças importantes no elenco: o defensor Tarcisio Burgnich, o ponta Giuseppe Massa (ambos ex-Internazionale), o zagueiro Antonio La Palma (Brindisi) e o ponta Rosario Rampanti (Torino).

Mais do que nomes, o que chamava mais a atenção naquele time era o estilo de jogo, com soluções pouco convencionais para o futebol italiano daquele tempo. Para começar, Luís Vinícius descartava a figura do líbero, posicionando sua defesa numa linha de quatro jogadores. Não era exatamente uma ideia inédita: outro brasileiro, Paulo Amaral (conhecido como preparador físico das seleções campeãs mundiais em 1958 e 1962), implementara o mesmo sistema ao comandar a Juventus entre 1962 e 1964.

Aquela formação defensiva do Napoli de Vinícius, porém, vinha acompanhada de um sistema de marcação por zona com linhas altas, buscando encurtar o campo e aproximar defensores e meio-campistas. O contexto do Carrossel Holandês seria a referência natural, mas o treinador explicava que já utilizava aquele modelo desde seus tempos de Internapoli, em 1968/69, citando ainda suas origens no futebol brasileiro para explicar a defesa em linha e a preferência por um jogo mais atraente, permitindo a expressividade.

No Brasil, Vinícius não chegou a ser comandado em clubes por Zezé Moreira, um dos introdutores daquele tipo de marcação no país, mas como adversário certamente observou seus efeitos e com isso optou por ele. “Na minha opinião, a marcação por zona continua a ser o estilo de jogo mais lucrativo”, afirmaria o técnico do Napoli em entrevista anos depois. Para ele, o sistema individual em todos os setores do campo, como era então utilizado na Itália, privava as equipes da possibilidade de se expressar, de criar ações.

“O oponente deve ser controlado pelo jogador mais próximo a ele”, sustentava. Por outro lado, “com a posse da bola é diferente, todos devem participar, colocar-se à disposição para que a bola gire. Em todos os meus times — da Internapoli ao Brindisi e à Ternana — fizemos um jogo lindo e fluido. Precisamos de jogadores que saibam marcar e jogar. No Napoli, no primeiro ano, não foi possível porque o líbero era Zurlini: lento, envolvia riscos. Com Burgnich jogando em linha com os zagueiros aplicamos a zona total”.

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O elenco partenopeo

O Napoli no álbum do Campeonato Italiano de 1974/75

Nessa configuração, o time-base era constituído de um núcleo de 12 jogadores, com eventuais adaptações em caso de lesão. E começava com o goleiro Pietro Carmignani, que completou 30 anos durante a campanha. Destacou-se no Varese, de onde foi para a Juventus, sendo titular em sua única temporada na Vecchia Signora, a do scudetto de 1971/72. Veio para o Napoli logo em seguida, de contrapeso na troca que levou Dino Zoff a Turim. Bastante exigido em virtude do estilo de jogo da equipe, mostrou qualidades.

A linha de quatro defensiva tinha pelo lado direito Giuseppe Bruscolotti, revelado pelo Sorrento e que chegou ao Napoli também em 1972. Vigoroso na marcação e útil no apoio, tornaria-se um símbolo dos partenopei, mantendo-se como titular da posição por nada menos que 16 anos. Já pelo lado esquerdo atuava Luigi Pogliana, segundo nome mais antigo naquele elenco, vindo em 1967 após passar por Legnano e Novara. Durante a campanha, entretanto, sofreu de problemas físicos, jogando apenas metade das partidas.

A dupla de zaga mudou inteiramente em relação à temporada anterior. Trazido da Internazionale, o experiente Tarcisio Burgnich, 35 anos, tinha currículo invejável: cinco títulos nacionais (quatro pelos nerazzurri), duas Copas dos Campeões, dois Mundiais Interclubes e 66 jogos pela Nazionale, incluindo três Copas do Mundo e a Eurocopa de 1968, conquistada pela Itália. Originalmente um defensor pelo lado direito, convertera-se em líbero nos últimos tempos em Milão, mas no Napoli coordenaria a linha nas saídas defensivas.

Ao lado de Burgnich, e na ausência do antigo titular Giovanni Vavassori (que perdera a temporada inteira por uma grave lesão no joelho), estava Antonio La Palma, o mais jovem da equipe inicial e uma aposta de Vinícius – que já o conhecia de seu período no comando do Brindisi – para aquela temporada. Defensor versátil, também podia atuar como lateral-esquerdo (embora destro) e substituiu Pogliana naquela função em grande parte da campanha, embora implicando em um rearranjo do posicionamento do sistema.

O meio-campo começava com uma dupla vinda da Fiorentina: o volante Andrea Orlandini, bom marcador e que costumava recuar para a zaga quando a ausência de Pogliana transferia La Palma para o lado esquerdo da defesa, e o talentoso armador Salvatore Esposito, vencedor do scudetto com a Viola em 1969 e um dos responsáveis pela fluência do jogo da equipe. Completava o trio do setor o ponta-de-lança Antonio Juliano, capitão e referência técnica daquele time, além de um dos maiores jogadores da história do clube.

“Totonno”, como era chamado, era prata da casa. Só havia defendido o Napoli na carreira iniciada em 1962, o que o tornava, com folga, o jogador com mais tempo de clube do elenco. Era ainda o segundo mais veterano entre os titulares. E também homem de seleção: estivera em três Copas do Mundo (1966, 1970 e 1974), embora só entrasse em campo uma vez, exatamente durante a final do Mundial mexicano, contra o Brasil. Fez também parte do elenco campeão europeu em 1968, com participação mais expressiva.

Na frente, o ponta-direita Giuseppe Massa atuava um pouco mais recuado, compondo o meio-campo por aquele lado, dentro da tradição do “tornante” do “gioco all’italiana”. Embora revelado pela Internapoli, não chegou a ser treinado por Luís Vinícius naquele clube. Após passar por Lazio e Internazionale, voltou à Campânia para substituir o veterano brasileiro Jarbas Faustino, o Cané, atacante criado no Olaria que chegou ao Napoli em 1962, tendo ainda passado pelo Bari entre 1969 e 1972 antes de retornar.

Inicialmente, porém, o jogador mais cotado para ocupar a posição era Rosario Rampanti, vindo do Torino naquela temporada. No fim das contas, Massa ganhou a disputa e foi o dono da ala direita, mas Rampanti acabou ainda assim sendo bastante utilizado não só pelas extremas como também na função de armador (especialmente na reconfiguração quando Pogliana esteve fora), tornando-se uma espécie de 12º jogador daquela equipe, participando como titular de nada menos que 22 das 30 partidas da campanha.

Os outros dois homens de frente eram intocáveis. O centroavante, aliás, era outro brasileiro com carreira longa no Calcio a exemplo do próprio Luís Vinícius. O paulistano Sergio Clerici (ou Clérice, na grafia brasileira) deixou a Portuguesa Santista aos 19 anos para embarcar numa trajetória que o levaria a defender sete clubes (Lecco, Bologna, Atalanta, Verona, Fiorentina, Napoli e Lazio) em quase duas décadas no futebol italiano. Agora, aos 33 anos, vinha de anotar pelo menos dez gols na Serie A nas últimas quatro temporadas.

Fazendo companhia ao raçudo goleador brasileiro na frente estava o habilidoso Giorgio Braglia, ponteiro-esquerdo oriundo de família de jogadores, mas que demorou a deslanchar na Serie A após passagens de poucos jogos por Fiorentina e Roma. Reabilitado pelo Foggia com um ótimo desempenho na segunda divisão em 1972/73, seguiria na próxima temporada para o Napoli, onde viveria a melhor fase da carreira — e o ponto alto seria exatamente aquela campanha de 1974/75, durante a qual completou 28 anos.

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O início da campanha

Braglia seria o destaque logo na abertura do campeonato, anotando todos os gols do Napoli nos 3 a 1 sobre a Ascoli, estreante na elite, naquela que foi a maior vitória da primeira rodada. Um empate sem gols com a Roma na capital é seguido por uma vitória de 2 a 0 diante do Vicenza. Porém, uma sequência de quatro empates impede que os azzurri alcancem a liderança. Três das igualdades, contra Sampdoria, Fiorentina e Cesena, são como visitante. Já o 1 a 1 no San Paolo diante da Lazio dá o que falar.

Mesmo enfrentando a detentora do scudetto e que largara bem em busca do bi, o Napoli aperta os biancocelesti e abre a contagem aos 21 minutos, com La Palma aproveitando uma jogada mal afastada pela defesa adversária. Em vantagem no intervalo, a equipe cria chances para ampliar na etapa final, mas esbarra no árbitro Alberto Michelotti, que nega três pênaltis claros aos donos da casa – no último, chega a mostrar cartão amarelo por simulação a Braglia. E a Lazio acaba empatando aos 32 com Renzo Garlaschelli.

A sequência de igualdades é encerrada da melhor maneira possível: com uma goleada. Os 5 a 0 sobre o Cagliari fazem reiterar os merecidos elogios à equipe naquele início de competição. Com um futebol ofensivo, buscando o gol e encurralando o adversário em seu próprio campo, o Napoli marca aos cinco e aos sete minutos com Braglia e Juliano, ampliando aos 17 outra vez com Braglia. Na etapa final, nada de tirar o pé. Clerici anota mais dois: um de pênalti logo aos dois minutos e outro costurando a defesa sarda aos 30.

Luís Vinícius, porém, ressente-se de outra categoria de reconhecimento. Em setembro, empreendendo um trabalho de renovação na seleção após o fiasco na Copa do Mundo da Alemanha Ocidental, o novo técnico da Azzurra, Fulvio Bernardini, promove a estreia de seis jogadores na derrota por 1 a 0 para a Iugoslávia em amistoso em Zagreb. Apesar disso, sua convocação ignora totalmente o Napoli. O esquecimento de seus pupilos e a partida apática da nova Itália levam o brasileiro a propor um desafio, que se espalha pela imprensa.

O técnico partenopeo afirma que o Napoli está pronto para enfrentar a seleção e sugere um tira-teima em jogo único. Se seu time vencer, Vinícius garante que dará um banquete a todos em um restaurante do Borgo Marinari. Bernardini não dá ouvidos e desconversa, mas nas convocações seguintes não só traz Juliano de volta como também inclui Orlandini — escalado para marcar Johan Cruyff contra a Holanda em Roterdã pelas Eliminatórias da Eurocopa — e Esposito, além de Braglia, que, no entanto, não chega a entrar em campo.

De volta ao campeonato, além do ponto conquistado pelo time no 0 a 0 com o Milan no San Siro na nona rodada, a atuação de Carmignani merece destaque na imprensa. Jogando “à Jongbloed”, como escreve o diário romano L’Unità, o camisa 1 azzurro deixa sua área com frequência como um verdadeiro goleiro-líbero para interceptar com os pés os ataques rossoneri. Isso nas poucas vezes em que estes conseguem superar a linha de impedimento formada pela defesa do time de Vinícius, que se mantém invicto no certame.

O terceiro lugar na temporada anterior valera aos partenopei a vaga na Copa da Uefa de 1974/75. E após eliminar os húngaros do Videoton (2 a 0 em casa e 1 a 1 fora) e o Porto (com um duplo 1 a 0), o time pegaria nas oitavas de final o Banik Ostrava. Porém, um inesperado revés por 2 a 0 dentro do San Paolo obrigou o Napoli a jogar tudo na volta na Tchecoslováquia. Um gol do atacante reserva Giovanni Ferradini no primeiro tempo deu esperanças, mas o empate do Banik a nove minutos do fim decretou a eliminação.

O grande choque

Quatro dias depois seria a vez de receber a Juventus, que já ocupava a liderança isolada por dois pontos, em duelo importantíssimo no San Paolo. Foi quando o momento se virou contra o Napoli. Contra-atacando em velocidade e aproveitando-se do desgaste físico e anímico dos partenopei com a eliminação na Tchecoslováquia, a Vecchia Signora fura sucessivamente a defesa em linha dos donos da casa. Sai para o intervalo arrancando um clamoroso 3 a 0, ampliado pouco após o reinício do jogo com gol de Roberto Bettega.

O Napoli ainda luta em busca da reação e diminui com Clerici, mas Causio torna a ampliar aos 25. O atacante brasileiro ainda marca o segundo dos donos da casa, mas perde a chance de anotar o terceiro ao chutar para fora um pênalti. No fim, o meio-campo reserva Fernando Viola ainda faz o sexto da Juve, que encerra a invencibilidade azzurra no campeonato com um 6 a 2 escandaloso dentro de um lotado San Paolo, resultado que leva a imprensa, antes quase sempre elogiosa, carregar a mão nas críticas a Luís Vinícius.

Gianni Brera, militante declarado do futebol defensivo, é impiedoso: “Sobre a tática reinventada por Vinicio, já tive a oportunidade de dizer ser bizarra e perigosa. Alguém ficou indignado. Logo em seguida a Juventus desceu até Nápoles e venceu por 6 a 2. Foi a mesma Juventus que penou para bater a Roma e a Inter. O Napoli não achou necessário respeitá-la e se abriu todo, colando os defensores nos meias. Nos muitos espaços livres diante de Carmignani, os jogadores da Juventus criaram pelo menos uma dúzia de gols”.

“Aí Vinicio admitiu que ainda era jovem, como técnico, e que tinha muito a aprender”, prosseguiu Brera. “Se ainda continuar no cargo, caberá a Vinicio colocar Burgnich em seu lugar e jogar como todos procuram fazer, fechado na defesa e largo no ataque”, concluiu o cronista. Não era, porém, o que pensavam o técnico e seus jogadores: “Após a partida coloquei de novo em discussão se deveríamos mudar de estilo. E eles [atletas] disseram: “Não, Mister, vamos em frente, nós nos divertimos jogando assim”, lembrou o brasileiro.

Os dois jogos seguintes são fora de casa, com o réveillon entre eles. E o Napoli fica no 0 a 0 nas visitas à Ternana, em 22 de dezembro, e à Internazionale, já em 5 de janeiro. Quando volta a ser mandante, porém, o clube tem um problema a enfrentar: na derrota para a Juventus, uma garrafa é atirada por torcedores na direção do bandeirinha, que, segundo eles, deixara passar alguns impedimentos um tanto mais que milimétricos em alguns ataques bianconeri. Como punição, o San Paolo é interditado por duas partidas.

A equipe precisa então ir a Roma para enfrentar o Torino. Mesmo assim, vence por 1 a 0 com gol de Massa no segundo tempo. Na rodada seguinte, entretanto, o Napoli sofre sua primeira derrota como visitante. Com Orlandini expulso ao revidar uma provocação de Franco Cresci logo no início da etapa final, o time leva um gol de pênalti de Giuseppe Savoldi. Ainda vê o goleiro Amos Adani fazer milagre na cabeçada de Braglia que desviou em Mauro Bellugi e ainda termina o jogo com nove, após Rampanti também receber o vermelho.

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Sobrevivendo ao mar agitado

A defesa napolitana repele um ataque aéreo da Roma

Atravessando seu momento mais turbulento na competição, o Napoli cumpre o segundo jogo da punição do campo neutro vencendo fácil o Varese por 3 a 0 em Roma. Termina o primeiro turno em quarto lugar empatado com Milan e Torino e distante cinco pontos da líder Juventus (Lazio e Roma vêm na segunda e terceira colocações). Além de não permitir que os azzurri baixassem a cabeça, aquela vitória com gols de Esposito, Braglia e Clerici iniciou a maior sequência invicta dos partenopei naquela edição da Serie A.

Na abertura do returno, o Napoli busca o empate em 1 a 1 fora de casa diante da Ascoli e, em seguida, vence bem a Roma por 2 a 0 no retorno ao San Paolo (Rampanti e Braglia fizeram os gols, um em cada tempo). Na 18ª rodada, um novo empate arrancado como visitante, 2 a 2 diante do Lanerossi Vicenza, antecede duas boas vitórias como mandante. Primeiro um 2 a 0 na Sampdoria resolvido ainda no primeiro tempo com gols de Massa e Bruscolotti. Depois é a vez de Clerici definir o 1 a 0 sobre a Fiorentina.

Já o confronto contra a Lazio, assim como no primeiro turno, termina de forma amarga. Se no jogo do San Paolo as reclamações dos partenopei ficaram por conta da arbitragem, desta vez no Estádio Olímpico da capital é o próprio time que falha duas vezes em momentos cruciais e deixa escapar a vitória. Braglia é esperto para interceptar um recuo malfeito do defensor Luigi Martini para o goleiro Felice Pulici e abrir a contagem no início da segunda etapa, mas os minutos finais são para os napolitanos esquecerem.

Primeiro é o pênalti de Orlandini em Vincenzo D’Amico assinalado pelo árbitro Pierluigi Levrero aos 40 minutos do segundo tempo. Giorgio Chinaglia bate forte e empata o jogo para os donos da casa. A chance de retomar a vantagem e sair com a vitória surge para o Napoli no último minuto, quando o líbero laziale Roberto Badiani corta com a mão um cruzamento alto vindo da esquerda. Agora são os partenopei que tinham penalidade a favor, mas a cobrança de Clerici, no meio do gol, é salva com os pés por Pulici.

Com o empate entre os vice-líderes, a Juventus (que derrota o Cesena em casa com um gol de pênalti de Oscar Damiani) abre cinco pontos de vantagem ao fim da 21ª rodada. Entretanto, é um primeiro e breve momento em que a maré começa a virar a favor dos partenopei. Com dois gols logo de saída, Clerici se redime abrindo a goleada por 4 a 0 sobre o Cesena. Em seguida, vem o empate em 1 a 1 contra o Cagliari na Sardenha. Uma semana depois, Clerici de novo abre o caminho da vitória por 2 a 0 sobre o Milan.

Enquanto isso, nas mesmas três rodadas, a Juventus sofre duas derrotas: primeiro para a Roma na capital (1 a 0). Depois, num dérbi dramático diante do Torino, em que os bianconeri saem duas vezes atrás, vão buscar o 2 a 2 aos 38 minutos do segundo tempo com Fabio Capello, mas aos 43, o meia Renato Zaccarelli encerra um bate-rebate na área colocando a bola no fundo da rede de Dino Zoff. De cinco pontos, a diferença entre a Vecchia Signora e os azzurri diminui para apenas dois. Bem na hora do confronto direto.

Observado por Sergio Clerici, Juliano tenta passar pelos milanistas Benetti e Zecchini

O coração ingrato

Naquela tarde de 6 de abril de 1975, o Napoli tem a seu favor o melhor momento na competição. A Juve, além do mando de campo, tem os dois pontos de frente, vantagem a qual a equipe entra em campo disposta no mínimo a manter. Com times completos, o jogo começa pendendo para o lado bianconero, que abre o placar aos 19 minutos. Franco Causio recebe passe na meia direita e chuta alto, quase do bico da área, acertando o ângulo de Carmignani. É o primeiro movimento claro num jogo de xadrez, tático, estudado.

O Napoli não se abala: logo na volta do segundo tempo perde a primeira chance do empate com Massa recebendo um belo passe, mas dando azar no chute, que passa a milímetros do travessão. Zoff ainda salva outra finalização aos pés de Massa, enquanto do outro lado Capello bate falta e acerta o travessão. Até que os visitantes conseguem o merecido empate aos 14 minutos, em mais uma jogada de Massa, desta vez costurando toda a defesa bianconera antes de fazer o passe na entrada da área para o chute forte de Juliano.

Os partenopei crescem e começam a ameaçar seguidamente o gol defendido por Zoff. Até que a 15 minutos do fim, o técnico bianconero Carlo Parola decide mandar a campo sua carta na manga: o brasileiro José Altafini, que por sete temporadas entre 1965/66 e 1971/72 havia sido um grande ídolo dos tifosi azzurri. A Juventus, que já havia vencido Cesena e Cagliari com gols dramáticos nos instantes finais das partidas, volta a se lançar à frente para o tudo ou nada. E consegue um escanteio aos 43 minutos do segundo tempo.

Causio faz a cobrança do córner buscando o miolo da área. Carmignani sai um tanto desajeitado, mas consegue afastar com um soco a bola que pára perto da meia-lua, um pouco à esquerda. Na corrida, o lateral bianconero Antonello Cuccureddu solta a bomba, mas seu chute acerta o pé da trave e corre na boca do gol, passando por trás de dois defensores partenopei. Até encontrar o pé direito de Altafini, posicionado na linha da pequena área. O ex-napolitano não perdoa e anota o gol da vitória da Vecchia Signora: 2 a 1.

O resultado fazia a Juventus abrir quatro pontos de frente para o Napoli faltando apenas cinco rodadas para o fim da competição. O que doeu mais do que qualquer coisa no peito dos torcedores napolitanos foi o fato de seu antigo ídolo ter marcado o gol que distanciou os azzurri do scudetto. “José apunhala o Napoli” foi a manchete do caderno esportivo do diário local Il Mattino. Dias depois do jogo, a lamentação foi eternizada numa frase grafitada num dos acessos do estádio de San Paolo: “José core ‘ngrato”.

Altafini apunhala o Napoli, a manchete do Il Mattino

A reta final

O que não se imaginava é que ainda haveria, sim, muito campeonato. Com raiva, o Napoli arrasa a Ternana na rodada seguinte: La Palma, Massa, Esposito e Clerici abrem quatro gols de vantagem no primeiro tempo e Braglia amplia logo na volta do intervalo. Massa volta a balançar as redes na metade da etapa final antes do atacante Ferdinando Donatti descontar. Mas antes do apito final Braglia, de cabeça, ainda faz mais um arredondando a contagem em impiedosos 7 a 1. Enquanto isso, a Juventus passa sufoco na Sardenha.

Perdendo desde os cinco minutos de jogo graças a um gol contra de Francesco Morini, a Vecchia Signora vislumbra a ameaça de sua vantagem na ponta descer novamente a dois pontos. Mas consegue salvar um ponto ao empatar a partida aos 43 minutos do segundo tempo, novamente com Altafini. O ítalo-brasileiro também abre o placar no jogo seguinte, um 4 a 0 sobre a Lazio — goleada que, no entanto, só se desenha nos minutos derradeiros, com uma tripleta de Pietro Anastasi, marcando aos 38, 42 e 43 da etapa final.

O Napoli, entretanto, segue no encalço. No mesmo 27 de abril da goleada bianconera sobre os laziali, a equipe de Luís Vinícius registra boa vitória sobre a Internazionale por 3 a 2, na qual, embora sempre melhor, tem certa dificuldade para assegurar o triunfo. Os partenopei abrem vantagem com uma dobradinha de Sergio Clerici, veem a Inter descontar com Giorgio Mariani, ampliam de novo com Braglia, mas um tento de Roberto Boninsegna a 16 minutos do fim ainda deixa o resultado em aberto até o apito final.

Mas se os jornais já consideravam a Juventus virtual campeã italiana quando da goleada sobre a Lazio, a certeza fica ainda maior na antepenúltima rodada, quando os bianconeri derrotam a praticamente condenada Ternana fora de casa (2 a 0) e o Napoli para num empate com o Torino em 1 a 1 no Comunale. Quatro pontos separam líder e vice-líder restando apenas duas rodadas para o encerramento do certame. Um empate na visita à Fiorentina no fim de semana seguinte daria o scudetto antecipadamente à Juve.

Entretanto, pela última vez, o campeonato fica de novo em aberto. O Napoli já se contentava em ter dado o troco no Bologna — única equipe além da Juventus que a derrotara na competição — devolvendo no San Paolo a vitória por 1 a 0, gol de Sergio Clerici. As notícias que chegam de Florença pelo rádio são ainda melhores: os bianconeri foram engolidos pela Viola, que aplicou inapeláveis 4 a 1, novamente reduzindo a diferença no topo da tabela para apenas dois pontos. A decisão fica mesmo para a última rodada.

Os dois postulantes ao título enfrentam adversários com rebaixamento decretado. O Napoli viaja para enfrentar o Varese tendo de vencer e precisando da derrota da Juventus em Turim diante do Vicenza, combinação que forçaria uma decisão em jogo extra e campo neutro. Além de tudo isso, para completar a sensação de que os partenopei necessitam de um milagre, o time ainda não venceu como visitante na competição (nas 14 partidas anteriores havia acumulado incríveis 12 empates e duas derrotas).

Haveria, porém, a primeira vez: com dois gols de Massa, um em cada tempo, o Napoli quebra seu jejum como visitante batendo o Varese por 2 a 0. A Juventus, no entanto, não perde a chance e arremata o scudetto goleando o Vicenza por 5 a 0 (com quatro gols no primeiro tempo). A Vecchia Signora termina com 43 pontos ganhos, apenas dois a mais que o Napoli — que fica ao menos com dois números expressivos: o melhor ataque (50 gols marcados) e o menor número de derrotas (três), ambos isoladamente.

O balanço e o legado

O desempenho como mandante dos azzurri foi excelente: 13 vitórias, um empate e uma derrota. E, à parte os 6 a 2 sofridos diante da Juventus, o comportamento defensivo foi até bem notável para uma equipe que sabidamente corria riscos: teve a terceira retaguarda menos vazada da Serie A ao lado do Milan, com apenas 22 gols sofridos. Porém, o excesso de empates como visitante cobrou seu preço, assim como as duas amargas derrotas nos embates diretos com os bianconeri. A caminhada, embora digna, fiou no quase.

Apesar de até hoje render reverências dos tifosi do Napoli e mesmo enfrentando dificuldades como o elenco mais curto, no resto da Itália aquela campanha — que igualava a melhor colocação do clube na história do certame — não foi encarada como bem-sucedida, e sim como um título perdido. Para a temporada seguinte, os azzurri dariam mostras de ambição, trazendo do Bologna o atacante Giuseppe Savoldi pelo novo valor recorde mundial de transferências — enquanto Sergio Clerici fazia o caminho inverso.

Luís Vinícius, desanimado, gradualmente foi abandonando suas ideias e adotando um estilo de jogo mais pragmático. Embora liderasse de início, o Carrossel partenopeo se desvaneceu ao longo da temporada 1975/76. O brasileiro deixaria o comando da equipe imediatamente após o fim da Serie A, tomando o rumo da Lazio. Curiosamente, a dupla interina formada pelo antigo auxiliar Alberto Delfrati e pelo técnico dos juvenis Rosario Rivellino conduziria o Napoli ao título da Coppa Italia, goleando o Verona na final por 4 a 0.

Após o período em Roma, Vinícius ainda voltaria ao comando do Napoli, antes de passar também pelo Avellino (em dois momentos), o Pisa e a Udinese – onde chegou a dirigir os brasileiros Edinho e Zico. A aposentadoria viria após salvar a pequena Juve Stabia na Serie C2, então a quarta divisão do Calcio, na temporada 1991-92. Ainda hoje, ‘O Lione segue como lenda do futebol italiano, saudado especialmente em Nápoles e em Vicenza. Suas ideias táticas expostas naquele time azzurro levariam algum tempo para reverberar.

O Napoli ainda chegaria perto do scudetto na temporada 1980/81 com uma equipe liderada em campo pelo líbero holandês Ruud Krol e que terminaria em terceiro. A conquista do título só viria mesmo após a chegada de Diego Maradona, em 1987 e 1990. Naquela mesma época, um estilo de jogo bem semelhante ao de Vinícius — marcação por zona, defesa em linha, campo encurtado, linha de impedimento, ‘pressing’, ataque envolvente — despontava no Milan dirigido por um então semi-desconhecido e ascendente Arrigo Sacchi.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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