A Colômbia de 1987: o nascimento da revolução Maturana na Copa América
O primeiro grande sinal da transformação da seleção da Colômbia em símbolo do jogo ofensivo aconteceu na campanha do bronze na Copa América de 1987

Torneio decisivo para a mudança de status da seleção da Colômbia dentro do contexto tanto do futebol sul-americano quanto do mundial, a Copa América de 1987 foi a primeira competição em que um promissor treinador chamado Francisco “Pacho” Maturana esteve à frente da equipe nacional principal. Além da renovação de nomes, aproveitando a excelente safra de talentos que despontava, o novo time cafetero incorporava uma identidade de jogo mais vistosa e ofensiva, que definiria o perfil do futebol do país dali por diante.
Os difíceis primeiros tempos
Até meados da década de 1980, a seleção da Colômbia historicamente ocupava uma espécie de terceiro escalão do futebol sul-americano, numa prateleira abaixo não apenas de Argentina, Brasil e Uruguai como também de Chile, Paraguai e Peru. Na região, foi um dos últimos times a estrear em partidas internacionais – seus oponentes iniciais, aliás, eram da América Central. Também debutou tarde nas grandes competições: só estreou no Sul-Americano em 1945 e só jogou sua primeira Eliminatória de Copa no ciclo para 1958.
Entre esses dois momentos, na virada da década de 1940 para a de 1950, o país ficou famoso por abrigar uma liga “pirata”, desvinculada da Fifa, que ganhou o apelido de “Eldorado colombiano”, na qual os clubes contratavam astros estrangeiros – sul-americanos e até europeus – sem pagar o valor da transferência aos clubes de origem. Se por um lado a liga, chamada Dimayor, fundou as bases do profissionalismo no futebol colombiano, por outro a expressiva chegada de atletas de outras nacionalidades ofuscou o talento local.

No início de 1952, por exemplo, o Deportivo Cali excursionou pelo Brasil com uma equipe titular formada por 11 argentinos. Embora na época houvesse menos rigor em relação a atletas atuarem por seleções que não eram a dos seus países de nascimento, a equipe nacional da Colômbia não poderia contar com estes astros importados uma vez que eles defendiam clubes filiados a uma entidade sem o reconhecimento internacional oficial. Com este cenário, os Cafeteros obtiveram resultados bem modestos nestas duas décadas.
No Campeonato Sul-Americano (atual Copa América), a Colômbia participou das edições de 1945, 1947, 1949 e 1957. Na primeira e na última, terminou na quinta colocação entre sete equipes, à frente de Equador e Bolívia na primeira e de Chile e Equador na segunda. Nas outras duas, ficou na lanterna entre oito países. E mesmo nas melhores campanhas sofreu sonoras goleadas: 9 a 1 para a Argentina e 7 a 0 para o Uruguai em 1945 e 8 a 2 para a Argentina e 9 a 0 para o Brasil (com cinco gols de Evaristo de Macedo) em 1957.
Sua primeira participação nas Eliminatórias da Copa do Mundo, no Grupo 3 sul-americano tendo Uruguai e Paraguai como adversários, tampouco registrou resultados expressivos: o único ponto veio no primeiro jogo, em Bogotá, ao empatar em 1 a 1 com a Celeste, que ficaria fora do Mundial ao levar de 5 a 0 dos guaranis em Assunção. No início da década seguinte, entretanto, aconteceu a surpreendente classificação para a Copa do Chile, em dois jogos contra uma seleção peruana bem enfraquecida em relação ao ciclo anterior.
A equipe colombiana dirigida pelo argentino Adolfo Pedernera (que havia atuado no país durante o “Eldorado”) derrotou os peruanos por 1 a 0 no jogo de ida em Bogotá, gol de Eusebio Escobar. Na volta, em Lima, saiu atrás, mas chegou ao empate em 1 a 1 num tento de Héctor González e carimbou seu passaporte para a Copa. Enquanto isso, os blanquirrojos lamentavam as ausências dos meias Victor Benítez e Miguel Ángel Loayza e dos atacantes Juan Joya e Juan Seminario, todos atuando em clubes argentinos ou europeus.
No Chile, os colombianos estrearam perdendo para o Uruguai por 2 a 1 de virada, num jogo em que o defensor Francisco Zuluaga marcou de pênalti o primeiro gol do país em Mundiais, mas no segundo tempo fraturou a perna. Em seguida veio o bizarro empate em 4 a 4 com a União Soviética, no qual os europeus abriram 3 a 0 em 11 minutos e venciam por 4 a 1 na metade da etapa final, mas cederam a igualdade, com direito a gol olímpico de Marco Coll. Na despedida, os cafeteros foram varridos pela Iugoslávia por 5 a 0.
A primeira participação mundialista não deixou, no entanto, nenhum legado. No ano seguinte, uma reformulada seleção dirigida pelo ex-goleiro Gabriel Ochoa Uribe terminou na lanterna do Campeonato Sul-Americano na Bolívia, somando só um ponto. O desempenho nas Eliminatórias para a Copa de 1966 também foi fraco: derrotas em casa e fora para o Equador e uma goleada de 7 a 2 sofrida para o Chile em Santiago. Somente quando já estava eliminada é que a Colômbia venceu: 2 a 0 sobre a Roja em Barranquilla.
Os chilenos também estiveram no caminho dos colombianos no Sul-Americano de 1967, quando despacharam os cafeteros na única vez em que o torneio teve uma fase preliminar classificatória. Uma derrota por 5 a 2 em Santiago e um empate em 0 a 0 em Bogotá deixaram a Colômbia de fora do turno final disputado no Uruguai. Em seguida, a seleção voltou a fazer campanha discreta em Eliminatórias no ciclo para a Copa de 1970: num grupo com Brasil, Paraguai e Venezuela, ela somou pontos – três – apenas contra esta última.
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Rebates falsos
Em meados dos anos 1970, porém, a seleção deu dois sinais de que poderia se afastar da habitual mediocridade. O primeiro veio nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1974, quando, sob o comando do iugoslavo Todor Veselinovic, os cafeteros ficaram de fora apenas pelo saldo de gols num grupo com Uruguai e Equador e se tornaram um caso raríssimo de equipe que caiu invicta na fase de classificação. Na ocasião, a Colômbia chegou a derrotar a Celeste (que ficaria com a vaga) por 1 a 0 dentro do Estádio Centenário.
O segundo sinal veio com a boa campanha na Copa América de 1975. Aquela edição marcava uma ampla reformulação no Sul-Americano, que voltava a ser disputado após oito anos: além de ganhar a nova nomenclatura, inaugurou o formato sem sede fixa, com partidas em ida e volta em todas as fases, arrastando-se por vários meses. Nela, a Colômbia superou Paraguai e Equador na fase de grupos vencendo as quatro partidas, eliminou o Uruguai (último campeão) na semifinal e fez a final com o Peru, sagrando-se vice-campeã.

Aquele período revelou alguns nomes lendários do futebol do país, como o goleiro Pedro Zape e o atacante Willington Ortiz, considerado o maior craque da história da Colômbia até o surgimento da geração que despontou no fim da década seguinte. Mesmo assim, nas Eliminatórias para 1978, a seleção retrocedeu aos maus resultados anteriores, ficando na lanterna do grupo com Brasil e Paraguai sem vencer nenhuma partida e ainda levando uma goleada de 6 a 0 do escrete canarinho de Cláudio Coutinho no confronto do Maracanã.
O bom desempenho da metade da década de 1970 se revelaria pelos anos seguintes um rebate falso, uma vez que a seleção não passou da primeira fase nas Copas América de 1979 e 1983 e terminou mais uma vez na lanterna de seu grupo nas Eliminatórias para o Mundial de 1982, de novo sem nenhuma vitória contra Peru e Uruguai. Por outro lado, os clubes do país começavam a aparecer com mais destaque na Copa Libertadores da América: em 1978, o Deportivo Cali foi a primeira equipe colombiana finalista do torneio.
Treinados pelo argentino Carlos Bilardo (que também comandaria a seleção da Colômbia na fase classificatória para o Mundial de 1982), os Azucareros já haviam alcançado as semifinais no ano anterior. E em 1978 deram um passo adiante após superarem o compatriota Atlético Junior e os uruguaios Peñarol e Danúbio na primeira fase e em seguida o peruano Alianza e o paraguaio Cerro Porteño nas semifinais, antes de serem batidos pelo Boca Juniors na decisão – um 0 a 0 em Cali foi seguido por uma goleada de 4 a 0 na Bombonera.
Aquela campanha veio em meio a uma longa invencibilidade do clube jogando em casa no estádio Pascual Guerrero na competição, que duraria 11 anos e só cairia diante do Flamengo em 1981. Além disso, também prenunciaria um período expressivo do futebol colombiano na competição: entre 1980 e 1996, o país colocaria um clube nas semifinais da Libertadores em todas as edições, exceto na de 1984 (quando América de Cali e Atlético Junior caíram na primeira fase tendo mais uma vez o rubro-negro carioca como algoz).
Porém, tanto aquele Deportivo Cali de 1978 quanto o América que chegaria a três finais seguidas da Libertadores em meados da década seguinte tinham nos atletas estrangeiros seus maiores destaques – no caso dos Azucareros, o artilheiro da equipe e da competição continental tanto em 1977 quanto em 1978 havia sido o argentino Néstor Scotta, ex-Grêmio. Dessa forma, repetia-se um problema já enfrentado na época do Eldorado: o pouco espaço para o desenvolvimento do talento local nas equipes mais competitivas.
1985: o futuro e o passado
Um facho de esperança começou a surgir no início de 1985, com o ótimo desempenho da seleção de juniores que partira desacreditada para o Campeonato Sul-Americano da categoria disputado no Paraguai, no qual os três primeiros colocados avançariam ao Mundial na União Soviética em outubro daquele ano. Na primeira fase, o time estreou vencendo a Bolívia (2 a 1) e em seguida empatou com Argentina (1 a 1) e Brasil (0 a 0), antes de derrotar o Chile por 3 a 0, resultado que garantiu a classificação ao quadrangular final.
Nele, a equipe empatou de saída com os anfitriões paraguaios em 1 a 1, antes de sofrer sua única derrota no torneio caindo diante do Brasil por 2 a 1. Mesmo assim, na última rodada a Colômbia precisava do empate diante do Uruguai para carimbar o passaporte ao Mundial. Fez mais: o time que já causara sensação ao eliminar os argentinos na fase de classificação marcou pela segunda vez seu nome no torneio ao sapecar uma goleada de 4 a 1 sobre a Celeste, confirmando a vaga e reiterando a ótima impressão que deixara.
A equipe treinada pelo jovem Luis Alfonso Marroquín encantou não só o público colombiano – num momento em que o país vivenciava forte tensão política – como a imprensa internacional ao exibir um futebol alegre, solto, criativo, ofensivo, veloz e de toque de bola, distanciando-se inteiramente do estilo defensivista e de imposição física pelo qual os cafeteros haviam se notabilizado no continente em tempos recentes, em especial durante a passagem do argentino Carlos Bilardo pelo comando da seleção principal.

Curiosamente, aquela também seria a última vez que uma seleção colombiana vestiria o uniforme adotado no início dos anos 1970, com camisas de cor alaranjada num tom puxado para o rosa, às vezes ostentando uma faixa diagonal com as três cores da bandeira do país, e calções pretos ou brancos. Este fardamento havia substituído o azul com calções brancos com o qual o time iniciou sua história e usou inclusive na Copa do Mundo de 1962. A partir de 1985, a Colômbia usaria pela primeira vez integralmente as cores nacionais.
Os novos uniformes, com camisas amarelas, calções azuis e meiões vermelhos – tendo a opção das camisas vermelhas com meiões amarelos – foram utilizados na série de amistosos realizados pela equipe de novo dirigida pelo experiente Gabriel Ochoa Uribe, treinador do América de Cali, como preparação para as Eliminatórias para a Copa de 1986 – Mundial do qual, aliás, a Colômbia abrira mão de sediar apenas três anos antes alegando problemas econômicos e a impossibilidade de cumprir com o caderno de encargos da Fifa.
A roupa nova, entretanto, vestia um estilo antigo: diferentemente da seleção de base, a equipe principal mantinha o jogo defensivo e baseado mais na força que na técnica. E embora colhesse alguns bons resultados na série de amistosos (incluindo a primeira vitória sobre o Brasil de sua história, 1 a 0 em Bogotá em maio daquele ano), não agradava aos torcedores, que não se viam representados por aquele futebol. Para piorar as coisas, a seleção mais uma vez fracassaria nas Eliminatórias, caindo na repescagem.
Naquela edição, as dez seleções sul-americanas foram divididas em três grupos – dois com três e um com quatro equipes. Os primeiros de cada chave avançavam direto ao Mundial, enquanto os segundos e o terceiro deste grupo com quatro passavam a uma repescagem no formato de mata-mata que valia mais uma vaga na Copa. Incluída na chave maior, juntamente com Argentina, Peru e Venezuela, a Colômbia acabou numa modesta terceira colocação, chegando a tropeçar diante da Vinotinto num 2 a 2 em San Cristóbal.
Avançando para a repescagem, a equipe enfrentou o Paraguai na semifinal e perdeu por 3 a 0 em Assunção na ida. Na volta, em Cali, a missão chegou a ficar ainda mais difícil quando os guaranis abriram o placar. No fim, a Colômbia ainda conseguiu a virada, mas o 2 a 1 não bastou para a classificação. Ochoa Uribe, que na mesma época dirigia o América de Cali na decisão da Copa Libertadores contra o Argentinos Juniors, foi acusado de priorizar seu trabalho no clube em detrimento da seleção e deixou o cargo.
Naquele mês de novembro de 1985, o país convulsionava: o cerco ao Palácio de Justiça em Bogotá pelo grupo guerrilheiro M-19 desatou um sangrento conflito com o governo colombiano que resultou em dezenas de mortos, entre eles vários magistrados da Suprema Corte, e outros tantos desaparecidos. Além disso, a erupção do vulcão Nevado del Ruiz na região de Tolima varreu do mapa a cidade de Armero, dizimando quase a totalidade da população local (cerca de 20 mil dos 29 mil habitantes foram vitimados).
Mudança de filosofia
Enquanto o país tentava se colocar de pé, o ano de 1986 seria uma página em branco na história da seleção colombiana, sem nenhum jogo oficial disputado. Entre os clubes, em meio ao poderio financeiro dos grandes turbinados pelo dinheiro do narcotráfico, o pequeno Once Caldas fazia bonito: com um elenco barato e formado apenas por jogadores locais, conseguira se colocar entre os oito finalistas do campeonato nacional. Seu treinador era um ex-zagueiro da seleção aposentado há quatro anos: Francisco Maturana.
Nascido em Quibdó, no departamento de Chocó (uma das regiões de população afrodescendente predominante no país), “Pacho” Maturana mudou-se para Medellín com a família ainda criança e, contra a vontade do pai, fez-se jogador profissional no Atlético Nacional, o qual defendeu por exatos dez anos, vencendo dois títulos nacionais. No fim da carreira, passou ainda pelo Atlético Bucaramanga em 1981 e pelo Tolima em 1982. Zagueiro elegante, atuou também pela seleção nas Eliminatórias para o Mundial da Espanha.
Paralelamente à carreira de jogador, Maturana se formou em odontologia, exercendo a profissão ainda enquanto atuava nos gramados. Ao pendurar as chuteiras, passou a lecionar na tradicional Universidad de Antioquia até receber um chamado do uruguaio Luís Cubilla, que treinava o time principal do Atlético Nacional, para que comandasse as categorias de base do clube. Foi onde teve contato com alguns dos garotos que formariam a seleção no Sul-Americano de juniores de 1985 e que o acompanhariam por sua trajetória.

No Once Caldas, teria sua primeira chance no comando de uma equipe principal, onde exibiu os conceitos de jogo sobre os quais conversava com Cubilla e outros de seus mentores. O trabalho destacado na equipe de Manizales rendeu a ele duas novas oportunidades no início de 1987: uma era o retorno ao Atlético Nacional, agora para treinar o time de cima. E a outra era dirigir a seleção colombiana no Pré-Olímpico disputado na Bolívia entre abril e maio, que apontaria os dois representantes sul-americanos nos Jogos de Seul.
A Colômbia não se classificaria para os Jogos Olímpicos – as vagas ficariam com o Brasil de Carlos Alberto Silva e a Argentina. Mas o time de Maturana surpreendeu em solo boliviano: na primeira fase, venceu Peru (1 a 0), Brasil (2 a 0) e Paraguai (1 a 0) e empatou em 0 a 0 com o Uruguai, terminando como líder do grupo, invicto e sem ser vazado. No quadrangular final, derrotas para a anfitriã Bolívia e para o Brasil na revanche (ambas por 2 a 1) puseram fim ao sonho. Mas o 1 a 0 sobre a Argentina na despedida reergueu o moral.
Para além do resultado, o mais importante era que o torcedor colombiano voltava a ser cativado pelo estilo de jogo da equipe como não havia sido desde o time de juniores de 1985. Às qualidades da equipe de Luís Alfonso Marroquín, o time de Maturana aliava um jogo solidário e moderno taticamente, inspirado no futebol holandês. Tudo isso credenciou o treinador chocoano a subir de posto e assumir a seleção principal, tendo como primeiro desafio no cargo a disputa da Copa América na Argentina entre junho e julho.
Apesar disso, algumas de suas decisões iniciais causaram controvérsia no país. A primeira delas foi a ausência do volante Eduardo Pimentel, do Millonarios, considerado o melhor da posição no país, mas cujo estilo de imposição física divergia do agora adotado na seleção. O argumento de Maturana era de que pretendia formar uma equipe coesa dentro de sua proposta de jogo em vez de simplesmente convocar os melhores. Mas uma outra polêmica levaria à criação de um termo volta e meia ressuscitado no futebol do país.
Com a dupla de Cali – América e Deportivo – representando o país na fase inicial da Libertadores e, com isso, dificultando a liberação de seus atletas, Maturana decidiu montar sua seleção tendo como base o Atlético Nacional onde já trabalhava. Diante do fato de os Verdolagas atravessarem um jejum nacional desde 1981, essa decisão somada ao vínculo anterior do técnico com o clube e à já citada ausência de Eduardo Pimentel motivou críticas da imprensa dos outros grandes centros futebolísticos colombianos, Cali e Bogotá.
Maturana era acusado de privilegiar jogadores de seu clube ou de origem antioquenha nas listas de convocados, e esses atletas e a comissão técnica (que incluía o auxiliar Hernán Darío Gómez, mais tarde treinador da seleção e natural de Medellín) ganharam o apelido um tanto depreciativo de “rosca paisa”, em que “rosca” significa algo como um restrito grupo de elite – uma “panela” – e “paisa” se refere ao grupo sociocultural dos habitantes das regiões de Antioquia (cuja capital é Medellín), Caldas e Quindío, entre outros.
O fato é que, ao contrário do Atlético Nacional de Maturana (que, além de compartilhar do estilo de jogo da seleção, favorecia o talento local), tanto o Deportivo Cali quanto o América (este ainda mais) tinham estrangeiros em posições-chave. Os dois goleiros, por exemplo, eram argentinos: Julio Cesar Falcioni nos Escarlatas e Eduardo Basigalup nos Azucareros. E entre os jogadores de linha em ambas as equipes desfilavam outros argentinos, uruguaios, paraguaios, peruanos e chilenos. Eram verdadeiras seleções continentais.
Mesmo vencendo três de seus quatro amistosos preparatórios, as primeiras exibições da seleção sob o comando de Maturana também não ajudaram a aliviar as críticas. No primeiro deles, uma goleada de 4 a 0 sobre o Cúcuta Deportivo (que vinha ocupando as últimas posições do certame nacional) chegou a animar os torcedores. O que não aconteceu nos seguintes: vitória de 1 a 0 sobre o Equador em Medellín e derrota por 3 a 0 para o mesmo adversário em Guayaquil, mais um 2 a 1 sobre o Independiente Santa Fé em Bogotá.
O time-base
Na Copa América, os colombianos formariam o Grupo C ao lado de Paraguai e Bolívia. O torneio, aliás, apresentaria mudanças no regulamento em relação às três edições anteriores, deixando de lado os jogos em ida e volta e retomando o modelo de sedes fixas. O formato, porém, continuava o mesmo: o detentor do título – o Uruguai, campeão em 1983 – entrava apenas nas semifinais, enquanto as outras nove seleções eram divididas em três triangulares, nos quais só o primeiro colocado avançava para a etapa de mata-mata.
Se a Colômbia chegava desacreditada pela própria imprensa, o Paraguai só fazia reforçar seu favoritismo no grupo ao bater a campeã mundial Argentina por 1 a 0 num amistoso em Buenos Aires. Dirigida por Silvio Parodi, ex-ponta do Vasco nos anos 1950, a seleção guarani fez questão de trazer seus astros que jogavam no exterior, como o meia Julio César Romero – o Romerito, ídolo do Fluminense – e outros quatro que ironicamente atuavam no futebol colombiano, entre eles o goleador Roberto Cabañas, do América de Cali.
Vindo de uma boa participação na Copa do Mundo do México no ano anterior, quando passou invicto pela fase de grupos antes de cair para a Inglaterra nas oitavas de final, o Paraguai abriu o grupo sediado em Rosario enfrentando a Bolívia, seleção considerada a mais fraca e que trazia só um jogador atuando fora do país: o meia Milton Melgar, do Boca Juniors e sondado recentemente por Flamengo e Vasco. Disputado diante de apenas 5 mil torcedores no Gigante de Arroyito, o jogo terminou num surpreendente 0 a 0.

O resultado animou os colombianos (“Estamos muito otimistas”, declarou Maturana após o jogo), embora a imprensa do país apontasse que nem a Bolívia deveria ser descartada, nem o Paraguai tido como uma seleção imbatível e franca favorita. A estreia dos cafeteros seria no dia 1º de julho, três dias após o jogo de abertura da chave, diante dos andinos. E uma vitória significaria poder jogar pelo empate contra os guaranis na última rodada, no dia 5. Seria o batismo da primeira grande geração do futebol colombiano.
A renovação havia sido grande: dos 35 jogadores utilizados por Gabriel Ochoa Uribe nos oito jogos das Eliminatórias para 1986, apenas nove marcavam presença na lista com os 20 convocados por Maturana para a Copa América, sendo que apenas dois haviam sido titulares na fase classificatória mundialista – e ambos começavam o torneio continental como reservas. Além disso, 13 daquele grupo de 20 jogadores chamados para a nova seleção tinham até 25 anos e apenas dois já haviam alcançado a faixa dos 30 anos de idade.
Um dos novatos na seleção principal era o goleiro René Higuita, de apenas 20 anos. Destaque da equipe do Sul-Americano de juniores de 1985, o arqueiro havia sido promovido por Maturana a titular do Atlético Nacional naquela temporada. A agilidade sob as traves e o estilo ousado de sair jogando com os pés até posições altas do campo eram suas marcas, e esta última acabava por torná-lo um jogador de linha a mais – ou uma espécie de líbero – ajudando a circular a bola na saída de jogo do “carrossel” colombiano.
À frente de Higuita jogava uma dupla de zaga que combinava o vigor físico e a firmeza nos duelos individuais de Luis Carlos Perea (do Independiente Medellín) com a experiência e a elegância de Nolberto Molina, líbero do Atlético Nacional e nome mais veterano daquela seleção aos 34 anos. Já pelas laterais, Luis Fernando Herrera (mais um do Atlético Nacional) pela direita e Carlos Mario Hoyos (do Deportivo Cali) pela esquerda, apoiavam com decisão sem deixar de cobrir seu setor naquele esquema 4-4-2 de Maturana.
O quarteto do meio-campo, por sua vez, tinha funções bem definidas – o que hoje talvez levasse o sistema tático a ser numericamente definido como um 4-2-2-2 em vez de 4-4-2. Jovens apostas de Maturana, os volantes Leonel Álvarez (do Independiente Medellín) e Ricardo Pérez (do Atlético Nacional) haviam estreado naquele ano pela seleção. Pérez havia sido um dos destaques do Once Caldas comandado pelo treinador, enquanto Álvarez logo faria companhia a ambos, juntando-se aos Verdolagas ao fim da competição.

Os dois carregavam o piano para que o grande craque do setor – e do time – pudesse solar com toda a liberdade: Carlos Alberto Valderrama, do Deportivo Cali, havia estreado na seleção ainda nos jogos contra o Paraguai pela repescagem de 1986. Mas seria naquela Copa América que “El Pibe” assumiria com todas as honras o posto de líder técnico da equipe e símbolo de um jogo de toque de bola e belas jogadas. Revelado pelo Unión Magdalena, vinha brilhando pelos Azucareros após passagem discreta pelo Millionarios.
Assim como no clube, Valderrama tinha na seleção a companhia de Bernardo Redín na criação. Este, porém, tinha estilo diferente: mais veloz, impetuoso e driblador, quase um terceiro atacante vindo de trás. Na frente, a Colômbia não contava com um camisa 9 de referência: os dois homens do setor se movimentavam com frequência – mesmo que às vezes houvesse mudança nos nomes. De saída, Juan Jairo Galeano (do Atlético Nacional) tinha a companhia do baixinho Anthony De Ávila, do América. Mas logo isso mudaria.
Autor do segundo gol que sacramentou a vitória por 2 a 0 sobre a Bolívia na estreia, o experiente Arnoldo Iguarán acabou premiado com a vaga entre os titulares no jogo seguinte. Aos 30 anos de idade completados em janeiro daquele ano, “El Guajiro” chegava para sua terceira Copa América, tendo disputado as edições de 1979 e 1983. Revelado pelo Cúcuta Deportivo, viveu período de baixa com seguidas trocas de clube até se reencontrar no Millonarios, para onde se transferiu em 1983. Pela Colômbia, se consagraria naquele torneio.
O começo da campanha
Assim como na abertura do grupo, um público muito pequeno assistiu à estreia colombiana no Gigante de Arroyito. Os números oficiais arredondaram em 5 mil torcedores, mas fontes da época falam em números ainda menores, como apenas 800 pessoas. Quem estava lá testemunhou uma grande exibição dos cafeteros diante dos atônitos bolivianos, que tentavam se impor na base do jogo brusco – o que teria consequências nos minutos finais. Antes, na primeira etapa, a equipe de Maturana já havia aberto a contagem.
A jogada aos 34 minutos nasceu de uma escapada pela ponta direita do volante Leonel Álvarez, que cruzou rasteiro para a finalização de Galeano, bloqueada pelo goleiro Marco Antonio Barrero. De Ávila veio na corrida para pegar o rebote, mas seu chute saiu torto. Para sua sorte, foi parar bem no pé de Valderrama, no bico oposto da pequena área. Com calma, “El Pibe” tocou para as redes e colocou os colombianos em vantagem. O olé aplicado pelos cafeteros em campo era tão grande que os bolivianos começaram a apelar.
O próprio Valderrama levou um pontapé depois de driblar o zagueiro Eduardo Villegas e brincar com a bola na frente do goleiro Luís Galarza (que entrara no lugar de Barrero no intervalo). Nos minutos finais, provocações, agressões e quatro expulsões: Luis Carlos Perea e Ricardo Pérez pela Colômbia e Rolando Coimbra e Roly Paniagua pela Bolívia. E na última volta do ponteiro houve ainda o gol de Iguarán, após belo passe em profundidade de Valderrama, fechando a contagem e mandando os andinos de volta para casa.
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Com as expulsões, a Colômbia ganhou dois desfalques para a decisão do grupo contra o Paraguai no dia 5 de julho. Alexis Mendoza entrou na zaga no lugar de Perea, enquanto Marcos Coll (filho do autor do gol olímpico contra os soviéticos na Copa de 1962) substituiu Ricardo Pérez no meio. Mesmo assim, e a despeito da vantagem de jogar pelo empate, “Pacho” Maturana descartava totalmente a hipótese de mudar o estilo de jogo da equipe, de modo a especular com o resultado, arriscando-se apenas em contra-ataques.
“A principal característica de nossos jogadores é a agressividade. Eles não sabem jogar na defesa. Ficam impacientes quando proibidos de ir à frente. Esse ímpeto é natural, e se for tolhido será um desastre”, comentou o treinador em declarações publicadas pelo Jornal do Brasil. Maturana explicava como pretendia surpreender o adversário, ainda tido como favorito: “Nossa maior arma será fazer o Paraguai correr sem a bola. Nossos jogadores dificilmente erram passes. Se jogarmos assim, sairemos vencedores”, acreditava.

O técnico fez ainda uma terceira alteração na equipe efetivando Iguarán entre os titulares, e o atacante do Millonarios retribuiu de forma irretocável. Aos oito minutos ele já balançava as redes depois que uma reposição longa de Higuita chegou à intermediária paraguaia e rapidamente se transformou numa triangulação em toques de primeira com Redín e Valderrama. O chute forte e cruzado venceu o goleiro Roberto “Gato” Fernández, deixando a Colômbia ainda mais perto da vaga e dificultando a missão do Paraguai.
Veloz e oportunista, Iguarán ampliou ainda no primeiro tempo, aproveitando uma bola raspada de cabeça por Galeano antes de entrar na área e tocar com sutileza na saída de “Gato” Fernández. A partir daí, a Colômbia passou a trocar passes comandada por Valderrama, envolvendo o time paraguaio, que não se acertava em todos os setores e via a classificação cada vez mais distante. Maioria esmagadora nas arquibancadas do Gigante de Arroyito, a torcida paraguaia já hostilizava seus jogadores. Logo o placar ficaria mais elástico.
Após o intervalo, a Colômbia ampliaria aos cinco minutos da etapa final. Hoyos desarmou um ataque paraguaio na lateral esquerda e a bola sobrou para Valderrama, que entregou a Redín. O meia percebeu a infiltração de Iguarán e lançou o atacante furando a linha de impedimento dos paraguaios. “El Guajiro” arrancou sozinho, driblou “Gato” Fernández e tocou para o gol vazio para despachar de vez os guaranis e colocar os cafeteros nas semifinais. Uma atuação de gala do time de Maturana. Um cartão de visitas para o mundo.
Enquanto o ex-favorito Paraguai deixava a competição sem marcar um gol sequer, na lanterna do grupo pelo saldo e à frente apenas da Venezuela na classificação final, a Colômbia avançava para medir forças com o vencedor do Grupo B, cujo desfecho também surpreendeu: após o hesitante 3 a 1 sobre os fracos venezuelanos na estreia, o Chile goleou por 4 a 0 o Brasil de Carlos Alberto Silva (que contava com, entre outros, Careca, Müller, Raí, Romário, Valdo, Ricardo Rocha e o goleiro Carlos), ficando em primeiro na chave.
A queda dramática na semifinal
Numa Copa América em que a maioria das seleções aproveitou para testar a renovação de suas equipes, o técnico chileno Orlando Aravena apostava na experiência: 16 de seus 22 convocados tinham mais de 26 anos e seis dos titulares haviam disputado as Eliminatórias de 1986, quando a Roja chegou à decisão do playoff, mas, a exemplo da Colômbia, caiu para o Paraguai. No elenco havia inclusive remanescentes da Copa de 1982, como o atacante Juan Carlos Letelier e os dois goleiros reservas Mario Osbén e Marco Cornez.
Entre as poucas novidades, o destaque ficava com o atacante Ivo Basay, de 21 anos, que formou com Letelier a dupla goleadora que despachou o Brasil na primeira fase. No banco, havia um ainda mais jovem Iván Zamorano, 20 anos, porém convocado mais para ganhar experiência. Além da forte dupla de frente, os principais nomes eram o bom goleiro Roberto Rojas, que trocaria o Colo Colo pelo São Paulo após o torneio, e o seguro zagueiro Fernando Astengo, que defendia o Grêmio. Sem dúvida uma equipe cascuda.
Para enfrentar a Roja, a Colômbia teria de volta o zagueiro Luis Carlos Perea e o volante Ricardo Pérez, que cumpriram suspensão contra o Paraguai. No ataque, mesmo após a tripleta contra os guaranis, Maturana cogitava tirar Iguarán e trazer de volta o rápido e habilidoso De Ávila, mas de última hora decidiu manter a dupla da partida anterior. O duelo contra os chilenos aconteceria no dia 8 de julho (três dias após a vitória sobre o Paraguai) no estádio de Chateau Carreras, em Córdoba, onde o adversário disputara a primeira fase.

Os chilenos marcavam forte e duro, com atenção especial a Valderrama, mas os colombianos não se intimidaram e começaram atacando e pressionando a saída do adversário. O primeiro tempo foi todo do time de Maturana, com pelo menos três grandes chances e uma defesa bem postada frustrando as tentativas de uma Roja que não se acertava. A primeira grande chance dos cafeteros veio logo aos quatro minutos, quando Redín entrou driblando pela retaguarda andina em ótima jogada individual, mas finalizou fraco e para fora.
Ainda naquela etapa inicial, o gol colombiano esteve perto de sair aos 18, quando Valderrama ajeitou para Ricardo Pérez bater de fora da área no canto de Rojas, mas o goleiro chileno colocou para escanteio. E também aos 24, num cruzamento de Hoyos da esquerda que quase provocou um bizarro tento contra do Chile: a rebatida de Gómez acertou a cabeça de Astengo e voltou para o gol, obrigando Rojas a salvar no reflexo. Com muita mobilidade e troca de passes, a Colômbia sempre achava espaços e era parada com faltas.
Os cafeteros mudaram o ataque no segundo tempo: Iguarán saiu lesionado no intervalo para dar lugar ao jovem John Jairo Tréllez, do Atlético Nacional. E na metade daquela etapa foi a vez de Galeano deixar o jogo para entrar Anthony De Ávila. O Chile, porém, fechou os espaços, tornando o jogo mais amarrado e truncado, sem grandes ocasiões de gol de ambos os lados. E assim a decisão da vaga foi para a prorrogação. Mas, mesmo com o fôlego um tanto renovado, o jogo continuava sem que os dois goleiros fossem exigidos.
Até que perto do fim da etapa inicial do tempo extra, Valderrama fez um belo passe à frente para De Ávila, que entrou na área e foi ensanduichado por dois defensores chilenos, Eduardo Gómez e Patricio Reyes. O árbitro brasileiro Romualdo Arppi Filho apontou a marca da cal sob protestos dos jogadores da Roja. Com calma, tomando pouca distância, Redín deslocou Rojas e deixou os colombianos com um pé na final. Era o que parecia, até em vista do pouco que os chilenos haviam produzido ofensivamente em toda a partida.
Porém, bastou que os times trocassem de lado após o intervalo da prorrogação para vir o empate dos chilenos. No primeiro minuto do reinício, o meia Jaime Vera bateu escanteio, Higuita saiu mal para cortar o cruzamento e Astengo testou da grande área para mandar a bola às redes. Quando o desgaste físico já começava a pesar, o gol de empate se tornou também um baque anímico aos colombianos. E apenas dois minutos depois, o Chile chegou à virada, num rápido contra-ataque, concluído pelo mesmo Jaime Vera.
Depois de passar à frente, o Chile tratou de afastar os ataques colombianos e utilizar sempre que possível do expediente da cera. Nos minutos finais, a Colômbia ainda conseguiu ser envolvente uma vez quando, após uma troca de passes entre Valderrama e Redín, a bola foi até De Ávila, cujo chute cruzado acabou defendido com firmeza pelo goleiro Rojas. No desespero, Higuita chegou a sair da área e arrancar pela meia direita no último lance, mas o apito final interrompeu a jogada e confirmou a vitória chilena por 2 a 1.
Saindo de cabeça erguida
A outra semifinal colocou frente a frente a Argentina, campeã mundial e anfitriã do torneio, e o Uruguai, atual detentor do título sul-americano, num acirradíssimo Clássico do Rio da Prata. E nem mesmo a presença de Diego Maradona em campo e da torcida local nas arquibancadas do Monumental de Nuñez puderam conduzir os argentinos à decisão: a Celeste venceu por 1 a 0, gol de Antonio Alzamendi, e se classificou para disputar a taça com o Chile. Restou aos donos da casa tentar recuperar a honra com o terceiro lugar.
A exigência era a de uma goleada da Albiceleste sobre os colombianos. Até porque os resultados após o título mundial não vinham sendo muito convincentes: a seleção de Carlos Bilardo perdera para Itália e Paraguai em amistosos e só vencera o fraco Equador (3 a 0) naquela Copa América, empatando com o Peru na estreia (1 a 1) e perdendo para o Uruguai nas semifinais. E embora o técnico tivesse convocado vários novatos, a base da equipe ainda era formada por pelo menos sete titulares campeões no México no ano anterior.
Ainda assim, das quatro posições alteradas da Copa do Mundo para a Copa América, duas eram ocupadas por jogadores que já haviam sido reservas imediatos no México: Luis Islas entrou no gol no lugar de Nery Pumpido e Carlos Tapia substituiu Jorge Burruchaga como um dos armadores. Novidades de fato, só na frente: Claudio Caniggia e José Alberto Percudani assumiram os lugares de Jorge Valdano e Héctor Enrique. O time, entretanto, ainda girava em torno de Maradona, que havia acabado de levar o Napoli ao inédito scudetto.
A Colômbia, por sua vez, não teria Iguarán para aquela partida depois que a lesão que o levou a ser substituído contra o Chile foi confirmada como fratura em uma costela. Em seu lugar, porém, não entraria outro atacante, e sim um volante, Gabriel “Barrabas” Gómez, do Millonarios. Além desta, repetiu-se a troca no meio-campo feita no jogo com o Paraguai, com Marcos Coll entrando no lugar de Ricardo Pérez. Maturana preenchia o setor num 4-5-1 com três homens de marcação para liberar o talento de Valderrama e Redín.

Não significava, porém, uma proibição de que estes volantes se lançassem ao ataque. Com efeito, seria um deles o autor do primeiro gol do jogo, logo aos oito minutos. A jogada começou no lado direito com Herrera, que tabelou com Valderrama e fez o passe para dentro buscando Galeano. O único atacante da Colômbia percebeu a passagem de Gabriel Gómez e rolou para o volante, que mandou da intermediária um chute forte e cruzado de pé esquerdo, acertando o ângulo de Islas. Golaço que colocou os cafeteros na frente.
Em vantagem, os colombianos puderam se aproveitar do nervosismo e do desânimo argentino para tocar a bola e envolver o adversário. Quando a equipe de Bilardo buscava o ataque, parava sempre em Higuita, redimindo-se da falha contra o Chile com uma atuação muito segura tanto pelo alto quanto por baixo. O goleiro chegou a salvar uma bola aos pés de Maradona, que recebeu livre e em posição duvidosa um lançamento na área, mas não teve calma para superar o arqueiro antioquenho, um dos destaques da partida.
O segundo gol colombiano amadureceu quando, num contra-ataque, o lateral Hoyos tabelou com Valderrama e arrancou pela ponta esquerda. Depois de passar por José Luis Cuciuffo, tentou um cruzamento que acabou saindo muito fechado e acertou o travessão. O tento enfim viria aos 27: uma reposição longa de Higuita rapidamente chegou a Valderrama, que dominou e fez um passe pelo alto, iludindo a zaga argentina, na direção de Galeano, que entrava livre na área. Aí foi só tocar para as redes tirando do alcance de Islas.
No segundo tempo, a Colômbia administrou a vantagem de dois gols com garra e inteligência, deixando os argentinos atacarem de maneira desorganizada. Ameaça real, só mesmo quando o atacante Juan Gilberto Funes, que entrara no intervalo, acertou a trave num chute forte aos cinco minutos. Da metade daquela etapa em diante, uma forte neblina baixou sobre o campo e quase não se viu mais nada da partida. Nem mesmo o gol de Caniggia, escorando um escanteio, a três minutos do fim, diminuindo para os anfitriões.
A vitória por 2 a 1 sobre a Argentina campeã mundial, com Maradona e tudo, dentro de Buenos Aires converteu-se num momento histórico do futebol colombiano – até ali, a Albiceleste havia vencido sete dos oito confrontos anteriores, com um solitário triunfo cafetero num amistoso em Bogotá, em agosto de 1984. Se o terceiro lugar não chegava a ser a melhor colocação do país na história do torneio, os elogios eram bem mais efusivos que em 1975. Afinal, percebia-se de fato uma evolução na qualidade do jogo colombiano.
Além disso, o ótimo trabalho coletivo da equipe de Francisco Maturana potencializou muitas das individualidades da seleção: Valderrama foi eleito pela imprensa sul-americana o melhor jogador da competição e ao fim do ano ganharia também o prêmio “Rey de América”, como o melhor do continente, instituído pelo jornal uruguaio El País. E mesmo tendo ficado de fora do confronto com os argentinos pelo terceiro lugar, Iguarán sagrou-se o artilheiro do torneio com quatro gols, um a mais que Maradona e o chileno Letelier.
Um novo horizonte
“Creio que esta é a linha a ser seguida pelo futebol do meu país, que está evoluindo”, afirmou Maturana antes do jogo contra os argentinos, um discurso endossado pelo meia Bernardo Redín: “Jogamos sempre assim e é o que procuraremos fazer futuramente, pois o futebol colombiano está mudando de mentalidade”. Com efeito, aquele torneio representaria uma transformação no estilo de jogo do país, o qual, junto com o surgimento de uma nova geração de talentos, levaria a Colômbia a subir de patamar no cenário mundial.
No caminho até a Copa do Mundo de 1990, as mudanças seriam pontuais. O veterano Nolberto Molina, por exemplo, cederia seu posto a um líbero do mesmo perfil e categoria: Andrés Escobar. Na lateral-esquerda, o ascendente Gildardo Gómez ganharia a briga com Hoyos. E o bonito gol contra a Argentina começaria a fazer Gabriel “Barrabas” Gómez ganhar uma vaga no meio-campo no lugar de Ricardo Pérez. E em fevereiro de 1990, já às vésperas do Mundial, estrearia no ataque da seleção o jovem Freddy Rincón.

Os dois primeiros novos titulares, Escobar e Gildardo Gómez, eram pilares defensivos do Atlético Nacional, que seguiria dirigido paralelamente por Maturana e conduzido pelo treinador à sua glória maior: a conquista da Copa Libertadores da América de 1989, numa dramática decisão nos pênaltis contra o Olimpia. Era o primeiro título continental da história do futebol do país. E o mundial quase veio contra o Milan de Arrigo Sacchi, em Tóquio: um gol de falta de Evani no último minuto da prorrogação pôs fim ao sonho.
O treinador deixaria o comando do clube e da seleção após a Copa do Mundo de 1990, quando a seleção arrancou um empate histórico diante da futura campeã Alemanha Ocidental na primeira fase, mas acabou caindo nas oitavas diante da sensação Camarões. Seu destino seria o futebol espanhol, mais exatamente o Valladolid. Um ano depois, ele chegou a estar apalavrado com o Real Madrid, mas o clube desfez o trato inicial e acabou mantendo o iugoslavo Radomir Antic no cargo. E o colombiano retornaria a seu país.
Campeão nacional com o América de Cali em 1992, Maturana seria reconduzido ao comando da seleção para as Eliminatórias da Copa de 1994, em que a goleada histórica de 5 a 0 diante da Argentina em Buenos Aires foi o ponto alto de uma campanha brilhante. Era uma Colômbia um pouco mais renovada: Óscar Córdoba no gol, Wilson Pérez na lateral-esquerda, Rincón recuado ao meio-campo como armador ao lado de Valderrama e a rápida dupla de ataque formada por Faustino Asprilla e Adolfo Valencia.
Era uma seleção cotada até ao título, mas que decepcionou: com as derrotas para a Romênia (3 a 1) e os anfitriões dos Estados Unidos (2 a 1), nem mesmo a vitória sobre a Suíça na despedida (2 a 0) adiantou para levar a equipe além da primeira fase. Na volta, ainda haveria como desfecho o assassinato do zagueiro Andrés Escobar. A Colômbia ainda disputaria sua terceira Copa seguida em 1998, na França, mas desta vez sob o comando de Hernán Darío “Bolillo” Gómez, ex-auxiliar de Maturana. E de novo cairia na fase de grupos.
Maturana ainda retornaria duas vezes ao comando da seleção. Na primeira, em 2001, levaria a Colômbia a seu primeiro – e ainda hoje único – título da Copa América, em edição sediada no país. Mas seu feito mais marcante foi ter alçado o futebol cafetero a um status dentro do jogo sul-americano e mundial o qual o país nunca havia ocupado, além de carregar um DNA ofensivo, às vezes até artístico. Um futebol com o qual o povo colombiano sempre se identificou e que explica o carinho com aquela safra de talentos.
Em texto para o site Gol Caracol, o jornalista Alejandro Pino Calad explicou o simbolismo daquela geração para o país não só em termos futebolísticos, mas estéticos e até políticos, já que exibiam ao mundo uma outra imagem da Colômbia, então sob o terror do narcotráfico. E lembrou: “Pela primeira vez em muito tempo, as crianças de uma geração, ao jogarem bola em seus campinhos de bairro, não pediam para ser Maradona, Pelé, Gottardi, Falcioni ou Cabañas. Jogavam para ser um colombiano: Valderrama, Iguarán ou Higuita”.



