Ásia/Oceania

No cargo ‘mais difícil do mundo’, técnico da Palestina contesta Israel através do futebol

Ehab Abu Jazar trata o esporte como forma de resistência ao povo palestino

O conflito atual entre Israel e o grupo terrorista Hamas deixou mais de 60 mil palestinos mortos em ataques da nação israelense, vítima de um atentado em outubro de 2023 que iniciou a guerra. Em um contexto assim, o futebol não é das coisas mais importantes, mas aparece como uma forma de resistência, como definiu o técnico da seleção palestina, Ehab Abu Jazar.

Em entrevista ao jornal italiano “Gazzetta dello Sport”, o treinador de 45 anos definiu o seu trabalho como o “mais difícil do mundo do futebol” atualmente e contou como o esporte serve também como uma mensagem contra o país que ataca a Faixa de Gaza.

Através do futebol queremos mostrar que a imagem pintada por Israel é falsa. Cada partida é uma prova de força das nossas raízes, da nossa resiliência e do nosso direito de viver com dignidade e segurança — disse Abu Jazar ao periódico, que entrevistou o profissional enquanto ele estava em um posto de controle na fronteira palestina.

— O papel transcende o esporte. Trata-se de contar ao mundo o nosso calvário e transformar a dor em força. Treinar a Palestina é uma forma de resistência. Você carrega o peso da esperança e cultiva a resiliência de quem faz parte disso — reiterou o técnico em outra resposta.

Os ataques nos territórios palestinos obrigam que a seleção local não mande uma partida realmente em casa há 2155 dias. A última vez aconteceu em 15 de outubro de 2019, 0 a 0 contra a Arábia Saudita em Al-Ram.

— Como técnico, você treina uma equipe que não pode jogar diante de seus torcedores, que não pode reunir seus jogadores em casa e que não pode se comunicar livremente por causa de bloqueios e restrições impostas pela ocupação — disse.

— Somos a voz de um povo. Levamos esperança e tiramos força da nossa gente. Cada mensagem que transmitimos através do futebol faz parte de uma luta maior: a pela liberdade — complementou.

Ehab Abu Jazar comemora vitória da seleção palestina
Ehab Abu Jazar comemora vitória da seleção palestina (Foto: Divulgação)

Auxiliar do técnico da seleção da Palestina morreu em ataque de Israel

Desde o início do conflito, 785 pessoas ligadas ao futebol na Palestina, sejam jogadores, técnicos, árbitros ou dirigentes, morreram, segundo dados da Associação Palestina de Futebol (PFA na sigla local). Entre eles está Hani Al-Masdar, então auxiliar da seleção principal e técnico do selecionado olímpico, em janeiro de 2024.

— Poucas histórias me marcaram tanto quanto a morte do meu auxiliar. Ele era meu braço direito na seleção olímpica. Um herói. Foi morto enquanto entregava ajuda, viajando do norte ao sul para apoiar os necessitados — lamentou o treinador da Palestina.

Ehab Abu Jazar relembrou a morte de Suleiman Al-Obeid, o “Pelé da Palestina”, como exemplo da dor que passa a Faixa de Gaza.

— Al-Obeid morreu enquanto estava na fila por comida, forçado pela guerra a buscar alimento para si e para seus filhos. O contraste entre essa morte e a de Al-Masdar diz muito sobre a nossa tragédia. Um morreu ajudando os necessitados. O outro porque precisava de ajuda. Quanta dor o mundo terá que assistir antes que esses massacres sejam interrompidos? — indagou.

Além do colega de seleção, o treinador perdeu mais de “250 pessoas entre parentes, colegas e amigos”. Seus jogadores também sofreram duras perdas, enquanto ele tenta incentivá-los para continuarem jogando.

— No elenco há quem perdeu a mãe, o pai, o irmão. A única coisa que posso dizer é para não desistirem. Para não deixarem que os sacrifícios e sofrimentos sejam em vão. Apesar da ocupação e dos massacres, somos um povo que ama a vida. A Palestina tem uma cultura de poetas, artistas, pensadores, atletas.

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Palestina quase manteve vivo sonho da Copa do Mundo

Em junho, o selecionado palestino vencia Omã até os 50 minutos do segundo tempo, resultado que colocava o time na fase seguinte das Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo de 2026. Os comandados por Abu Jazer, porém, sofreram o empate em penalidade e foram eliminados.

— Estivemos a um milímetro da história. O gol de Omã aos 97 minutos nos derrubou, mas por alguns instantes levamos alegria ao coração do nosso povo. Conseguimos distraí-los do horror — disse.

O técnico relembrou um episódio que aconteceu em março, quando a Palestina venceu o Iraque e manteve vivo o sonho do Mundial. “Recebemos vídeos de Gaza em que famílias juntavam o pouco dinheiro que restava para comprar gasolina para os geradores e assistir à partida”, disse.

— Essas imagens foram um lembrete do peso que carregamos. O orgulho de representar uma nação ferida que não quer ceder — finalizou.

Time titular da seleção palestina em jogo das Eliminatórias
Time titular da seleção palestina em jogo das Eliminatórias (Foto: Divulgação)

Sem Eliminatórias, a seleção palestina perdeu para Malasia em amistoso na última segunda-feira (8). A equipe volta a campo só em novembro, pela qualificação à Copa Arábe, contra a Líbia, sendo mandante em Doha, no Catar.

Outras respostas da entrevista de Abu Jazer, técnico da Palestina

O que mais teme?

O telefone. Quando voltamos para o vestiário, temos dificuldade em checar as notificações. Aquele aviso, que para milhões já virou rotina, tornou-se uma fonte de ansiedade: pode nos dizer que um amigo ou parente morreu.

O que significa ficar tanto tempo longe de casa?

“Você se sente vazio, isolado, como se lhe faltasse uma parte que não sabe quando será devolvida. Nasci em Rafah, no sul da Faixa de Gaza. Hoje é uma cidade que praticamente não existe mais: foi arrasada.”

Como é sair do país?

“Os checkpoints controlados por Israel são a etapa mais extenuante para os palestinos. Às vezes leva de cinco a oito horas para percorrer um quilômetro. Não é um detalhe, é o primeiro sinal de como é difícil fazer parte da seleção palestina.”

Como está a situação esportiva na Palestina?

“Entre nós, o esporte não existe mais. Está paralisado por mortes, prisões, postos de bloqueio, escombros. Mais de 280 infraestruturas esportivas foram danificadas ou destruídas. Algumas foram usadas como centros de detenção para interrogar prisioneiros. O campeonato está suspenso há três anos e não há competições de base. O número de mortos ligados ao esporte é 774: entre eles jogadores, membros de federações e outros. Quando preciso convocar, busco jogadores no exterior ou atletas sem clube que treinam em outros países.”

Antes de entrar em campo, o que vocês falam uns aos outros?

“Resistir enquanto tivermos fôlego e pulmões.”

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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