Ásia/Oceania

Matheus Pereira abre mão das ótimas perspectivas esportivas para buscar a independência financeira no Al Hilal

Depois de sua ótima temporada no West Brom, Matheus Pereira preferiu a proposta suntuosa do Al Hilal em vez de galgar degraus na Inglaterra

Durante a reta final da Premier League, quando o rebaixamento do West Brom era praticamente certo, Matheus Pereira parecia jogar por seu futuro. O meia tinha conduzido o acesso na Championship e mantinha a excelente forma também na primeira divisão. Acumulou várias atuações fantásticas contra times de peso da Inglaterra, sobretudo contra o Chelsea, e mostrou como merecia permanecer na elite do futebol europeu mesmo com o descenso. De fato, o brasileiro faz as malas do Estádio Hawthorns e consegue um contrato mais vantajoso para si. Porém, apenas no aspecto financeiro, já que esportivamente Matheus parece perder bastante com sua transferência para o Al Hilal. Aos 25 anos, o mineiro assinou por cinco temporadas com os sauditas.

Durante as últimas semanas, a cisão de Matheus Pereira com o West Brom ficou bastante clara. O técnico Valerien Ismaël não escondia a insatisfação com o brasileiro e acusava-o de não estar comprometido com o clube, comparando sua postura com a do goleiro Sam Johnstone, outro nome bastante especulado no mercado de transferências. Em sua defesa, o meia publicou uma carta em suas redes sociais garantindo que não queria sair a qualquer custo e que seguia treinando normalmente. Também apontava que não “gostaria de sair pela porta dos fundos”, salientando sua intenção de “recompensar o clube de forma justa”.

Pelo cenário, a permanência se sugeria insustentável com a insatisfação do técnico e do jogador. Em sua postagem, além do mais, Matheus Pereira revelava uma proposta que “mudaria sua vida e da família”, garantindo “independência financeira aos 25 anos de idade”. O Al Hilal estava na jogada e isso pesou na decisão do meia em buscar novos rumos. O West Brom conseguiu um bom lucro, vendendo o mineiro por €18 milhões após comprá-lo em definitivo na temporada passada por €8 milhões. Apesar disso, fica a impressão de que, pela valorização na Premier League passada, a agremiação poderia ter faturado mais. Segundo o site The Athletic, a ideia era receber por volta de €30 milhões com a venda, mas a ruptura e as necessidades imediatas aceleraram a despedida.

O próprio Matheus Pereira poderia ter permanecido na Premier League se quisesse. Clubes como o Aston Villa, o West Ham, o Leeds United e o Leicester City foram vinculados à negociação pela imprensa inglesa. Não seria um time exatamente de ponta e o salário do brasileiro ainda ficaria aquém do que receberá na Arábia Saudita, mas ele poderia galgar mais alguns degraus com o tempo. E não que estivesse totalmente escondido, ainda mais considerando a presença do Leicester na Liga Europa.

Outro caminho a Matheus Pereira para conseguir um contrato melhor seria ter paciência e apostar em si novamente na Championship. No atual cenário de retração das finanças do futebol, com o restabelecimento dos clubes após a pandemia, talvez a melhor proposta não chegasse nesta janela de transferências. Desta forma, poderia seguir no West Brom, num ambiente no qual estava adaptado, e sobrar outra vez na segundona em busca do acesso. Foi o que aconteceu com Emiliano Buendía no Norwich, levando outra vez os Canários à elite e saindo valorizado para o Aston Villa. Mas, com as cifras sauditas o atraindo, Matheus optou por não esperar.

A escolha de Matheus Pereira possui seus prós, lógico. O meia jogará num dos maiores clubes da Ásia, com chances de virar um grande ídolo local e de incrementar ainda mais seus salários. Vai ser uma das estrelas da liga e, com 25 anos, ainda tem tempo para retornar à Europa dentro de algumas temporadas. Em contrapartida, o brasileiro também sai do radar principal do futebol. Afasta as possibilidades concretas que tinha de atuar pela seleção brasileira em curto prazo ou mesmo por um clube de maior nível na Premier League. No West Brom, as chances de um salto rumo a camisas mais pesadas era bem mais imaginável do que no Al Hilal.

O caso de Matheus Pereira, em partes, lembra o de Alex Teixeira. Em 2016, o meia do Shakhtar estampava manchetes em diferentes países e era pretendido pelo Liverpool. Preferiu a independência financeira na China, mas deixou para trás a possibilidade de atuar em seu melhor nível nas ligas principais. Hoje aos 31 anos, Teixeira retorna à Europa para defender o Besiktas. Matheus Pereira precisa ter a consciência de que também abre mão do seu melhor nível para se acomodar no Campeonato Saudita. Talvez o retorno à Europa não aconteça antes de completar 30 anos.

Matheus Pereira tem idade para saber o que se perde com a sua decisão, em troca do dinheiro que ganhará. Mas é uma pena notar que seu talento arrebatador não seguirá presente em campeonatos importantes. Pela forma como jogou na Premier League passada, estava evidente como o brasileiro tinha bola para se encaixar em equipes da parte superior da tabela na competição. A proposta mais vantajosa pode não ter vindo de primeira, mas dificilmente deixariam sua qualidade limitada à Championship por tanto tempo. Com sua escolha, o meia afasta tal possibilidade no curto prazo.

A adaptação no Al Hilal não deve ser problema. O clube contratou Leonardo Jardim para ser o novo técnico na temporada que começa. Já a legião estrangeira inclui Gustavo Cuéllar, André Carrillo e Luciano Vietto entre os sul-americanos, além de Moussa Marega, Bafétimbi Gomis e Sebastian Giovinco. A diferença em relação a todos os companheiros é que eles parecem ter deixado no passado sua melhor forma ou então não possuem tanta capacidade para vingar nas grandes ligas. Com Matheus Pereira é diferente, pensando na curva ascendente que vinha em sua carreira. O caminho agora parece mais longo para manter essa crescente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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