Ásia/Oceania

Técnico português que fez campeonato quase perfeito saiu antes de ser campeão

Profissional esteve invicto por quase toda competição na Jordânia e caiu na única derrota do Al Hussein

Contratado pelo Al Hussain, da Jordânia, em setembro do ano passado para temporada 2024/25, João Mota, profissional com passagens no Brasil, fazia um trabalho quase perfeito em resultados. No Campeonato Jordaniano, o técnico português assumiu a partir da sexta rodada e até a 20ª tinha vencido 11 vezes e empatado três. Nesse mesmo período, levou o time para semifinal da copa local, além de ter sido campeão da Supercopa.

Com esses resultados, a equipe liderava os pontos corridos nacionais com quatro pontos de vantagem a quatro rodadas do fim — a distância chegou a ser de oito de pontuação, mas três empates seguidos atrapalharam o time.

Eis que em 18 de abril, tudo mudou. Nesse dia, ao conhecer sua primeira derrota na Pro League da Jordânia sem cinco titulares, todos lesionados, com a derrota para o Al-Wehdat por 2 a 1, o técnico português foi demitido de forma que até hoje encontra dificuldades em explicar. Ele foi substituído pelo técnico local Ahmad Hayel.

— Os três jogos a seguir eram mais fáceis. Eu pensei: ‘tranquilo, perdemos um jogo, mas vamos para cima, os lesionados vão se recuperar’. Só que na manhã após o jogo, o presidente mandou uma mensagem e eu fui despedido por WhatsApp. Ele me disse que teve, durante a noite, uma reunião com investidores, conselheiros, não sei o que do clube, e, que apesar de não concordar do que foi debatido, aceitou a decisão de me demitir — revelou Mota em conversa exclusiva com a Trivela via ligação telefônica.

Após saída de João Mota, Al Hussain sofreu para ser campeão

Logo na rodada seguinte à saída do comandante português, o time da cidade de Irbid empatou e viu o rival que o derrotou no jogo anterior tomar a liderança faltando duas partidas para acabar o Campeonato Jordaniano. “Pronto, aí perderam o campeonato e o culpado era eu, né? Saio com o time em primeiro lugar, só dependia de mim, o cara a seguir assume e empata”, brincou o técnico.

O Al Hussain, porém, conseguiu a taça de forma emocionante. Sem dificuldades, o time conquistou duas vitórias nas últimas rodadas. O Al-Wehdat também saiu com três pontos na penúltima e no jogo derradeiro vencia até os 90 minutos, mas sofreu o empate que significou o bicampeonato ao ex-clube de João Mota no início deste mês.

— Aí todos já se esqueceram outra vez de tudo sobre a demissão e a glória foi toda para o outro rapaz, meu sucessor — afirmou em tom irônico.

O português havia deixado seus comandados na semifinal da Copa da Jordânia e eles venceram, se classificando para decisão. Porém, ao reencontrarem o Al-Wehdat, empataram no tempo normal e perderam nos pênaltis.

— A gente não adivinha o futuro, mas a verdade é que eu acho que conseguiríamos o triplete [supercopa, campeonato e copa] porque eu conhecia bem o rival. […] Havia essa possibilidade, mas não aconteceu. Foi um trabalho de nove meses contra três semanas [do sucessor]. Vejo que meu trabalho que revolucionou o time, não o seguinte — completou.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Antes de ser demitido por mensagem, português já tinha passado pelo Al Hussein

O profissional de 58 anos é um andarilho do futebol. Entre técnico principal, sub-20 e auxiliar passou por oito times só no Brasil, além de outras experiências na Arábia Saudita, Sudão e outros países nos continentes asiático e africano. Antes da última demissão, ele já tinha trabalho no Al Hussein entre abril de 2023 e fevereiro de 2024.

Na ocasião, também montou um time superforte e deixou os deixou na liderança com sete pontos de vantagem ao término do primeiro turno. Só que a longa temporada jordaniana, com muitas pausas, somada a uma proposta tentadora do Al-Jabalain FC, da segunda divisão da Arábia Saudita, o fizeram deixar o projeto.

— Já estava na Jordânia há dez meses e nem tinha feito o segundo turno. Estava sendo temporada muito longa, muita parada por conta do futebol de seleções. Apesar de estar muito bem aqui, jogando um bom futebol e destacadíssimo no primeiro lugar, eu recebi uma proposta da Arábia Saudita, e eu, se calhar de uma forma precipitada e errada, aceitei.

Ao mesmo tempo em que João Mota enfrentou dificuldades financeiras do clube saudita e precisou sair, o Al Hussein manteve o bom trabalho do treinador e conquistou seu primeiro título nacional na Jordânia — também com emoção e só garantido na última rodada.

O time jordaniano definitivamente mudou desde a chegada do português. A equipe só tinha vencido em sua história uma supercopa (2003) e três vezes a Jordan Shield Cup, de importância parecida a um estadual no Brasil. Além de conquistar dois campeonatos nacionais e outra supercopa, o Al Hussein ainda participou pela primeira vez da AFC Champions League Two, como se fosse a “Sul-Americana” da Ásia, com Mota, caindo nas oitavas nesta temporada.

— Quando cheguei ao clube, ninguém o conhecia, nunca tinha sido campeão nacional. Comigo e com o presidente que me contratou, o Al Hussein deu uma alavancada. Ainda fizemos uma grande Champions, sendo eliminado para o Sharjah, que seria campeão depois.

O técnico português João Mota
O técnico português João Mota (Foto: Divulgação/Al Hussein)

João Mota não entende falta de oportunidades no Brasil

O técnico português tem uma relação especial com o Brasil. Ele trabalhou pela primeira vez em solo brasileiro em 2013, quando foi auxiliar de Karmino Colombini na Aparecidense-GO e teve um “choque cultural” a ver como se levava tão a sério o aspecto físico no país do futebol.

A raiz brasileira, porém, se firmou em 2014, momento que treinava o Dibba Al-Hisn, dos Emirados Árabes, e conheceu a irmã do preparador de goleiros Nilson Pizzo, Claudia, que se tornaria sua esposa. A partir daí, passou a morar em São Paulo, alternando entre a capital e a cidade de Atibaia, no interior.

Nesse período, sofreu para encontrar emprego no Brasil por dois anos e precisou ser sustentado pela mulher enquanto não encontrava um trabalho. A oportunidade veio no time sub-20 do Guarulhos em 2017, depois passando pela mesma categoria na Portuguesa e no profissional por Rio Branco-AC, Operário-MT, Juventus-SC (sem sequer estrear, pois foi para o Al Hussein), Botafogo-BA e EC Tigres-RJ.

Ele sonha com outra oportunidade no futebol brasileiro, o qual define como um dos “melhores do mundo”, em algum time das Séries B ou C, mas não entende o porquê de não receber convites.

— Infelizmente não dá para ficar aqui perto de casa. Eu como treinador quero sempre ter bons jogadores. E aqui no Brasil, com mais facilidade, tu tens bons atletas. O brasileiro é o melhor do mundo, mesmo falando agora mesmo em segunda divisão.

Sem espaço aqui, ele aguarda o fim da temporada no chamado “mundo árabe” para emplacar outro trabalho em clubes do Oriente Médio, onde já ostenta experiência.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo