Ásia/Oceania

O que levou o Al-Ittihad a não atuar no Irã pela Champions Asiática?

O Al-Ittihad deveria enfrentar o Sepahan no interior do Irã, mas se recusou a entrar em campo por causa de um busto em homenagem ao general Qassem Soleimani, pivô de disputas com a Arábia Saudita

Até a temporada passada, clubes do Irã e da Arábia Saudita precisavam se enfrentar em campo neutro pelas competições asiáticas. A disputa geopolítica entre os dois países levava a Confederação Asiática de Futebol (AFC) a tomar uma postura cautelosa em relação ao tema. Com o rompimento diplomático entre ambos, em 2016, as partidas entre sauditas e iranianos passaram a ser levadas a países neutros. Tal medida foi suspensa na atual edição da Champions Asiática, diante da reaproximação entre os estados. Na primeira rodada do torneio, a visita do saudita Al-Nassr ao iraniano Persepolis causou enorme comoção em Teerã. Os atritos, no entanto, não demoraram a acontecer. Nesta terça-feira, o Al-Ittihad se recusou a enfrentar o Sepahan, numa decisão exatamente calcada nos conflitos locais.

O Al-Ittihad não quis entrar em campo por causa da existência de um busto, à beira do campo, em homenagem a Qassem Soleimani. O general, assassinado por um ataque de drone dos Estados Unidos em janeiro de 2020, era a principal liderança militar do Irã. Sua unidade especial do exército é considerada terrorista pelo governo da Arábia Saudita, por sua atuação junto a milícias xiitas e por ameaças a oficiais sauditas. Especialmente desde a última década, existiram conflitos ao menos indiretos entre as forças de Soleimani e os sauditas – por exemplo, com os iranianos apoiando milícias no Iêmen contra a intervenção militar da Arábia Saudita e os sauditas apoiando os insurgentes na Síria enquanto o Irã ajudava a sustentar o governo local.

Os próprios membros do Al-Ittihad teriam se recusado a atuar, enquanto o busto Soleimani não fosse retirado do estádio. Além da estátua, os oficiais aurinegros justificavam a existência de outros entraves não especificados. Diante do impasse, o Al-Ittihad abandonou o estádio. O ônibus com o elenco se dirigiu direto rumo ao aeroporto. As arquibancadas do Estádio Naghsh-e-Jahan, com capacidade para 70 mil pessoas, estavam lotadas. Os jogadores do Sepahan chegaram a sair para o aquecimento no gramado, enquanto os torcedores faziam uma bonita festa no local. Todavia, com o imbróglio, a torcida jogou objetos no gramado. Segundo relatos da imprensa local, ocorreram inclusive protestos contra o governo e pedindo a retirada do busto, em meio à insatisfação iraniana com o regime local nos últimos meses.

Em nota oficial, a AFC manteve um tom de neutralidade: “A partida do Grupo C da Champions League, entre Sepahan e Al-Ittihad, marcada para acontecer nesta noite no Estádio Naghsh-e-Jahan, em Esfahan, foi cancelada devido a circunstâncias imprevistas. A AFC reitera o seu compromisso em garantir a segurança dos jogadores, árbitros, torcedores e todas as partes envolvidas. Este assunto será agora encaminhado às comissões competentes”. O detalhe é que outro jogo entre iranianos e sauditas acontecerá nesta terça-feira pela Champions Asiática, com a visita do Al-Hilal ao Nassaji Mazandaran em Teerã.

O Al-Ittihad é o atual campeão saudita. O clube sediado em Jeddah é considerado o mais antigo do país e também é um dos mais vitoriosos. Os aurinegros recebem o financiamento do fundo soberano da Arábia Saudita, que possui 75% de suas ações, e conta com ligações com o governo. A equipe é treinada por Nuno Espírito Santo e tem o destaque dos brasileiros Romarinho, Marcelo Grohe, Igor Coronado, Luiz Felipe e Fabinho. Karim Benzema, N’Golo Kanté e Abderrazak Hamdallah são os outros estrangeiros.

Já o Sepahan é o principal clube do interior do Irã e o terceiro maior campeão nacional. A equipe fica localizada em Esfahan, terceira cidade mais populosa do país e principal centro urbano além de Teerã. O clube é financiado pela indústria metalúrgica da região e também possui ligações com o poder público iraniano. O elenco atual conta com nomes conhecidos da seleção local, como Ramin Rezaeian e Omid Noorafkan. O treinador é José Morais, antigo assistente de José Mourinho, enquanto o zagueiro brasileiro Nilson Júnior, levado do Sampaio Corrêa, é um dos raros brasileiros.

Durante os últimos anos, o Sepahan realizou diferentes homenagens ao general Qassem Soleimani. Além do busto erguido no estádio, chegou a também usar o rosto do militar assassinado em camisas. Há três anos, o clube ameaçou um boicote à Champions Asiática em 2020/21, ao lado de outros times iranianos, logo após o assassinato de Soleimani. A AFC proibiu jogos em território iraniano, também por causa das retaliações promovidas pelo exército local. No entanto, a competição seria interrompida por causa da pandemia e o boicote foi deixado de lado após a retomada do torneio, com todas as partidas em campo neutro.

As tensões Irã-Arábia Saudita e a imagem de Soleimani

As tensões entre Arábia Saudita e Irã se intensificaram sobretudo desde o último século, entre países que possuem suas distinções em aspectos religiosos e culturais. Especialmente a partir de 1979, enquanto o Irã passava a ser governado por lideranças xiitas e rompia com as interferências do ocidente, a Arábia Saudita, de maioria sunita e centro importante do Islã, mantinha uma posição mais próxima dos Estados Unidos. Desde então, a maior parte dos conflitos no Oriente Médio teve sauditas e iranianos em posições antagônicas, com ambos disputando a influência na região. Os dois países romperam relações pela primeira vez no final dos anos 1980, antes de reatarem em 1990. Já o afastamento mais longo ocorreu a partir de 2016.

A cisão diplomática entre Irã e Arábia Saudita na última década teve diferentes razões. Os iranianos acusavam a responsabilidade dos sauditas pelas mortes de peregrinos no país, bem como de uma liderança xiita. Também ocorreram bombardeios contra a embaixada do Irã na cidade de Sanaa, durante a intervenção militar da Arábia Saudita no Iêmen. Do outro lado, a embaixada saudita em Teerã foi atacada por iranianos, com bombas atiradas no local. O rompimento envolveu não apenas os dois países, como também dividiu a geopolítica no Oriente Médio entre as duas grandes influências. Ao longo dos últimos anos, existiram algumas tentativas de reaproximação, entre elas as encabeçadas pelo Iraque.

A morte do general Qassem Soleimani aconteceu neste contexto. Soleimani é considerado um herói nacional por muitos iranianos e possuía uma relação próxima com Aiatolá Khamenei, líder do país desde 1989. No entanto, sua figura era questionada em diversos outros países do Oriente Médio. O general liderou campanhas em conflitos no Iraque, no Afeganistão, no Líbano, no Iêmen e na Síria, em defesa dos interesses do governo iraniano – o que afetava os interesses sauditas. A unidade especial do exército que chefiava era acusada de apoiar milícias xiitas e alguns países a consideravam como um grupo terrorista, incluindo a Arábia Saudita. A chamada Quds Force teria planejado inclusive o assassinato do embaixador saudita nos EUA em 2011. Em 2019, Soleimani também ameaçou retaliações contra sauditas após um ataque a bomba em território iraniano.

O atentado que assassinou Soleimani em janeiro de 2020 aconteceu quando o general visitava o Iraque, exatamente num encontro com o primeiro ministro do país relacionado às tensões com a Arábia Saudita, com uma abertura ao diálogo entre os países. Os Estados Unidos realizaram o ataque a Soleimani sob a justificativa de que o militar iraniano dava suporte a ações de milícias xiitas contra a diplomacia americana, sobretudo após o ataque à embaixada em Bagdá. Apesar das relações fortes da Arábia Saudita com os Estados Unidos, o governo saudita não chegou a ser consultado sobre os planos dos militares americanos para assassinar Soleimani. Por conta do diálogo estabelecido, os sauditas adotaram uma postura cautelosa após o atentado.

Diante da morte de Soleimani, a reaproximação entre Arábia Saudita e Irã levou ainda mais tempo para acontecer. Somente em março de 2023, sob intermédio da China, autoridades de ambos os países voltaram a assinar acordos. As embaixadas dos países seriam reabertas, com novas relações comerciais e culturais previstas para os próximos meses. As potências prometiam respeitar a soberania entre si e não interferir em assuntos internos. A retomada dos jogos na Champions Asiática dialogava com essa reaproximação.

Todavia, a imagem de Soleimani ainda era um ponto de atrito nesse processo de reaproximação diplomática. Em junho, o Ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita estava em Teerã para um encontro com o Ministro das Relações Exteriores local e pediu para que uma coletiva de imprensa fosse mudada de lugar por causa de um retrato do general na parede. Os iranianos aceitaram o pedido. O ministro saudita ressaltou que as relações entre os países eram baseadas “num respeito mútuo e completo pela independência, soberania e não-interferência em assuntos internos”. Já o ministro iraniano ressaltou que Soleimani era um “símbolo da irmandade muçulmana” e um “herói da luta contra o sionismo e o terrorismo”. O histórico de atuação de Soleimani no Oriente Médio, controverso, parece responder também sobre a postura do Al-Ittihad nesta segunda-feira.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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