Ásia/Oceania

A história de vida do herói iraquiano na classificação às Olimpíadas merece um filme

O Iraque já viveu momentos mais intensos de conflito, mas ainda está distante de contar com uma rotina tranquila. Os ataques terroristas e o cenário de guerra permanecem acuando a população, embora os atores tenham mudado desde a última década. Por isso mesmo, a classificação da seleção sub-23 aos Jogos Olímpicos de 2016 serve como uma válvula de escape para a realidade dura enfrentada pelos iraquianos. A conquista da vaga, após vitória sofrida sobre o Catar, motivou a comemoração nas ruas. Além disso, ajudou a evidenciar um novo herói nacional. Autor do gol decisivo na prorrogação, Ayman Hussein simboliza a luta diária de outras tantas pessoas que convivem com a guerra.

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A história do jovem atacante é cercada por tantas tragédias que parece até mesmo o roteiro de um filme. Quando tinha apenas sete anos de idade, Hussein ficou órfão. O pai era do exército iraquiano e, durante as primeiras semanas da invasão americana em 2003, morreu na explosão de um carro-bomba pela Al-Qaeda. Contudo, o seu drama de vida se tornou mais intenso a partir de 2014, quando o Estado Islâmico tomou sua cidade, localizada na província de Kirkuk, ao norte do país.

Militantes do EI sequestraram o irmão de Hussein, o que forçou o atacante a se refugiar em Bagdá ao lado da mãe, que sofria com graves problemas de saúde. Na capital, o garoto passou algum tempo desabrigado, mas ganhou a chance de defender o Al-Naft, clube da primeira divisão. Entretanto, sofreu outro golpe duríssimo quando Mohammed Jekah, o técnico responsável por lançá-lo entre os profissionais ainda em Kirkuk, foi assassinado em ataque terrorista do Estado Islâmico.

Apesar de todos os traumas, Hussein se concentrou no futebol e passou a ser considerado uma das grandes promessas do país, a ponto de ser convocado à seleção principal. No pré-olímpico, no entanto, o atacante se manteve como titular apenas em parte dos jogos. Mas ao menos tornou-se protagonista do principal momento. O camisa 18 saiu do banco na decisão do terceiro lugar e fez, na prorrogação, o que definiu a vitória por 2 a 1 sobre os catarianos, em Doha. O gol que valeu a viagem ao Rio de Janeiro, recolocando o Iraque nas Olimpíadas após a grande história já vivida em 2004.

“Eu ainda estou lidando com as circunstâncias difíceis. Porém, a classificação para os jogos olímpicos me motiva para dar orgulho à minha família, ao meu povo e ao meu país”, afirmou Hussein à Associated Press, recebido por uma multidão de torcedores no desembarque de volta a Bagdá. Durante a comemoração da classificação, o elenco ainda dedicou o feito a Mahdi Abdul-Zahra. O defensor faleceu em março, aos 19 anos, durante a explosão de um carro bomba em Bagdá.

No Rio de Janeiro, Hussein e seus companheiros terão a chance de dar um alento à população iraquiana, assim como de realizar um sonho. E as expectativas sobre o atacante são altas. Ainda em 2015, o garoto recebeu elogios de ninguém menos do que Younis Mahmoud – camisa 10 e capitão na conquista da Copa da Ásia de 2007, além de indicado à Bola de Ouro daquele ano. Segundo o veterano, também nascido em Kirkuk, o jovem é bom o suficiente para ser o seu substituto na seleção principal. Ao menos como orgulho nacional, Hussein já começou a seguir os passos do maior herói do futebol no Iraque.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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