Libertadores

Quatro anos depois: O que mudou em Flamengo e Palmeiras para a nova final da Libertadores

Equipes consolidam principais projetos da América do Sul e tendência é que hegemonia cresça nos próximos anos

Quatro anos após decidirem a Libertadores em Montevidéu, Flamengo e Palmeiras se reencontram em outra final que reúne os dois elencos mais estruturados do continente. A edição de 2021 ficou marcada por um duelo intenso, resolvido apenas na prorrogação, e por modelos de jogo que refletiam os momentos específicos de cada clube naquele ciclo.

A nova decisão coloca frente a frente equipes que seguem competitivas em alto nível, mas que chegam com características distintas das apresentadas no último encontro decisivo. Alterações no estilo de jogo, novos protagonistas, diferentes dinâmicas coletivas e contextos internos atualizados compõem o pano de fundo para comparar as duas versões.

Com isso, a final desta temporada, realizada neste sábado (29), em Lima, no Peru, oferece a oportunidade de observar como Flamengo e Palmeiras evoluíram desde 2021 — e quais elementos permanecem. A seguir, detalhamos os pontos em que cada time se apresenta de forma mais sólida ou mais vulnerável em relação à última decisão continental entre ambos.

O que mudou no Flamengo?

  • Estabilidade no comando técnico em comparação a 2021
Filipe Luís, técnico do Flamengo
Filipe Luís, técnico do Flamengo (Foto: Imago)

A presença de Filipe Luís no comando representa um cenário distinto daquele vivido pelo Flamengo na final de 2021. O atual treinador atravessou o ano sem muitas turbulências internas e sustentou um ambiente de estabilidade, algo reforçado pelo prestígio acumulado nos tempos de jogador. Sua relação com a torcida também se mantém sólida, o que contribuiu para um percurso sem questionamentos relevantes sobre sua permanência.

Em 2021, a situação era outra: Renato Gaúcho convivia com resistência de parte significativa da arquibancada e chegou a manifestar o desejo de deixar o cargo antes da decisão, movimento bloqueado pela diretoria às vésperas da final.

  • Profundidade maior de elenco e novas alternativas

O Flamengo chega a esta final com um leque de opções mais amplo do que tinha em 2021. A formação atual oferece um banco mais qualificado, capaz de sustentar diferentes soluções ao longo das partidas. As contratações de Saúl e Samuel Lino, feitas no meio da temporada, ampliaram o repertório — mesmo que ambos ainda estejam em processo de adaptação.

A chegada mais impactante, contudo, foi a de Jorginho. Desde que assumiu a função de articulador do meio-campo, tornou-se rapidamente um ponto de equilíbrio da equipe rubro-negra. Seu papel ultrapassa a contribuição técnica: ele passou a exercer influência direta no dia a dia do grupo e se firmou como uma das vozes mais presentes no vestiário, integrando o núcleo de liderança que orienta as decisões da comissão técnica.

  • Redução do poder de fogo sem Gabigol e sem Pedro
Pedro caído no gramado
Pedro caído no gramado (Foto: Imago)

A capacidade de decisão do ataque em finais de Libertadores não é a mesma de quatro anos atrás. Gabigol, figura central das campanhas e dos títulos recentes, deixou o clube no fim de 2024 rumo ao Cruzeiro. Ídolo rubro-negro, o atacante foi o único jogador desde Zico a marcar em finais da competição pelo clube — e anotou gols em três decisões, incluindo os que garantiram os títulos continentais de 2019, em Lima, e de 2022, em Guayaquil.

Pedro, outra referência do setor, também está fora: a lesão muscular na coxa, somada a uma fratura no antebraço, impede sua participação na final. Sem dois de seus principais nomes da era recente, o Flamengo encara o decisivo confronto de 2025 com um ataque sem os protagonistas que costumavam decidir em noites como esta. A responsabilidade da camisa 9 recairá sob Bruno Henrique, outro ídolo do Flamengo.

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O que mudou no Palmeiras?

  • Repertório tático de Abel Ferreira evoluiu

Em meio a pandemia, sem tempo de treino e tendo a temporada de 2020 iniciando em 2021, Abel Ferreira entregou em alguns meses títulos da Copa do Brasil e da Libertadores. Para isso, não conseguiu montar um estilo de jogo super vistoso: era um time muito pragmático, que se fechava bem e verticalizava o jogo a todo momento, “sabendo sofrer”, como fez em várias eliminatórias.

Como 21 não teve pré-temporada, e o Alviverde sofreu ainda mais com o calendário ao disputar o Mundial de Clubes — e terminar em quarto –, o técnico português não conseguiu implementar mais camadas ao seu jogo e a filosofia seguiu a mesma na campanha que selou o tricampeonato da Libertadores, tendo apenas 34% de posse de bola.

O Palmeiras de 2025, completando neste mês o quinto ano de Abel, por outro lado, tem sido mais completo e passou por adaptações, mesmo que, em alguns momentos, ainda lembre o time pragmático de antes.

Agora é uma dupla de ataque na frente, com um meio-campo extremamente ofensivo, contrário ao que aconteceu em 2021 com aquele 4-2-3-1 que poderia virar linha de cinco com a recomposição de Gustavo Scarpa pelo lado esquerdo.

Uma mostra da equipe paulista mais ofensiva em jogos grandes veio há um mês, quando, mesmo perdendo para o Flamengo no Maracanã, 3 a 2, teve mais a bola, pressionou e dominou em alguns períodos como parecia inimaginável quatro anos atrás.

Vitor Roque e Flaco López comemoram gol do Palmeiras
Vitor Roque e Flaco López comemoram gol do Palmeiras (Foto: Imago)
  • Um time mais técnico e um banco de reservas recheado de opções

E um time mais ofensivo, obviamente, passa pelas características dos jogadores. Como no Flamengo, o elenco alviverde atual é muito superior ao de 2021. A justificativa está no investimento inédito de quase R$ 700 milhões em 12 reforços ao longo da temporada.

O recorde de maior contratação da história do clube foi batido duas vezes (Paulinho e depois Vitor Roque) e o pilar desse novo Palmeiras mais proposito está em seus novos nomes. Há quatro anos, as opções, mesmo acima da média dos elencos do futebol nacional à época, faziam mais sentido para o estilo de jogo pragmático.

Naquele 27 de novembro de 2021, Abel Ferreira tirou do banco Patrick de Paula, Wesley Ribeiro, Danilo Barbosa, Deyverson, Gabriel Menino e Felipe Melo — três garotos da base. Previsões para sábado apontam que o Palmeiras terá no banco nomes como Felipe Anderson, Facundo Torres, Ramon Sosa, Emiliano Martínez, Anibal Moreno e Maurício, além de mais atletas que vieram após alto investimento.

  • Palmeiras atual é menos “copeiro”

A postura mais defensiva do time de 2021 também rendia uma aura de copeiro. Não era à toa: em um ano de Abel, foram duas Libertadores e uma Copa do Brasil, com eliminatórias conquistadas na raça, como as semifinais continentais contra River Plate (segurando 2 a 0 contra em casa após vencer a ida por 3 a 0) e Atlético Mineiro (no extinto critério de gol fora).

Desde 2022, porém, com exceção de Campeonatos Paulista, o Palmeiras nunca mais voltou a conquistar os principais mata-matas e soma sete eliminações no período, todas em casa, número muito criticado pela torcida.

Qual o ponto de convergência entre Flamengo e Palmeiras?

Apesar das diferenças internas de cada projeto, Flamengo e Palmeiras caminham lado a lado em um ponto que os separa da maioria do futebol brasileiro: a capacidade de investir em níveis muito acima da média nacional.

Os dois clubes chegam à final de 2025 como organizações financeiramente estruturadas, com receitas em crescimento e presença constante nas fases mais avançadas das principais competições. Esse cenário se reflete de forma direta na profundidade dos elencos e no nível de competitividade alcançado ao longo dos últimos anos.

A construção desses times passa por um processo mais amplo: o fortalecimento de modelos de gestão, o aumento das receitas recorrentes e a abertura de um mercado internacional que se tornou cada vez mais acessível.

Disputa de bola entre Pulgar e Flaco López
Disputa de bola entre Pulgar e Flaco López (Foto: Imago)

Rubro-Negro e Alviverde deixaram de ser vistos “somente” como potências regionais ou nacionais. Tornaram-se projetos estáveis o suficiente para contratar, reter jogadores e atravessar ciclos com menos oscilações estruturais. É nesse contexto que Tim Vickery, colunista da Trivela, observa o ponto de aproximação entre os finalistas.

— São clubes mais ricos, e isso reflete. Olha a quantidade de nacionalidades que tem em campo. Olhando para 2021, se lembro na memória, tinha Gustavo Gómez e Piquerez no Palmeiras, e Kuscevic no banco. Flamengo tinha Isla e Arrascaeta. E agora, os clubes têm muito mais dinheiro, são mais consolidados. Acho que o surgimento da nova Copa do Mundo de Clubes colocou ambos os clubes em outro patamar, financeiramente e também em termos de visibilidade.

Essa mudança de escala também se manifesta dentro das quatro linhas. Flamengo e Palmeiras não apenas ampliaram o número de opções disponíveis, mas diversificaram as características de seus elencos, incorporando jogadores de perfis e formações distintas. Isso criou grupos mais internacionalizados, com maior variação tática e repertório técnico expandido.

— Nos segundos jogos das semifinais (da Libertadores desse ano), se você olha os 22 que entraram em campo, 11 do Flamengo e 11 do Palmeiras, acho que 10 são estrangeiros. Mais o Jorginho, que futebolisticamente é um estrangeiro. Então tem muito mais nacionalidades, porque os grandes clubes do Brasil são capazes de contratar os melhores brasileiros — Vitor Roque, por exemplo — mas também estrangeiros. E não só da América do Sul — Saúl, da Espanha, é um exemplo. Então, eu acho que isso uma grande diferença. Profundidade, força e internacionalização dos elencos.

A taça deste sábado só ficará com um dos lados, mas a tendência é a polarização entre alviverdes e rubro-negros continuar nos próximos anos, com a distância para os demais parecendo cada vez maior.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.
Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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