Libertadores

A vaga era o de menos – Botafogo goleia para voltar a sorrir em casa

Mais do que garantir avanço na pré-Libertadores, o Botafogo precisava de um resultado expressivo para melhorar clima tenso que continua desde 2023

O Botafogo precisava voltar a vencer numa noite importante, a torcida botafoguense precisava voltar a sorrir à frente do placar sem traumas impiedosos quando já deveriam estar descendo os degraus da arquibancada se arrastando entre os amigos, o eco do estádio Nilton Santos precisava voltar a embalar alvinegros e alvinegras para aquela saideira a mais madrugada adentro, combinando já de voltar na semana que vem, de preferência com a mesma camisa, apoiados os pés na mesma cadeira, encontrando igualzinho na catraca da estação de trem.

A Estrela Solitária não ganhava um jogo grande desde outubro, quando veio a derrocada proibida de ser citada nas rodas botafoguenses. Ali começou a série dos onze últimos jogos da tabela em que o então líder da liga nacional não venceu nenhum, e que talvez já foram citados à exaustão, porque muito agonizantes, e aqui posso até me despedir dessa lembrança: o apagão, a piscadela, as viradas, os gols no fim, aquela edição do Profissão Repórter com a equipe do Caco Barcellos incrédula com o empate do Coritiba, nossa. Neste ano, nos dois jogos de elite que fez no Carioca, perdeu para o Flamengo e para o Vasco; uma semana atrás, em Cochabamba, só empatou com esse mesmo rival sul-americano. Caiu o técnico. Era urgente poder se abraçar de novo.

E antes que alguém diga que o modesto Aurora, o quarto classificado da Bolívia à principal competição sul-americana, deva ser relativizado, eu peço um desconto. Uma trégua. O Botafogo foi a campo nessa quarta-feira para seguir vivo na Copa Libertadores, sim, mas como consequência natural de se dar ao direito de voltar a jogar bola sem precisar resolver todas as perturbações da vida em noventa minutos. Ajudou o fato da equipe azul subir a marcação e oferecer ao alvinegro aquele tapete todo para atacar feliz da vida feito um distante primeiro turno de Brasileirão passado. A breve escapada de Tiquinho, aos dois minutos, deu em gol. Terminou num natural 6 a 0.

São algumas boas notícias nessa sessão de limpeza astral diante de um público ainda ferido no Nilton Santos. Desde lá de trás, Damián Suárez, com seus 35 anos e longa experiência na Espanha, sustentou muito bem as jogadas a partir da lateral direita, fundamental em ligar rápido nos dois primeiros gols. Danilo Barbosa, parecendo viver ótima forma física, foi firme e versátil para limpar a frente da área.

Tchê Tchê e Eduardo, tão brilhantes nos bons tempos, participaram com intensidade e esperteza. Savarino exibiu sua capacidade de finalização vindo da ponta esquerda, subindo o nível do poder de fogo do elenco. Júnior Santos fez quatro gols, e aí não tem muito o que falar, é limpar a estante e levar a bola para deixar em cima da televisão da sala – por onde o homem andava na área as traves surgiam escancaradas. E Tiquinho Soares. O vizinho botafoguense aqui no prédio, com tanta razão para tamanha amargura na virada de ano, voltou a cantarolar na janela a música para seu camisa 9.

A liderança técnica do melhor Botafogo dos últimos tempos não teria desaprendido a fazer futebol, e o jogo é fascinante porque ele derruba nossas convicções com a velocidade que o chope derrete numa mesa de plástico no verão carioca. Tiquinho foi de melhor jogador do campeonato a alvo de pichação no muro do clube num pulo. Nessa noite, ele fez um, serviu três e ainda teve outro anulado por um fio de impedimento. Mais que isso, recuperou a confiança penteando a bola, ganhando duelos e, ufa, final e tardiamente, comandando o time para um grande resultado num jogo importante.

Por esses dias, o agora ex-volante-meia-atacante Diego Souza, que jogou no Botafogo durante uma carreira que é quase um álbum de figurinhas todo, disse em programa do Sportv que o elenco, no momento de adversidade, precisava de um técnico ao melhor estilo “pai”. Muita gente não gosta do termo, essa relação dos boleiros com a analogia à figura familiar, acolhedora, próxima, que poderia estar em contraponto ao profissionalismo. Eu acho que, ainda que discordemos, o vestiário nos conta muito. Para mim, Diego tem sua razão, ainda mais quando diz que, depois do baque, é preciso ter os caras por perto, às vezes mais do que um trabalho tático enfadonho. Faltou a Tiago Nunes ser um parceiro do elenco com habilidade e sensibilidade para tirar sua turma do buraco. Pelo contrário, num de seus atos finais, abriu o bico dizendo que tinha gente pedindo para não jogar. Pegou o Botafogo com o astral a nível zero e devolveu no… Zero. Na retomada da autoestima, tempo perdido.

Red Bull Bragantino e Botafogo é um grande duelo por um lugar nos grupos da Libertadores, jogo de bola bem jogada, em que não há dúvidas que ambos prefeririam evitar um encontro local tão precoce e já eliminatório logo para o começo de março. Não muda nada o que foi feito contra um rival limitado e espaçoso vindo da Bolívia, ao mesmo tempo que muda tudo, porque agora vai a campo o Botafogo de um passeio de goleada, uma foto nova, fresca, importante para esquecer o retrato anterior. A missão foi mais do que cumprida diante do Aurora. Quem disse que o botafoguense não poderia viver seus melhores sonhos para um joguinho numa quarta-feira à noite? Um 6 a 0 é um 6 a 0, ainda mais depois de tanto, num dia que o time correu não só para ganhar, mas para voltar a sorrir. Vale demais.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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