Libertadores

Abel explica mudança e elogia organização do Palmeiras, mas faz aviso importante

Abel Ferreira foi feliz com escolha inusitada em goleada, mas ressaltou que 'não faz milagre

Antes da bola rolar na partida entre Deportivo Pereira (COL) e Palmeiras, pela ida das quartas de final da Libertadores, a grande dúvida no time brasileiro era se Dudu e Gabriel Menino iniciariam como titulares. O atacante vinha de uma lesão na coxa direita, enquanto o meia se recuperava de dores na coxa direita. Quando as escalações foram divulgadas, no entanto, a grande novidade no Alviverde foi outra: Artur estava no banco enquanto Mayke e Marcos Rocha, dois laterais-direitos, começariam jogando.

A mudança funcionou, e muito. O Palmeiras dominou o Deportivo Pereira e goleou por 4 a 0, com direto a gols de Marcos Rocha e Mayke. Na entrevista coletiva após o jogo, concedida no estádio Hernán Ramírez Villegas, em Pereira, na Colômbia, o técnico Abel Ferreira foi prontamente perguntado sobre a escalação. O treinador português até tentou despistar, mas deixou escapar que, entre outros motivos, suas escolhas foram para dar mais amplitude ao time e decorrência dos feitos recentes do adversário.

— É uma boa pergunta, de um jornalista, mas eu sou treinador e não vou te responder. Por isso sou treinador. Se calhar, você estava se lá em cima se perguntando por que o treinador colocou dois laterais-direitos, que curiosamente fizeram dois gols. Se tivéssemos perdido, você e seus colegas estariam falando que o treinador é burro, que não percebe nada. Não vou especificar. Fizemos sim esse ajuste tático, mas não vou dizer o por quê — iniciou Abel.

— Ganhamos da equipe que ganhou do Boca Juniors aqui, que ainda não tinha perdido em casa, que ganhou do campeão da Sul-Americana (Independiente Del Valle), que ganhou do campeão da Recopa e tinha ilusões muito grandes de ganhar do Palmeiras. Nós, como comissão técnica, precisamos tomar decisões. Por isso eu sou treinador e vocês são jornalistas que fazem essa pergunta fantástica. Fizemos sim, para além dessas quatro questões que falei, um ajuste tático porque precisávamos ser agressivos ofensivamente, ter a largura dada no corredor que, às vezes, o Artur não dá.  Às vezes, o Artur sai de fora para dentro, e era fundamental para uma equipe que joga com linha de cinco abrir bem. Depois, dar consistência para nossa equipe defensivamente, e foi isso que aconteceu — acabou revelando.

Abel Ferreira ainda aproveitou para alfinetar os torcedores e jornalistas mais críticos, lembrando que seria massacrado caso a opção por Mayke e Marcos Rocha não surtisse efeito.

— Parabéns aos jogadores. Foi uma decisão difícil para mim, mas tendo em conta tudo aquilo que eu vi do nosso adversário, o que podíamos fazer, foi a melhor decisão. Mas sabia também, conhecendo o país em que estou (morando, já que a entrevista foi na Colômbia), que se tivéssemos perdido iriam me massacrar. Fico feliz pela equipe e por esses dois jogadores terem feito gols, curiosamente. Eu não pedi para fazerem gols, pedi para cumprirem outras tarefas. Mas ainda bem que fizeram os gols porque é bom para o Palmeiras — completou.

Elogios ao Palmeiras e aviso importante

Em grandes vitórias como a sobre o Deportivo Pereira, Abel costuma fazer elogios aos jogadores na entrevista coletiva. Dessa vez, o enaltecimento foi além do elenco, chegando até na organização e estrutura do clube. O técnico fez questão de exaltar as decisões tomadas durante a temporada e o projeto alviverde.

— Você sabe que temos uma base muito forte. E quando falo ‘base', me refiro aos jovens e também ao time. Eu, como treinador, tive que tomar decisões difíceis no início do ano. Saíram nove jogadores. Uns experientes, outros que queriam mais tempo de jogo, como por exemplo o Kuscevic. E eu disse: “não vamos contratar ninguém, vou dar oportunidade ao Naves”. (Isso) sabendo que tinha o Luan, um grande zagueiro e que, faltando qualquer um dos dois titulares, nos ajuda. E também nos ajuda lutando por um lugar que já foi dele. Agora, nós precisamos fazer crescer esses jovens. Por vezes, o Fabinho entra com outra maturidade, o Jhon Jhon tem algumas oscilações. É normal, mas, acima de tudo, o que eles têm que entender é que confiamos no elenco que temos — exaltou.

— Mesmo quando perdemos contra o São Paulo (nas quartas de final da Copa do Brasil) e todos nos criticaram, nós soubemos encaixar e isso ajudou a crescer, principalmente os mais jovens. Sabemos onde estamos, como funciona. Agora, é fácil de entender que essa é uma equipe mentalmente muito forte. Tecnicamente, é muito evoluída. Em termos de experiência, tem um grupo muito bom e outro que está amadurecendo com a ajuda dos mais velhos. Taticamente, sabe aquilo que o treinador pede. Fizemos uma grande alteração tática hoje e os jogadores interpretaram com perfeição. Mas tudo isso não nos garante que vamos ganhar sempre. É isso que quero que fique claro na cabeça de quem está sentado nas cadeiras, seja comentarista, jornalista ou o que for — completou.

O treinador do Palmeiras também rechaçou qualquer possibilidade de comentário ou pergunta sobre a facilidade da partida desta quarta-feira (23). O português destacou que a goleada por 4 a 0 foi mérito de sua equipe acima de qualquer outra coisa.

— Hoje, vão olhar e achar que é fácil, mas nós é que tornamos o jogo fácil. O Palmeiras e seus jogadores encararam e respeitaram muito esse adversário, sendo intenso e jogando como se fosse uma final. É assim que essa equipe cresceu e cresce mentalmente. Não é muito difícil saber qual é a base do Palmeiras, não precisa ser muito inteligente — afirmou.

Por fim, Abel Ferreira fez um aviso importante. Ao elogiar permanência da base da equipe campeã das últimas três temporadas, o técnico disse que “não faz milagres” e não irá continuar no clube caso os pilares do time sejam negociados.

— Não temos dinheiro para pagar €15 ou 20 milhões. Podemos vender jogadores por esse valor, porque os temos aqui. O importante é chegarmos nesse equilíbrio, acreditarmos na base que temos, que é muito forte. O clube fez tudo para segurá-los. Eu espero que segurem o Veiga, que não vá para lado nenhum. Que Rony não vá para lado nenhum, assim como Zé (Rafael) e (Gustavo) Gómez. Se saírem, também tenho que ir. Não faço milagres, preciso deles e eles precisam de mim. Agora, não tem espaço para todos. Todo mundo fala: ‘tem que colocar o Kevin'. Isso não é Big Brother, não é casa de oportunidades. É preciso trabalhar, merecer e depois esperar pelo momento certo, na hora certa. Temos que tomar decisões que às vezes são difíceis, vender jogadores, mas funciona assim. Fico contente que o clube, mesmo quando perde, sabe o que quer e tem a capacidade de encaixar as críticas, sabendo aquilo que tem que fazer. O caminho tem que ser esse — concluiu.

Outros assuntos abordados na entrevista coletiva de Abel Ferreira

Análise da partida

— Antes de ser treinador, eu também achava que era fácil. O que posso dizer em relação a isso é que, no jogo, são 11 contra 11. O campo é dividido em defesa, meio e ataque. Vejo os jogos em relações numéricas, não posso abrir mais do que isso em relação à pergunta. Prefiro ser cornetado, que os profetas do acontecido falem. Como disse, é muito fácil agora, que ganhamos de 4 a 0, contra uma equipe que ainda não tinha perdido, dizer que era fácil. Essa equipe ganhou do Boca Juniors, dos campeões de Recopa e Sul-Americana, ainda não tinha perdido em casa. Nós mostramos aquilo que gosto de ver nessa equipe: simples, de caráter, que sabe o que fazer dentro de campo. Me encho de orgulho quando vejo meus jogadores atuando assim. Com calma, sendo competitivos. Sabíamos que seria muito difícil, contra uma equipe que tinha uma ilusão muito grande no jogo. Fizemos aquilo que tínhamos que fazer: jogar bom futebol e ser competitivo, jogando para ganhar seja onde for, contra quem for, jogue quem jogar.

Possibilidade de poupar jogadores na partida de volta

— Os jogadores sabem, estávamos preparando essa partida há duas semanas. Inclusive fizemos, no último jogo, algumas situações que queríamos ver aqui. Felizmente, eles conseguiram entender, porque, com a viagem, não teríamos muito tempo para treinar de um jogo para o outro. Sempre disse isso a vocês e a eles: só sei jogar e treinar na máxima força. É assim que eu sou. Não consigo ser ‘meia-boca'. Sei que às vezes as pessoas confundem arrogância com competência, o ser chato com ser intenso e exigente, mas esta é minha forma de ser. Fico contente que nossos jogadores entendam que nossa única opção é ser a melhor equipe, melhor enquanto grupo. Única forma que eu sei de preparação é treinar para jogar e jogar para ganhar. É assim que fazemos e assim que vamos continuar a fazer.

Recepção na Colômbia

— Fomos muito bem recebidos aqui. Ontem, no CT, pelo carinho dos meninos; e hoje mesmo, na chegada ao estádio, fiquei com um bom ‘feeling' em relação aos colombianos, são muito simpáticos. Isso é sempre bom, porque futebol é também desfrutar. Hoje os torcedores do (Deportivo) Pereira desfrutaram. O (Richard) Ríos é colombiano, muito bom jogador, felizmente que o clube o contratou e hoje podemos tê-lo dentro do nosso grupo. Jogou no último jogo e sabíamos que, hoje, teríamos que dividir o tempo entre ele e o Menino. Mas é um grande jogador e o técnico da Colômbia, se quiser, tem (para convocar). Faz mais de uma posição. Acima de tudo, feliz pelo jogador que ele é e pelo homem que ele é.

Foto de Felipe Novis

Felipe Novis

Felipe Novis nasceu em São Paulo (SP) e cursa jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Antes de escrever para a Trivela, passou pela Gazeta Esportiva.
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