Como a inteligência artificial impacta o futebol, dentro e fora de campo
VAR, impedimento semiautomático e até mesmo aplicativos que mapeiam jogadores já fazem parte da rotina dos clubes
Há alguns anos, era difícil imaginar que um esporte simples como o futebol, que sobreviveu por mais de 100 anos com poucas alterações, poderia se tornar dependente das inovações tecnológicas.
Já agora, em 2025, se tornou comum a influência de uma modernidade cada vez mais presente, seja em lances milimétricos analisados e concluídos através da inteligência artificial ou outros sistemas implementados dentro e fora de campo.
A presença de tecnologias no futebol tem mexido com as estruturas do esporte mais popular do mundo e, com a popularização mundial da IA, começa a despertar discussões acerca de seu impacto.
Os principais torneios do mundo, como a Copa do Mundo e o Mundial de Clubes, já contam com recursos tecnológicos como o VAR e o impedimento semiautomático. Nos bastidores, o uso ainda vai além: ferramentas avançadas ajudam profissionais a mapear o desempenho dos jogadores, prevenir lesões e até mesmo identificar novos talentos para reforçar os elencos dos clubes.
Até mesmo campeonatos de futebol com robôs já foram organizados por alguns países, como a China, que realizou um torneio de 3 contra 3 e batizou a disputa de “RoBoLeague”. Ao todo, quatro equipes participaram. Sem dúvidas, uma mudança sem precedentes no futebol como conhecemos.

A revolução do VAR no futebol
A mudança mais impactante para o público aconteceu dentro de campo. Utilizado pela primeira vez em partidas oficiais em 2016, o VAR revolucionou o futebol. O árbitro de vídeo chegou para ajudar na arbitragem de campo, seja para anular ou validar um gol, traçar linhas de impedimento ou até mesmo sugerir revisões para cartões vermelhos.
No Brasil, a tecnologia chegou em 2017, e hoje já é algo intrínseco em praticamente todos os torneios disputados.
— Primeiro foi implementada a bandeira eletrônica, em que você tinha na bandeira que o assistente segura um ponto eletrônico que bipava no braço do árbitro. Quando o assistente marcava um impedimento, um escanteio, aí entrava dentro da dinâmica da arbitragem. Depois também veio o ponto de comunicação, que era um áudio que acontecia entre os o árbitro principal, os assistentes e o quarto árbitro — explicou a comentarista de arbitragem dos canais Disney, Renata Ruel, em conversa com a Trivela.
A ajuda eletrônica, relembra a ex-árbitra, evoluiu para o VAR, a sigla para “Video Assistant Referee” — árbitro assistente de vídeo, em português. “É uma tecnologia com árbitros à parte, que vão verificando todo o jogo e, dentro da regra do jogo e do protocolo do VAR, sugerindo revisões aos árbitros no campo“, resumiu Ruel.
Com o passar dos anos, o VAR se desenvolveu com inúmeras discussões — e polêmicas — envolvendo a arbitragem de vídeo até chegar à implementação do impedimento semiautomático. A ferramenta teve sucesso na Copa do Mundo de seleções em 2022 e, três anos depois, já foi implementada no Mundial, Champions League e Premier League. Ela deve chegar ao Brasileirão em 2026.
O impedimento semiautomático depende de múltiplas câmeras próximas ao campo, um sensor dentro da bola e a inteligência artificial, a tecnologia acompanha todas as posições dos jogadores em campo e também da bola. Em caso de impedimentos, o sistema alerta automaticamente a equipe de arbitragem, avisando da situação irregular.

Além disso, após o atleta ser flagrado em impedimento, a tecnologia recria o lance em 3D, apresentando aos árbitros que checam se a jogada é legal ou não. Em caso de situações de impedimento mais desafiadores, o árbitro de vídeo será chamado para validar as informações fornecidas pelo sistema, e só então tomará a decisão.
— A tecnologia que foi usada no Mundial de Clubes 2025 é ainda mais avançada do que a da última Copa do Mundo. Porque essa tem um chip na bola, a tecnologia anterior não tinha, o que traz uma precisão ainda maior nesse semiautomático. Você não precisa na teoria do VAR, visto que ele só vai checar para ver se de fato está tudo ok. O árbitro de vídeo hoje não faz mais nada em relação a impedimento semiautomático — explicou Renata Ruel.
— Em relação às imagens, você também tem uma precisão muito maior, o que facilita você observar com mais precisão toque aonde tocou, onde não tocou e ângulos diferentes para o árbitro. Então, é uma tecnologia que ela é muito bem-vinda. Se a gente puder ter isso, eu brinco que não precisa mais de assistente hoje em dia. Não precisa mais dos bandeirinhas, na teoria, em campo em relação a impedimento — completou a comentarista.
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IA não impacta apenas dentro de campo
Mas a mudança não se limita às quatro linhas. Uma das principais utilidades da tecnologia é na hora de analisar dados e desempenho de jogadores através de softwares e aplicativos. Para detalhar as funções, a Trivela conversou com o analista e scout Victor Hugo, da empresa Monitor Players, que já prestou serviço para jogadores como Jhon Arias e Igor Jesus.
— Nós tivemos uma evolução de sotfwares, mas o melhor foi o surgimento de novas soluções facilitadoras. Na consultoria a clubes e treinadores, buscamos o uso das ferramentas na otimização de processos no scouting e nas análises, principalmente pelo número reduzido de profissionais e pelo prazo sempre apertado. Hoje, com maior estrutura, estão utilizando IA generativa para fazer algo que antes era feito com investimento de muitas horas e na gambiarra, para se atingir um resultado inferior — explica.
A tecnologia também está impactando fora dos gramados. Hoje em dia é comum de dados e de mercado utilizarem a inteligência artificial para monitorar atletas e conseguir números precisos, que auxiliam na contratação de novos nomes, de acordo com o perfil definido pelo clube.
— Hoje ,as plataformas de scout possuem mais de 550 mil perfis de jogadores e informações de mais de 200 campeonatos e ligas. A figura antes conhecida como olheiro não daria conta, nem com um exército deles — garante Victor Hugo.

Além do profissional que irá analisar dados, o analista de desempenho também está utilizando dos novos softwares para auxiliar em seu trabalho. No entanto, segundo o analista Caio Gondo, que trabalhou em Vila Nova e Goiás entre 2018 e 2025, a função ainda é mais humana do que artificial.
— Para a minha função, a tecnologia e o conhecimento de como utilizá-la é fundamental, mas até o momento, a IA está impactando pouco nela. Por ser uma função bem interpretativa e com muita utilização de imagens com vídeo, a IA ainda não é desenvolvida a este ponto. O analista de desempenho que somente utiliza a IA para interpretar algo em vídeo precisa refazer mesmo serviço para ver se ela está de acordo com o que ele está vendo e interpretando. Por outro lado, a IA consegue interpretar muito bem tabelas, dados e estatísticas e pode acabar mostrando um ponto ou outro que uma pessoa não tenha percebido — diz o analista de desempenho.
Na Eurocopa em 2024, a Romênia chamou a atenção por usar a tecnologia a seu favor na hora de analisar dados da própria seleção e também dos adversários. A inovação não melhora apenas a performance do time em campo, mas também ajuda diretamente na gestão de recursos do clube.
A IA ainda está indo além do treinamento e da análise de partidas, sendo aplicadas em diversas outras áreas, até mesmo na hora de descobrir novos talentos. A tecnologia permite obter insights importantes que auxiliam diretamente os clubes. Por exemplo, já é possível identificar padrões de movimentos e estratégias como, por exemplo, calcular a velocidade de uma jogada ou a eficácia de um passe.
— Na base do Goiás, eles utilizam uma câmera filmadora onde, através da IA, consegue filmar o jogo e acompanhar onde a bola estiver. Com isso o analista de desempenho acaba podendo ficar livre para poder fazer algum outro tipo de coleta de dados enquanto a câmera com IA está filmando a partida. Além disso, o software que pertence esta câmera também já separa os lances de acordo com cada grupo que ela for solicitada, como por exemplo: os gols, as finalizações, as bolas paradas e etc. — revela Caio Gondo.
Com Neymar e Paquetá, o Brasil passa a ter maior repertório no centro do campo. Os dois oferecem a exploração da entrelinha, passes que aceleram o jogo e ataque à linha adversária e tudo isso praticamente no terço final do campo! pic.twitter.com/09oItX4T16
— Caio Gondo (@CaioGondo) December 5, 2022
No Liverpool, por exemplo, a tecnologia é utilizada para treinar jogadas. O clube fechou uma parceria com o Google DeepMind e agora analisa as cobranças de escanteio, melhorando suas estratégias e aumentando as chances de converter o lance em gol.
Normalmente, a IA permite que computadores aprendam e executem tarefas, além de resolver problemas que geralmente exigem da inteligência humana. No entanto, diferente dos seres humanos, é possível contabilizar uma quantidade enorme de informações e simular bilhões de variáveis e identificar padrões futuros em poucos minutos.
Com o avanço tecnológico, qual será o futuro do futebol?
A cada ano que passa, um novo sistema surge para auxiliar no desenvolvimento do futebol e do esporte no geral. Seja para auxiliar a arbitragem, os olheiros ou os analistas, a tecnologia está cada vez mais imersa no mundo da bola. E isso não deve ser uma preocupação (ao menos por agora).
— Eu sou totalmente a favor da tecnologia no futebol, até porque o mundo está mudando e eu acho que o esporte tem que mudar junto. Por mais que você tenha tecnologias avançadas, a arbitragem precisa ser o piloto que falta no avião. Um piloto que realmente conheça as regras, que entenda de futebol, que consiga avaliar para decidir da melhor forma. A tecnologia soma à arbitragem e melhora sua qualidade — defende Renata Ruel.
Fora a arbitragem, há a expectativa de que, em breve, os clubes terão IA treinada para simular partidas contra seus oponentes, modelando jogadores com base em suas qualidades técnicas e mecânicas e produzindo animações 3D de como as partidas poderiam se desenvolver. Ao menos é isso que acredita Lee Mooney, que foi chefe do departamento de dados, insights e tecnologias de decisão do Manchester City entre 2015 e 2019.

— Você poderia configurar o jogo para jogar contra o Manchester City, por exemplo, treinar o agente de IA para entender como eles jogam e quais são seus pontos fortes e fracos individuais, e então jogar o jogo milhões de vezes para encontrar as estratégias mais eficientes para vencê-los com os jogadores que você tem — afirmou Mooney em entrevista ao “The New York Times”.
Com surgimentos e inovações cada vez mais rápidas, a cada semana nasce algo novo em termos tecnológicos no futebol, nem que seja a atualização de algum sistema. Com isso, muitos profissionais temem pelo futuro da profissão, que futuramente pode ser afetada pelas máquinas e robôs. Victor Hugo explica os impactos que isso pode gerar.
— O impacto está dentro e fora do campo, mas posso citar o VAR e a evolução que ainda terá como o impedimento semiautomático, que está funcionando bem. Além disso, há a possibilidade do uso do chip na bola e no jogador. A evolução do GPS, que hoje captam muito mais movimentos e dados do que quando iniciou seu uso. Porém há soluções que dispensam o uso de equipamento junto ao corpo do atleta, utilizam câmeras especiais instaladas nos estádios ou arenas — explica.
Mesmo com sistemas cada vez mais avançados, o analista de desempenho Caio Gondo não imagina a IA substituindo o ser humano no trabalho de analisar os atletas em campo.
— No futuro, se as IAs conseguirem interpretar e analisar o que está sendo passado em vídeos, além de somente separar o que é cada tipo de lance, elas poderão acelerar muito do processo de um analista de desempenho. Não acredito que a IA possa substituir a pessoa analista, pois essa função acaba tendo que realizar as análises e, também, se relacionar com pessoas para saber bem os detalhes e as minúcias para cada tipo de pessoa e função — finaliza.



