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Das frustrações como capitão, Gallardo quer reerguer sua história e a do River na Libertadores

A Libertadores se tornou uma obsessão ainda maior para o River Plate na primeira metade dos anos 2000. Os Millonarios contavam com várias gerações promissoras, mas que renderam o título apenas em 1996. No mais, várias frustrações, sem sequer chegar à final novamente. E pior ainda era olhar para o lado. O Boca Juniors vivia seus anos áureos na competição. A equipe dos xeneizes nem era tão superior assim aos rivais no papel. Porém, o time de Carlos Bianchi sabia ganhar. Assim, levou três taças em quatro anos até 2003. O que provocou o River a enfiar a mão nos bolsos para trazer jogadores renomados, mesclados com prodígios da base. Também não deu certo e rendeu, no máximo, duas semifinais.

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Entre os nomes que viveram tais frustrações, o de Marcelo Gallardo. Cria do clube, o talentoso meia fez parte do time campeão de 1996, saindo do banco como opção a Ortega e Francescoli. Um pouco mais tarimbado, ganhou a posição de titular, quando também viveu os desgostos dos anos seguintes, especialmente nas derrotas para Vasco e Palmeiras. Passou um breve período no Monaco, antes de voltar justamente nos anos de busca pelo troco ao Boca Juniors, em 2003. Junto com Marcelo Salas, não conseguiu liderar os millonarios de volta ao topo. Dono da braçadeira de capitão, viveu as maiores quedas contra Boca Juniors e São Paulo, antes de seguir ao Paris Saint-Germain em 2007. Encerrou a carreira depois de um terceiro período em Núñez, já em um período de vacas magras e problemas financeiros causados por aquelas gastanças. Nesta época, a Libertadores já era sonho distante.

A quarta passagem de Gallardo começou em 2014. Desta vez, do lado de fora do campo. O antigo ídolo veio para dar continuidade a um período de renascimento do River Plate, já depois de deixar a segunda divisão com Matías Almeyda e reconquistar o Campeonato Argentino com Ramón Díaz. O passo do antigo craque, então, foi ir além nas fronteiras. Recuperou a reputação internacional com a conquista da Copa Sul-Americana, em uma campanha digna de Libertadores – deixando pelo caminho Atlético Nacional, Boca Juniors, Estudiantes e Libertad, sem perder um jogo sequer. Para, a partir desta quarta, tentar obter outra vez a principal taça do continente.

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É possível notar os traços do meia de grande qualidade técnica no time hoje dirigido por Gallardo. O treinador preza pelo jogo ofensivo, em um time que parte para cima sempre que tem a bola. A guarda por vezes baixa do River consegue ser bem compensada pela defesa, enquanto o ataque cria muitas oportunidades. Não à toa, é o que mais finaliza nesta Libertadores. E também dá para perceber o olhar clínico do velho maestro. Por exemplo, quando apostou nas contratações de Lucas Alario e Tabaré Viudez antes das semifinais. Os novatos chegaram causando bem menos estardalhaço do que Saviola, Aimar e Lucho González – trio que, em partes, reviveu o próprio Gallardo e Salas uma década antes. Porém, a dupla teve participação essencial diante do Guaraní, construindo o gol que decidiu a classificação.

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Em um River Plate sem um grande protagonista, Gallardo se faz destacar justamente pelo coletivo. Pela forma como bons jogadores têm rendido além das expectativas em suas mãos. É o caso de Rodrigo Mora e de Gabriel Mercado. No meio de campo, Carlos Sánchez vive o grande momento da carreira, muito bem desde a volta do futebol mexicano. E o treinador segue enfatizando a importância das categorias de base millonarias, mantendo ou dando espaço a jovens talentos como Mammana, Kranevitter e Driussi. E o que também salta aos olhos é a postura da equipe. O River olha nos olhos, encara e parte para cima. Tem sangue quente para deixar no passado o “pecho frio” de quem morreu tantas vezes na praia no torneio continental.

O Tigres até pode dizer que salvou o River Plate na Libertadores. A vitória dos mexicanos sobre o Juan Aurich é que assegurou a classificação do time como pior segundo colocado da fase de grupos. No entanto, não dá para menosprezar tudo o que os millonarios estão jogando nos mata-matas. Apesar dos incidentes, foram mesmo melhores do que o Boca Juniors em campo, além de amassarem Cruzeiro e Guaraní. Recuperação que tem grande participação de seu treinador. E, por mais que o Tigres seja um adversário duríssimo, o River tem totais condições para superá-lo. Reconquistar a América depois de 19 anos. Reviver os sonhos de Gallardo e também deixar para trás as outras tantas frustrações.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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