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River Plate chega à final da Libertadores para ratificar que, após o inferno, é gigante outra vez

Olhar para trás poderia trazer à tona os traumas do River Plate. Pensar nas 15 semifinais de Libertadores que o clube já disputara, com apenas quatro classificações à final. Ou no amargo vice de 1966, quando ganharam o apelido de “galinhas”, por deixarem escapar a vitória certa sobre o Peñarol nos minutos finais. Além disso, também poderia remeter à passagem pela segunda divisão argentina. O que, na verdade, dá forças aos Millonarios. Desde então, o clube vem se reerguendo. Para completar o principal capítulo da epopeia nas próximas semanas, na final da Libertadores. Dentro do Paraguai, o River empatou com o Guaraní por 1 a 1 e, graças à vitória por 2 a 0 no Monumental de Núñez, volta à final do torneio após 19 anos. Para buscar o tricampeonato aguardado há muito tempo, e frustrado algumas vezes.

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Em 2015, não há espaço à falta de sangue que marcou o River Plate nas fases decisivas do torneio continental nas últimas duas décadas, mesmo quando contava com equipes bem mais talentosas do que essa. O time atual joga e encara. Assim, saiu do inferno da B em 2012, para conquistar um título nacional e dois vices desde então. Ergueu a Copa Sul-Americana em 2014. E, agora, tem a chance de unificar os cinturões com o feito na Libertadores. O título pode referendar uma nova era no Monumental de Núñez, deixando no passado a vergonha vivida com o rebaixamento.

No Defensores del Chaco, as arquibancadas pareciam divididas entre as duas torcidas. A maior parte dos setores das arquibancadas tinha sido destinada ao Guaraní, é claro. Porém, ao contrário dos paraguaios, o River conseguiu lotar todo o seu espaço. Segundo as autoridades locais, mais de 10 mil argentinos haviam atravessado a fronteira somente para a partida. O que se fez perceber na entrada de campo, com o bandeirão aurinegro competindo com as bexigas alvirrubras. E, quando a bola começou a rolar, era como se o estádio tivesse se mudado de Assunção para Núñez, se transformado em um anexo do Monumental. O barulho fazia os Millonarios parecerem mandantes.

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E a força que vinha nas arquibancadas também permitia ao River Plate se portar em campo como dono da casa. Durante o primeiro tempo, a superioridade dos argentinos foi notável. Prenderam a posse de bola, trabalharam no campo de ataque e forçaram a defesa do Guaraní. Os homens de frente dos argentinos até eram preciosistas, enfeitando mais que o necessário na conclusão – sobretudo Rodrigo Mora, autor de um golaço na ida. Além disso, Júlio César Cáceres salvava no miolo de zaga. Só que a imposição do time de Marcelo Gallardo dava poucas chances para os paraguaios respirarem. Pressionados na saída de bola, erravam muitos passes. Exceto com Benítez, mal chegaram a assustar a meta de Barovero.

Contudo, a derrota por dois gols fora de casa criava uma grande necessidade ao Guaraní. E, por mais que o seu estilo de jogo seja de menos domínio e mais verticalidade, eles precisavam de alguma forma criar uma blitz no ataque. O que aconteceu durante o segundo tempo, ainda que o River mantivesse a bola nos pés. Muito incisivos no ataque, os aurinegros começaram a criar um bom número de chances. Abriram o placar aos 16 minutos, após uma bola na trave de Palau, que Fernández mandou para as redes na sequência da jogada. E poderiam até ter anotado o segundo. Sempre criando pelo lado direito de seu ataque, com Benítez e De la Cruz, mas sem contar tanto com a colaboração de Santander e Palau nos arremates. Em cima da linha, Carlos Sánchez ainda salvou o que seria o segundo tento de Fernández.

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Naquele momento, a preocupação de Gallardo era consertar a marcação, o que conseguiu parcialmente com a entrada de Mayada. Só que o comandante também moldou o seu time para contra-atacar. E matou o jogo para si neste momento. Tabaré Viudez, uma aposta pessoal do treinador em Núñez, entrou muito bem no lugar de Lucho González. Aos 34 minutos, deu um passe magistral para Lucas Alario encobrir o goleiro Aguilar e decidir a partida. Justo o jovem atacante de 22 anos, trazido do Colón antes das semifinais, que teve a responsabilidade de substituir Téo Gutiérrez no ataque. Não sentiu a pressão. Entre tantos medalhões contratados, foram os nomes mais desconhecidos que brilharam.

Com o empate, o Guaraní precisava anotar três gols em cerca de 15 minutos para chegar à inédita final. Bateu o desespero. E, com as enormes brechas de uma equipe toda postada no ataque, o River Plate poderia muito bem ter virado. Aquele placar, de qualquer forma, já era suficiente. Desencadeou uma festa ainda mais intensa dos Millonarios no Defensores del Chaco, com direito aos tradicionais cânticos das arquibancadas.

O River Plate cresceu demais nesta campanha na Libertadores. De candidato a maior vexame, se classificou na fase de grupos com o milagre, apesar da pior campanha entre todos os 16 que avançaram. Acima dos incidentes, foi melhor do que o Boca Juniors. E se agigantou diante do Cruzeiro no Mineirão. A vitória sobre o Guaraní, agora, dá ainda mais autoridade pela maneira como os argentinos foram superiores nos dois jogos. Mesmo que os paraguaios mereçam todos os aplausos pela campanha muito além das expectativas, onde eliminaram favoritos e apresentaram um time de grandes virtudes táticas.

Agora, ao River Plate, resta se preparar à final e aguardar seu adversário – já sabendo que terá um desfalque notável para o primeiro jogo, com a suspensão de Carlos Sánchez. Se tiver pela frente o Tigres, já garantirá a vaga no Mundial de Clubes, assim como poderá jogar a volta no Monumental. Enquanto, diante do Internacional, fará um histórico duelo de bicampeões. O adversário, todavia, não deve importar muito aos Millonarios neste momento. O objetivo maior é tentar cumprir o sonho rumo ao topo do pódio. Ratificar em definitivo que o “Riber” ficou para traz. Que o River Plate, que se escreve com v de vitória, é gigante outra vez. Pode ser, como em seus melhores momentos, o maior das Américas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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