Argentina

Morte de Grondona abre disputa de poder na AFA que envolve a política nacional

A morte de Julio Grondona nesta quarta-feira fez o futebol parar na Argentina e os bastidores ferverem. O homem que presidia a AFA desde 1979 preparava um sucesso quando se manteve no cargo, mas morreu antes de conseguir fazer isso. Os vários grupos políticos não parecem ter um candidato definido. Aqueles ligados ao governo da presidente do país, Cristina Kirchner, ligados ao governo da província de Buenos Aires, Mauricio Macri, maior opositor de Kirchner, e o grupo próximo a Grondona ainda estudam quem apoiar. A eleição, que será realizada em outubro, em uma assembleia da AFA, deve ter uma disputa com mais de um candidato e pode ser que até mais de dois grupos, algo raro de se ver.

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Quem assumiu a presidente interina da AFA após a morte de Grondona, de acordo com o estatuto da entidade, foi Luis Segura, vice-presidente do Comitê Executivo e presidente do Argentino Juniors. Até o momento, a única decisão que ele teve que tomar foi sobre o adiamento da rodada do fim de semana e o luto de sete dias decretado no órgão que governa o futebol argentino.

Os candidatos terão que se inscrever entre 11 e 30 de setembro e precisarão de sete avais na assembleia para poder concorrer à presidência. “Pela força, a AFA vai ser agora mais democrática”, disse uma pessoa que frequenta muito a AFA ao site argentino Canchallena. “Não há ninguém que aglutine tanto poder quanto Grandona. As maiorias não serão absolutas. E a oposição será mais visível”. Será preciso que os grupos encontrem um candidato que os represente e ao menos dois grupos devem disputar o poder, diferente do que conseguiu Grondona com sua força solitária nos últimos 35 anos.

O presidente do Lanús, Alejandro Marón, é um dos possíveis candidatos. Advogado, ele é consultor da AFA, além de presidente do Granate e um dos dirigentes que acompanhou Grondona diversas vezes na Fifa. É o candidato mais forte a receber o apoio de Mauricio Macri, chefe do governo de Buenos Aires e opositor ferrenho de Kirchner. A morte de Grondona preocupa Macri, que acredita que o governo de Kirchner pode usar a sua força no futebol – que na Argentina é estatizado com o “Fútbol para todos” – para emplacar um candidato seu e aumentar ainda mais o seu poder.

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O candidato visto como potencial nome indicado pelo governo é Aníbal Fernández, presidente do Quilmes. Como o governo sabe que os clubes são dependentes financeiramente do Fútbol para Todos, poderá ter influência na indicação de um nome que seja do seu interesse. Aníbal Fernández tem passagem pelo governo, quando era chefe de Gabinete durante a estatização das transmissões de futebol. Atualmente, é senador.

Outros nomes, como Marcelo Tinelli, empresário, apresentador de TV e vice-presidente do San Lorenzo, também podem surgir, embora ele tenha dito que não quer interferir na relação da AFA com o governo. Outro nome, o empresário Cristóbal López, é kirchnerista e tem vários contatos no futebol e é dono do canal de TV C5N, da Radio 10 e outras quatro rádios. Hugo Moyano, presidente do Independiente, é outro que pode surgir como candidato, por ser um nome capaz de impedir um kirchnerista de chegar à presidência.

Por fim, o grupo próximo de Grondona tem Miguel Silva, secretário geral do Comitê Executivo e vice-presidente do Arsenal, é o nome mais forte por ser alguém com bom acesso ao governo e com anos de lealdade ao dirigente. Mas é possível que Julio Ricardo Grondona, o “Julito”, seja o candidato para substituir o seu pai no cargo. Grondona, porém, era alguém com capacidade de articulação e poder muito centralizadores, algo parecido com Ricardo Teixeira. Sem ele, é possível também que o grupo de pessoas que o cercava perca força, porque “o grondonismo não existiria sem Grondona.

O que se sabe é que a assembleia da AFA deverá ser bem concorrida em outubro, com uma boa pitada disputa política, apimentada com uma disputa de Kirchner e Macri, intervenção governamental e, claro, a bagunça que se tornou o futebol argentino nos últimos anos.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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