Argentina

De mãos dadas

3 de outubro de 2012. Argentina e Brasil disputariam a partida de volta do “Superclássico” das Américas, no Estádio Resistência, em Chaco. No entanto, o jogo foi suspenso antes do início, por causa de falta de energia elétrica no estádio. Já era sabido que o lugar não tinha estrutura necessária para sediar a partida, mas isso não foi levado em consideração. Afinal, o governador da província, Jorge Capitanich, possui boas relações com o Governo Federal e a Associação Argentina de Futebol (AFA), além de ser o presidente do Club Atlético Sarmiento, que disputa atualmente o Torneo Argentino B [equivalente a Quarta Divisão]. Em suma, nada muito diferente do que ocorre por estas bandas em relação a Copa do Mundo 2014.

Por isso, as duas Seleções se enfrentam nesta quarta-feira, na Bombonera.

O incidente deixou mais uma vez exposto a estreita relação que o esporte tem com a política, e a recíproca é verdadeira. Engana-se quem acredita que trata-se de um fato isolado. Seguem algumas lembranças de como a política se utiliza do esporte e vice-versa.

Um episódio recente que passou quase despercebido. Milhares de argentinos na Argentina e em outros países promoveram um panelaço [modalidade de protesto que consiste em fazer barulho batendo em panelas] contra o governo Kircnher. Dias depois, o atacante argentino Germán Denis, do Atalanta, ao comemorar o primeiro, dos dois gols que marcou na vitória ante a Internazionale, por 3 a 2, mostrou uma camisa branca com o “K” [supostamente de Kirchner] e o “símbolo de proibido”. No dia seguinte, se desculpou e tentou desvincular o gesto a crítica ao kirchnerismo. Em vão. Afinal, até as posições apolíticas podem ser políticas.

Desde 2009, o futebol tornou-se um negócio estatal. O Governo adquiriu as transmissões dos jogos e criou o programa Fútbol para Todos. As partidas passaram a ser transmitidas pela TV Pública, com diversas propagandas governamentais. Sem nos atermos a politização dos nomes dos torneios, que já teve dentre outros nomes, Crucero General Belgrano, Nestor Kirchner, e atualmente chama-se Eva Perón.

E quando a política se adentra nas temíveis barras-bravas? Pois é, o poder político financia as barras para evitar conflitos, ganhar popularidade, usá-los como seguranças, dentre outros motivos. Um exemplo vago ocorreu em 1991, nas eleições para governador de Buenos Aires, o candidato Erman González pagava U$S 5 mil mensais para a La Doce, barra-brava do Boca Juniors, estender a bandeira com a frase: “Erman para Capital”. Quanto as brigas, ou o hooliganismo, não pode ser relacionado diretamente ao campo político, embora ocasionalmente tenham relações.

Ainda em La Boca, vale lembrar-se do atual prefeito bonaerense, Maurício Macri, que utilizou o Boca Juniors, o clube mais popular do País, como trampolim para alçar voo na carreira política. Investiu até o que o clube não tinha em prol da visibilidade, conseguiu. Mas ao sair do clube, o deixou afogado em dívidas.

O ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007) nunca escondeu sua paixão pelo Racing. El Pinguino certa vez confessou sua ligação com dirigente da Academia, possuía influência em algumas decisões no clube e presentava os jogadores do plantel. Como, por exemplo, em junho de 2009, ele entregou TVs de plasma, ao plantel após a vitória da Acadé ante o Boca Juniors, por 3 a 0. Na ocasião, declarou que sofria mais com o futebol do que com a política.

Contudo, talvez o mais marcante trata-se da Copa do Mundo de 1978, quando o País estava sob o domínio da ditadura militar (1976-1983), ironicamente autodenominada de Processo de Reorganização Nacional. O regime promoveu o torneio com o intuito de mascarar a situação deplorável que promovia. Não posso deixar de citar a eternamente contestável partida ante o Peru, na qual a Albiceleste goleou o adversário por 6 a 0 – precisava vencer por quatro gols de diferença – e até hoje lhe recai a suspeita de suborno. Afinal, a vitória da Seleção significava a vitória do ditador Jorge Rafael Videla e seu regime.

O ex-presidente Juan Domingo Perón (1946-1955) também deu seu contributo. Segundo alguns especialistas, ele era muito paternalista e como tal utilizava-se do esporte como ferramenta para propagar os valores nacionalistas. Através da Fundação Eva Perón, promoveu diversos torneios, principalmente nas categorias juvenis. Aliás, muitos dos clubes possuíam – e ainda possuem – nomes relacionados a política. Ademais, ajudou na construção do estádio do Racing, o Cilindro de Avellaneda, que possui seu nome. Muitos acreditam que ele era Xeneize.

Eis alguns fatos que ligam política e futebol, sabendo, claro, que eles são inerentes. Dissociá-los é utópico, sobretudo na Argentina. E lá, ambos são tratados como religião. Logo, discuti-los faz-se necessário e isso começa com as recordações.

Leia também: http://trivela.com.br/colunas/rifa-se-prestigio

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