Argentina

Com Menotti morre um pouco do futebol romântico

Técnico campeão mundial de 1978 foi cronista inspirado de um jogo que não existe mais, embora seja inesquecível

O futebol perdeu César Luís Menotti, técnico do primeiro título mundial da Argentina, em 1978. Sua morte foi anunciada no domingo, 5 de maio de 2024. Ele tinha 85 anos e trabalhava como diretor de seleções da Associação de Futebol Argentino (AFA).

Menotti era um cronista do futebol. Além de jogar e treinar, o “Flaco” gostava de falar sobre o jogo. Falava horas, sempre com nuances poéticas. No início dos anos 2000 trabalhei em um projeto do qual ele fez parte, na versão argentina, e tive uma conversa encantadora com ele sobre futebol e vida.

Fumante inveterado, Menotti cultivava o apreço pelo trato com a bola e com as pessoas. Trafegava por gramados, entrevistas e mesas de restaurantes com a mesma elegância, sempre falando de seu assunto favorito: o futebol.

Quando jogador, Menotti foi um meia técnico, que costumava dizer que atuou na época errada do futebol argentino: “Estavam na moda as equipes que lutavam. Um futebol de merda”. Ele jogou pelo Rosário Central, time de sua cidade e seu coração, depois no Racing, no Boca, passou pelos Estados Unidos, no Generals, de Nova Iorque; e veio ao Brasil para se reserva de Pelé no Santos e depois atuar no Juventus.

Seu convívio com Pelé fez com que criasse polêmica, anos mais tarde, afirmando que o Rei era melhor que Maradona, quase uma heresia na Argentina. Também teve polêmicas com Dieguito, a quem deixou de fora da Copa de 1978 (fato do qual disse se arrepender posteriormente), mas que convocou para o Mundial Juvenil de 1979, também conquistado pela Argentina, num time em que também brilhou Ramón Díaz.

Menotti era um pregador do que chamava de “achique” (ou reduzir, diminuir), um estilo de jogo em que suas equipes tentavam reduzir o espaço dos adversários e, para isso, utilizavam o recurso da linha de impedimento, avançando seus defensores. Seus críticos diziam que essa era a única forma de jogar dos times de Menotti, que ficou datada com a evolução do futebol.

Frasista talentoso, Menotti é citado como inspiração por vários treinadores argentinos e pelo espanhol Guardiola. Foi sua figura respeitada que bancou a presença de Lionel Scaloni à frente da seleção argentina que venceria a Copa de 2022. Com o outro campeão mundial argentino, Carlos Bilardo, sempre viveu às rusgas, pois suas ideias de jogo eram opostas.

Após a Copa de 1982, quando a Argentina parou na fase de quartas-de-final, Menotti assumiu o Barcelona, onde voltou a trabalhar com Maradona e venceu a Copa do Rei, a Copa da Liga e a Supercopa da Espanha.

Frasista inspirado, Menotti cunhou algumas pensatas sobre futebol. Deixo aqui um resumo como homenagem:

  • “O futebol é um fato cultural”.
  • “Trabalhando, você pode fazer de um futebolista talentoso um atleta. De um atleta, você só pode fazer um atleta melhor”.
  • “O futebol é tão generoso que evitou que Bilardo se dedicasse à Medicina (Bilardo era médico por formação)”.
  • “Sua obrigação não é ser campeão do mundo, é saber qual é a ideia”.
  • “Você pode parar de correr. O único que não pode fazer, é parar de pensar”.
Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
Botão Voltar ao topo