Argentina

Maradona deixou marcas por onde passou, e não foi diferente em seu último clube

No Gimnasia y Esgrima, Maradona fez seu último trabalho como treinador, e a Trivela conversou com os torcedores responsáveis pelo primeiro dos vários murais que o homenageiam

Em uma linda tarde de sol em La Plata, Arnold e Marcos Zucchi retocam, com tinta que compraram e trouxeram de casa, um dos murais com o rosto de Diego Armando Maradona no Estádio Juan Carmelo Zerillo, que completa 100 anos na próxima sexta-feira (26). Com orgulho, os irmãos relembram que a arte deles foi a primeira das muitas que se sucederam depois que o ídolo do futebol argentino foi anunciado como técnico do Gimnasia y Esgrima, em 5 de setembro de 2019, para aquele que seria o último trabalho de sua carreira.

Maradona não jogou no Gimnasia y Esgrima. Seus clubes como atleta na Argentina foram Argentinos Juniors, Boca Juniors e Newell’s Old Boys. Ainda que seja curiosa, a decisão de Diego de comandar a equipe de La Plata não foi aleatória. Arnold conta que o caráter popular do clube pesou para que ele e milhares de triperos pudessem vivenciar algo inimaginável.

— Para mim, desde pequeno, e creio que para todos os argentinos que gostam de futebol, Maradona sempre foi o número um. Para nós, Maradona era dez. Era o máximo que existia no futebol. Era o jogador do povo, que defendia os pobres, os necessitados, que sempre tratava de romper com a hegemonia das coisas que estavam contra isso, como a FIFA e a AFA. Quando veio dirigir tecnicamente o Gimnasia, para mim foi o melhor que poderia ter acontecido. No melhor dos casos, não imaginaria algo assim, que viria Maradona para esse clube, que é um clube super humilde — celebra o irmão mais novo.

Além de trazer visibilidade, Maradona ajudou o Gimnasia a escapar do rebaixamento

Naturalmente, Maradona trouxe grande visibilidade para o Gimnasia. Embora seja um clube muito tradicional — o mais antigo em atividade no futebol da Argentina, e que, de acordo com enquetes, detém a maior torcida da cidade — ele fica na sombra do rival Estudiantes, campeão mundial e tetracampeão da Libertadores. Diego mudou isso no período em que esteve em La Plata. E ainda ajudou o Lobo a escapar do rebaixamento em 2019.

— Gimnasia estava indo para a Série B, estava na última posição, e ele nos salvou. Foi uma coisa incrível. Saíamos para pintar Maradona por toda cidade, e 22, que é o número que se relaciona com o Gimnasia. Foi uma loucura. Vinha gente de todo lado, meios de comunicação… Ajudou muito o clube. Para nós, Maradona sempre vai estar no nosso coração, na nossa memória, e em todo lado — frisa Arnold.

‘Treta’ de Maradona com Verón aumentou sua idolatria com os triperos

A idolatria de Diego entre os triperos se tornou ainda maior por ele ter encrencado com o Estudiantes, cujo estádio, o Jorge Luis Hirschi, está a apenas um bosque de distância do Juan Carmelo Zerillo. Muito disso passou pela relação estremecida de Maradona com Juan Sebástian Verón, presidente e ídolo dos Pincharratas — resquício da Copa do Mundo de 2010, em que o primeiro comandou o segundo, mas entende que não recebeu apoio quando foi demitido. Um dia antes de ser anunciado como treinador do Gimnasia, o ex-camisa 10 disparou:

— Vocês sabem que tem um time na minha frente que me derrubou pelas bolas, e não perdôo ninguém por isso.

A frase se tornou emblemática, e os triperos a adaptaram. No mural pintado na semana do único clássico que Maradona disputou como técnico do Gimnasia, Arnold e Marcos escreveram: ‘nunca yunta enfrente‘, algo como ‘não quero nada com o time em frente’.

— A rivalidade com o Estudiantes é eterna. O Estudiantes saiu do Gimnasia. Surgimos antes que o Estudiantes. São nossos filhos. O maior de todos no futebol, Maradona, escolheu este clube, o Gimnasia, e ficou de mal com todos do Estudiantes. Teve problema com Verón, e disse publicamente que ele o traiu. Por isso fizemos este mural, justamente em honra a Diego, que disse essa frase ‘nunca yunta enfrente‘, que nunca queria ter nada com o Estudiantes, com os da frente — explica Marcos.

‘Foi a maior coisa que me aconteceu’

Assim como o irmão mais novo, Marcos se emociona ao lembrar que Maradona, um dos maiores jogadores de todos os tempos, que conduziu a Argentina ao segundo dos três títulos de Copa do Mundo, comandou o humilde clube ao qual dedica boa parte de sua vida.

Os irmãos Arnold e Marcos Zucchi em frente à sua obra. Foto: Nícolas Wagner/Trivela

— A maior coisa que me aconteceu, foi vermos Maradona, que jogou mundiais, jogou as melhores ligas, campeão de tudo, e por último escolher este clube. Ele mesmo disse que estava muito contente com a maneira como as pessoas o tratavam aqui, e que ficaria para sempre — conta Marcos.

Infelizmente, devido aos problemas de saúde, não foi possível. Maradona comandou o Gimnasia pela última vez na goleada por 3 a 0 sobre o Patronato, no dia 30 de outubro de 2020, quando completou 60 anos. No dia 2 de novembro, ele foi internado com quadro de anemia e depressão. No dia 25 de novembro, faleceu, deixando enlutados não somente os triperos, mas o mundo do futebol.

Foto de Nícolas Wagner

Nícolas Wagner

Gaúcho e formado em Jornalismo pela PUC-RS, já passou pela Rádio Grenal e pela RDC TV. É, também, coordenador de conteúdo da Rádio Índio Capilé.
Botão Voltar ao topo