A relação dos clubes de bairro da Argentina é única e nós contamos os motivos
Times de bairro fazem parte da cultura argentina e têm papel que vai além do futebol no país
Quando falamos de futebol argentino, automaticamente pensamos nos arquirrivais Boca Juniors e River Plate. Em alguns casos, também lembramos de outros grandes, como San Lorenzo, Racing e Independiente. Juntos, esses clubes são considerados os “cinco grandes”, seguindo alguns critérios implementados pela Associação de Futebol Argentino em 1937.
No entanto, o país vai muito além do que apenas os clubes considerados de “elite”, e respira futebol graças à presença e fortalecimento dos chamados “clubes de bairro”. A reportagem da Trivela esteve in loco em Buenos Aires no ano passado para conhecer e contar a história desses times.
Mas isso fica ainda mais evidenciado ao falarmos dos clubes de bairro, que normalmente possuem menos visibilidade que os gigantes, em termos midiáticos, mas mantêm uma multidão de apaixonados e aficionados, que empurram o clube em qualquer lado.
Na grande maioria dos casos, esses clubes de menor expressão mantêm suas origens, seguem sendo voltados ao povo e atuam muito mais do que simplesmente como equipes de futebol, transmitindo ideias de pertencimento, orgulho e identidade a uma pequena parte da população, que muitas vezes vive próxima à sede dos clubes.

— Constrói-se uma identidade, uma forma de pensar, uma forma de ser, uma forma de agir, uma forma de se apresentar, uma forma de se representar, uma forma de se reunir, uma forma de se associar e também uma maneira quase irracional de amar as cores, o escudo — explica Daniel Zambaglioni, professor de educação física e pesquisador sobre clubes de bairro da Argentina.
— Eu sou torcedor do Gimnasia y Esgrima La Plata, um time de futebol da primeira divisão, não tão conhecido, não tão grande, mas também não tão pequeno. E a gente sente um amor especial por suas cores, mas não é o mesmo tipo de sentimento que despertam os clubes de bairro — seguiu o profissional.

Clubes de bairro fazem parte do desenvolvimento da Argentina como nação
O conceito de clubes de bairro é algo que existe principalmente na Argentina. Em outros países sul-americanos, como até o Brasil, é difícil encontrar instituições que atuem dessa determinada maneira. No Brasileirão 2026, por exemplo, dos 20 clubes que participam, 17 estão localizados nas capitais ou grandes cidades. Red Bull Bragantino, Chapecoense e Mirassol estão fora da lista.
Para entendermos como essas instituições foram criadas e perpetuam até hoje, de maneira forte no país hermano, é preciso voltar no tempo e entender um pouco mais a fundo sobre o desenvolvimento da Argentina como nação.
— Estamos falando justamente do fim do século XIX e início do século XX. A Argentina era um país em construção, um país que começa a se organizar, a se estruturar, mas que, no caso, recebe uma grande corrente migratória europeia. Os estrangeiros chegavam de um navio e se encontravam num lugar com uma língua diferente, costumes diferentes, formas de organização social diferentes, esportes diferentes, culinária diferente — absolutamente tudo diferente, até o ritmo de vida. E encontrar alguém da sua terra traz conforto. É natural querer se juntar. Assim nasceram as primeiras associações, círculos e centros: o centro basco, o círculo espanhol, a comunidade italiana. Tudo começou desse jeito — explica Daniel.
Os clubes de bairro ainda não tinham um papel forte na Argentina, mas essas associações, que dariam mais tarde origem a muitos clubes, já tinham uma essência muito parecida com a deles. As pessoas se reuniam para manter suas raízes vivas, preservar o sentimento de pertencimento, sentir-se acolhidas e abraçadas em um país que, naquele momento, ainda era completamente desconhecido para elas.
E não foram só os estrangeiros. A segunda onda migratória na Argentina, que ocorreu entre 1930 e 1960, dessa vez dentro do próprio país, também foi fundamental para a criação e manutenção dos clubes de bairro. Assim como aconteceu com os europeus, os próprios argentinos, que migravam de outras regiões do país até Buenos Aires, também buscavam um local de união e encontravam nas associações sentido para pertencer.
— O que começa a acontecer ali é uma série de transformações culturais, esportivas e sociais. Pense que os clubes de bairro não são apenas sinônimos de atividades esportivas. Eles também são espaços de encontro, lugares onde as pessoas simplesmente se reúnem para conversar, jogar uma partida de cartas, ou onde os mais velhos se encontram para tomar um drink. Há uma união, um sentimento de pertencimento, uma ideia de justiça social que nasce nas bases dos clubes — afirmou o pesquisador.
— Os clubes de bairro também se transformaram em creches para as mães e pais que trabalham e não têm com quem deixar os filhos. Passaram a acolher as crianças. Com o tempo, começaram a surgir instituições educativas nesses espaços — e os clubes emprestavam suas instalações para o funcionamento de novas escolas primárias, secundárias e técnicas. Portanto, os clubes de bairro não são apenas entidades esportivas: são comunidades organizadas que pensam no bem comum — concluiu.
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Os clubes da elite da Argentina um dia já foram de bairro
Atualmente, é comum escutar o nome de clubes argentinos seguidos do bairro em que foram fundados. O San Lorenzo, por exemplo, é de Almagro, embora a sede atual não seja mais no local. O Racing é de Avellaneda, ainda que essa seja uma cidade da província de Buenos Aires. Já o Boca Juniors leva o nome do bairro onde foi fundado: La Boca.
É também impossível ouvir falar do Huracán e não o associar ao bairro de Parque Patricios. Enquanto o Argentinos Juniors todo mundo sabe que pertence a La Paternal, embora muitos digam que seu estádio é localizado em Villa Mitre. Já o Chacarita Juniors leva o nome do bairro — Chacarita– com bastante orgulho.
Praticamente todos os clubes argentinos tiveram seu início em um bairro, formados simultaneamente com o desenvolvimento da Argentina como nação. Mas para entender ainda mais esse fenômeno e a identificação do argentino com o local onde mora, é essencial pensar que o “barrio” é parte essencial da identidade do país, formando um cenário de distinção social e de edificação de uma ideologia.
Até por isso, muitos clubes que tiveram que sair de seus locais de origem, como foi o caso de Almagro, San Telmo ou Chacarita, que perderam antigos torcedores e dificilmente conquistarão novos, afinal, entre outras razões, deixaram de ter a identificação com seu bairro.
Também não é difícil encontrar torcedores dos clubes mais populares de Buenos Aires que dividem a paixão pelos clubes dos seus próprios bairros. Em jogos dos times maiores, por exemplo, é comum visualizar faixas — os famosos trapos — com nomes de diversos locais de Buenos Aires.
A fidelidade ao bairro e a paixão pelo futebol permitem a esses torcedores abrigarem dois clubes do coração e também serem aceitos em duas “hinchadas” diferentes.
Do meu bairro para o mundo inteiro

Assim como os clubes que ganharam grande projeção mundial, os times de bairro também possuem sócios e torcedores apaixonados, que frequentam suas instalações e aproveitam os benefícios que a associação permite. Além do contexto institucional, também há o esportivo, que vai além do futebol, oferecendo a prática dos mais diversos esportes à população.
Inclusive, os clubes de bairro são os responsáveis por lançarem ao mundo grande parte dos atletas argentinos reconhecidos mundialmente. Dos campeões do mundo em 2022, muitos têm suas origens atreladas a esses clubes, por exemplo.
Contudo, o exemplo mais simbólico é a maior lenda esportiva do país: Diego Armando Maradona. Nascido em Villa Fiorito, bairro de Lanús, na grande Buenos Aires, o jogador deu seus primeiros chutes na bola na equipe Estrellas Unidas de Fiorito, que pertencia ao clube de bairro Estrella Roja.

Posteriormente, o jogador se transferiu para o Argentinos Juniors, clube apelidado de “berço do mundo” (em tradução livre) por apresentar diversos jogadores ao futebol mundial. Como um dos grandes ídolos do clube, Maradona batiza o estádio do Bicho e inclusive possui um memorial nas dependências do estádio localizado em La Paternal.
— Uma das estratégias para impulsionar os clubes de bairro é demonstrar que os atuais campeões mundiais de futebol, todos, absolutamente todos esses jovens de hoje saíram dos clubes de bairro, do campinho, de jogar bola — como diz a canção: “de chiquito descalzos en el potrero y ahora representando al mundo entero” [“quando criança estava descalço no pequeno clube e agora representando o mundo inteiro”, em tradução livre” — diz Daniel Zambaglioni, fazendo menção a música ‘Pa’ La Selección’ de La T y La M, popularizada durante a disputa da Copa do Mundo de 2022.
Angel Di Maria, por exemplo, antes de defender as cores do Rosário Central, era atleta do Club Atlético El Torito. Leandro Paredes, atualmente no Boca Juniors, começou no Cristo Rey de Caseros, ao lado do também campeão do mundo Guido Rodriguez. Dibu Martinez despontou no Club General Urquiza, de Mar del Plata, enquanto Julián Álvarez brilhava pelo Club Atlético Calchín, de Córdoba.
Talleres de Escalada é exemplo simbólico de clube de bairro
Remédios de Escalada é um bairro da cidade de Lanús, província de Buenos Aires. O local abriga o Club Atlético Talleres (que não é o mesmo de Córdoba), ou como é popularmente conhecido: Talleres de Escalada.
Atualmente disputando a Primera B Metropolitana, o campeonato da terceira divisão nacional, o clube é a sensação do bairro e tem uma torcida bastante apaixonada, que acompanha os jogos como mandante no estádio Pablo Comelli.
Fundado em 1906, o clube é um dos mais antigos da Argentina e surgiu após a fusão dos times de bairro: General Paz e Los Talleres.
Apesar de ser um clube bastante antigo, o Talleres viu o número de sócios disparar em 1945, levando a abertura da piscina e um aumento gradual das atividades sociais, incluindo bailes de carnaval. Outros esportes também ganharam destaque, como basquete, esportes aquáticos e atletismo.
Mercedes Galli é torcedora do clube. Morando no bairro desde criança, a jovem começou a se interessar pelo clube somente em 2023, quando foi ao estádio acompanhada dos irmãos, e desde então se apaixonou.

— Vivi muitos momentos marcantes do Talleres, mas dentre os principais, poderia destacar o acesso à Primera B Nacional em 2023 — afirmou a torcedora.
Localizado na rua Lituania, o espaço conta com o estádio de futebol e também com as instalações do clube, que oferecem outras modalidades e também áreas de lazer, como churrasqueira e salões para convivência.
— O Talleres tem outras modalidades esportivas com bom nível. Algumas delas são handebol, basquete, ginástica artística e patinação. Além disso, o uso dos espaços de convivência é permitido para sócios e não sócios, mas há um custo menor para os sócios. O clube é algo positivo para as crianças, no sentido esportivo — explica Mercedes à Trivela.
A paixão pelo Rojo de Escalada não se resume apenas aos moradores do bairro. Pessoas de outras localidades e também ex-moradores seguem acompanhando o time, mesmo de longe.
— Há pessoas de outros bairros que também acompanham o clube. Destaco especialmente aqueles que já não vivem mais em Escalada e, mesmo assim, mantêm e transmitem esse sentimento onde estão. Sou muito orgulhosa de ser torcedora do Talleres — conclui.


